quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

O GARANHÃO ITALIANO e REBELDE (1970)


Vários astros de Hollywood começaram sua carreira toscamente, de George Clooney em "O Retorno dos Tomates Assassinos" e Matthew McConaughey em "O Massacre da Serra Elétrica 4" a Angelina Jolie em "Cyborg 2" e Demi Moore em "Parasite 3-D". Mas poucos tiveram um início de filmografia tão porco quanto nosso querido Sylvester Stallone. Afinal, antes de ser John Rambo, Rocky Balboa, Falcão e Marion Cobretti, nosso querido Stallone estrelou duas verdadeiras bombas atômicas, daquelas de destruir o currículo de qualquer um.

Felizmente para Stallone, pouquíssima gente viu o pornô softcore O GARANHÃO ITALIANO e o drama/thriller REBELDE, ambos de 1970, na época dos seus lançamentos originais, e assim a imagem do futuro astro não foi arranhada. E, refeito das péssimas experiências, ele pôde escolher melhor os futuros trabalhos, fazendo pontinhas em filmes importantes como "Bananas", de Woody Allen, e "Klute, o Passado Condena", de Allan J. Pakula.

Essas participações sedimentaram o caminho de Stallone rumo ao estrelato, que chegaria seis anos depois de suas duas estréias tortas no mundo do cinema: em 1976, o ator escreveu e estrelou "Rocky, Um Lutador", de John G. Avildsen, e o filme foi indicado para 10 Oscars (incluindo o de Melhor Ator!!!), faturando três (Melhor Filme, Diretor e Montagem).

E como sempre acontece quando um ator é alçado ao topo, algum espertalhão subitamente se lembrou daqueles dois filmes esquecidos e trouxe O GARANHÃO ITALIANO e REBELDE de volta à luz da ribalta, numa estratégia que não chegou a macular a carreira de Stallone, mas apenas comprovou como foi difícil o seu trajeto para o estrelato.

Dentro desse espírito, o FILMES PARA DOIDOS encerra o ano de 2011 com essa fantástica Sessão Dupla "Vergonha Alheia de Stallone", para que você possa passar Natal e Réveillon rindo da cara de nosso amigo de boca torta e olhar de peixe morto!


O GARANHÃO ITALIANO (1970)


OK, como eu já escrevi, vários astros começaram por baixo. Porém poucos começaram TÃO por baixo quanto Stallone, que mostrou o pinto, fez caras e bocas e participou de uma orgia no pornô softcore "The Party at Kitty and Stud's", rodado em Nova York, no final de 1969, por um sujeito chamado Morton Lewis.

À época, o cinema comercial adulto ainda não tinha se rendido à putaria explícita - embora já houvessem filminhos pornôs hardcore em 8mm circulando clandestinamente por aí. Isso quer dizer que "The Party at Kitty and Stud's" não chegava às vias de fato, sem mostrar penetrações (aquilo entrando naquilo) ou closes de sexo oral - era tudo "de mentirinha", com os atores se esfregando e fazendo de conta que trepavam.


Consta que Stallone, então com 24 anos, só topou participar do filme porque estava numa pindaíba de dar dó, não tinha dinheiro para pagar o aluguel do apartamento onde vivia e nem para comer. Ele trabalhava como porteiro de cinema, e, nas últimas semanas antes das filmagens, estava dormindo em jaulas vazias de zoológico e terminais rodoviários para economizar grana!

Numa entrevista à revista Playboy em 1978, o astro confessou que só tinha duas alternativas para conseguir grana naquela época: fazer o filme ou assaltar alguém. Estupidamente, ele optou pela primeira alternativa, e ganhou 200 dólares por dois dias de gravações! O filme inteiro, rodado em 16mm, teria custado apenas 5 mil dólares.


No roteiro do também produtor (e provavelmente parente do diretor) Milton Lewis, o jovem Stallone interpreta Stud, palavra inglesa para "Garanhão". Ele vive com a maluquinha Kitty (Henrietta Holm), e ora transa com ela, ora a espanca com seu cinto.

Certo dia, Stud coloca um aviso num mural convidando pessoas desinibidas para a "Festa na Casa de Kitty e Stud" anunciada no título original. Dois casais (um hetero e outro formado por lésbicas) aparecem no apartamento, e desenrola-se uma grande suruba. The end. Genial, não?


"The Party at Kitty and Stud's" foi exibido em alguns poucos cinemas e logo saiu de cartaz direto para o esquecimento. Isso até Stallone ficar em alta com o sucesso de "Rocky" em 1976. Dois anos depois, em 78, a diretora de filmes adultos Gail Palmer (de "Hot Summer in the City") adquiriu os direitos sobre a obra e fez uma nova montagem, relançando-a nos cinemas na versão até hoje existente, rebatizada O GARANHÃO ITALIANO, numa referência ao apelido de Rocky Balboa em "Rocky".

Como a versão original não existe mais, fica difícil saber se o filme já era sem pé nem cabeça originalmente ou se ficou assim por culpa da reedição de Gail Palmer (que dá mais destaque à figura de Stallone e corta, bem, todo o resto!).


Espertinha, e tentando faturar em cima do novo astro, Gail montou uma nova sequência inicial com cenas de Stallone correndo e brincando na neve (provavelmente outtakes, cenas dos bastidores da filmagem de "The Party at Kitty and Stud's"), e incluiu uma nova trilha sonora que parodia a música de "Rocky".

A primeira transa entre Stud e Kitty também foi dublada pela própria Gail, que, como se fosse a "voz do pensamento" de Henrietta Holm, dispara frases "eróticas" clichezentas como "Stud's body really turns me on".


(Vale destacar que Gail aparece "in persona" no hilário trailer do relançamento de O GARANHÃO ITALIANO. Ela está numa moviola, em pleno processo de remontagem do filme, e enganosamente declara que se trata de uma obra X-Rated, com "fortíssimo conteúdo sexual". O trailer pode ser assistido no final dessa resenha. E reparem como a Gail era uma gracinha!)

Pois do jeito que ficou após a remontagem, O GARANHÃO ITALIANO é simplesmente incompreensível. Stud e Kitty transam, e depois o rapaz aparece conferindo os músculos no espelho enquanto duas garotas nuas "brincam" na cama (!!!). Tudo parece ser apenas fruto da imaginação do protagonista, pois no momento seguinte ele sai do quarto e não tem mais ninguém na cama - ou então é montagem ruim mesmo.


Mais tarde, Stud caminha pelo parque e testemunha uma garota (Janet Banzet, em participação-relâmpago) abrindo o casaco e revelando o corpo completamente nu. Ele volta para o apartamento de Kitty em estado de choque e, num acesso de fúria, dá um murro no vidro da janela, ficando com um corte na mão. Sem cerimônia, Kitty começa a lamber e chupar o sangue que sai do ferimento, em cena digna de um filme do Sady Baby!

(Só para constar: a tal moça exibicionista do parque devia ter papel de mais destaque na edição original, já que ela também aparece no início do filme, novamente sem maiores justificativas!)


Kitty faz um curativo na mão de Stud, e isso deixa Stud excitado. A moça se ajoelha para fazer sexo oral (off-screen) no rapaz, e ele a adverte: "Tenha cuidado. Não vá me morder, como da outra vez". Mas ela morde só de pirraça, e Stud responde enchendo Kitty de safanões e cintadas, numa cena de pancadaria quase interminável.

Finalmente, começa a festa no apartamento de Kitty e Stud. Um casal de lésbicas (uma negra e uma branca) rola pelo chão, observado por Stallone completamente pelado, na única cena em que é possível ver seu pinto "sem censura". Logo, ele e Kitty também se entregam à suruba.


Enquanto isso, no quarto, um outro casal transa enquanto o homem come uma banana (!!!) e comenta sobre uma atriz contratada para filmar uma cena pornográfica com um cavalo. Não tente entender.

À época do relançamento de "The Party at Kitty and Stud's" como O GARANHÃO ITALIANO, devido à publicidade e às fofocas, teve início a lenda urbana de que este filme de estréia de Sylvester Stallone seria um pornô hardcore, com o futuro Rambo passando a vara geral na mulherada.


Na verdade não é bem assim, da mesma forma como nossa querida Xuxa Meneghel nunca fez pornô (o famigerado "Amor Estranho Amor" é apenas um dramalhão com cenas de sexo softcore, e não putaria da pesada, como o povão acredita até hoje).

Não existe uma única cena explícita em O GARANHÃO ITALIANO, e inclusive as cenas de sexo são poucas, curtas e limitam-se aos atores e atrizes simulando rala-e-rola e orgasmo (mas nem mesmo o "money shot" da ejaculação, uma exigência do pornô explícito, aparece).


Na maior parte do tempo, o que vemos são closes nas genitálias das meninas (super-cabeludas, como era moda na época), e intermináveis dancinhas com as atrizes peladas ao invés de fodas. Na cena final, que é um convite à brochada, todo o elenco do filme se reúne na sala da casa para dançar numa rodinha (sem malícia!), pelados e de mãos dadas!!!

Assim, Stallone nunca faz nada realmente hardcore, e inclusive percebe-se claramente que ele não está muito, hã, estimulado em suas duas cenas de sexo, ostentando um pinto que cai de um lado para o outro como maria-mole. Podia até ter mudado seu nome artístico para "Sylvester Stamollone".


Outro detalhe que ajudou a sedimentar a lenda urbana sobre o "pornô de Stallone" é uma versão X-Rated de O GARANHÃO ITALIANO que circulou de forma pirata nos anos 80. Atualmente, só restou uma cópia dublada em alemão dessa versão.

Mas logo cinéfilos descobriram que o negócio não passa de uma picaretagem das brabas: cenas do filme do Stallone foram remontadas com inserts explícitos de um pornozão hardcore, "White Fire" (1976), de Roger Colmont. Dessa forma, parece que Stallone está metendo de verdade, mas os closes dos pintos e pererecas pertencem a outros atores e atrizes!

Os enxertos ficam evidentes quando o lençol sobre a cama passa do liso (nas cenas originais com Stallone) para listrado (nos closes explícitos), como você pode ver nas imagens abaixo. Ah, picaretas descuidados...


A lenda urbana do "pornô de Stallone" foi oficialmente desmentida em 2007, quando a revista norte-americana AVN (Adult Video News) examinou uma das únicas cópias existentes da montagem original de "The Party At Kitty And Stud's", guardada a sete chaves por um colecionador, concluindo que não há um único fotograma de sexo explícito na obra.

Ou seja, Stallone jamais molhou o biscoito pra valer diante da câmera. Pelo menos não enquanto ela estava ligada...

No Brasil, o filme foi lançado na época do VHS pela distribuidora PBV, com uma hilária capinha (reprodução ao lado) que anunciava: "Antes de Rambo... Antes de Rocky...".

Há alguns anos, saiu um DVD piratex com as versões soft e hard (aquela picaretagem alemã com enxertos X-Rated).

Embora seja ruim de doer como cinema, e principalmente como cinema erótico, O GARANHÃO ITALIANO sobrevive graças à curiosidade mórbida de ver um grande astro hollywoodiano pagando um micão tenebroso.

Naquela mesma entrevista à Playboy em 1978, Stallone contou que os realizadores da obra pediram dinheiro para não relançá-la, na época do sucesso de "Rocky", e que ele negou por achar que o filme era tão ruim que não valia nem dois centavos, quanto mais o dinheirão que os chantagistas pediam para sumir com a evidência do seu passado negro.


Uma prova de humildade de Stallone, que, ao contrário da nossa Rainha dos Baixinhos, optou por não proibir nem censurar essa página vergonhosa da sua biografia.

E olha que ele está muito pior que a Xuxa, sem convencer nas cenas de sexo - algo que não evoluiu com a idade, vide sua trepada lamentável com Sharon Stone em "O Especialista"!

Mas há um motivo para dar uma chance a O GARANHÃO ITALIANO - além do motivo óbvio de rir da cara de moleque e do pinto mole do Stallone, claro.


É Henrietta Holm (acima), a parceira de rala-e-rola do astro, uma gracinha de beleza simples e imperfeições hoje inexistentes nas atrizes pornôs, que são todas siliconadas e operadas até ficarem iguais a bonecas infláveis. Segundo o IMDB, este é o seu único filme.

Taí: se Stallone for macho mesmo, ele vai convidar Henrietta Holm para aparecer em "Os Mercenários 3"!

Como curiosidade, John G. Avildsen, que dirigiu Stallone em "Rocky", também começou sua carreira no cinema pornográfico, dirigindo, ele sim, filmes com sexo explícito, como "Cry Uncle", de 1971.

PS: O anúncio de página inteira sobre o relançamento de O GARANHÃO ITALIANO nos cinemas, abaixo, foi uma colaboração do cinéfilo Hugo Malavolta. Repare na enganosa informação de que o filme é "X-Rated". Alô, Procon?


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REBELDE (1970)


Se tudo indicava que a carreira de Stallone iria ralo abaixo após "The Party At Kitty And Stud's", até que o ator conseguiu emprego rapidinho logo en seguida, e como protagonista deste obscuro drama/thriller sobre hippies preocupados com a participação dos Estados Unidos na famigerada Guerra do Vietnã.

No final dos anos 1960, o conflito no Continente Asiático estava no auge, bem como os protestos da juventude norte-americana pedindo o fim da guerra e do envio de soldados para o Vietnã (o que só aconteceria algum tempo depois, em 1975).


Assim, em 1970, um sujeito sem nenhum crédito anterior chamado Robert Allen Schnitzer resolveu fazer um "filme-denúncia" sobre as manifestações anti-Vietnã, aproveitando a onda de thrillers políticos da época. Ele mesmo escreveu o roteiro do que viria a ser REBELDE, ao lado de Larry Beinhart (anos depois, Beinhart escreveria o livro "American Hero", que deu origem à genial sátira política "Mera Coincidência").

REBELDE se passa em outubro de 1969 e conta a história de um grupo de jovens hippies politicamente engajados. Eles vêm cometendo atos de terrorismo contra o governo, exigindo a retirada das tropas americanas do Vietnã. Um dos "terroristas do bem" é o jovem Jerry Savage (Stallone), que anda pelo filme como um zumbi, usando roupas terríveis e um chapéu que deve ter roubado de algum mendigo.


Embora tenham cometido alguns atentados a bomba, os "rebeldes" são pacifistas, atingindo sempre edifícios do governo quando eles estão vazios, para não machucar ninguém. Por isso, um maligno agente do FBI resolve cortar o mal pela raiz: infiltra no grupo um agente duplo, Tommy (Tony Page), que incentiva os colegas a realizar um ataque mais violento - mera desculpa para que os homens do governo possam cair matando em cima dos jovens.

O alvo é uma aparentemente pacífica empresa de produtos de metal que, por baixo dos panos, fabrica jaulas que servirão como armadilha para aprisionar vietcongues lá do outro lado do mundo. Enquanto Jerry quer apenas divulgar os contratos à imprensa e expor o segredo sujo, o traidor Tommy convence todos a bombardearem o edifício da empresa, e deixa o FBI de sobreaviso sobre a hora e o local do atentado.


Paralelamente, Jerry apaixona-se por uma jovem riponga que vive no meio do mato e vai à cidade de vez em quando para vender suas bijuterias feitas à mão. Ela se chama Laurie (Rebecca Grimes), e não concorda com a maneira violenta como Jerry e seu grupo tentam trazer a paz.

Lendo assim pode até parecer interessante, mas na verdade REBELDE é um exercício de paciência para qualquer espectador. Mal-filmado, mal-atuado e mal-interpretado (principalmente por Stallone pós-pornô softcore), o filme nunca consegue prender a atenção do espectador, e passar dos primeiros 15 minutos já é uma prova de fogo - eu mesmo só aguentei até o final passando para a frente com o FF.


A história, embora aparentemente simples, é narrada de maneira tão caótica que você só começa a entender os personagens e suas motivações perto do final.

Tanto que uma versão recentemente lançada em DVD na gringa ganhou absurdas legendas explicativas sobre "freeze-frames", algo que NÃO fazia parte do filme originalmente, explicando quem são os personagens e suas motivações, e até letreiros no início e no final apresentando o protagonista e contando o que aconteceu com ele após a conclusão!!!


Como já havia acontecido com "The Party At Kitty And Stud's", REBELDE também foi reeditado e relançado anos depois para aproveitar a fama de Stallone com "Rocky".

O filme chegou originalmente aos cinemas com o título "No Place to Hide", e era voltado ao público hippie. Foi um fracasso comercial. No começo dos anos 1980, quando Stallone já era um astro, o diretor Schnitzer resolveu fazer uma nova versão, reintitulada "Rebel" e com um gigantesco "Estrelando Sylvester Stallone" nos créditos iniciais (antes ele aparecia sem destaque junto com os outros atores).

Abaixo você pode ver dois cartazes de cinema distintos do filme: o primeiro, da época do lançamento, não destaca o nome de ninguém, já que Stallone ainda era um completo desconhecido; o segundo já estampa o rosto do astro e seu nome em letras garrafais, maior que o próprio título do filme!!!


Segundo o IMDB, não sobreviveu nenhuma cópia da versão "No Place to Hide" (exibida em alguns lugares com o título alternativo "No Place to RUN"), apenas essa remontagem intitulada "Rebel", que inclui mais cenas com Stallone, mais cenas com os agentes do FBI para acentuar o lado "conspiratório" da trama e menos baboseira "bicho-grilo" do que a versão anterior.

REBELDE foi lançado no Brasil nos primórdios do VHS pela Hipervídeo, que nem se deu ao trabalho de traduzir o título - saiu como "Rebel" mesmo. Mais recentemente, ganhou um relançamento em DVD com o título em português pela NBO.


Esse disco é um daqueles produtos barateiros para venda em balaios de ofertas, e a qualidade da imagem é abaixo da crítica: embora uma legenda sem-vergonha no início (foto acima) informe que a distribuidora buscou a melhor cópia possível, o que temos é um VHS-Rip dos mais grosseiros, em tela cheia, embora existam versões melhores e em widescreen lançadas lá fora. Ou seja, o "produto nacional" não vale nem os 5 ou 10 reais geralmente cobrados por aí.

Veja abaixo uma comparação entre a versão fuleira em tela cheia lançada no Brasil e a versão original encontrada lá fora - perceba que uma personagem INTEIRA é cortada do enquadramento em fullscreen, perdendo o espaço em cena para... um abajur!!!


Por sinal, com a fama de Stallone, REBELDE ganhou capinhas absurdas pelo mundo afora, como essas abaixo, que dão uma ideia completamente equivocada sobre o que é o filme, usando inclusive imagens e fotografias de outros filmes do astro (como "Condenação Brutal" e "Rambo - Programado para Matar"). Fico imaginando a cara de quem locou/comprou alguma dessas fitas pensando que era um novo filme de ação do Stallone...


Se O GARANHÃO ITALIANO hoje funciona menos como filme erótico e mais como comédia, o mesmo aconteceu com REBELDE, que já era ruim e envelheceu mal pra caramba.

Tente segurar o riso, por exemplo, na cena em que a hippie maluquinha Estelle (Vickie Lancaster, em seu único filme) seduz o personagem de Stallone fazendo uma tosquíssima dança-do-ventre, vestindo apenas calcinha e sutiã, e a câmera dá closes constrangedores da pança da menina balançando para cima e para baixo!


Tente segurar o riso, também, na patética cena em que a mesma Estelle conta a Jerry uma história supostamente triste sobre como abortou e guardou o feto morto dentro de uma garrafa durante uma semana (!!!). A reação de Stallone à narração da história, com cara de paisagem como se estivesse escutando uma piada de português pela décima vez, é hilária.

Tente segurar o riso, PRINCIPALMENTE, durante as discussões entre a "bicho-grilo" Laurie e o revoltado Stallone. Ela diz frases filosóficas como "Não podemos forçar o mundo a mudar, apenas amor pode trazer mudanças", ou "Eu rezo pela paz todos os dias", e ele responde com tiradas hilárias como "Você não pode rezar pela paz, tem que pagar por ela. Qualquer preço!".


Existe ainda uma ridícula e desnecessária discussão sobre hambúrgueres entre figurantes numa lanchonete (trinta e poucos anos antes de Tarantino colocar o mesmo tema em discussão em "Pulp Fiction"), e um personagem do tipo "negrão revoltado" que é tão clichê que chega a ser ofensivo - ele passa o filme todo berrando frases como "I don't want no more black blood in no more wall!!!".

REBELDE parece tanto uma comédia que, em 1990, uns sujeitos sem-noção resolveram transformá-lo em uma: pegaram os negativos do filme, redublaram tudo, filmaram umas cenas adicionais e relançaram com o título "A Man Called... Rainbo" (no Brasil, saiu em VHS apenas como "Rainbo"), uma hilária sátira a "Rambo" realizada por David Casci.


Surpreendentemente, essa versão cômica acabou fazendo mais sucesso que a montagem original. Chegou a ganhar prêmios de melhor filme e melhor comédia em festivais de cinema, e, diz a lenda, o próprio Stallone abençoou e aprovou a tiração de sarro.

(O curioso é que não há nenhuma explicação sobre o fato de "Rainbo" ser uma remontagem satírica de REBELDE no filme ou na capinha do VHS nacional. Quando eu vi esse negócio, ainda moleque, fiquei pensando em como Stallone foi corajoso para estrelar uma comédia tão tosca, até descobrir que era apenas um trabalho antigo reeditado e redublado!)


E se rir da cara de cabaço de Stallone é o principal motivo para suportar REBELDE hoje, também há certo interesse pelo fator documental da coisa, já que o diretor Schnitzer usou impressionantes cenas reais da Guerra do Vietnã e de protestos anti-conflito, além de notícias no rádio sobre o Festival de Woodstock e um discurso de Martin Luther King.

Assim, a obra tornou-se mais um retrato fiel daquela época turbulenta (já que foi filmado EXATAMENTE na época!) do que um filme decente ou interessante. O "pornô" do Stallone ainda é bem mais divertido.

PS: Esta é a última postagem do FILMES PARA DOIDOS em 2011. Portanto, embora eu não seja muito fã das festas de final de ano, deixo registrados os meus sinceros desejos de Feliz Natal e Próspero 2012 para todos os leitores do blog! Espero reencontrá-los por aqui no ano que vem, sempre ansioso por seus comentários, sugestões e críticas. Até lá!!!

Trailer de O GARANHÃO ITALIANO



Trailer de REBELDE (sem som)



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The Party at Kitty and Stud's / Italian Stallion
(1970, EUA)

Direção: Morton Lewis
Elenco: Sylvester Stallone, Henrietta Holm,
Jodi Van Prang, Nicholas Warren, Frank Micelli,
Barbara Strom e Janet Banzet.

No Place to Hide / Rebel (1970, EUA)
Direção: Robert Allen Schnitzer
Elenco: Stallone, Tony Page, Rebecca Grimes,
Vickie Lancaster, Dennis Tate, Barbara Lee Govan,
Roy White e Henry G. Sanders.

sábado, 17 de dezembro de 2011

BOA VS. PYTHON (2004)


Existe um subgênero pavorosamente ruim surgido nos anos 90 e que atingiu o ápice da mediocridade neste nosso novo século: os filmes com animais gigantes assassinos toscamente produzidos por computação gráfica, geralmente produções paupérrimas realizadas para a TV a cabo. E como volta-e-meia eu gosto de analisar filmes REALMENTE RUINS aqui no FILMES PARA DOIDOS, hoje vamos colocar em discussão um deles.

Trata-se de BOA VS. PYTHON, mistura de aventura e horror produzida pelo Sci-Fi Channel (atualmente "SyFy") com a mixaria de US$ 1.200.000, e rodada na Bulgária para economizar. Como a maioria desses novos filmes com bichos monstruosos (pode colocar "Sharktopus" no mesmo balaio), esse aqui também comete o erro mortal de se levar a sério demais, gastando um precioso tempo para "contar história" ao invés de investir no duelo prometido pelo título ou no gore (reduzido ao mínimo).


O pior é que qualquer besta-quadrada veria potencial na história de duas cobras gigantes que saem na porrada enquanto brincam para ver quem devora mais o elenco humano. Roger Corman e Charles Band fariam miséria lá nos anos 80, e o resultado certamente seria muito mais divertido, inconsequente e sanguinolento.

Infelizmente, as bestas-quadradas que escreveram, produziram e dirigiram BOA VS. PYTHON não parecem ter visto esse potencial. Afinal, sabe-se lá por que motivo, resolveram levar o projeto mais a sério do que deveriam.


O resultado é uma enfadonha trama onde as duas cobras, verdadeira razão de ser de um filme chamado BOA VS. PYTHON, não passam de meras coadjuvantes, e ainda por cima produzidas naquele já tradicional CGI de fundo de quintal (de maneira que você até fica feliz enquanto as tosquíssimas cobras NÃO aparecem!!!).

BOA VS. PYTHON é uma espécie de continuação/cruzamento de outras produções com cobras gigantes feitas anos antes pelo mesmo Sci-Fi Channel: a série "Python" (com dois filmes, o primeiro dirigido por Richard Clabaugh em 2000 e o segundo por L.A. McConnell em 2002) e o filme "Terror em Alcatraz", assinado por Phillip J. Roth em 2002, que traz uma gigantesca cobra jibóia ("boa", em inglês) como vilã.

Inclusive o roteiro aqui faz citações explícitas a estes três filmes, como quando um agente da CIA informa que as operações da agência com cobras gigantes foram suspensas na Rússia (conforme foi visto no horrendo "Python 2").


A trama deste confronto de titãs é absurda, ridícula e inverossímil, o que novamente me faz questionar por que motivo, razão e circunstância não virou algo assumidamente divertido na linha de "Serpentes a Bordo": Broddick (Adam Kendrick) é um milionário entediado e amante de caçadas, que resolve "importar" uma gigantesca cobra python mutante de 25 metros de comprimento para realizar um safári particular com seu grupo de amigos.

Detalhe: embora o ricaço tenha grana suficiente para comprar o tal monstrengo, e embora possua seu próprio avião (com o nome dele escrito na fuselagem e tudo mais), o sujeito precisa alugar os serviços de uma transportadora (!!!) para levar o contêiner com a python até o local da caçada - o que, claro, vai acabar mal.


A serpente foge do contêiner, devora os homens responsáveis pelo transporte e se esgueira pela tubulação de água e esgoto. Como o caminhão onde a cobra era transportada acabou explodindo no processo de fuga do réptil, a CIA entra em cena para investigar a possível ligação com algum atentado da Al-Qaeda (pós-11 de setembro, sabe como é...). E não demora para o agente Sharpe (Kirk B.R. Woller) concluir que uma serpente gigante está à solta.

É aí que a trama começa a ficar ainda mais improvável: Sharpe e a especialista em animais marinhos (hein?) Monica, que vem a ser uma loira gostosa e siliconada (Jaime Bergman, infelizmente vestida o tempo inteiro), descobrem que existe outra serpente gigante nas redondezas, uma imensa jibóia-vermelha de 20 metros criada por um especialista em cobras, o dr. Emmett (David Hewlett, que teve tempos melhores em "Scanners 2" e "Cubo", e é a cara do Bono Vox).


O cientista, acredite se quiser, mantém a cobrona trancada numa salinha apertada de seu laboratório (!!!), e deixou-a gigante para "pesquisar a cura para os venenos das serpentes", depois que sua irmã foi morta por uma cobra em Buenos Aires (!!!). Por que uma cobra de 20 metros ajudaria na descoberta da cura dos venenos das serpentes é algo que foge à minha compreensão. Por outro lado, também não consigo entender como é que esse pessoal consegue criar cobras mutantes gigantescas com tanta facilidade, mas vamos em frente...

O plano de Sharpe e Monica é fantástico de tão implausível: colocar sensores de movimento, câmeras e até GPS na jibóia de Emmett (epa, nada de maliciar!), e depois soltá-la nos esgotos da cidade para caçar a python fugitiva.


O plano seria fantástico se as duas cobras não começassem a devorar todo o elenco humano antes de propriamente saírem no pau entre elas - o que acontece apenas na conclusão, depois que quase todos os personagens já foram comidos ou partidos no meio. Paralelamente, Broddick (o milionário fã de caçadas, lembra?) convida os melhores caçadores do mundo para participar do safári e caçar a python.

BOA VS. PYTHON tem algumas coisas bem legais, como o início que faz um paralelo do combate das cobras com uma exibição de luta livre, mas esses elementos são desperdiçados porque a narrativa abre um espaço gigantesco para a "investigação" do paradeiro dos monstros e para as explicações científicas, ao invés de concentrar-se na sangueira e na matança.


Há três situações distintas no roteiro de Chase Parker e Sam Wells (cobras matando geral, cobra versus cobra e caçadores excêntricos versus cobra), mas filme e roteiro desperdiçam as três, sem trabalhar satisfatoriamente nenhuma delas.

A qualidade do texto da dupla é de chorar, ainda mais quando eles tentam dar profundidade aos personagens (o pobre dr. Emmett que perdeu a irmã em Buenos Aires, a especialista em vida marinha que aprendeu, com os golfinhos, a respirar por longos minutos debaixo d’água...). Até mesmo frases com alto potencial cult-trash (do tipo "Die you slithering piece of shit!", gritada por um sujeito que tenta torrar a gigantesca jibóia usando um lança-chamas!) acabam perdidas num conjunto medíocre.


E se o roteiro já é ruim, todas as cenas com potencial ainda são lamentavelmente estragadas pelo cineasta de primeira viagem David Flores (editor de "Python 2" e "Terror em Alcatraz", que depois dirigiria "Pânico no Lago 2").

O ponto alto da película é a cena de sexo entre dois jovens no banco de trás de um carro; eis que a python ataca no auge de uma sessão de sexo oral que o garoto fazia na moça, devora o garanhão e enfia a própria língua na garota, que vai à loucura sem perceber a diferença entre a língua humana e a língua descomunal do réptil (!!!).

O problema é que a cena foi filmada de maneira tímida e rápida, e a pobre mocinha nem mesmo aparece nua - há uma cena de sexo interrompido por cobras muito mais interessante em "Serpentes a Bordo", com direito a cobra (o bicho) abocanhando o peito siliconado da garota). Nas mãos de um cineasta menos cagão, o sexo oral com a cobra gigante poderia ter rendido algo tão escroto quanto a cena da cabeça decepada em "Reanimator"...


Outra furada gigantesca está na conclusão: quando a jibóia e a python finalmente se encontram face a face (???) numa festa rave, onde também está o exército atrás dos monstrengos, qualquer cineasta digno desse nome faria miséria. Imagine as serpentes devorando a rapaziada, sangue e membros decepados espalhados por toda a parte, tiros e explosões a rodo, o som tecno rolando no fundo, luzes piscando, etc etc...

Mas o que faz David Flores? Primeiro evacua rapidamente o recinto para que as duas serpentes possam brigar sozinhas (!!!), depois corta imediatamente (e de maneira absurda) para uma estação de metrô completamente deserta, sem qualquer explicação! Como escrevi lá em cima, a contagem de cadáveres é mínima e a violência acontece quase sempre off-screen.


É uma pena, considerando que o filme tenta ser apelativo às vezes (como ao mostrar a gostosa Angel Boris Reed completamente pelada em um demorado banho de banheira, e na já citada cena de sexo oral com uma python de 25 metros), mas na maior parte do tempo é quase inocente.

Os ataques das cobras praticamente não são mostrados, e todos sabemos que esse tipo de tralha só funciona com sangue e tripas - um bom exemplo recente é o divertidíssimo e infinitamente superior "Frankenfish", de Mark A.Z. Dippé, realizado no mesmo ano.


No fim, o espectador fica se sentindo um bocó, porque o título e a capinha (as duas serpentes lutando no meio da cidade enquanto um helicóptero dispara mísseis contra elas, algo que NÃO acontece no filme) anunciam um confronto trash de dimensões épicas, mas na verdade as duas serpentes raramente aparecem, raramente se encontram e raramente lutam - e, quando o fazem, é sempre em lugares fechados, nunca no meio da cidade, como mostra o cartaz.

Por isso, BOA VS. PYTHON tem um lugar de honra numa longa galeria de tranqueiras que inclui outras bombas atômicas semelhantes, como "Sharktopus" e "Mega Shark Vs. Giant Octopus" (e, como esses citados, têm um trailer onde já são mostradas as únicas cenas boas). Todos eles são uma bela evidência de que fazer filmes ruins é muito fácil; fazer bons filmes ruins, entretanto, é bem mais complicado...

Trailer de BOA VS. PYTHON



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Boa Vs. Python (2004, EUA)
Direção: David Flores
Elenco: David Hewlett, Jaime Bergman, Kirk B.R. Woller,
Adam Kendrick, Angel Boris Reed, Marianne Stanicheva,
Griff Furst e George R. Sheffey.