segunda-feira, 31 de outubro de 2011

KINJITE - DESEJOS PROIBIDOS (1989)


Último filme da lucrativa parceria entre o astro geriátrico Charles Bronson, o veterano cineasta J. Lee Thompson e a produtora Cannon Films, o interessante policial KINJITE - DESEJOS PROIBIDOS é bem acima da média, ainda mais para os bunda-molísticos padrões atuais. Mas, verdade seja dita, poderia ser um filme bem melhor sem estes envolvidos (Bronson, Thompson e Cannon).

Claro, sempre é bom ver uma aventura barata e inconsequente produzida pela Cannon e dirigida pelo experiente Thompson - que, à época, já tinha tocado o "Foda-se" e assumia o que viesse pela frente, de "Desejo de Matar 4" a "Os Aventureiros do Fogo", cópia pobretona de Indiana Jones estrelada por Chuck Norris. E sempre é bom ver o velho Bronson na sua milésima interpretação de policial durão.


Porém, uma sensação de estranheza permeia cada minuto de KINJITE, fazendo com que você às vezes se pergunte: "Mas peraí, que filme é esse que eu estou vendo?".

Eu aposto que o roteiro escrito por Harold Nebenzal era para ser originalmente um drama sério e pesado sobre o submundo da pornografia e da prostituição, na linha de "Hardcore", de Paul Schrader. O próprio trailer do filme já passa essa idéia.


Só que, provavelmente, o tal roteiro ambicioso acabou caindo nas mãos da Cannon, e o "drama sério e pesado" foi transformado em mais uma aventura corriqueira de Charles Bronson, pulando as partes mais interessantes para concentrar-se nos tiros e explosões - artifícios desnecessários diante da interessante história que está sendo narrada.

Bronson interpreta Crowe, um policial de Los Angeles especializado em casos de prostituição de menores de idade. Ele trabalha no departamento há anos, já viu de tudo um pouco e está prestes a explodir.


O filme já começa a todo vapor, com Crowe e seu parceiro Eddie Rios (Perry Lopes, que ironicamente foi inimigo de Bronson em "Desejo de Matar 4") irrompendo num quarto de hotel onde um milionário sacia suas fantasias depravadas com uma menininha de 15 anos. O "encontro romântico" foi agenciado pelo cafetão Duke (Juan Fernández), especializado em "fornecer" garotinhas menores de idade para ricaços pedófilos.

Crowe quer que o cidadão pego no flagra denuncie Duke, para que possam colocar o bandidão atrás das grades. Diante da recusa do homem, o herói agarra um imenso vibrador que o pervertido trazia numa maleta e diz: "Agora vou te mostrar como a garotinha iria se sentir".


(Embora a cena corte a partir dali, com os gritos desesperados do pedófilo, qualquer pessoa em sã consciência imagina o que Crowe fez com o sujeito! E se Charles Bronson já era perigoso com um REVÓLVER na mão, imagine com um consolo gigante!)

Naquela noite, o policial durão volta para casa com a cabeça pesada, achando que o fato "vibrador enfiado no rabo de milionário pedófilo" pode trazer problemas para ele no departamento. Mas encontrará outras preocupações no seu próprio lar, doce lar: sua filha adolescente, Rita (a gatinha Amy Hathaway), aos amassos com um atleta da escola.


Crowe reclama com a esposa Kathleen (Peggy Lipton, da série "Twin Peaks") sobre o acontecido, dizendo que a filha não tem idade para ficar fazendo essas coisas. E nesse momento já surge a primeira evidência de que esse é um herói nada convencional: acontece que o sujeito nutre uma paixão proibida pela garotinha, um ciúme obsessivo de qualquer outro homem que se aproxime dela.

Sem formas "legais" para prender Duke, o tira resolve dar uma prensa no cafetão para ele "se ligar". Certa noite, calça o bandido com seu revólver e o leva para um voltinha. É quando acontece uma das grandes cenas de KINJITE. O cafetão tenta negociar: "Quanto você ganha como policial num ano? Olha só, te dou este relógio de ouro com diamantes, que vale 25 mil dólares, se me deixar em paz". Crowe fica puto. Ele devolve o relógio para o bandido e aponta a arma para a sua cabeça: "Você vai engolir este relógio, senão te estouro os miolos". E não é que o cara, cagado de medo, engole mesmo o troço? Com um sorrisinho de satisfação, Crowe sai do Cadillac do cafetão falando: "Agora, para olhar as horas, você só precisa enfiar a cara no próprio rabo".


Paralelamente, começa a desenvolver-se um drama secundário: um executivo japonês chamado Hiroshi Hada (James Pax), casado com uma esposa que trata como escrava e com quem tem duas filhas pequenas, é transferido de Tóquio para Los Angeles. Hiroshi é aquele típico oriental reprimido por uma sociedade que exige trabalho e submissão. Sua válvula de escape são fantasias sexuais sórdidas com colegiais e mangás pornográficos que apavoram sua esposa.

Uma noite, voltando para casa, o japa vê um homem masturbar uma garota desconhecida no metrô. Quando comenta o fato com um amigo no dia seguinte, este lhe explica o acontecido: "É natural que a moça não tenha pedido ajuda: ela não suportaria a humilhação de assumir em público que estava sendo molestada".


Chegando a Los Angeles, Hiroshi pega um ônibus e dá o azar de cruzar justo com a filha de Crowe e suas amiguinhas. Bêbado, tenta repetir o que viu no metrô de Tóquio e enfia a mão por baixo da saia de Rita. Como estamos nos EUA, e não no Japão, a moça não tem a menor vergonha de gritar e pedir ajuda, forçando o executivo a fugir dali.

Aí o bicho pega. Crowe, que já não era muito chegado nos japas (adicione "racista" à lista de defeitos do nosso herói nada perfeito), passa a demonstrar um racismo aberto, quase ódio mortal por asiáticos. Numa cena que hoje nem seria filmada, nosso "herói" aparece dando um discurso sobre como os "amarelos" estão tomando conta da América e roubando os "melhores empregos" dos "verdadeiros americanos". Lembre-se: ele é o herói do filme!!!


Uma reviravolta na história se inicia quando Fumiko (Kumiko Hayakawa), a filha pequena de Hiroshi, é seqüestrada por Duke, estuprada, viciada em heroína e obrigada a se prostituir.

Hiroshi denuncia o seqüestro à polícia e, ironicamente, Crowe fica responsável pelo caso - sem imaginar que foi aquele homem que tentou molestar sexualmente a sua filha no ônibus. Inicia-se, então, um verdadeira rota de colisão entre o trio central de personagens: Crowe, Hiroshi e Duke.


Vamos concordar que é preciso ter coragem para filmar uma história que toca em tantos tabus, como pornografia, prostituição, pedofilia, uso de drogas, incesto, racismo e as taras sexuais de um oriental que se excita bolinando estudantes de um colégio de freiras!

Logo, KINJITE poderia render um filmaço se, como eu escrevi lá no começo, não tivesse sido talhado para ser só mais uma aventura escapista da Cannon Films.

Porque, assim, o que poderia ser um retrato cru e violento do submundo das perversões sexuais logo se transforma num policialzinho de rotina, incluindo todos aqueles sopapos, tiroteios e explosões que se espera de uma produção B estrelada por Charles Bronson.


Mas não vou ser injusto: o filme ainda é bastante perverso ao tratar dos "kinjites", palavra oriental para definir "temas proibidos", ou "tabus" - aqui no Brasil virou "Desejos Proibidos" mesmo.

Tudo bem, Thompson dirige no piloto automático e Bronson não convence 100% como "herói de ação", sendo constantemente substituído por um dublê. Entretanto, ainda assim há um belo filme querendo sair desse negócio. Fico imaginando o que um cineasta como David Fincher faria com o mesmo roteiro nas mãos.

Aliás, o acabado Bronson está tão absurdo como policial-herói (alguém realmente acredita que um velhinho de 67 anos seja o melhor tira de Los Angeles?) que suas "cenas de ação" chegam às raias da comédia involuntária.


E não tiveram a menor sutileza em usar um dublê o tempo todo, muitas vezes sem escondê-lo apropriadamente, como revela a imagem acima (o sujeito parecido com Jackson Antunes DEVERIA ser o Charles Bronson...).

Se é convencional no seu desenvolvimento, pelo menos KINJITE reserva algumas boas surpresas. Uma delas é não poupar o espectador de ver a brutalização sofrida por Fumiko quando ela é seqüestrada por Duke.


Não acontece nada semelhante a um "Serbian Film", mas as cenas implícitas incomodam e enojam o espectador, que vê o asqueroso Duke entrando com Fumiko em seu quarto e mais tarde saindo todo suado e fechando o zíper - e para piorar, ainda manda mais dois de seus capangas entrarem no quarto para "continuar o serviço".

Outra surpresa interessante é que o grande vilão não tem o mesmo fim violento de outros antagonistas de Charles Bronson. Pelo contrário: Crowe encontra uma forma bem mais apropriada para castigar o meliante, fazendo-o provar do seu próprio remédio.


Embora seja considerado um filme menor de Bronson, mesmo considerando a sua filmografia "classe B", KINJITE merece ser redescoberto por todos esses fatores já destacados, e também pela excelente caracterização de Juan Fernández como Duke, um vilão realmente asqueroso, daquele tipo que deixa o espectador com vontade de chutar a TV. Seu capanga é interpretado por Sy Richardson, negão com olhar tão psicótico que faria Samuel L. Jackson se mijar nas calças (figurinha carimbada nos filmes de Alex Cox).

Outra interpretação de tirar o chapéu é da atriz-mirim Kumiko Hayakawa como a desafortunada Fumiko. É um pecado que a menina só tenha participado desse filme, pois tinha muito potencial. Observe a transformação da pequena de menina inocente em prostituta à força para perceber a injustiça que foi sua aposentadoria precoce. Principalmente quando Fumiko pede desculpas aos policiais pelo trabalho que deu, cena que só não é mais tocante porque o diretor não estava pra viadagem.


Vale destacar que o eterno mal-encarado Danny Trejo aparece em cena durante cinco segundos como um presidiário estuprador.

Infelizmente, a ênfase no duelo final entre Crowe e Duke acabou com uma situação que tinha potencial: perto da conclusão, Hiroshi vai até a casa de Crowe para agradecê-lo pelos seus esforços no caso. É o típico momento "algoz encontra a sua vítima sem saber", visto em filmes como "A Fonte da Donzela" e "Last House on the Left". E embora a filha do herói reconheça Hiroshi como o homem que a molestou no ônibus, a coisa fica por isso mesmo e Crowe nunca tem o confronto com Hiroshi que o roteiro ameaça...


O próprio ciúme doentio e possessivo que Crowe sente pela filha é esquecido quando as balas começam a voar. Em um momento da trama, um padre chega a alertar o policial: "Ela é sua filha, não sua esposa". Mas falta coragem para dar um desfecho apropriado ao drama.

No fim, KINJITE - DESEJOS PROIBIDOS pode ser encarado como um divertido policial classe B, e bem mais corajoso do que a média do período em que foi feito.

Também é o último filme de J. Lee Thompson, falecido em 2002. Ele merecia um tributo melhor do que esse, assim como o roteiro pesado de Nebenzal pedia por um outro diretor e uma outra abordagem. Alguém se habilita a fazer um remake disso?

Trailer de KINJITE - DESEJOS PROIBIDOS



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Kinjite (1989, EUA)
Direção: J. Lee Thompson
Elenco: Charles Bronson, Perry Lopez, Peggy Lipton,
Juan Fernández, James Pax, Sy Richardson, Nicole
Eggert, Amy Hathaway e Marion Yue.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

OPERAÇÃO FRONTEIRA (2008)


Quando terminei de assistir OPERAÇÃO FRONTEIRA, fui conferir o ano de produção do filme. Estranhamente, a capinha do DVD e o IMDB diziam que tinha sido produzido em 2008. Pois se não fossem alguns raros produtos da modernidade (como telefones celulares) e a citação contemporânea à ocupação norte-americana no Iraque, eu juraria que essa era uma produção feita 20 anos antes, em 1988.

Nessa onda de revival dos anos 80 que anda invadindo as artes em geral, OPERAÇÃO FRONTEIRA surge como uma boa pedida para quem está com saudade daquelas aventuras de Chuck Norris, Michael Dudikoff e Charles Bronson lançados em VHS pela América Vídeo. Confesso que não ficaria surpreso se o logo da saudosa Cannon Films aparecesse no início, e se o filme fosse encontrado nas locadoras com a seguinte capinha:


Enfim, todos os clichês possíveis e imagináveis destas obras classe B dos anos 80 e da Cannon Films aparecem aqui: o policial durão que prefere trabalhar sozinho, mas é obrigado a aturar um parceiro certinho (e negro, obviamente); o superior que fica pegando no pé do herói (aqui representado por uma mulher valentona, porque os tempos são outros); as inevitáveis brigas no bar e na prisão, e uma quadrilha de traficantes de drogas como vilões.

Dois nomes se destacam na ficha técnica: o astro belga Jean-Claude Van Damme, que dispensa maiores apresentações, e o cineasta israelense Isaac Florentine, que nos últimos anos construiu uma sólida reputação como diretor de filmes de ação baratos e eficientes, e hoje é um dos nomes mais idolatrados pelos fãs do gênero.


Tinha tudo para ser um encontro de titãs, mas na prática foi bem diferente: insatisfeito com a forma como Florentine conduzia o negócio, Van Damme acabou assumindo o controle sobre as decisões criativas durante as filmagens. O resultado é... bem... divertido e ainda eficiente, mas anos-luz aquém do potencial da dobradinha Van Damme/Florentine.

O roteiro de Joe Gayton e Cade Courtley traz Van Damme como Jack Robideaux, um policial de Nova Orleans transferido para patrulhar a fronteira dos Estados Unidos com o México, e justamente numa das regiões mais violentas, onde o número de homicídios é altíssimo.


Enquanto todos os policiais da área são naturalmente corruptos e/ou cagões, Robideaux tem uma verdadeira fixação por correr atrás da encrenca, seja espancando arruaceiros num bar (arruaceiros que não têm nada a ver com a trama principal, bem entendido), seja enchendo os traficantes de tiros de pistola ou fuzil. Ou voadoras.

O problema é que surge por ali uma nova quadrilha de traficantes, formada por ex-soldados norte-americanos que lutaram na Guerra do Iraque e têm armamento moderno, aliado a técnicas de combate e guerrilha.


O grupo é chefiado pelo cruel Benjamin Meyers (Stephen Lord, que não mete medo nem em bebê, e já tinha apanhado de Van Damme no superior "Até a Morte"), que tomou o controle da região à força, matando os outros traficantes.

Quando os "negócios" começam a ser prejudicados pelo novo oficial da fronteira, os bandidos primeiramente tentam comprar Robideaux. Mas com a recusa do herói em corromper-se, resta a opção mais difícil: matá-lo. Não precisa ser muito inteligente para perceber como esta história vai terminar, correto? Acertou quem respondeu "mais clichês", incluindo a tortura do herói na fortaleza mexicana e impenetrável dos vilões e a posterior fuga do mocinho para acertar as contas com eles.


O mais curioso de OPERAÇÃO FRONTEIRA é que ele ora tenta ser sério, ora é absurdamente exagerado, ora investe num tom jocoso e bem humorado. Em suma, é aquele tipo de aventura impossível de engolir, para ver com seu pai no Domingo Maior e sem maiores pretensões.

Afinal, como levar a sério um filme em que o herói Robideaux, com toda aquela pinta de valentão, leva para todo lado o seu mascote, um coelho chamado Jack?

Outro toque de humor é o fato de o protagonista nunca conseguir vestir seu uniforme de oficial da fronteira, pois toda vez que sai do vestiário alguém acaba derramando café nele acidentalmente!


Enfim, OPERAÇÃO FRONTEIRA é meio esquisito porque saiu num momento "diferente" da carreira do belga, bem entre os seus papéis mais "dramáticos" e realistas nos ótimos "Até a Morte" e "JCVD".

Ora, pois aqui ele não demonstra nada de dramático ou realista: é o típico herói fanfarrão e de poucas palavras do cinema de ação oitentista, e esse deve ser um dos motivos pelo qual o belga ficou insatisfeito com a obra.

O que parece é que o diretor Florentine queria uma aventura casca-grossa à moda antiga, com Van Damme arregaçando geral, enquanto o belga buscava uma interpretação mais "intimista". Nas palavras do próprio, retiradas de uma entrevista: "Eu não fiquei feliz com esse filme. Tivemos que filmar as lutas de vários ângulos para que eu parecesse melhor, chutando mais alto, e eu não quero mais fazer esse tipo de coisa. Eu inclusive pedi que cortassem algumas cenas para que o filme ficasse mais realista".


Apesar dessa frescura, OPERAÇÃO FRONTEIRA ainda tem algumas cenas de luta muito interessantes, quando o astro demonstra uma disposição excelente considerando seus 48 anos de idade - sem contar que ele mesmo faz as acrobacias e golpes, ao contrário de Steven Seagal, geralmente substituído por dublês.

Duas cenas de pancadaria já valem o preço da locação ou o download: o confronto com valentões num bar logo no início, quando cadeiras chutadas pelo herói têm o mesmo efeito de balas de canhão, e o violento duelo final com um dos capangas do chefão, o mestre de kickboxing Scott Adkins (que já atuou ao lado de Jet Li e Jackie Chan, e é considerado um dos melhores astros de ação do segundo escalão hoje).


Adkins já havia exibido seus conhecimentos em artes marciais ao longo do filme, detonando desafetos de maneira bem dolorida, e parece divertir-se muito no arranca-rabo com Van Damme, numa cena em que os atores até parecem estar se surrando de verdade.

Infelizmente, essa foi uma das sequências que sofreu a interferência do astro belga. Tanto Florentine quanto o próprio Adkins falaram, em diversas entrevistas, que o duelo entre herói e vilão foi concebido como uma cena literalmente épica, com quase dez minutos de duração e uma infinidade de golpes e malabarismos.


O especialista J.J. Perry chegou a coreografar a longa luta, mas o baixinho não quis se cansar e exigiu uma cena mais simples e mais rápida. Portanto, no filme, o confronto Van Damme-Adkins mal chega a três minutos, e isso com um montão de câmera lenta.

(O episódio lembra uma frescura semelhante de Steven Seagal durante as filmagens de "Lado a Lado com o Inimigo", quando o ex-astro gorducho vetou uma luta igualmente longa e emocionante com Gary Daniels e exigiu que a cena fosse rápida e favorável ao seu personagem!)

Van Damme versus Scott Adkins!



Mesmo que a tal "luta épica" não tenha saído do papel, a troca de carinhos entre Van Damme e Adkins é indiscutivalmente o ponto alto de OPERAÇÃO FRONTEIRA.

E não sei se foi intencional, mas o herói leva um golpe muito parecido com o "facão" de Guile no jogo "Street Fighter 2" - o que é curioso, considerando que Van Damme interpretou Guile no horrendo "Street Fighter - A Última Batalha", quando deu ele mesmo um "facão" em Raul Julia!

Esses momentos comprovam porque o diretor Florentine caiu nas graças dos fãs de filmes de ação: todas as cenas de luta são muito bem filmadas, sem cortes de milésimo de segundo e nem os exageros daqueles "vôos" com cabos metálicos.


Você consegue entender tudo que está acontecendo, e percebe que o mérito é do diretor, dos atores e do coreógrafo de lutas, e não do editor que picotou toda a cena na pós-produção!

Nesses tempos de "cinema-videoclipe", impossível de acompanhar sem ficar com dor de cabeça, Isaac Florentine é um dos poucos caras que sabe o que faz. É uma pena, portanto, que ele e Van Damme não tenham se entendido durante as filmagens, pois OPERAÇÃO FRONTEIRA poderia ter alavancado a carreira do diretor para o primeiro time.


Infelizmente, tirando estas cenas de luta mais trabalhadas, o filme é bem convencional no quesito ação, pois os tiroteios e explosões não têm a mesma técnica das lutas e repetem-se sem emoção ou coreografias elaboradas, no estilo "Van Damme atira, figurantes anônimos caem como moscas".

Outro grande problema de OPERAÇÃO FRONTEIRA, que deve ser resultado das "diferenças criativas" entre diretor e astro, é a narrativa truncada. A impressão que fica é que o diretor foi arrancando páginas do roteiro aleatoriamente, pois muita informação fica ao léu, inclusive detalhes importantes para o desenvolvimento da história.


Por exemplo: a cena inicial mostra os vilões numa de suas operações como soldados no Afeganistão. Eles procuram insistentemente por alguém (cuja importância na trama morre por aí), e tentam forçar um grupo de civis a abrir o bico na base da porrada. Entretanto, uma das afegãs tem um cinturão de bombas amarrado ao peito e se explode em pedacinhos. Neste momento, simplesmente aparece a legenda "Dois anos depois...", e o roteiro não se preocupa em explicar o que aconteceu após a explosão, nem se os vilões encontraram quem estavam procurando (parece apenas uma desculpa furada para justificar o fato de os bandidos usarem homens-bomba mais tarde).

Outro furo é o fato de um personagem aparentemente importante (um espião que trabalha para a delegada) aparecer apenas no final, e apenas para morrer. Após seu falecimento, o fulano é citado diversas vezes pelos personagens, como se tivesse aparecido com destaque antes, mas isso jamais aconteceu! Suas cenas anteriores provavelmente ficaram no chão da sala de edição. Se é que foram filmadas.


(Vale lembrar que Florentine não teve direito ao corte final e foi impedido por Van Damme de acompanhar o processo de edição do filme. Logo, a culpa pela montagem caótica não é dele.)

Mas esses defeitos não comprometem o resultado final: como diversão escapista, OPERAÇÃO FRONTEIRA é nota 10. Passa rápido como um trem-bala, não é longo o suficiente para pedir o uso da tecla FF e tem até uma generosa contagem de cadáveres, em cenas sem-noção como a do ônibus blindado cheio de traficantes disfarçados como padres (!!!).

E as boas cenas de pancadaria (boas e bem filmadas) valem o programa, especialmente no final, quando a trilha sonora com tom mexicano parece lembrar um western spaghetti contemporâneo. Sem contar que, nesses malditos tempos politicamente corretos de heróis certinhos e afrescalhados, sempre é bom ver uma cena forte como a do protagonista espancando um vilão até a morte!


Se o filme não funcionou tão bem como deveria, e não subiu Isaac Florentine para o primeiro time, pelo menos o diretor se recuperou bem da "traumática" experiência: no ano seguinte (2009), dirigiu o ótimo "Ninja", estrelado por Scott Adkins, novamente lembrando aquelas produções malucas e divertidíssimas da Cannon Films (podia até ser lançado como "Ninja 4").

Atualmente, ele continua comandando produções B de ação e pancadaria, e talvez seja melhor assim. Vai que o homem perde a mão caso ganhe uns milhões a mais e tenha que obedecer esses produtores que não entendem porra nenhuma de porra nenhuma?

Mas, como sonhar é de graça, confesso que fico imaginando o bem que Florentine faria a uma superprodução como "Os Mercenários", que naufragou justamente pela falta de um diretor decente para as cenas de ação...

Trailer de OPERAÇÃO FRONTEIRA



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The Shepperd (2008, EUA)
Direção: Isaac Florentine
Elenco: Jean-Claude Van Damme, Stephen Lord,
Natalie J. Robb, Gary McDonald, Daniel Perrone,
Scott Adkins, Andrée Bernard e Dan Davies.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Mais opiniões resumidas para cinéfilos apressados

PREMONIÇÃO 5 (Final Destination 5, 2011, EUA. Dir: Steven Quale)
A minha geração teve "Sexta-feira 13" e "A Hora do Pesadelo"; a atual tem "Jogos Mortais" e "Premonição". Essa última, que acaba de chegar ao quinto episódio, é a verdadeira "Sexta-feira 13" do século 21: as mudanças de um filme para outro, tanto na estrutura narrativa quanto nas situações, são mínimas, e as "continuações" parecem mais refilmagens descaradas do original do que sequências. Até aí tudo certo, considerando que os filmes do Jason não eram muito diferentes. E, em ambos os casos, você vai ao cinema apenas para ver as mortes criativas e cada vez mais violentas, e nada mais, esquecendo em segundos os nomes dos "personagens" e suas interações entre as mortes. Como todos os outros que o antecederam, "Premonição 5" começa com um desastre, neste caso o desmoronamento de uma ponte suspensa. Um rapaz vê a tragédia numa premonição e salva alguns dos seus amigos, mas, como o "plano da Morte" foi frustrado, ela começa a matá-los através de acidentes criativos copiados da série "A Profecia". A cena da ponte rende umas mortes sangrentas incríveis, principalmente se você assistir o filme em 3-D. E é uma pena que "Premonição 5" comece com uma cena tão foda que depois não consegue criar nada minimamente parecido. Em alguns casos, a falta de imaginação dos realizadores é vergonhosa, como na cena da morte da menina que vai fazer uma cirurgia no olho: o clima prepara o espectador para algo extremamente nauseante, mas na hora H o desfecho é bem sem graça. Claro que quem for ver um filme chamado "Premonição 5" já sabe o que esperar, e esse é o melhor da série depois do primeiro, principalmente pelo fantástico final que tem relação direta com o original. E pelo menos ninguém tenta maquiar o fato de não ter mais história para contar (como fizeram nas insuportáveis Partes 3 e 4), optando por uma narrativa dinâmica e sem enrolação, onde as cenas sangrentas se sucedem. Falta apenas um roteirista mais inspirado para criar umas mortes melhores e aproveitar decentemente personagens como o chefe da empresa (David Koechner, de "Serpentes a Bordo" e "Obrigado por Fumar", sempre engraçadíssimo). Mesmo assim, vale o preço do ingresso e entrega à molecada o que ela quer ver: tripas e sangue jorrando em 3-D, e sem precisar pensar muito. Com a conclusão "circular", ficaria ótimo se a série terminasse por aqui. Porém, considerando o sucesso de bilheteria, é bem improvável que isso vá acontecer, então prepare-se para mais mortes criativas, e nenhuma história para contar, em 2012 ou 2013!


QUARENTENA 2 (Quarantine 2 - Terminal, 2011, EUA.
Dir: John Pogue)

Eis um caso esquisito: isso aqui é uma continuação de "Quarentena", a dispensável (e horrorosa) refilmagem norte-americana (e quadro a quadro) do excelente filme espanhol "REC". Os espanhóis fizeram uma sequência do seu filme, "REC 2", que dividiu opiniões. Os americanos não demoraram a dar continuidade também à versão ianque. Porém, considerando que os responsáveis pelo remake não tiveram colhões para manter os detalhes "religiosos" do filme espanhol, não faria sentido se "Quarentena 2" seguisse a narrativa de "REC 2". Foi necessário contar uma história "original", abandonando inclusive o estilo "câmera em primeira pessoa". Aqui, o vírus que transforma pessoas em zumbis se manifesta dentro de um avião em pleno vôo. Confesso que me surpreendi com o início dessa sequência: o diretor-roteirista John Pogue aproveita muito bem o ambiente claustrofóbico do avião, conseguindo até criar tensão e suspense. Só que aí a aeronave faz um pouso de emergência, a ação se transfere para dentro de um terminal de desembarque de bagagens isolado pelas autoridades, e todo aquele clima legal do início escoa pelo ralo. Se Pogue mantivesse o clima dos primeiros 25 minutos, dentro do avião, "Quarentena 2" seria um puta de um filme. Mas, infelizmente, a aeronave pousa e a história vira um simples repeteco do original (ou do primeiro "REC", se preferirem). Para piorar, os infectados tornam-se uma ameaça secundária diante de... ratos?!? Nem mesmo o cenário escuro e limitado é aproveitado, pois os personagens ficam perambulando de um lado para o outro e os zumbis parecem se esconder pelos cantos para atacar de surpresa (super-coerente, não?). Só sei que eu já vi tudo isso antes e melhor, do exército que tenta resolver a parada e só faz cagada aos personagens estereotipados. E o fato de o diretor estragar toda e qualquer cena com potencial para ser tensa também não ajuda! Até os críticos de "REC 2" vão ter que concordar que a situação é muito melhor desenvolvida no filme espanhol...


PUPPET MASTER - THE LEGACY (2003, EUA. Dir: "Robert Talbot" aka Charles Band)
O produtor barateiro Charles Band é um daqueles caras que não sabe quando parar. Criou franquias muito interessantes ("Trancers", "Puppet Master", "Subspecies"), somente para depois destruí-las lançando inúmeras continuações cada vez mais fracas, redundantes e apelativas. Para quem não sacou pelo título original, "Puppet Master" é aquela série dos bonequinhos assassinos, iniciada em 1989 com o excelente "Bonecos da Morte" e atualmente em seu décimo (!!!) episódio, e que eu particularmente sempre achei melhor que "Brinquedo Assassino". Bem, este "Pupper Master - The Legacy", o oitavo da série, é uma espécie de sonho de todo maluco que já tentou acompanhar as aventuras dos bonequinhos assassinos: um "filme-retrospectiva" que usa cenas dos episódios anteriores em ordem cronológica para tentar colocar ordem no caos. Afinal, cada continuação foi criando características próprias para a mitologia da série e dos próprios bonecos, e nem todas as mudanças foram positivas. Enfim, qualquer fã de "Puppet Master" teria condições de fazer um belo trabalho em cima disso, passando a borracha nas besteiras (como a situação "bonecos versus demônios" das Partes 4 e 5) e corrigindo erros grosseiros. Infelizmente, não foi o que aconteceu aqui: o produtor Band, escondido atrás de um pseudônimo, simplesmente filmou uns 10 minutinhos de cenas novas (com um "ator" e uma "atriz" conversando) para poder costurar cenas de todos os outros filmes, mas sem nenhum critério. Deixou de lado explicações importantes (como a cena que explica que a bonequinha das sanguessugas é a falecida esposa do Toulon, mostrada na Parte 3) e cenas marcantes; sem contar que a edição caótica lembra um videozinho amador feito por alguém que está aprendendo a mexer no Premiére. O resultado pode até servir como resumão (incompleto, infelizmente) dos sete filmes anteriores, mas como filme não funciona, é a "costura" das cenas reutilizadas é amadorística, sem critério, bastante picareta. Considerando-se que "isso" saiu do próprio mentor da série, Charles Band, é algo no mínimo questionável, mais um golpe baixo para tirar dinheiro dos fãs, como o babaca aqui, que chegou a comprar o DVD original. Proposta boa, mas execução primária e questionável. Da próxima vez que quiser fazer algo assim, Band, chame um fã da série para colocar pelo menos um pouco de interesse no resultado final!


DEMONIC TOYS 2 (2010, EUA. Dir: William Butler)
Certas coisas deviam ter permanecido no passado: Jason, Leatherface, Michael Myers e, agora, também os filmes com bonequinhos assassinos em stop-motion produzidos por Charles Band nos anos 80-90. Se você acha que depois do picareta "Pupper Master - The Legacy", resenhado aí em cima, a coisa não podia piorar, prepare-se para "Demonic Toys 2". Para quem não lembra, "Demonic Toys" é uma outra franquia com bonecos malvados produzida por Band, e que sempre ficou à sombra da série "Puppet Master" (que era realmente bem melhor). Em anos anterior, o produtor colocou seus "demonic toys" em crossovers com outros personagens da sua produtora, e agora aparece com essa tentativa questionável (e mais que tardia) de ressuscitar uma série já esquecida. Chamou um ator-diretor razoavelmente conhecido (William Butler, de "Madhouse - A Casa dos Horrores"), mas esqueceu de dar um mínimo de dinheiro para o coitado; também parece ter esquecido "detalhes" como roteiro, efeitos especiais e produção. Substituindo o stop-motion das antigas por CGI de quinta categoria, "Demonic Toys 2" aparentemente custou menos de um salário mínimo, e se alonga penosamente por insuportáveis 1h15min em que praticamente nada acontece além de um bando de personagens ridículos, interpretados por atores desconhecidos, perambulando por um velho castelo italiano e se tornando presas fáceis para os "brinquedos demoníacos". Não há uma única cena interessante ou morte criativa, a "história" não se sustenta e o sangue em CGI é tão ruim que parece o resultado de alguém brincando com animação em 3D no AutoCad (duvida? então dê uma olhada). E pensar que o "Demonic Toys" original, que não era nenhuma obra-prima (mas parece, comparado com esse lixo), havia sido escrito por David S. Goyer, atualmente roteirizando blockbusters como "Batman - O Cavaleiro das Trevas"...


RAMMBOCK (2010, Alemanha/Áustria. Dir: Marvin Kren)
Será que alguém podia criar uma lei proibindo novos filmes de zumbis, especialmente se esses filmes não têm nada de novo a acrescentar? Porque o que teve de histórias sobre mortos-vivos nos últimos anos não é brincadeira, e você percebe a gravidade da coisa quando até um país como o Brasil vive uma overdose de filmes de zumbis num curto período de tempo ("Mangue Negro", "A Capital dos Mortos", "Era dos Mortos" e "Porto dos Mortos", para citar quatro títulos conhecidos, saíram praticamente juntos com curtíssimo intervalo de tempo). E se nem um veterano como George A. Romero tem histórias novas para contar, o que esperar de uma produção independente vinda da Alemanha, como esse "Rammbock"? Se não tem nada para acrescentar, que pelo menos seja divertido, certo? Bem, infelizmente não é o caso aqui. O filme de Marvin Kren é extremamente repetitivo e desinteressante. Copiando uma situação básica já mostrada tanto no clássico "A Noite dos Mortos-vivos" quanto no recente "REC", narra o drama de uns personagens malas presos num prédio estilo cortiço durante uma infestação de mortos-vivos (do tipo maratonista, que virou moda depois de "Extermínio" e "Madrugada dos Mortos"). "Rammbock" tem o mesmo problema de "Quarentena 2", resenhado lá em cima: eu já vi tudo isso antes, então pelo menos que o filme fosse divertido para fazer valer o tempo perdido em frente à TV. Não é o caso: a narrativa é arrastada, insuportável, sem novidades e sem nenhum carisma. Tanto que a duração é inferior a 60 minutos, mas a sensação é de que o filme tem mais de duas horas. Para piorar, o "herói" é um fracassado, mas não um "looser" gente boa e engraçado, tipo o Ash da série "Evil Dead", e sim um completo panaca com quem o espectador nem ao menos consegue simpatizar. Logo, a única coisa decente de "Rammbock" é a conclusão estilo "Romeu & Julieta dos mortos", mas nem isso é original (considerando o final de "A Volta dos Mortos-vivos 3").


SHARKTOPUS (2010, EUA. Dir: Declan O'Brien)
Você pega para ver um filme com um pôster como o de "Sharktopus" e uma criatura metade tubarão, metade polvo. Dá play já preparado para o pior, mas esperando pelo menos dar umas boas risadas. Ao final, infelizmente, o que fica é uma pergunta: como é que os caras conseguem estragar algo tão simples (e com tanto potencial cômico) quanto "Sharktopus"? A verdade, amiguinhos, é que não se fazem mais bons filmes ruins como antigamente. É óbvio que não dá pra levar a sério uma produção baratíssima sobre um monstro mutante metade tubarão, metade polvo. Então por que diabos os caras que fizeram essa merda gastaramm tanto tempo tentando contar uma "história", e desenvolvendo personagens estúpidos com quem ninguém se importa? Eu esperava que "Sharktopus" fosse uma daquelas bobagens divertidas de tão ruins, mas nem isso os realizadores conseguiram fazer: o filme é apenas ruim mesmo, quase insuportável, tanto que só cheguei até o final passando com o FF. Meus parabéns a todos os realizadores dessa bomba por terem um monstro legal à disposição e não conseguirem mostrar uma única cena de morte decente ou pelo menos criativa. Pessoas cortadas ao meio? Decapitadas? Membros decepados? Que nada, todos os ataques do sharktopus são iguais: ou a vítima é abocanhada de primeira, ou a tela fica toda vermelha para não precisar mostrar nada. Não dava para esperar nada melhor do diretor Declan O'Brien (do pavoroso "Wrong Turn 3"), mas é vergonhoso ver o nome do veterano Roger Corman nos créditos (e numa participação especial), logo ele que foi responsável por produzir tantas tralhas maravilhosas, inclusive com monstros assassinos. Já esse "Sharktopus" não foge a uma regra cada vez mais evidente no cinema trash moderno: o trailer e a proposta são ótimos, mas a realização é lamentável - desperdiçando até o pobre Eric Roberts. Que saudade dos tempos de "Piranha 2 - Assassinas Voadoras" e das cópias italianas de "Tubarão"...