quarta-feira, 30 de novembro de 2011

FORÇA ESPECIAL (2003)


Até o começo deste nosso século 21, o cineasta israelense Isaac Florentine era apenas "o cara que dirigia episódios dos Power Rangers". Tudo bem, ele já estava no mercado do cinema há algum tempo, tendo atuado como coreógrafo de cenas de luta em filmes como "American Cyborg - O Exterminador de Aço", e como diretor de aventuras com astros do segundo escalão, de Oliver Gruner e Gary Daniels a Dolph Lundgren.

Mas ainda não era considerado um sinônimo de ação barata e de qualidade, como é hoje; nem tinha um séquito tão grande de admiradores.


Dois filmes marcaram o ponto de virada na carreira de Florentine: "U.S. Seals 2", de 2001, e "Special Forces", de 2003, lançado no Brasil como FORÇA ESPECIAL, ambos produzidos pela barateira Nu Image. Vendo esses filmes, fica fácil de entender porque Isaac Florentine é, hoje, um dos nomes mais respeitados do cinema de ação independente.

Tanto "U.S. Seals 2" quanto FORÇA ESPECIAL são produções norte-americanas rodadas em pequenos países europeus para baratear custos. Mas o espectador desavisado juraria estar vendo uma aventura feita em Hong-Kong, ou pelo menos comandada por um diretor oriental, e não por um sujeitinho mirrado vindo de Israel.


Já virou clichê dizer que ocidental não sabe filmar cena de luta. É só ver o que fizeram com Jackie Chan e Jet Li quando eles foram "importados" para os Estados Unidos: não bastou colocá-los em filmes cada vez mais estúpidos, mas também era preciso estragar o talento deles para cenas de ação, filmando lutas quase incompreensíveis de tão picotadas e tremidas.

Pois Isaac Florentine é a exceção à regra. Ele próprio treina artes marciais desde os 13 anos de idade, e não apenas sabe filmar as lutas direitinho - com planos mais abertos e câmera fixa -, como também tem plena noção da importância de uma coreografia decente. Não é só gravar detalhes caóticos e jogar a bomba nas mãos do editor; com Florentine na direção, os atores precisam treinar exaustivamente as coreografias (aqui elaboradas por Akihiro Noguchi) para que o resultado final convença o espectador.


E FORÇA ESPECIAL é exatamente assim. Digo mais: era o filmaço que eu esperava que "Os Mercenários", do Stallone, fosse. Inclusive a trama dos dois filmes é bem parecida, com um batalhão de soldados encarando uma difícil missão de resgate num pequeno país oprimido por um governo militar.

Mas se Stallone rendeu-se a todas essas porqueiras que eu citei anteriormente - câmera epilética, edição de videoclipe que não permite sequer entender o que se passa -, Florentine fez exatamente o contrário, entregando um filme eficiente, bem dirigido, com a dose correta de pancadaria, tiros e explosões, sem perder tempo com frescurada.


O resultado é que você assiste a esta obra que custou 2,5 milhões de dólares e acha que custou 10 vezes isso, enquanto ao ver "Os Mercenários" é impossível acreditar que os caras tenham torrado 82 milhões (!!!) num filme tão mal-feito!

(E se ultimamente parece que vivo malhando "Os Mercenários", é simplesmente porque considero o filme do Stallone, junto com "Machete", dois belíssimos exemplos de como cagar um projeto quase perfeito!)


Voltando a FORÇA ESPECIAL: o roteiro de David N. White é o retrato da simplicidade. Começa mostrando uma ação do grupo das "Special Forces" no Líbano, quando eles invadem um campo de treinamento de terroristas do Hezbollah para resgatar um soldado ianque aprisionado e que está sendo "interrogado" na base do sopapo.

Sem sutilezas, o filme apresenta cada um dos soldados-heróis com legendas que informam seu nome. O pelotão é liderado por um veterano casca-grossa, o Major Don Harding (Marshall R. Teague), que não fica apenas gritando ordens, mas também põe as mãos (e pés) na massa.


Bem, depois da ação no Líbano, o filme nos transporta sem escalas para a "Muldônia, ex-República Soviética", país que eu acredito ser fictício - pelo menos nunca tinha ouvido falar sobre ele, e nem achei nada sobre no Google; além disso, as filmagens aconteceram na Lituânia.

Enfim, "Muldônia" é um daqueles pequenos países europeus sob regime ditatorial que os norte-americanos adoram representar em filmes de ação, especialmente depois que a antiga inimiga União Soviética sumiu do mapa.

Ali, uma vila inteira é exterminada pelo cruel General Hasib Rafendek (Eli Danker, cuja cara realmente dá medo). Só que uma jornalista norte-americana (Daniella Deutscher) estava por perto e registrou todo o massacre. Ela acaba sendo aprisionada pelo ditador, que pretende trocá-la por prisioneiros de guerra.


Entretanto, como todos sabemos, "os Estados Unidos não negociam com terroristas". E lá se vão os bravos soldados da Força Especial para uma difícil missão de resgate, em que precisam enfrentar, literalmente, todo o exército da Muldônia!

Sorte que eles contarão com uma ajudinha especial de Talbot (Scott Adkins), um espião inglês especialista em artes marciais que pretende vingar a morte do parceiro.


Se eu precisasse resumir as qualidades de FORÇA ESPECIAL em apenas três palavras (e felizmente não preciso, mas vamos fingir que sim), eu usaria essas: Florentine, Teague e Adkins.

Nosso diretor já foi suficientemente bem apresentado e não precisa de maiores referências. Já nosso astro Teague é um ator de segundo para terceiro escalão que já apareceu em blockbusters ("Armageddon", "A Rocha"), em filmes do Chuck Norris e em produções de quinta categoria.

Seu papel mais memorável foi enfrentando Patrick Swayze em "Matador de Aluguel", ainda bem jovem - ele era o capanga de Ben Gazarra, que tinha o pescoço dilacerado por Swayze com um único golpe! Aqui, Teague demonstra suas habilidades em artes marciais numa luta final das boas com o grande vilão.


Mas a grande estrela de FORÇA ESPECIAL é o inglês Adkins, que, apesar de "coadjuvante", rouba o filme. Enquanto antigas promessas como Jason Statham vem fazendo filmes cada vez piores e mais convencionais, Scott Adkins é o único astro de ação da modernidade cuja filmografia eu tenho interesse em acompanhar.

Fã de Bruce Lee e Van Damme, o ator treina judô, taekwondo e kickboxer desde moleque, portanto tem gabarito para fazer suas próprias cenas de luta, sem recorrer a dublês. Ele começou sua carreira em produções como "O Medalhão" (com Jackie Chan) e "Máscara Negra 2".


Mais recentemente, após vários papéis de coadjuvante ou de vilão em produções dinheirudas ("A Pantera Cor-de-Rosa", "O Ultimato Bourne"), Adkins vem galgando os degraus para sair da "classe B" para o estrelato - o que pode acontecer em breve, já que ele está no elenco de "Os Mercenários 2".

FORÇA ESPECIAL marca sua primeira parceria com Florentine. Ele apareceu em todos os filmes do diretor desde então, no que se revelou uma dobradinha bem-sucedida. Inclusive teve a honra de dar uns catiripapos no ídolo Van Damme em "Operação Fronteira", e depois estrelou o divertidíssimo "Ninja".


Aqui, Adkins mostra os seus talentos com punhos e pernas em diferentes cenas ao longo do filme, e também ganha sua própria longa e violenta luta final contra o braço direito do vilão, numa pancadaria editada em paralelo ao confronto entre o protagonista Teague e o "último chefão".

Dá gosto de ver o cara lutar. Inclusive ele lembra Van Damme nos bons tempos de "Cyborg - O Dragão do Futuro", mas é muito melhor ator. Espero que a parceria Florentine-Adkins mantenha-se firme ainda por um bom tempo.


É interessante ressaltar que um outro diferencial de FORÇA ESPECIAL para "Os Mercenários", além da qualidade superior de direção e edição aqui, é que os heróis liderados pelo Major Harding enfrentam situações de vida ou morte e não raramente acabam levando a pior, mostrando-se muito mais "descartáveis" do que os "expendables" do Stallone - o que não deixa de ser irônico.

Óbvio que a coisa seria mais interessante se os heróis fossem interpretados por atores mais conhecidos (algo que "Os Mercenários" tinha e não soube aproveitar). Tem até uma cena em que um dos "good guys" é metralhado pelas costas em câmera lenta, estilo "Platoon"!


Também é curioso o fato de que os soldados desse filme REALMENTE parecem soldados. Ao invés de sair correndo e atirando contra tudo que se mexe, como é frequente nos filmes de ação, os caras parecem bem treinados e seguem estratégias e ordens do seu comandante, o que dá um ar um pouco mais verossímil às cenas de combate.

Talvez ajude o fato de um dos heróis ser interpretado por Tim Abell, um cara que serviu no Exército e que já trabalhou dando assessoria em filmes que representam a vida militar, como o drama sobre o Vietnã "Fomos Heróis".


Em entrevistas, o diretor Florentine declarou que seu filme aborda polêmicos temas atuais, como o conflito entre bósnios e croatas e os genocídios em países dos Balcãs, onde aconteceram e acontecem extermínios em nome da "limpeza étnica".

Mas convém não dar muita bola para os discursos do cineasta, pois FORÇA ESPECIAL não passa de um belo filme de ação casca-grossa que não perde muito tempo com sociologia ou discursos engajados. Pelo contrário, o negócio é tão clichê que os vilões, todos feiosos, aparecem surrando idosos e crianças, e sempre com cigarros na boca, enquanto os heróis são bonitões, simpáticos, hiper-patrióticos e exemplos de honra e virtude.


O resultado é absurdamente competente, ainda mais considerando a mixaria que o filme custou e a quantidade de pancadarias, tiroteios e explosões ao longo dos 90 minutos de duração. A contagem de cadáveres chega a umas três centenas, lembrando o estrago que John Rambo fez na Birmânia em "Rambo 4".

Por isso, sabendo que o orçamento mal chegou a 3 milhões de dólares, fico só imaginando o que Isaac Florentine e seu chapa Scott Adkins fariam com metade do orçamento de um blockbuster nas mãos.

E é uma pena que uma coisa dessas continue apenas na imaginação, e que um filme como "Os Mercenários 2", o veículo perfeito para Florentine demonstrar sua técnica, caia nas mãos de um cabeça-de-bagre como Simon West - e com um orçamento de 100 milhões para desperdiçar.

Mundo injusto...

Trailer de FORÇA ESPECIAL



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Special Forces (2003, EUA)
Direção: Isaac Florentine
Elenco: Marshall R. Teague, Scott Adkins, Tim Abell,
Danny Lee Clark, Troy Mittleider, Daniella Deutscher,
Terence J. Rotolo e Eli Danker.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

A GUERRA DOS NINJA (1982)


O passado do Japão é repleto de guerras e intrigas - a bem da verdade, como o passado de toda nação que se preze. Da metade do século 15 até o início do século 17, desenrolou-se por lá o período batizado Sengoku, ou "Era dos Reinos Combatentes", marcado por inúmeras revoluções, traições, intrigas políticas e batalhas sangrentas. O período Sengoku levaria à unificação do poder político sob o comando do shogun Tokugawa. Mas, antes disso acontecer, muito sangue rolou.

A GUERRA DOS NINJA (o título em português é assim mesmo, com plural e singular) é uma impressionante fábula épica produzida pela Toei Company no início dos anos 1980. A história se passa justamente no período Sengoku.


Mas, além das revoluções, trações, intrigas políticas e batalhas sangrentas narradas nos livros de história, o filme também toma algumas, digamos, "liberdades poéticas", introduzindo na história real elementos como samurais voadores com poderes sobrenaturais (inclusive mortíferos disparos de vômito!!!), trocas de cabeças decepadas e ressurreições mágicas, poções afrodisíacas e até um sujeito que dispara dardos pelos olhos!!!

Resumindo: é mais um daqueles FILMES PARA DOIDOS que me fazem ficar pensando no que diabos tem na água que os japoneses bebem...


Menos uma aventura de pancadaria e mais uma fábula "artística" no estilo dos recentes "O Tigre e o Dragão" e "O Clã das Adagas Voadoras" (embora "filme de arte" com vômito mortífero seja muito mais divertido!), A GUERRA DOS NINJA foi baseado na história do Japão, mas também num livro de Fûtarô Yamada, "Iga Ninpōchō", publicado originalmente em 1964.

Yamada era especialista nessas fábulas com ninjas e samurais usando poderes mágicos, e o mesmo livro deu origem a um mangá mais recentemente. Eu, na minha quase ignorância em relação à cultura oriental, classificaria tanto a história quanto o filme como "Wuxia", um gênero da ficção chinesa encontrado em livros, filmes, quadrinhos e artes em geral, e que narra histórias de heróis e batalhas reais misturando-as com elementos fantásticos, como guerreiros que voam ou usam magia.


Entretanto, sites muito mais especializados no negócio do que eu afirmam que não se encaixa como Wuxia, embora a trama de A GUERRA DOS NINJA também misture personagens e acontecimentos reais com aquelas maluquices típicas das aventuras orientais. Na dúvida, vamos deixar a questão em aberto...

Para entender o filme, é preciso antes fazer um intensivão de cultura japonesa. Na "versão oficial" dos livros da história de lá, existe a figura de um conspirador chamado Hisahide Matsunaga, que, aliado ao clã Miyoshi, tramou o assassinato do shogun Ashikaga para chegar ao poder. Depois, aliou-se a Oda Nobunaga para eliminar os ex-companheiros do clã Miyoshgi, e finalmente, para ficar com o poder só para ele, declarou guerra ao próprio Nobunaga, quando foi vencido.


Sabendo que o rival iria ficar com a sua cabeça decepada como troféu, e também com seu valioso pote para fazer chá (chamado "Hiragumo", ou "Pote da Aranha"), o ardiloso Matsunaga resolveu cometer suicídio, mas ordenou que os servos depois cortassem sua cabeça, colocassem no tal pote e explodissem ambos com pólvora. Assim foi feito, privando o vencedor Nobunaga de seus troféus e garantindo uma saída de cena em alto estilo para Matsunaga!

(Viram só? FILMES PARA DOIDOS também é cultura!)



Vários dos elementos dessa história inacreditável, das conspirações de Matsunaga contra o clã Miyoshi ao tal pote de chá Hiragamu, aparecem em A GUERRA DOS NINJA. O livro de Yamada foi adaptado para o cinema por Ei Ogawa.

No filme, Hisahide Matsunaga virou Danjo Matsunaga (interpretado por Akira Nakao), e seu conflito com o clã Miyoshi começa por causa de uma mulher (claro!), a bonita Ukyodayu (Noriko Watanabe), que é a jovem noiva do mas velho dos Miyoshi (Noboru Matsuhashi, de "Portal do Inferno").


Sabendo que nunca poderá tê-la pelos "meios oficiais", Danjo apela para o famoso e maligno feiticeiro Kashin Koji (Mikio Narita, de "Mensagem do Espaço"). O bruxo tem a receita para uma mirabolante fórmula afrodisíaca que fará com que a bela Ukyodayu fique caidinha por Danjo. O único problema é que a tal fórmula é um pouquinho, digamos, complicada de preparar.

Menos mal que o feiticeiro empresta a Danjo seus cinco capangas, uns monges demoníacos que usam chapelões, voam, têm poderes mágicos bizarros (como o tal disparo de vômito mortífero) e podem ter sido a inspiração para personagens bem parecidos em "Os Aventureiros do Bairro Proibido", de John Carpenter.


Além de dez tipos de ervas raras e do famoso Pote da Aranha, o afrodisíaco requer lágrimas da pretendente para funcionar. Sabendo que jamais conseguirá chegar tão perto de Ukyodayu para obter essa parte da receita, Danjo manda os cinco monges voadores sequestrarem Kagaribi, que é a irmã gêmea bastarda de Ukyodayu (interpretada pela mesma atriz).

Kagaribi, por sua vez, está apaixonada pelo jovem ninja Jotaro (Hiroyuki Sanada, o professor Takayama da série "Ringu"). O rapaz até já lhe ensinou alguns truques ninjas, como o de cortar bambu com as mãos nuas, soltando uma espécie de raio laser azulado com os dedos (!!!).


O idílio romântico dos dois no meio de um bosque é interrompido com a chegada dos monges voadores. Jotaro é imobilizado pelo vômito mortífero de um dos bruxos (e vocês nem imaginam o quanto eu rio aqui sozinho toda vez que escrevo isso "vômito mortífero").

A meleca atinge o rosto do pobre rapaz e se solidifica. Faça um favor a si mesmo e veja essa cena, no vídeo abaixo!

Como vencer um ninja usando vômito



Enquanto Jotaro sofre com vômito duro na cara (!!!), os monges levam Kagaribi até o palácio de seu chefe. Danjo pretende estuprar a garota para poder recolher suas lágrimas. Mas, prevendo seu triste destino, Kagaribi prefere cometer suicídio, cortando a própria cabeça (!!!) com o truque da mão de raio laser (!!!).

E a coisa não acaba por aqui. Acontece que os monges malvados conhecem um truque bizarrísimo para ressuscitar os mortos: eles decepam a cabeça de uma criada de Danjo e simplesmente trocam as cabeças das garotas - o corpo de Kagaribi fica com a cabeça da pobre criada, e vice-versa!!! Assim eles conseguem estuprar o corpo de Kagaribi e recolher as lágrimas necessárias para o feitiço.


Aí os problemas recomeçam: deixado esquecido num canto, o corpo da criada com a cabeça de Kagaribi desperta, rouba o Pote da Aranha com a poção afrodisíaca dentro e foge de encontro a Jotaro.

A garota é eventualmente morta, enquanto o jovem ninja passa a ser caçado implacavelmente pelos monges voadores e resolve proteger a fórmula com sua própria vida para que Ukyodayu não seja enfeitiçada - e porque ele simplesmente não joga fora o maléfico afrodisíaco e se livra dos problemas é algo que foge à minha compreensão!


Como deve ter ficado claro pelo resumo, A GUERRA DOS NINJA é uma coleção de belíssimas imagens - ora violentas, ora coloridas, ora românticas, ora acachapantes -, e também dessas maluquices tipicamente orientais, como corpos decapitados que ficam de pé jorrando sangue como um gêiser.

A trama é naturalmente absurda, mas se leva a sério, com pouquíssimo humor (sem contar, é claro, o humor involuntário). Portanto, não é todo mundo que vai embarcar e engolir o excesso de absurdos, principalmente porque uma maluquice logo vem seguida de outra ainda pior. Mas o clima de estranheza deve passar depois dos 15 minutos iniciais, que já bombardeiam o espectador com toda sorte de bizarrices; quem conseguir sobreviver a isso, vai encarar até o final (trágico, porém poético) numa boa.


Na verdade, é miraculoso que o diretor Kôsei Saitô (um veterano que fez pouquíssimos filmes) tenha conseguido realizar uma aventura interessante com base numa trama tão trágica e deprimente, em que personagens inocentes são mortos cruelmente a todo momento (o destino da pobre Kagaribi é notavelmente perverso).

As cenas de ação e de luta são bem filmadas e particularmente bem coreografadas pelo astro Sonny Chiba, que aparece num pequeno, mas importante papel (entrando em cena apenas no começo e na conclusão).


E o roteiro também inclui outras particularidades históricas do passado do Japão, como o incêndio criminoso do Templo Budista de Nara (que realmente aconteceu em 1567, e foi atribuído a Matsunaga, no filme e nos livros de história), ou a presença de Hattori Hanzo, um famoso ninja do século 16 que já foi usado como personagem em diversos filmes, inclusive em "Kill Bill", de Quentin Tarantino (então interpretado por Sonny Chiba).

Originalmente batizado "Iga Ninpôchô" (Guerras Ninjas), como o livro em que se baseia, o filme ganhou todo tipo de título em seus lançamentos comerciais no Ocidente, de "Black Magic Wars" até "Death of a Ninja".


No Brasil, foi distribuído em VHS pela Transvídeo como A GUERRA DOS NINJA e saiu numa época ingrata, em que aquelas aventuras ocidentais com ninjas (tipo "American Ninja" e "Ninja - A Máquina Assassina") faziam sucesso nas locadoras.

Deve ter sido um choque para muita gente que alugou a fita imaginando que veria um filme de ação "comum", deparando-se então com essa fábula maluca e mórbida. Felizmente, só o vi "depois de velho"; fico imaginando o estrago que algumas imagens fariam na minha cabeça de moleque.


E ironicamente, apesar do título, um único ninja com aquela tradicional roupinha preta e mascarado aparece no filme... e durante uns 10 segundos, no máximo!

Tudo considerado, A GUERRA DOS NINJA é um pouco difícil de acompanhar, principalmente para um pobre ocidental que desconhece a cultura e a história do Japão (essas explicações todas que você encontrou de lambuja aqui na resenha eu tive que pesquisar na internet DEPOIS de ver o filme).


Mas é um filme que eu recomendo fortemente apenas pelo clima mágico/fantástico, e por cenas belíssimas como a dos jovens Jotaro e Kagaribi no bambuzal antes da encrenca começar, ou da cabeça decapitada que cai girando por causa do chapelão que o finado usava no momento da morte.

São imagens tão bonitas (mesmo quando fortes e sangrentas) e hipnóticas que acho que eu veria o filme até sem legendas, descartando os diálogos em prol do visual. Porque, no fundo, essa é uma daquelas aventuras cujo charme é justamente a esquisitice, e não a trama propriamente dita - na linha do incompreensível "Duna", de David Lynch.


Claro, sempre vai aparecer um daqueles malas reclamando que A GUERRA DOS NINJA é muito "surreal" com suas trocas de cabeças, vômitos mortíferos e ninjas voadores. Ironicamente, às vezes são os mesmos caras que aceitam numa boa os filmes ocidentais de super-heróis, em que a picada de uma aranha radioativa faz alguém escalar paredes e lançar teias, ao invés de morrer contaminado.

Ou então pessoas que aceitam numa boa um certo livro muito mais fantasioso chamado "Bíblia Sagrada", que tem pessoas caminhando sobre as águas, cobras falantes e um sujeito que vive dias dentro da barriga de uma baleia.

Comparando com isso tudo, A GUERRA DOS NINJA até parece bem menos absurdo...

Trailer de A GUERRA DOS NINJA



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Iga Ninpôchô / Ninja Wars (1982, Japão)
Direção: Kôsei Saitô
Elenco: Hiroyuki Sanada, Noriko Watanabe, Jun Miho,
Yuki Kazamatsuri, Mikio Narita, Noboru Matsuhashi,
Hiroshi Tanaka, Sonny Chiba e Akira Nakao.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

METALSTORM (1983)


Um fenômeno que merecia estudo mais aprofundado é o das produções de fundo de quintal que, no começo da década de 1980, praticamente ressuscitaram a febre do 3-D - ferramenta surgida nos anos 50 e que estava em plena decadência. Eu comentei rapidamente sobre isso no meu dossiê sobre pornografia em três dimensões, mas, recapitulando, foi o seguinte:

Esquecido durante duas décadas depois do seu glorioso surgimento, quando ficou relegado a produções pornográficas ou filmes baratos de terror, o 3-D voltou à crista da onda em 1981, graças ao western spaghetti (!!!) "Comin' at Ya!", dirigido por Ferdinando Baldi. Foi um inesperado sucesso de bilheteria. Assim, realizadores de filmes classe B e C perceberam que podiam agregar valor às suas obras mequetrefes filmando-as em três dimensões.


Um desses produtores espertalhões foi Charles Band. Em 1982, Band produziu e dirigiu em três dimensões uma ficção científica com toques de horror chamada "Parasite". O filme custou 800 mil dólares e faturou quase 7 milhões nas bilheterias - além de marcar uma das primeiras aparições nas telas de uma tal Demi Moore.

A grana preta arrecadada por "Comin' at Ya!" e "Parasite" chamou a atenção dos grandes estúdios de Hollywood, que começaram a investir em seus próprios filmes em 3-D, como "Sexta-feira 13 Parte 3", "Tubarão 3" e "Amityville 3" (todos foram batizados com o trocadilho "3-D" no lançamento nos cinemas).

Enquanto isso, Band resolveu aproveitar o sucesso de "Parasite" para rodar uma aventura mais ambiciosa em três dimensões. Investiu mais (2,5 milhões de dólares, uma mixaria para a maioria, mas uma fortuna para os padrões do realizador e da época em que o filme foi feito) e conseguiu um acordo com uma "major" (a Universal) para distribuí-lo nos cinemas.


Nascia assim a sci-fi pomposamente batizada "Metalstorm - The Destruction of Jared-Syn", que, no Brasil, ficou conhecida apenas como METALSTORM mesmo, ao ser lançada em VHS pela saudosa Everest Vídeo.

Essa bizarra mistura de ficção científica pós-apocalíptica pobretona com faroeste e toques de "Star Wars" se passa num futuro distante e em um planeta não-identificado, que pode ou não ser a Terra depois de alguma daquelas catástrofes atômicas tradicionais do cinema dos anos 80.

Ali vive nosso herói, um solitário ranger chamado Dogen, interpretado por um Jeffrey Byron permanentemente com olhos arregalados.


Nesse mundo semi-destruído onde vale a lei do mais forte, Dogen patrulha o deserto num carro-blindado feito com sucata, à la "Mad Max 2", caçando o perigoso vilão intergaláctico Jared-Syn (Michael Preston, de - surpresa-surpresa! - "Mad Max 2"!!!). O sujeito escravizou um povoado de mutantes que têm um olho só (como cíclopes), e tenta dominar o mundo roubando a energia vital das pessoas através de cristais mágicos (?).

Durante uma missão de rotina, Dogen resgata a bela Dhyana (Kelly Preston!!!), cujo pai minerador foi morto pelos homens de Jared-Syn. Juntos, eles tentam encontrar uma mística máscara de cristal (?), que é a única proteção contra os poderes malignos do vilão. Começa uma odisséia de explosões, tiros de pistola laser, maquiagens baratas e muitos efeitos em 3-D que devem ter ficado bem divertidos nos cinemas de bairro.


O roteiro de Alan J. Adler (que também escreveu o anterior "Parasite") não faz muito sentido, como é possível perceber só pelo breve resumo da trama. Na verdade, é mais fácil encarar METALSTORM como um amálgama de tudo aquilo que estava fazendo sucesso na época.

Vejamos: o herói, Dogen, é um policial valentão num mundo árido e semi-destruído, lembrando um certo Mel Gibson e um certo Mad Max. Ele até veste um traje de couro preto muito parecido com o de Max nos filmes australianos, e os carros esquisitos feitos de sucata, usados por heróis e vilões, parecem sobra das filmagens de "Mad Max 2".


Há toques de western (um duelo de "quem saca a pistola laser mais rápido" bem no meio de uma cidadezinha quase deserta), de fantasia medieval (luta de espadas entre o herói e o mais forte dos cíclopes) e de ficção científica bagaceira (a presença de um cyborg cujo braço mecânico, com uma garra na ponta, se estica para agarrar as vítimas).

Finalmente, também aparecem as pistolas laser e os toques "místicos" (máscara de cristal, vilão com poderes sobrenaturais, criaturas mutantes) da série "Star Wars", incluindo uma cena em que o herói persegue o vilão em velozes motos voadoras muito parecidas com as de "O Retorno de Jedi", que foi lançado no mesmo ano (1983). Coincidência?


O sempre divertido Tim Thomerson bate cartão como Rhodes, um soldado aposentado e pseudo-Han Solo que ajuda Dogen na sua busca. Como acontecia em "Star Wars", que mostrava Han Solo como o contraponto bem-humorado à seriedade de Luke Skywalker e de Obi-Wan Kenobi, Rhodes aqui funciona como alívio cômico ao lado do sempre carrancudo herói. Já um dos vilões cíclopes, Hurok, é interpretado por Richard Moll, o Big Ben de "A Casa do Espanto".

O resultado dessa mistureba é muito esquisito, embora estranhamente atrativo e sempre divertido. O filme também é curto demais para incomodar, com menos de 80 minutos de duração, e não nega fogo no quesito ação, com inúmeros "tiroteios laser", explosões de carros e lutas.


Mas é óbvio que, hoje, METALSTORM vale muito mais como retrato de uma época (saiu há quase 30 anos!!!) e pelo fator trash.

Mesmo que Band estivesse trabalhando com mais dinheiro do que a média que usava, fica claro a todo momento que o filme é uma produção pra lá de capenga, e essa pobreza pode ser constatada nos cenários carnavalescos, nas cenas de ação sem grandes malabarismos e nos efeitos especiais quase improvisados.


Os próprios figurinos e maquiagens são tão fuleiros que os vilões parecem ter saído de algum episódio de "Jaspion" ou "Changeman", especialmente o malvadão Jared-Syn. Já o cyborg Baal está bem caracterizado e é uma das melhores coisas do filme: como o ator R. David Smith não tem um dos braços na vida real, foi fácil improvisar o membro mecânico que o personagem usa. É um vilão de respeito, bem melhor que Jared-Syn.

E mesmo que o filme em si não seja lá essas coisas, há um charme difícil de explicar nessa pobreza toda, inclusive nas pistolas de raios que parecem velhos secadores de cabelo adaptados.


Você se diverte (principalmente se estiver assistindo com a turma toda), e fica pensando em como os caras conseguiram fazer aquilo tudo com tão pouca grana, ao invés de, como hoje, ficar indignado por um filme que custou 100 milhões de dólares parecer tão ruim e mal-feito.

Tem uma cena, por exemplo, em que uns vermes extremamente toscos saem da areia do deserto para tentar abocanhar a dupla de heróis. São uns bonequinhos inexpressivos - muito parecidos com fantoches! -, mas é incrível como você aceita a pobreza dos monstrinhos com muito mais naturalidade do que muito bicho feito em computação gráfica nos filmes atuais.


E a Kelly Preston está uma coisinha fofa, mas infelizmente aparece sempre vestida. O que não deixa de ser surpreendente, considerando que ela mostrou os peitos em quase todos os filmes do começo da sua carreira - "A Primeira Transa de Jonathan", "Nenhum Passo em Falso", "Admiradora Secreta"... Pô Kelly, por que foi regular logo aqui, quando você é a única coisa bonita num universo de homens feios e/ou deformados, cenografia indigente e figurinos de segunda mão?


Confesso que queria muito ter visto METALSTORM nos cinemas, com aqueles óculos 3-D feitos de papelão, com lentes azul e vermelha. Porque a obra foi realizada numa época em que os efeitos de três dimensões eram usados para tornar produções baratas, como essa, mais atrativas ao grande público, e não para maquiar a ruindade e a falta de história, como acontece nos blockbusters produzidos atualmente em 3-D.

Se em muitos filmes lá dos anos 80 o 3-D era um artifício bem tosco e gratuito, geralmente usado apenas para mostrar pipocas pulando da panela direto na cara do espectador ou outras bobagens parecidas, em METALSTORM os efeitos de três dimensões são bem criativos.


Mesmo assistindo o filme em formato comum, em "2-D", percebe-se que ele deve ter ficado muito divertido em três dimensões, pois a toda hora alguma coisa é apontada direto para a câmera, pronta para "sair" da tela: pistolas que disparam laser, carros que aceleram para cima do espectador, o braço mecânico do cyborg que se estica e até um sujeito que atravessa o pára-brisa do carro em câmera lenta e "sai da tela" junto com os cacos de vidro! Band podia ser pobretão, mas era bem criativo!

Infelizmente, a aventura nunca foi propriamente lançada em 3-D fora dos cinemas, hoje existindo apenas uma versão retirada do VHS japonês que circula pelos torrents. O DVD "oficial" é um engodo: além de não trazer a versão em três dimensões, os distribuidores ainda cometeram o crime de cortar a imagem para fullscreen, estragando a bela fotografia original em wide. Para dar uma idéia de como ficou, compare as versões original em 3-D e cortada nos lados e 2-D nas imagens abaixo:


METALSTORM também marca o "momento George Lucas" de Charles Band. Ao assegurar a distribuição da Universal, que lhe garantia mais cópias do filme em mais salas de cinema, o produtor-diretor acreditou que tinha uma mina de ouro nas mãos - sempre pensando no grande lucro de seu "Parasite".

Em parceria com o roteirista Adler, resolveu transformar a trama de Dogen, Jared-Syn e cia. numa trilogia: o sucesso do original - que era algo certo, para o realizador - asseguraria a realização de outros dois episódios. Portanto, apesar do subtítulo "A Destruição de Jared-Syn", a aventura termina com o vilão escapando (!!!), e o herói Dogen assegurando que irá continuar sua caçada para quem sabe finalmente "destruí-lo"!


Band planejou até uma linha de produtos baseada no filme, com revistas em quadrinhos, brinquedos e roupas. Mas a estréia de METALSTORM foi um fiasco: o público da época não se deixou levar apenas pelos efeitos em 3-D, como acontece hoje, e saiu dos cinemas reclamando que a história não fazia nenhum sentido; a crítica também destruiu o filme.

Resultado: a produção de 2,5 milhões de dólares mal se pagou, faturando 5 milhões até sair de cartaz. E se você lembrar que o longa anterior de Band, "Parasite", custou 800 mil e arrecadou 7 milhões, imagine o banho de água fria que foi para o coitado.

Mas, de certa forma, o fracasso de METALSTORM fez bem a Charles Band. OK, ele não pôde mais brincar de George Lucas dos pobres, não pôde lançar sua linha de produtos com merchandising e nem completar sua suposta trilogia.


Por outro lado, atribuiu o resultado negativo à distribuição da Universal e resolveu criar sua própria empresa, a Empire Pictures, que a partir de 1985 engatou uma bem-sucedida série de filmes de horror e ficção científica de baixo orçamento, produzindo "Reanimator", "Do Além", "Duro de Prender", "Catacumbas", as franquias "Trancers" e "Puppet Master", entre outros.

(E até hoje Band faz piada, em entrevistas, com o título do seu filme, considerando que não há nenhuma "metalstorm/chuva de metal" e Jared-Syn nunca é destruído, como o título promete!)


Já os engravatados de Hollywood não aprenderam nada com o episódio. No mesmo ano, a Columbia produziu uma espécie de "primo rico" de METALSTORM, o clássico do Cinema em Casa "Spacehunter - Aventuras na Zona Proibida", de Lamont Johnson. Parece até um remake do filme de Band, com Peter Strauss no lugar de Jeffrey Byron, Molly Ringwald no de Kelly Preston e Michael Ironside como cyborg malvado, e também filmado em 3-D. O orçamento foi milionário perto de METALSTORM, e por isso o tiro no pé foi maior: "Spacehunter" custou 14 milhões e faturou apenas 16 milhões nos cinemas. Mas é tão divertido e ridículo quanto seu "primo pobre".

Depois dele, e de outros fracassos semelhantes, os estúdios começaram a ficar temerosos em relação ao 3-D, e o recurso acabou esquecido. Isso praticamente até alguns anos, quando o cinema em 3-D voltou à moda, agora com técnicas mais modernas, mas um vazio ainda maior em relação a roteiro e criatividade.


E quando um filme toscão como METALSTORM parece ter mais história para contar do que um "Avatar", por exemplo, é porque realmente o recurso de três dimensões atingiu seu ponto mais baixo: um legítimo engana-trouxa. Eu, particularmente, não faço questão de ver filmes modernos em 3-D, até porque eles raramente valem o investimento (o ingresso é muito mais caro do que o de um filme "normal").

Fico me perguntando, também, até quando vai durar essa modinha estúpida, que só está rendendo um montão de filmes com cenas que não fazem nenhum sentido quando vistas em 2-D. Mais do que nunca, precisamos de boas histórias e bons filmes - não de efeitinhos mequetrefes que só funcionam como enfeite.

PS: Eu não poderia encerrar essa resenha sem destacar a excelente trilha sonora do irmão de Charles, Richard Band, muito melhor que o próprio filme.

Trailer de METALSTORM



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Metalstorm - The Destruction of Jared-Syn
(1983, EUA)

Direção: Charles Band
Elenco: Jeffrey Byron, Tim Thomerson, Kelly Preston,
Michael Preston, Richard Moll, R. David Smith, Larry
Pennell, Mickey Fox e William Jones.