quinta-feira, 29 de setembro de 2011

STREET FIGHTER - A ÚLTIMA BATALHA (1994)


Pelo menos uma vez por ano ("pelo menos", mas geralmente é bem mais do que isso), os engravatados de Hollywood gostam de dar uma prova incontestável de que não entendem porra nenhuma de porra nenhuma, principalmente quando tentam adaptar quadrinhos, super-heróis ou videogames para o cinema. Que o diga o pobre espectador que viu "A Liga Extraordinária", "Jonah Hex", a "Mulher-Gato" da Halle Berry, e por aí vai (a lista é extensa).

Pois anos antes do alemão Uwe Boll se especializar em adaptações ruins de videogame para o cinema (com os famigerados "House of the Dead" e "Alone in the Dark"), foram os grandes estúdios que demonstraram sua total incapacidade de transpor uma mídia para a outra em duas legítimas bombas atômicas.


A primeira foi "Super Mario Bros." (1993), que enterrou a promissora carreira do casal de cineastas ingleses Annabel Jankel e Rocky Morton. E como Hollywood nunca aprende com seus erros, já no ano seguinte (1994) saiu a outra, STREET FIGHTER - A ÚLTIMA BATALHA.

Eu não vou gastar tempo e parágrafos explicando a importância e a fama do jogo de fliperama "Street Fighter 2", produzido pela Capcom em 1991 e até hoje uma referência em games de luta. Saibam apenas que torrei muitas horas (e muita grana) da minha pré-adolescência trancado num fliperama escuro e esfumaçado, disputando partidas de "Street Fighter 2" com meus amigos ou com adversários anônimos.


Portanto, lembro até hoje o quanto estava decepcionado ao sair do cinema depois da sessão de STREET FIGHTER - A ÚLTIMA BATALHA: como fã do jogo de videogame, me senti traído porque aqueles caras tinham destruído a história e os personagens de que eu tanto gostava.

Agora, quase 20 anos depois, mais velho e maduro (cof, cof), fui tentar rever o filme com outros olhos, para ver se algo se salva nessa bagunça no final das contas.

Veredicto: não, não se salva. Aliás, não convence nem mesmo como "filme de ação" para alguém que jamais tenha visto ou jogado "Street Fighter 2". O resultado é tão ruim, tão patético, tão ridículo, tão frustrante e tão idiota que poucas obras fazem jus ao nome deste blog tanto quanto esta. Afinal, é preciso ser muito, mas muito doido para ver STREET FIGHTER - A ÚLTIMA BATALHA (e doente mental para gostar, o que, pelo menos dessa vez, não é o meu caso).


Se no ano anterior "Super Mario Bros." enterrou a carreira da dupla Jankel & Morton, STREET FIGHTER - A ÚLTIMA BATALHA fez o mesmo "favor" a Steven E. De Souza. Até então, ele era o roteirista dos ovos de ouro em Hollywood: escreveu sucessos como "48 Horas", "Comando para Matar", "Duro de Matar" 1 e 2, "O Sobrevivente" (com Schwarzenegger), "Um Tira da Pesada 3"...

Com esse cacife e mais um único crédito como diretor (no excelente episódio da série "Contos da Cripta" em que Kyle McLachlan enfrenta abutres famintos no deserto), De Souza ganhou 35 milhões de dólares para escrever e dirigir a adaptação do famoso jogo de videogame da Capcom, então no auge do sucesso. O resultado foi desastroso.


Para entender porque STREET FIGHTER - A ÚLTIMA BATALHA não funciona, vamos analisar a lógica de "Street Fighter 2", o game. Como o nome já diz, trata-se de uma briga de rua em que oito personagens excêntricos e de diferentes nacionalidades se enfrentam até restar apenas um; então, o vencedor enfrenta três "sub-chefes" até ganhar o direito de participar do confronto final com o grande vilão M. Bison, um ditador asiático com poderes sobrenaturais (capaz de voar e disparar rajadas de energia).

Tá, pensa comigo: o que qualquer ser humano normal e racional iria esperar de um filme baseado em "Street Fighter 2", principalmente se este ser humano normal e racional tivesse jogado "Street Fighter 2" pelo menos uma vez na vida?


No mínimo, muita porrada e lutas pra lá de exageradas (o orçamento de 35 milhões era uma fortuna na época), e que as cenas de ação não deixassem de lado os poderes especiais dos personagens e as suas características, certo?

Certíssimo! Inclusive eu, se fosse roteirista de um filme sobre "Street Fighter 2", nem iria inventar muito: manteria a idéia de um campeonato mundial de briga de rua, manteria a idéia de que alguns personagens seriam vencidos ao longo do caminho (e sumiriam da trama), e até colocaria uma cena em que lutadores destruíssem um carro na pancada, em homenagem a um dos mais populares estágios de bônus do jogo.


Enfim, qualquer diretor-roteirista minimamente consciente do material que tinha nas mãos iria torrar metade desses 35 milhões de dólares contratando coreógrafos de Hong-Kong, da Coréia, da Tailândia e do Japão para cuidarem das cenas de luta, certo? Certíssimo!

Então agora eu pergunto: no que exatamente pensavam os coiós que fizeram essa bomba se não tiveram nenhuma dessas idéias tão básicas que estão sendo jogadas ao léu aqui, num blog chamado FILMES PARA DOIDOS?

Enfim, eu não sei no que eles pensavam (e provavelmente NÃO pensavam), mas STREET FIGHTER - A ÚLTIMA BATALHA consegue a façanha de ser uma adaptação de game de luta... hã... SEM lutas!!!


Se no jogo os personagens principais são os karatekas Ken e Ryu, no filme a honra coube ao militar Guile (coronel aqui, capitão no fliperama), interpretado pelo belga Jean-Claude Van Damme em sua escalada ao posto de astro do cinema de ação.

Van Damme é a primeira escolha equivocada do elenco, já que fisicamente não se parece nada com Guile, nem sequer pensou em cultivar uma cabeleira parecida com a do personagem. Dolph Lundgren seria uma opção muito mais acertada, enquanto Van Damme talvez pudesse ser encaixado como Ken.


No roteiro escrito por De Souza, Guile comanda um pelotão das Nações Aliadas (uma ONU fictícia) enviado ao igualmente fictício país asiático de Shadaloo para enfrentar o general M. Bison, um louco ditador que aprisionou diversos cidadãos norte-americanos, e que exige um resgate absurdo de 20 bilhões de dólares para livrá-los da execução.

Se Van Damme é a primeira escolha equivocada do elenco, certamente não é a última e nem a maior. Essa "honra" cabe ao porto-riquenho Raul Julia como M. Bison, o GRANDE VILÃO de um filme de pancadaria, logo ele que sempre foi baixinho e raquítico!


Inclusive o pobre Raul morreu poucos meses depois das filmagens por complicações decorrentes do tratamento de câncer no estômago. É até indigno, para um ótimo ator como Raul Julia, despedir-se do cinema com um filme tão ruim quanto STREET FIGHTER - A ÚLTIMA BATALHA (se não tivesse batido as botas, ele faria o papel de Joaquim de Almeida em "A Balada do Pistoleiro", de Robert Rodriguez, uma despedida bem melhor, por assim dizer).

Pois enquanto no jogo de videogame M. Bison é um vilão gigantesco e ameaçador, com porte e músculos de respeito, no filme o personagem não passa de uma caricatura. Não dá nem para esconder como o ator estava doente, magro, "seco". Sua roupa parece até ter enchimentos para tentar dar-lhe um pouco mais de músculos e "tamanho", mas não adianta: o M. Bison cinematográfico é um vilão patético, digno de pena até.


Só que "Street Fighter 2" não era apenas sobre Guile e Bison, e De Souza sabia que precisaria colocar todos os outros personagens no filme também, caso contrário os fãs do game iriam chiar.

O problema foi a forma que ele escolheu para fazer isso...

No jogo, todos os oito lutadores têm seus próprios motivos para participar do torneio de briga de rua e vingar-se do ditador Bison.


OK, então se eu fizesse um filme sobre "Street Fighter 2", simplesmente usaria uns flashbacks de no máximo três minutos para demonstrar o passado e as intenções de cada um, sem enrolar muito, partindo direto para a pancadaria.

Afinal, ninguém iria ao cinema ver um filme sobre "Street Fighter 2" esperando um grande roteiro ou muito tempo perdido com "desenvolvimento de personagens", não é verdade? Bem, acredite se quiser, foi EXATAMENTE ISSO que De Souza fez: gastou o tempo das lutas tentando contar uma história mirabolante e desenvolvendo os personagens! E olha que estamos falando do mesmo sujeito que escreveu "Comando para Matar", caramba!


De Souza perde um tempão introduzindo cada personagem e dando-lhe um "background" elaborado, como se, de repente, "Street Fighter 2" fosse Shakespeare, e não um simples joguinho de pancadaria. E além dos personagens originais, sabe-se lá porque ele resolveu introduzir também três lutadores de uma versão posterior (Cammy, Dee Jay e T. Hawk, de "Super Street Fighter II", lançado em 1993), e ainda criar um personagem totalmente novo exclusivamente para o filme (o capitão Sawada)!

É aí que os problemas se acumulam de vez. Pô, é gente demais para filme de menos! Se tivéssemos apenas uma sequência de lutas, como todo fã do game esperava, talvez funcionasse. Mas como esse montão de gente aparece e fala pra caramba, não demora nadinha para o filme ficar chato e enrolado.


Além disso, com muita gente para apresentar em pouco tempo, o desenvolvimento de personagens é quase nulo. Quem nunca jogou "Street Fighter 2" vai ficar boiando sobre quem são aquelas pessoas e quais são as suas motivações, até porque o roteiro é muito, mas muito fraco.

Não bastassem todos esses erros, o maior problema de STREET FIGHTER - A ÚLTIMA BATALHA é que o diretor-roteirista De Souza parece nunca ter gastado uma única ficha jogando "Street Fighter 2". Os personagens que ele escreveu para o filme só têm o nome dos personagens do jogo, no máximo o figurino parecido. Fora isso, são completamente diferentes em habilidades, motivações e até importância na trama.


Alguém em sã consciência saberia explicar, por exemplo, por que Dee Jay e Zangief (do time dos heróis no game) aparecem no filme como capangas do vilão Bison, enquanto Balrog, que no jogo é vilão, aparece como um dos mocinhos?

Alguém saberia dizer quem foi o cabeça-de-bagre que inventou um Dhalsim cientista, que em nada lembra sua versão no jogo (e nem estica os braços e pernas, características fundamentais do personagem do fliperama)? E quem foi que transformou o japonês lutador de sumô E. Honda em um balofo samoano?


Aliás, se Raul Julia como M. Bison já era piada de mau gosto, o que dizer do baixinho e mirradinho Wes Studi como Sagat, que é um gigante de quase dois metros em "Street Fighter 2"? Será que os caras que escolheram o elenco deram pelo menos uma olhada no jogo, ou simplesmente fizeram "uni-duni-tê" para decidir quem interpretaria cada personagem?

Os únicos personagens do filme bem parecidos com suas versões digitais são Zangief (interpretado pelo futuro Leatherface do remake de 2003, Andrew Bryniarski) e Vega (Jay Tavare). E enquanto esse segundo tem uma luta interessante contra Ryu, o pobre gigante russo é reduzido a alívio cômico, e completamente desperdiçado.


O mesmo pode-se dizer de Ryu e Ken (lembre-se, eles eram os personagens principais do jogo) e do pobre Blanka, o monstruoso lutador brasileiro, cuja origem (argh!) é explicada aqui.

(Chega a ser irônica a falta de respeito dos realizadores com os personagens porque eles se dão ao trabalho de citar CENÁRIOS do game o tempo todo, então obviamente tinham certa familiaridade com o assunto...)

E por falar em "explicar", o roteiro de STREET FIGHTER - A ÚLTIMA BATALHA teima em não assumir-se como a aventura absurda que é; pelo contrário, De Souza tenta explicar tudinho de maneira racional e quase científica, do surgimento do monstrengo Blanka aos poderes "sobrenaturais" de Bison (o vilão chega a dar uma aula de física para Guile, dizendo que usa propulsores magnéticos semelhantes aos que impulsionam o trem-bala no Japão!!!). Até mesmo a "ressurreição" de Bison após o nocaute é justificada graças à aparelhagem de suporte de vida que o ditador veste sob o uniforme!


Se já não bastassem tantos problemas, imbecilidades e equívocos, STREET FIGHTER - A ÚLTIMA BATALHA afunda de vez quando, depois de looooongos minutos de bla-bla-bla, finalmente chega às cenas de ação.

(Sempre lembrando que você está adaptando um jogo de luta, e teoricamente só precisaria mostrar uma pancadaria a cada cinco minutos que tudo estaria perfeito!)

Pois nessa bomba atômica baseada num game de LUTA, os personagens raramente lutam entre si, preferindo dar porrada em vilões secundários (anônimos capangas de Bison e Sagat, por exemplo). E quando finalmente se pegam entre eles, as lutas são rápidas e sem interesse, sonolentas até. Me dei ao trabalho de marcar no relógio, e a primeira vez em que um personagem do jogo luta contra outro personagem do jogo acontece APENAS aos 51 minutos, quando Chun Li dá uns tabefes em Bison! Pode?


De Souza desperdiça até os clássicos confrontos Ryu x Vega e Ken x Sagat, e os golpes mais famosos de ambos (o hadouken de Ryu e o shoryuken de Ken) são usados gratuitamente.

Resta, então, o grande confronto entre Guile e Bison, a única coisa próxima de uma luta de verdade que vemos no filme. Pena que ver Van Damme bater em Raul Julia seja como testemunhar alguém batendo num bêbado, ou chutando um cachorro morto, já que o ator porto-riquenho está frágil demais para convencer como um adversário à altura do herói, e não consegue nem ficar de pé direito.

Mas a única coisa boa do filme todo acontece durante essa luta: Guile usando seu flash kick (o popular "facão") duas vezes contra Bison, e de maneira idêntica ao game, como você pode ver nas imagens abaixo! É o mais perto de "Street Fighter 2" que De Souza conseguiu chegar em 102 minutos.


O restante é um desperdício. O personagem de Chun Li é tão apagado que depois tentaram até fazer um filme só com ela ("Street Fighter: A Lenda de Chun-Li", de 2009), mas dizem que o resultado é ainda pior (esse eu nem quis ver). Os personagens de "Super Street Fighter", que à época não eram tão conhecidos quanto os originais, não acrescentam nada: Cammy, que tem maior tempo em cena, é interpretada por Kylie Minogue (ela tinha uma cena de luta com Chun Li que foi cortada!); T. Hawk não fede e nem cheira, e Dee Jay não dá um único golpe o filme todo!

E o nosso pobre representante brasileiro Blanka passa o filme todo aprisionado, e por isso não luta contra nenhum dos personagens principais, muito menos usa seus poderes elétricos do jogo. Uma frustração!


Como escrevi no começo, qualquer idiota saberia fazer um filme minimamente divertido sobre "Street Fighter 2". Bastaria filmar um montão de cenas de luta. Bastaria usar as características e golpes principais dos lutadores, como Dhalsim esticando braços e pernas na hora da porrada (tem um lutador que estica os braços na aventura oriental "O Mestre da Guilhotina Voadora", feito vários anos ANTES do jogo).

Bastaria dar uma atenção especial à coreografia das pancadarias ao invés de ficar mais preocupado com tiroteios e explosões, como Steven De Souza faz nesse filme lamentável.

Para ter uma idéia do que estou falando, comparem com o resultado muito mais positivo desse fan film abaixo, dirigido por Joey Ansah e Owen Trevor, que mostra um combate super-estilizado entre Ryu e Ken, com direito a todos os golpes que os lutadores usam no jogo. Em apenas 3min12s, esse fan film é melhor que o longa de 1994 INTEIRINHO!!!

Uma adaptação decente de "Street Fighter 2"



No ano seguinte (1995), Paul W.S. Anderson fez o filme que STREET FIGHTER - A ÚLTIMA BATALHA deveria ter sido: "Mortal Kombat". E usando exatamente esta estrutura simplíssima do torneio de artes marciais, com uma luta seguida de outra luta. Só frustrou o público por não usar a violência explícita que era a principal característica do jogo. Anderson devia ter adaptado "Street Fighter 2", e não De Souza.

Embora não tenha sido exatamente um fracasso de bilheteria, como o anterior "Super Mario Bros.", STREET FIGHTER - A ÚLTIMA BATALHA CONSEGUIU enfurecer tanto críticos quanto o público. Fãs do jogo não engoliram as mudanças radicais da adaptação cinematográfica, enquanto quem não conhecia o game simplesmente não conseguiu embarcar na proposta do filme, que, por si só, é bem fraquinho.

O resultado negativo arranhou tanto a imagem do outrora promissor diretor-roteirista que sua carreira desceu ladeira abaixo. Ele só dirigiu outro filme em 2000 (uma produção para a TV), e seu último crédito expressivo como roteirista é de 1998 ("Golpe Fulminante", um filme menor do Van Damme)!


Já o astro belga tentou, durante algum tempo, tirar do papel uma continuação direta deste filme, onde, quem sabe, seriam corrigidos os seus principais problemas, como a falta de pancadaria. Existe até uma cena depois dos créditos finais mostrando que Bison não morreu no confronto com Guile e poderia voltar para a revanche, quem sabe interpretado por um ator mais apropriado dessa vez. Mas como o primeiro filme fracassou, a idéia da sequência também morreu na praia.

Por pior que seja (e é realmente MUITO RUIM), pelo menos STREET FIGHTER - A ÚLTIMA BATALHA escapou do título de pior adaptação de videogame de todos os tempos. Afinal, no mesmo ano de 1994, James Yukich conseguiu estragar outro jogo de pancadaria bem simples ao transformá-lo num filme muito, mas muito pior.

É claro que estou falando daquele lixo chamado "Double Dragon", com Robert Patrick, Mark Dacascos, Scott Wolf e Alyssa Milano, que do jogo só tem mesmo o nome.


Tanto STREET FIGHTER - A ÚLTIMA BATALHA quanto "Double Dragon", adaptações de jogos de luta que quase não têm lutas, são argumentos inquestionáveis do quanto os executivos de Hollywood não entendem porra nenhuma de porra nenhuma.

Seria melhor se dessem os 35 milhões para seus filhos fazerem filmes baseados em games, pois eles pelo menos entenderiam um mínimo sobre o assunto.

Aliás, que filme que nada: antes dessem esses milhões para a molecada torrar no fliperama mesmo, um programa muito mais divertido do que suportar essas "adaptações" até o fim...

Trailer de STREET FIGHTER - A ÚLTIMA BATALHA



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Street Fighter (1994, EUA)
Direção: Steven E. de Souza
Elenco: Jean-Claude Van Damme, Raul Julia, Ming-Na,
Damian Chapa, Kylie Minogue, Roshan Seth, Wes Studi,
Byron Mann e Andrew Bryniarski.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

EL CHARRO DE LAS CALAVERAS (1965)


Você sabe que está testemunhando um daqueles momentos mágicos da sétima arte quando topa com um filme como o obscuro western mexicano EL CHARRO DE LAS CALAVERAS, aka "The Rider of the Skulls" - em bom português, "O Cavaleiro das Caveiras". Não porque é um filme maravilhoso, nem porque é algum clássico perdido da cultura mundial, mas simplesmente porque ele resgata um tipo de mágica e de ingenuidade cinematográficas que parecem ter se perdido há décadas.

Topei com EL CHARRO DE LAS CALAVERAS por puro acaso. Estava procurando alguma outra coisa no Google e a busca indicou este filme. A descrição era fantástica: "Weirdest western ever!". Sempre pensei que o western mais esquisito de todos os tempos fosse o fantástico "Matalo", de Cesare Canevari, então resolvi dar uma conferida nesse outro. Fiquei hipnotizado.


Sabe o Dylan Dog, aquele personagem italiano de histórias em quadrinhos que investiga ameaças sobrenaturais? Pois o herói aqui, o tal "Charro de las Calaveras" do título, pode ser considerado uma espécie de avô cucaracha do Dylan Dog, igualmente combatendo monstros e fantasmas na zona rural mexicana - apesar da aparência de western, com pequenas vilas e pessoas a cavalo, o filme não se passa no século 19, mas sim numa cidadezinha dos anos 1960.

Interpretado por Dagoberto Rodríguez, El Charro é um cavaleiro misterioso, todo vestido de preto e com três crânios bordados na camisa. Esconde o rosto com uma máscara porque, segundo ele, "a justiça não tem face".


(Mais tarde descobrimos que seus pais foram mortos pelos bandidos e ele vingou-se de cada um deles, jurando sobre seus cadáveres que combateria todo o mal e injustiça do mundo. Enfim, um plágio disfarçado do Fantasma do Lee Falk, misturado com o visual do Zorro/Lone Ranger!)

O primeiro e único filme do personagem na verdade não é um filme, mas a união de três episódios de um daqueles velhos seriados exibidos nos cinemas de antigamente antes que começasse a atração principal. O cartaz anuncia até o título dos episódios: "El Lobo Humano", "El Vampiro Sinistro" e "El Jinete sin Cabeza". Assim, a cada 25 ou 30 minutos, nosso herói inicia uma nova aventura fechada e auto-conclusiva com outros personagens e monstros.


Não quer dizer, entretanto, que El Charro algum dia foi exibido como seriado. Inclusive nunca foram produzidas outras aventuras: só existem mesmo estes três episódios unidos em forma de longa. Eu li certa vez, em algum lugar, que esta prática era comum no México da época, pois havia muito mais incentivos para a produção de seriados do que para longas. Por isso, realizadores espertinhos filmavam dois ou três episódios de uma suposta futura série e depois juntavam todo o material para lançar como se fosse um único longa-metragem!

EL CHARRO DE LAS CALAVERAS começa com a viciante canção-tema do herói, cantada a plenos pulmões pelo "Trio Calaveras". Como os menestréis da Idade Média, eles celembram os feitos do personagem ("Amigo del justo / Y con los canallas / Fue por sus hazañas / Un gran paladín"), dando todo o clima do espetáculo que virá pela frente!

Cante com o Trio Calaveras



Começa então o primeiro episódio, "El Lobo Humano" (no filme, os segmentos não estão intitulados, nem há qualquer marcação entre o final de um e começo do outro, embora a transição seja perceptível). Essa primeira parte tem o objetivo de apresentar El Charro e sua origem, ao mesmo tempo em que o herói enfrenta o terrível lobisomem que está assombrando a fazenda da família Alvatierra.

Fica bem claro desde o começo que o homem-lobo é o próprio patriarca da família, Don Luis (David Silva, de "Alucarda" e "El Topo"). Afinal, ele veste uma camisa xadrez, e o lobisomem veste uma camisa xadrez também. Seria muita coincidência que ambos tivessem o mesmo alfaiate...


Ajudado/atrapalhado pelo empregado da fazenda, Cleofas (Pascual García Peña), e pelo caçula da família, Perico, o herói não consegue evitar que o licantropo Don Luis mate a própria esposa (Alicia Caro). Também não consegue dar um fim no monstro, que morre por puro acidente ao despencar de um precipício enquanto persegue o garotinho! Logo, digamos que este não é exatamente um início promissor para as aventuras de El Charro...

Por outro lado, esse episódio inicial tem um charme todo especial. Primeiro, por causa da hilária transformação de Don Luis em lobisomem (repetida umas quatro ou cinco vezes em 20 minutos): ao invés de virar lobo direto, o processo tem uma fase intermediária em que ele se transforma num esqueleto (?) e sua roupa desaparece (???), para só então virar homem-lobo, e novamente vestido!


Outro momento mágico e maravilhoso de "El Lobo Humano" é a intervenção de uma bruxa que vive num cemitério, e que lembra, inclusive visualmente, a feiticeira interpretada por Eucaris Moraes no filme de estréia do Zé do Caixão, "À Meia-noite Levarei Sua Alma" (1964).

Pois eis que a bruxa ressuscita um dos defuntos do cemitério (!), cujo caixão está enterrado numa sepultura com uns meros 5 cm de terra por cima (!!!), para contar a El Charro a identidade do lobisomem!!! Pode?


"El Vampiro Sinistro" começa logo em seguida. Com a morte de toda a família Alvatierra no episódio anterior, Cleofas passou a acompanhar El Charro como fiel escudeiro, um Sancho Pança mexicano. Após um diálogo para justificar a ausência do menino Perico ("Ele está na escola", ou algo do gênero), somos apresentados a um novo parceiro-mirim chamado Juanito, que saiu sabe-se lá de onde.

Existe uma explicação lógica para essa mudança no elenco: deve ter passado um grande período de tempo entre a filmagem do primeiro episódio e dos dois posteriores, já que a roupa de El Charro está diferente (a máscara agora cobre a cabeça toda, não apenas o rosto, e há caveiras bordadas também no peitoral da camisa). Provavelmente o garoto que participou da história anterior pulou fora do projeto e teve que ser substituído por um outro menino e um novo personagem.


Seja como for, o trio de heróis chega a uma cidadezinha que está sendo aterrorizada por um terrível vampiro daquele estilo monstruoso, à la Nosferatu (e que usa um cinto com um morcego desenhado na fivela, que parece roubado do Batman!). Eles se hospedam na casa de Maria (Laura Martínez) para protegê-la da ameaça sanguessuga, mas não adianta nada, pois o vampiro ataca uma noite e leva a garota para ser sua noiva. El Charro precisa ir até o esconderijo do vilão (um cemitério abandonado) para uma luta até a morte.

O charme deste segundo episódio é o vampirão, permanentemente imitando a pose de Bela Lugosi em "Plan 9 From Outer Space", segurando as pontas da capa como se fosse um morcego gigante. Aliás, são incontáveis as transformações do vampiro num enorme morcego de borracha, e vice-versa, através de corte seco (desliga a câmera, tira o ator, coloca o morcego, liga a câmera).


E é hilário o momento em que o morcegão de borracha, suspenso por fios de nylon, tenta entrar por uma janela: a falta de habilidade do sujeito que está manipulando o morcego é tamanha que o bicho precisar dar "marcha-a-ré" duas vezes até conseguir passar pela janela!

Enfim, sem querer spoilear a conclusão de "El Vampiro Sinistro", nosso trio de heróis está vivinho e saudável na terceira e última história, "El Jinete sin Cabeza", a melhor do filme.

Baseado no conto "A Lenda de Sleepy Hollow", de Washington Irving, mostra um terrível cavaleiro sem cabeça atacando em outra vila do interior do México, onde coincidentemente vão parar El Charro, Cleofas e Juanito.


Enquanto isso, numa cidade perto dali, a milionária Gloria Mendez (Rosario Montes) descobre, entre as quinquilharias deixadas pelo seu falecido avô, uma caixa de madeira contendo uma cabeça mumificada (!!!). A moça começa a ser aterrorizada pelo sinistro souvenir, pois a cabeça fala e exige que seja devolvida ao seu corpo. Adivinhe qual é o corpo? Bem, não é coincidência o fato de existir um cavaleiro sem cabeça aterrorizando uma vila nas cercanias...

Descobrimos que o cavaleiro na verdade é um bandidão chamado El Chacal, cuja cabeça foi decepada pelo avô de Gloria para estudos científicos. A profanação, entretanto, transformou o criminoso comum num vilão sobrenatural, auxiliado por dois mortos-vivos cujo visual lembra muito os "mortos sem olhos" daqueles filmes feitos anos depois pelo espanhol Amando de Ossorio.


"El Jinete sin Cabeza" é o melhor momento de EL CHARRO DE LAS CALAVERAS por causa das criativas trucagens utilizadas para "dar vida" ao cavaleiro decapitado e sua cabeça decepada falante. E também porque é o único dos episódios em que o herói El Charro realmente mostra serviço, travando uma feroz luta de espadas (na verdade, machetes!) com o demoníaco adversário!

(Aliás, vale destacar que quando o cavaleiro sem cabeça recupera a dita cuja, ele fica a cara do Michael Jackson versão branquela, como você pode ver na foto abaixo!)


Bem, se você aguentou até aqui, deve ter percebido que EL CHARRO DE LAS CALAVERAS é um daqueles filmes bizarros e imperdíveis que servem para matar a saudade de um tipo de cinema popularesco e amalucado que já não se faz mais - motivo pelo qual apaixonei-me pelo filme à primeira vista.

Enquanto o assistia, voltei aos meus tempos de moleque assistindo obras tão fascinantes quanto absurdamente amalucadas, tipo "Os Aventureiros do Bairro Proibido", de John Carpenter, que misturava lutadores de artes marciais com fantasmas, monstros e ninjas voadores.

Hoje, infelizmente, não há mais espaço para filmes assim. Se você pegar uma bomba como "Van Helsing", do Stephen Sommers, por exemplo, a proposta é exatamente a mesma de EL CHARRO DE LAS CALAVERAS (um herói lutando contra diversos monstros famosos), mas a execução é pífia, com um excesso de efeitos por computação gráfica que chega a incomodar o espectador.


Prefiro muito mais o clima de ingenuidade e de "fundo de quintal" do filme mexicano, em que vampiros e lobisomens andam em plena luz do dia, enquanto os personagens dizem frases como "Em algumas horas vai amanhecer" (aparentemente, os realizadores não tinham iluminação suficiente para filmar REALMENTE à noite).

Também prefiro muito mais o morcego de borracha e as máscaras de carnaval inexpressivas usadas pelo lobisomem e pelo vampiro (só os olhos se mexem) do que esses efeitos toscos e exagerados de CGI.

E no fim você não se importa com essa pobreza mambembe dos efeitos porque É A PROPOSTA do negócio: uma aventura barata, rápida, rasteira, sem muita enrolação, feita para consumo popular, sem grandes pretensões nem muitos recursos. O tipo de cinema que passava nas cidades pequenas e era ovacionado por uma platéia ávida por esse tipo de produção, décadas antes dessa Era de Multiplex e da "magia" criada por computação gráfica.


Há um irresistível charme trash em EL CHARRO DE LAS CALAVERAS. O herói, apesar da pose de fodão e do ar misterioso, é um completo desastre: nunca consegue salvar ninguém e sempre é subjugado pelos monstros, mas salvo na última hora por algum dos companheiros (geralmente o garotinho, o que torna tudo ainda mais engraçado, pois o moleque é muito melhor e mais esperto que o PROTAGONISTA DO FILME!).

E se no começo eu comparei El Charro com Dylan Dog, vale ressaltar que eles compartilham até de um alívio cômico: nos quadrinhos é Grouxo, um sósia de Grouxo Marx; aqui é Cleofas, o típico gordinho fanfarrão e medroso que só faz cagada.


EL CHARRO DE LAS CALAVERAS é o primeiro filme dirigido pelo célebre roteirista Alfredo Salazar, que faz uma ponta como a primeira vítima do vampiro. Nascido em 1922, durante quatro décadas ele foi responsável por escrever roteiros que mais pareciam histórias em quadrinhos ou "pulp fictions" (aqueles livrinhos de rodoviária), mais ou menos como o Rubens Francisco Luchetti fez aqui no Brasil (escrevendo primeiro os roteiros do Mojica, depois do Ivan Cardoso).

Salazar costumava escrever aventuras absurdas juntando criaturas fantásticas de maneira surreal, em títulos como "La Momia Azteca Contra el Robot Humano", de Rafael Portillo, "Las Luchadoras Contra la Momia", de René Cardona, e até uma versão feminina do Batman, "La Mujer Murciélago", também dirigido por Cardona.


Também foi Salazar quem mais colocou o lutador mascarado El Santo para combater ameaças sobrenaturais, escrevendo as aventuras "Santo y Blue Demon vs Drácula y el Hombre Lobo", "Santo en La Venganza de la Momia", "Santo en El Tesoro de Drácula", e muitas outras. Ou seja, o negócio do sujeito era fazer crossover entre todos esses monstros e heróis mascarados, mas sem muito compromisso com a lógica nem muita explicação (usando a velha estratégia "se colar, colou")!

Tanto que ninguém perde tempo explicando a origem do lobisomem e do vampiro em EL CHARRO DE LAS CALAVERAS, e a história por trás do cavaleiro sem cabeça é narrada em três minutinhos. Salazar joga no lixo até as convenções clássicas dos personagens, pois o lobisomem é morto sem a necessidade de balas de prata!


Roteiro e direção do filme também lembram muito uma história em quadrinhos, em seu desenvolvimento, narrativa e até composição das imagens (há uma cena em que ele mostra tiros em primeira pessoa décadas antes de isso ficar popularizado nos videogames). Salazar não enrola e dá ao público exatamente o que ele quer, inclusive repetindo numerosas vezes as cenas fantásticas (transformação de homem em lobisomem e de morcego em vampiro), mesmo que os efeitos não sejam lá grande coisa.

Salazar não é erudito, é econômico: seu vampiro não fica lamentando a vida imortal, e seu lobisomem não fica choramingando a maldição de virar fera na Lua Cheia, como é moda no cinema fantástico atual. O mais perto disso que o filme chega é no último episódio, quando o cavaleiro sem cabeça discute com Deus (!!!), reclamando que não vai descansar em paz. Ainda assim, é uma cena curta e que não está ali só para encher linguiça.


É uma pena, portanto, que esse seja o primeiro e único filme de El Charro de las Calaveras, pois, além de ser muito divertido, o personagem teria grande potencial para continuar varrendo o México de ameaças sobrenaturais. Se bem que depois de vampiros, lobisomens e mortos-vivos, não sobraram muitas criaturas poderosas para o herói detonar numa futura aventura...

Bem que alguém podia criar um "Cavaleiro das Caveiras" brasileiro, para livrar o interior do país de criaturas igualmente ameaçadoras como a Mula Sem Cabeça, o Chupa-cabras, o ET de Varginha (ou, agora, ET Bilú) e o zumbi Oscar Niemeyer!

"Aquí está el Charro / Aquí está el charro / El Charro de las Calaveras"...

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El Charro de las Calaveras (1965, México)
Direção: Alfredo Salazar
Elenco: Dagoberto Rodríguez, David Silva, Alicia Caro,
Pascual García Peña, Laura Martínez, Rosario Montes,
Carlos del Muro e Jose Luis Cabrera.