sábado, 25 de junho de 2011

DEZ MINUTOS PARA MORRER (1983)


"Não deixe seus sentimentos interferirem no seu trabalho", diz o veterano policial interpretado por Charles Bronson ao seu novato parceiro no início de DEZ MINUTOS PARA MORRER. Alguns momentos mais tarde, ironicamente, o próprio Bronson estará esquecendo o seu conselho ao descobrir que uma menina da vizinhança, que viu crescer, foi retalhada por um assassino psicopata, e sua filha é o próximo alvo do criminoso.

Lançado em 1983, DEZ MINUTOS PARA MORRER ("Dez para a meia-noite", no original, mas o título não tem nenhuma relação com a história nem em português e nem em inglês!) é um filme sui generis na "filmografia oitentista" de Bronson - que, a essa altura, já tinha 61 anos.


Sui generis porque é a primeira aventura do ator produzida pela infame Cannon Films, mas ainda assim mantém uma certa qualidade narrativa sem exageros. O extremo oposto, portanto, de quase tudo que Bronson faria a partir de então com a Cannon, quando encarnou uma espécie de Rambo geriátrico em produções cada vez mais absurdas, como "Desejo de Matar 3" e "Assassinato nos Estados Unidos" - e mesmo que esses filmes tenham ganhado certo "ar cult" com o tempo, é inegável que representam o ponto mais baixo da carreira do ator, ainda mais depois de obras inspiradíssimas como "Mr. Majestyk", "Desejo de Matar" e "Era uma Vez no Oeste"...

DEZ MINUTOS PARA MORRER simplesmente não parece aquele típico filme rasteiro de Charles Bronson com o qual o público acabou se acostumando nos anos 80. Pelo contrário, é uma história policial séria e levada a sério, onde cenas de investigação e sangrentos assassinatos - quase como um slasher movie para adultos - ocupam o espaço geralmente reservado para os tiros, socos e frases de efeito do herói grisalho.


Tanto que quem assistir esperando ação, ou ver Bronson arregaçando geral, pode até se decepcionar: mais que um policial, DEZ MINUTOS PARA MORRER é um autêntico filme de suspense, cujo roteiro (de WIlliam Roberts) é inspirado na "carreira" de dois famosos serial killers reais: Richard Speck e Ted Bundy.

O velho Charlie interpreta um policial veterano (claro) chamado Leo Kessler (Kessler, Kersey... esses roteiristas não têm criatividade?). Outrora um oficial correto, que seguia tudo estritamente dentro da lei, Kessler viu tanta injustiça e barbaridade em sua carreira que resolveu agir diferente, fazendo tudo, mas tudo mesmo para que a justiça se cumpra da forma que for necessário.


"Antigamente as leis protegiam a nós, agora protegem aos criminosos", diz o herói, em determinado momento do filme. Amargurado e violento, quase sempre vestido de preto e mantendo um relacionamento distante com a filha enfermeira Laurie (Lisa Eilbacher, de "Um Tira da Pesada"), Kessler é aquele tipo de policial prestes a mandar tudo à puta que pariu e explodir.

O estopim para que a fúria do herói se concretize é um psicopata chamado Warren Stacy (Gene Davis). Jovem e perturbado por não conseguir manter relações sexuais, Warren diverte-se perseguindo e matando as garotas que desdenham dele - ou seja, metade da cidade.

O diferencial é que o sujeito é espertíssimo: antes de agir, ele sempre consegue um álibi para não se complicar com a polícia - como incomodar algumas garotas dentro do cinema, para ter certeza de ser reconhecido, antes de sair pela janela do banheiro para matar uma vítima.


Outro detalhe que caracteriza a ação do psicopata, e que talvez seja a coisa mais criativa do filme, é o fato de ele cometer seus crimes completamente nu, para não sujar as roupas de sangue, eliminando qualquer possibilidade de levar para casa a mínima evidência dos assassinatos que comete!

Só que uma das vítimas de Warren era uma antiga vizinha de Kessler e amiga da filha do policial. Por isso, ele acaba levando a coisa para o lado pessoal e dá prioridade ao caso. É ajudado por um policial almofadinha que está dando seus primeiros passos na profissão, Paul McAnn (o futuro galã de filmes classe B Andrew Stevens). Todo certinho e dedicado a seguir fielmente a lei, McAnn é o completo oposto de Kessler, e logo a personalidade diferente dos dois colegas vai bater de frente.


Quando o diário da tal vítima incrimina Warren (a moça tinha muito medo das ameaças dele e registrou tudo para o caso de ser morta), Kessler faz de tudo para prender o maníaco pelas vias legais - principalmente quando o sujeito começa a crescer o olho para cima da sua filha. Mas Warren tem álibis, e nenhuma prova contra ele.

Kessler sabe que, se quiser salvar a pele da filha - e de outras garotas inocentes -, terá que apelar. Assim, ele forja provas que fazem com que Warren seja preso. Mas o certinho McAnn descobre a mutreta e joga areia no plano do colega. Resultado: Warren é libertado e Kessler demitido da polícia.

Claro que nosso herói não pretende dar o arrego para o assassino, e pelo resto do filme, sem a responsabilidade de um distintivo, Kessler transformará a vida do rapaz num inferno, até um sangrento e eletrizante ato final de deixar o espectador roendo as unhas.


DEZ MINUTOS PARA MORRER valeria apenas por esta fantástica meia hora final, que recria o violento caso verídico em que Richard Speck invadiu um dormitório de jovens enfermeiras para estuprar e matar várias delas. Não bastasse isso, temos uma daquelas cenas inesquecíveis de tão bizarras: o vilão perseguindo sua vítima pelas ruas da cidade COMPLETAMENTE PELADO!!!

(Aliás, o filme tem tanta nudez masculina e feminina que, segundo o IMDB, foram gravadas cenas alternativas para que ele pudesse ser exibido na televisão sem que fosse preciso cortar mais da metade. Nestas cenas mais brandas, Warren ataca usando cueca, e não completamente nu, como na versão "oficial".)


DEZ MINUTOS PARA MORRER marca a quarta colaboração de Charles Bronson com o diretor inglês J. Lee Thompson. Depois desse, eles fariam outros cinco filmes juntos, mas nada no mesmo nível - embora a aventura "Justiça Selvagem", de 1984, seja especialmente charmosa pela quantidade de brutalidade e exageros.

E como Bronson está bem no filme! Os cinéfilos de botequim que ridicularizam o ator por suas participações pífias de fim de carreira deveriam morder a língua e baixar a cabeça diante de cenas tensas como a do interrogatório de Warren por Kessler. O herói sabe que está com o assassino diante dele, mas ainda precisa jogar "conforme as regras". A cena, entretanto, é levada num crescendo de tensão e ódio entre os antagonistas. Primeiro, Kessler bombardeia Warren com perguntas vexatórias, tentando fazer com que se descontrole; depois, mostra um vibrador em formato de vagina que foi encontrado no banheiro da casa do "suspeito". Por fim, atira as fotos das vítimas mutiladas sobre a mesa e depois força a cabeça de Warren sobre elas, gritando "Olhe para estas malditas fotos!", antes de ser contido pelos parceiros.


O filme inclusive pode ser visto como uma espécie de releitura de "Perseguidor Implacável", de Don Siegel, a primeira aventura do policial durão Dirty Harry, em que o herói também persegue um serial killer e precisa jogar sujo para escapar das "amarras burocráticas" que permitem que o vilão mate livremente.

A diferença é que, em "Perseguidor Implacável", o policial interpretado por Clint Eastwood já é mostrado como um rebelde que faz justiça à bala desde o início do filme, enquanto em DEZ MINUTOS PARA MORRER a transformação de Kessler de policial que segue a lei em justiceiro acontece de forma gradual (e natural). Aliás, é impossível imaginar outro desfecho para o filme.


Desfecho que, por sinal, assinala outra magnífica interpretação de Bronson (para aqueles cinéfilos de botequim anteriormente citados voltarem a morder a língua). *SPOILER* Diante do vilão completamente nu, e apontando o revólver para a sua cabeça, Kessler começa um discurso amargurado, com fúria e tristeza incontidas nos olhos: "Eu tentei prender você, tirá-lo das ruas, fazer com que parasse de matar... Mas não consegui. E agora você matou mais três garotas. Oh, aquelas pobres garotas... Seu doente filho da puta!". Quando Warren alega que é doente e pede para ser preso, Kessler responde com um tiro na cabeça do rapaz! *FIM DO SPOILER*.


DEZ MINUTOS PARA MORRER também é interessante pelas várias caras conhecidas no elenco secundário: além de Andrew Stevens, aparecem Wilford Brimley como superior do herói, Geoffrey Lewis como advogado filho da puta (daqueles que dá vontade de esmurrar) e a gracinha Kelly Preston em papel bem pequeno de vítima, ainda no começo da carreira.

Não bastasse tantas qualidades, este suspense de primeira ainda tem uma curiosidade quase inacreditável: apesar de ter sido produzido nos exagerados anos 80, Charles Bronson interpreta um policial que dispara UM ÚNICO TIRO durante o filme inteiro! Algo que é ainda mais inacreditável quando lembramos que, nas suas produções posteriores com a Cannon, ele matou gente com todo tipo de arsenal, de metralhadores de grosso calibre a bazucas!

PS: Resenha sugerida pela leitora habitual Daniela Monteiro, que disse ser este o seu filme preferido do Charles Bronson.

Trailer de DEZ MINUTOS PARA MORRER



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Dez Minutos para Morrer (10 to Midnight,
1983, EUA)

Direção: J. Lee Thompson
Elenco: Charles Bronson, Lisa Eilbacher,
Andrew Stevens, Gene Davis, Geoffrey Lewis,
Wilford Brimley e Kelly Preston.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

A VAMPIRA DE BEVERLY HILLS (1989)


(Resgatando - e reclicando - essa velha resenha publicada na Boca do Inferno em tempos imemoriáveis porque estou atarefadíssimo nos último retoques do meu longa "Entrei em Pânico Parte 2", que estréia em julho em Porto Alegre. Mas é claro que eu não ia deixar os leitores do FILMES PARA DOIDOS sem uma atualização...)

Entre o final da década de 70 e o começo dos anos 90, vários pequenos produtores de cinema reinaram soberanos na realização de películas com pouco ou nenhum orçamento especialmente para exibição em drive-ins, cinemas grindhouse e também para uma nova mídia que surgia, o videocassete. Entre os nomes mais esforçados e atuantes do período, Fred Olen Ray é um dos destaques.


Ray começou sua filmografia comprando filmes incompletos ou obscuros e gravando novas cenas (geralmente com mulher pelada) a preço de banana para poder relançá-los nos cinemas e faturar uns bons trocados. Sua estréia como diretor, roteirista e produtor de material próprio foi em 1980, com "The Alien Dead", e desde então ele não parou mais.

Entretanto, suas obras mais divertidas são aquelas realizadas na segunda metade da década de 80; dos anos 90 em diante, Fred cairia no inferno das produções eróticas para TV a cabo, inclusive dirigindo várias daquelas tenebrosas produções genéricas da série "Emmanuelle" que passavam direto no Cine Privê.


Dentro da filmografia excêntrica do diretor, A VAMPIRA DE BEVERLY HILLS é um filme apenas razoável, mas notório por demonstrar um pouco do melhor e do pior do cinema de Fred Olen Ray: efeitos especiais e roteiros fraquíssimos, mulheres peladas para compensar os dois primeiros fatores e atores famosos, porém decadentes, fazendo pontas naquele lendário esquema "Ed Wood/Bela Lugosi".

Em outros filmes, Ray já havia utilizado veteranos com contas a pagar, como John Carradine, Tony Curtis e Lee Van Cleef; aqui as vítimas são Robert Quarry (que no passado aparecia em filmões como "A Câmara de Horrores do Dr. Phibes") e Britt Ekland (a lorinha linda de "O Homem de Palha", aqui envelhecida e decadente, mas ainda bonita).


A VAMPIRA DE BEVERLY HILLS foi rodado em apenas uma semana (!!!), logo depois de um dos grandes clássicos do diretor, "Hollywood Chainsaw Hookers) (que no Brasil foi "picaretamente" rebatizado como "O Massacre da Serra Elétrica 3 - O Massacre Final" apenas por causa da participação do ator Gunnar Hansen, o primeiro Leatherface, no elenco).

Produzido em 1988 e lançado direto em vídeo em 89, A VAMPIRA DE BEVERLY HILLS parece aproveitar ideias vistas anteriormente no terror-comédia "Vamp", (1986). Posteriormente, o mesmo conceito destes dois filmes seria reaproveitada dez anos depois nos superiores "Um Drink no Inferno", de Robert Rodriguez e Quentin Tarantino, e "Bordel de Sangue", de Gilbert Adler, ambos de 1996.


O filme conta a história de três jovens nerds que vão a Hollywood na expectativa de fazer sua própria produção, quando Ray aproveita para fazer uma divertida paródia sobre o cinema bagaceiro que ele mesmo realiza.

Um deles é interpretado por Eddie Deezen, um dos mais ridículos seres humanos que já pisaram no planeta, mas que alguém cometeu o pecado mortal de dizer que era engraçado - nos anos 80, ele apareceu em filmes como "1941", de Steven Spielberg, e "Loucuras à Meia-Noite"; hoje, felizmente, está esquecido.


O problema é que Kyle Carpenter (Deezen), Brock (Tim Conway Jr.) e Russell (Tom Shell) são pobres rapazes do interior, que não sabem nada da cidade grande. Eles logo procuram uma produtora de fundo de quintal e falam com o diretor Aaron Pendleton (interpretado por Jay Richardson, um divertido ator de estimação de Ray).

A produtora de Pendleton, numa auto-referência ao próprio Fred Olen Ray, é especializada em filmes classe Z com muita mulher pelada e títulos apelativos, tipo "As Prostitutas Motociclistas no Deserto do Inferno". Por isso, o produtor recusa o roteiro "intimista" e "dramático" dos jovens, que, frustrados, decidem passar uma noitada num puteiro de luxo para afogar as mágoas e não perder a viagem.


Eles vão parar numa esquisita mansão hollywoodiana, onde um mordomo pálido chamado Balthazar (Ralph Lucas) os encaminha para a linda e sinistra Madame Cassandra (Britt Ekland).

A mansão de Cassandra tem as mais lindas prostitutas já vistas. O detalhe é todas são vampiras, que só querem saber do pescoço dos jovens. Kurt e Russell são atacados e vampirizados, enquanto Kyle consegue escapar e busca a ajuda do cineasta picareta, mais um padre mulherengo, Ferraro (Robert Quarry, em pequena participação), para destruir as sanguessugas...


Como escrevi no começo, tudo que é bom e tudo que é ruim no cinema de Fred Olen Ray está em A VAMPIRA DE BEVERLY HILLS...

A parte ruim é que o filme é mais barato e mal-feito que a média das obras do diretor, sem ritmo, com um péssimo roteiro de Ernest D. Farino, que desperdiça as melhores ideias em prol do corre-corre e das piadas infames.

A parte boa é que tem muita mulher gostosa pelada. O destaque vai para a belíssima Michelle Bauer, outra atriz-fetiche que aparece na maioria dos filmes de Ray, e quase sempre nua. Em A VAMPIRA DE BEVERLY HILLS, Michelle interpreta a gostosíssima Kristina, que tenta seduzir Kyle; mas, como o rapaz é um imbecil, acaba fugindo e escapando de virar vampiro - eu não me importaria de virar vampiro pelos dentinhos da Michelle Bauer, mas ia exigir sexo por toda eternidade em contrapartida!


A atriz, que continua na ativa até hoje em produções baratas e sacanas, começou sua carreira fazendo filmes pornográficos, no começo dos anos 80 (usando o pseudônimo "Pia Snow"). Depois passou a trabalhar quase que exclusivamente para Fred Olen Ray. Ela tem uma "comissão de frente" invejável que deveria ser preservada cientificamente antes de a lei da gravidade começar a exercer seu triste papel.

Além de Michelle, o outro atrativo desta tralha são aquelas cenas toscas, imbecis e duras de engolir que caracterizam os bons trash movies. É o caso, por exemplo, do momento em que Kristina hipnotiza o imbecil do Kyle e vai tirar suas calças. Porém, o infeliz tem um crucifixo desenhado na cueca para protegê-lo do assédio das putas vampiras!!!


Outro momento especialmente cômico acontece quando o herói Kyle atravessa uma estaca (na verdade, um guarda-chuva) no coração de um dos amigos vampirizados, e, enquanto este morre e se desintegra, o ex-amigo protesta: "Porra, você fez isso logo comigo, que tinha te emprestado os meus rollers?". Ouvindo isso, o herói tenta se justificar: "Puxa, mas você acha que eu já não estou me sentindo péssimo???".

De bobagem em bobagem, o filme termina com a conclusão mais óbvia e esperada, e a talvez a única que se encaixa na proposta bagaceira da película (parece até que a grana acabou e resolveram terminar de qualquer jeito).


E os efeitos bagaceiros são tão ruins, mas tão ruins (especialmente o efeito que mostra as vampiras se desintegrando), que dá vontade de puxar cem reais da carteira e mandar como colaboração para o Ray, que deve estar precisando desesperadamente de dinheiro para este setor - embora hoje esteja mais preocupado em filmar sexo softcore do que vampiras de desintegrando...

Entretanto, no final, porcarias como este A VAMPIRA DE BEVERLY HILLS servem para nos fazer refletir sobre algumas coisas em relação ao cinema e aos nossos hábitos como espectadores. Por exemplo:

- Filmes ruins de quinta categoria, como este, às vezes são mais divertidos que superproduções longas e insuportáveis, como "Avatar", e muitas vezes mais interessantes que alguns vencedores do Oscar.


- Filmes ruins de quinta categoria com muitas mulheres peladas em cena geralmente ficam mais interessantes.

- Michelle Bauer é uma das mulheres mais lindas do cinema.

- Fred Olen Ray devia continuar fazendo filmes de baixo orçamento de horror avacalhado em apenas sete dias, ao invés dessas putarias leves para punheteiros que têm medo de ver pornô de verdade.

Assim, mesmo que não tão "bom" (um conceito que varia de espectador para espectador) e divertido quanto outras obras do diretor-produtor, como "Hollywood Chainsaw Hookers", "Resposta Armada" e "O Vale da Morte", A VAMPIRA DE BEVERLY HILLS tem alguns méritos que o qualificam como legítimo "Filme para Doidos".

E tem Michelle Bauer pelada. Precisa de mais algum argumento para ver essa tralha?

Cena de A VAMPIRA DE BEVERLY HILLS



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A Vampira de Beverly Hills
(Beverly Hills Vamp, 1989, EUA)

Direção: Fred Olen Ray
Elenco: Eddie Deezen, Britt Ekland, Michelle
Bauer, Robert Quarry, Tim Conway Jr., Jay
Richardson e Debra Lamb.

terça-feira, 14 de junho de 2011

DOLLMAN - 33cm DE ALTURA... E ATIRA! (1991)


Imagine se, durante as filmagens de seu clássico "Stallone Cobra", o galã Sylvester Stallone acidentalmente entrasse no set de "Querida, Encolhi das Crianças". E, para não perder o dia de gravação, o malucão da Troma Lloyd Kaufman fosse chamado para dirigir algumas cenas com o Cobra em miniatura enfrentando bandidos gigantes.

Se você conseguiu visualizar alguma besteira parecida, certamente terá chegado bem perto do que é DOLLMAN - 33 CM. DE ALTURA... E ATIRA!, um delicioso e irresistível trash movie lançado em 1991 pela produtora Full Moon - aquela por trás de outros cults direct-to-video da década de 90, incluindo as franquias "Puppet Master" (com bonequinhos assassinos) e "Subspecies" (com vampiros e peitos de fora).


DOLLMAN (vamos esquecer o subtítulo brasileiro HORROROSO com seu trocadilho pra lá de infame, tá bom?) é um daqueles filmes que parecem rir da cara do espectador e gritar, a todo momento, "Veja só como eu sou ruim!". Mesmo assim, você simplesmente não consegue desligar o videocassete e parar de ver. Em suma, outro "Filme para Doidos" com direito a medalha de honra!

Tomando emprestada a definição de um site gringo, DOLLMAN é como se "O Pequeno Stuart Little" fosse estrelado por um minúsculo Clint Eastwood (!!!).

A idéia, por si só, é um avacalho sem limites: Tim Thomerson, um dos atores mais cool do cinema classe B (como é que Quentin Tarantino ainda não o convidou para um de seus filmes?), interpreta seu milésimo papel de tira durão, desta vez um policial alienígena (!!!). Após 20 minutos em seu planeta-natal (que é idêntico à Terra, diga-se de passagem), o herói acaba sendo enviado ao nosso planeta azulão (mas você nem vai perceber a diferença), onde, e aí está a grande piada, tem apenas 33 centímetros de altura em relação a nós, seres humanos normais!!!


Perceba que Charles Band, o mestre da Full Moon, parece ter uma tara sexual não-explicada por miniaturas, já que muitos de seus filmes trazem criaturinhas animadas em stop-motion (os brinquedos de "Puppet Master", "Demonic Toys", "Dolls" e outras podreiras, os diabinhos da franquia "Subspecies", os humanos reduzidos de "O Alien do Mal", as pequenas cabeças encolhidas de "Cabeças Voadoras", e por aí vai...).

DOLLMAN tinha tudo para ser a grande realização de Charles Band, uma aventura trash onde o policial intergaláctico passaria o tempo todo encolhido e andando pelos cenários "gigantescos" da Terra, enfrentando ameaças como bandidos gigantes (para seu padrão de altura, é claro) e até insetos, como baratas e ratos - para o tamanho do herói, verdadeiros monstros!


Mas se no papel a ideia é boa, a execução não é lá essas coisas: graças ao orçamento reduzidíssimo e à realização tosca e praticamente improvisada, o espectador só consegue enxergar um Tim Thomerson "em tamanho real" zanzando pelo cenário, raras vezes passando a impressão de ser uma criaturinha de 33 centímetros!

Inicialmente, o projeto foi idealizado como uma cópia trash de "Querida, Encolhi as Crianças", blockbuster dos Estúdios Disney lançado em 1989 (e que gerou diversas sequências e imitações). Band imaginava Tim Thomerson como um cientista às voltas com os problemas de ficar encolhido em nosso mundo cotidiano. O personagem só se transformou em policial durão quando entrou no projeto o cineasta maldito Albert Pyun, que assumiu o controle da película.


Reconhecidamente um dos piores diretores de todos os tempos, o havaiano Pyun é a cabeça pensante (sim, isso foi uma ironia) por trás da série de ficção científica trash "Nemesis" (4 filmes), e de bobagens como a capenga versão cinematográfica de "Capitão América". Embora volta-e-meia ele até acerte o alvo (como nos interessantes "Jogo de Assassinos" e "Adrenalina", ambos com Christopher Lambert), é muito difícil você dizer algo como "Vi um filme bom dirigido por Albert Pyun".

Enfim, foi ele quem surgiu com a idéia de transformar o "personagem encolhido" de DOLLMAN em tira alienígena, ao invés de cientista humano, como queria o produtor Charles Band.

Pyun uniu-se aos roteiristas Chris Roghair (em seu único crédito cinematográfico) e David Pabian (não-creditado, autor de "Puppet Master 2" e "Subspecies 1") para criar uma aventura maluca que começa muito bemmas depois degringola, embora sempre consiga deixar o espectador com um sorriso nos lábios, no esquema "tão ruim que fica bom".


E, mantendo uma bizarra característica de seu "trabalho", Pyun batizou o personagem-título como Brick Bardo ("Dollman", ou "Homem-Boneco", é apenas um apelido). Trata-se de uma homenagem a um amigo do cineasta, o cameraman Joseph Bardo, cujo apelido era "Brick". Curiosamente, tal homenagem já havia sido feita em outros filmes de Pyun - existem "Brick Bardos" em "Viagem Radioativa", "Uma Estranha em Los Angeles", "Nemesis 3", "Cyborg - O Dragão do Futuro" e outros.

"13 polegadas [33 cm.] com atitude", diz a frase no cartaz original de DOLLMAN, que começa a 10 mil anos-luz da Terra, num planeta chamado Arturos. Ali vive uma sociedade tecnologicamente avançada (com naves espaciais e carros voadores), mas todo o resto é igualzinho à Terra: os políticos são corruptos, a TV é sensacionalista, os policiais são violentos, a criminalidade é alta e até mesmo as roupas e gírias são as mesmas - e uma cena importantíssima acontece dentro de uma lavanderia igualzinha àquelas que pipocam nas ruas dos Estados Unidos!


Logo no início, um assaltante de banco psicótico (Frank Doubleday) foge da polícia e invade a tal lavanderia, pegando um montão de gordas e seus filhos gordinhos (!!!) como reféns. "Se tentarem entrar aqui vão encontrar um monte de banha espalhada pelas paredes!", ameaça. A lavanderia é cercada, a polícia não sabe o que fazer e o prefeito sugere que se negocie com o refém para evitar problemas, pois, como acontece também por aqui, é "ano de eleição".

Mas eis que entra em cena nosso herói, Brick Bardo (o ultracool Thomerson, vestindo sobretudo e usando óculos escuros, apesar de ser noite!!!). Num diálogo que parece saído de alguma cena de "Stallone Cobra", os superiores discutem que Bardo está suspenso por sua truculência, que é para ele ficar longe da cena do crime, bla bla bla.

Sem dar ouvidos, o herói entra tranqüilamente na lavanderia e, diante do olhar surpreso e estupefato do assaltante e dos reféns, simplesmente começa a lavar sua roupa!!! Quando o criminoso reclama e exige que Bardo saia do local, o herói saca sua arma - chamada Kruger Blaster, "a arma mais poderosa de todo o Universo" -, aponta para a fuça do bandido pé-de-chinelo e diz, com toda a calma do mundo: "Um de nós vai ter que sair, e eu já coloquei moedas na máquina". Genial!


Em seguida, entra em cena um velho inimigo do herói à procura de vingança. Trata-se de Sprug (Frank Collison). Outrora um vilão normal, Sprug teve vários encontros anteriores com Brick Bardo, e em cada um deles o policial sempre explodia uma parte de seu corpo. Por isso, o malvado acabou reduzido a uma mera cabeça que voa com um par de foguetes de propulsão atados ao pescoço!

Sprug quer vingança do herói e de todo planeta: quer explodir a chamada "bomba de fusão dimensional" e reduzir Arturos a cinzas. Mas é claro que o tira espacial não planeja deixar aquilo passar em branco: após massacrar os capangas do bandidão (espere só para ver a cena em câmera lenta do pistoleiro virando picadinho), ele persegue seu arquiinimigo pelo espaço, num duelo de naves espaciais.


Assim encerra a melhor parte de DOLLMAN: quando os personagens deixam Arturos, atravessam uma misteriosa "faixa de energia" e vão para a Terra, o filme perde parte do seu charme, exagero e senso de humor. Isso porque, por algum misterioso motivo, o diretor Pyun e seus roteiristas Roghair e Pabian "esquecem" que o projeto que eles têm nas mãos é uma bobagem e, acredite se quiser, tentam levar a coisa a sério. Você não leu errado: eles tentam passar uma mensagem de CRÍTICA SOCIAL dentro de uma aventura trash sobre um policial alienígena em miniatura!

Por exemplo: assim que Bardo e Sprug deixam o planeta Arturos e caem na Terra, mais especificamente no bairro pobre e violento de South Bronx, uma colagem de imagens nos mostra flagrantes da miséria urbana, como prostitutas, tráfico de drogas, mendigos pelas ruas, um assalto a uma loja de conveniência, guerra de gangues... É como se, de repente, aquela produção bagaceira da Full Moon se transformasse num filme de Spike Lee!!!


O roteiro não demora a nos apresentar os personagens "humanos". A principal é Debi Alejandro (Kamala Lopez), viúva que perdeu seu marido numa guerra de gangues, e que agora tenta transformar o bairro num lugar mais seguro para criar seu filho Kevin (Humberto Ortiz). Só que ela está na mira do poderoso e violento Braxton Red (o hoje celebrado Jackie Earle Haley).

Os brasileiros praticamente desconhecem a carreira pregressa de Haley, que foi um jovem galã dos anos 70 e caiu em decadência quando adulto. Hoje ele certamente tenta riscar do seu currículo o fato de ter sido vilão num trash como DOLLMAN, ainda mais depois de ter concorrido ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante pelo seu desempenho em "Pecados Íntimos", de Todd Field. em 2007, e de ter participado de blockbusters como "Watchmen".

(Se bem que sua participação ridícula no remake de "A Hora do Pesadelo" é muito, mas muito pior do que seu papel aqui no filme de Albert Pyun...)


Enfim, é óbvio que o valente Brick Bardo não vai demorar a abandonar sua pequena nave e disparar tiros da sua super-arma na bandidagem, protegendo Debi dos "vilões gigantes" do planeta Terra, enquanto dispara reclamações como "I hate fucking giants!".

Aliás, algumas das melhores cenas de DOLLMAN só funcionam graças à presença de Tim Thomerson no papel-título. Fosse qualquer outro ator interpretando Brick Bardo, o filme não teria nem metade da graça. Thomerson está perfeitamente tranqüilo no papel, bem humorado e cínico, consciente da bobagem em que está metido - e o principal pré-requisito para participar de um trashão como este é o bom humor.


Mantendo permanentemente a expressão de quem está puto com a vida, e odeia ficar perdido num mundo esquisito entre aqueles "gigantes", Bardo chama crianças de "piece of shit", se enfurece ao ser tratado como brinquedo e resolve descontar a raiva nos pobres bandidos, que comem o pão que o diabo amassou nas mãos do pequeno herói e sua pistola.

DOLLMAN também tem um hilário diálogo repleto de fucks que só deve existir como citação ou paródia ao "Scarface" de Brian DePalma (supostamente no Livro dos Recordes pelo número de vezes que o palavrão é usado). Pois aqui, num único diálogo, um bandidão larga isso: "What the fuck are we fuckin' waitin' for? I mean, fuck this shit! Fuck man, the fuckin' set-up is fucked up! The little fucker knows what kind of fuckin' shit is waiting here to fuck him up! So lets get the fuck out of this fuckin' deal and go lookin' for the tiny motherfucker!!!".


Como nem tudo são flores - e, afinal, o diretor desta tralha é Albert Pyun -, DOLLMAN é um filme muito longe da perfeição (e quando digo isso, quero na verdade dizer que poderia ser bem mais divertido).

A Full Moon é popular pelos seus efeitos bagaceiros em stop-motion. Sendo assim, foge à minha compreensão o porquê de Brick Bardo não ser animado com efeitos em stop-motion, pelo menos em algumas das cenas de ação. Devido à produção barata, raramente vemos o herói em contraste com algo "de tamanho normal"; o diretor prefere mostrar todas as cenas de Bardo em close e, com truques simplórios de fotografia (como posicionar a câmera de cima para baixo), o espectador é obrigado a engolir que Tim Thomerson está "encolhido", o que nem sempre funciona.

Seria legal ver o ator interagindo com ratos e outros insetos através de efeitos melhorzinhos - nas duas cenas envolvendo animais, no caso um rato e uma barata, o ator nem chega a dividir o mesmo quadro com os bichos, e a edição apenas intercala sem muita criatividade takes de um e de outro.


Além disso, nem mesmo cenários em escala "gigantesca" foram construídos para que Thomerson pudesse atuar - numa cena em que ele caminha por um terreno baldio, vê-se claramente que a grama e as capoeiras no chão têm o mesmo tamanho que ele, quando deveriam ser maiores em relação ao miniaturizado Brick Bardo. Logo, é uma pena que o filme tenha um personagem em miniatura e raramente explore este fato!!!

O sonho do produtor Charles Band era transformar as aventuras do minúsculo tira espacial em mais uma interminável e bem-sucedida franquia da Full Moon - afinal, a série "Trancers", estrelada por Thomerson, sempre foi um sucesso cult nos Estados Unidos.


Infelizmente, DOLLMAN não vingou, mesmo com Band teimosamente incluindo o personagem em outros dois filmes (ele aparece no epílogo de "O Alien do Mal", de Ted Nicolaou, e num crossover com outra franquia da Full Moon, no divertido "Dollman Contra os Brinquedos Diabólicos", de 1993, dirigido pelo próprio Band e bem melhor que esse seu filme de estréia!).

"Eu sempre achei uma vergonha o fato de Dollman ter aparecido em apenas dois filmes, ou três", lamentou o produtor numa entrevista a um site de cinema fantástico. "Ele era um ótimo personagem, no topo da minha lista, e eu adoraria trazê-lo de volta. Claro que agora eu teria que encontrar um novo ator... Mas ele é um grande pequeno personagem, que funciona bem na dimensão de brinquedos e bonecos que eu criei".

Já o diretor Pyun não guarda boas recordações de DOLLMAN, alegando que o orçamento da produção era menor que o próprio Brick Bardo! "Foi uma filmagem difícil, porque não havia dinheiro", confessou na entrevista a um site. "Charlie [Charles Band] é um cara muito legal, mas as severas restrições orçamentárias foram um desafio muito grande, mesmo para uma produção de apenas 12 dias de filmagem. Foi uma filmagem muito tensa com uma equipe muito decepcionada".


Entre mortos e feridos, DOLLMAN - 33 CM. DE ALTURA... E ATIRA! (ah, este maldito subtítulo nacional...) sobrevive como um daqueles trash movies impagáveis que você pode até odiar, mas com certeza vai comentar por muito tempo com os amigos - e, daqui há uns 10 anos, vai se pegar pensando: "Como é mesmo aquele filme do policial alienígena em miniatura que mata traficantes no planeta Terra?".

É a opção perfeita para assistir bêbado ou chapado, e uma daquelas pérolas que só podem ser indicadas para pessoas com um senso de humor muito, mas muito peculiar. Pois estes, e só estes, não irão quebrar a TV em 200 pedaços na cena em que uma amiga de Debi solta a pior frase do filme inteiro: "Bem que eu gostaria de ver um homem de 33 centímetros...". E ainda dizem que tamanho não é documento!

Trailer de DOLLMAN



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Dollman - 33cm. de Altura... e Atira!
(Dollman, 1991, EUA)

Direção: Albert Pyun
Elenco: Tim Thomerson, Jackie Earle Haley,
Kamala Lopez, Nicholas Guest, Frank Collison,
Frank Doubleday e Vincent Klyn.