quarta-feira, 30 de março de 2011

AS NINFETAS DO SEXO SELVAGEM (1983)


Se a sua única referência de "pornô nacional" são aqueles filmes horríveis e padronizados produzidos pelas Brasileirinhas na última década, com pitboys cobertos de tatuagens e garotas siliconadas fazendo caras e bocas, sinto informar que você desconhece o que de melhor foi produzido dentro do rótulo "X-Rated" no país. E vou mais longe: algumas das obras mais inventivas, extremas e - por que não? - geniais do cinema brasileiro estão justamente entre estas películas pornográficas realizadas em escala industrial na Boca do Lixo paulistana durante a década de 80.

Há muita porcaria, claro, e nem sempre é fácil separar o joio do trigo. Mas quando você topa com um filme do Sady Baby ou uma sátira pornô tão bem bolada quanto "Um Pistoleiro Chamado Papaco", de Mário Vaz Filho (em breve aqui no blog), sabe que está vendo algo único. Na verdade, alguns desses filmes são tão criativos e interessantes que o sexo explícito só estraga o conjunto, e eles talvez até ficassem melhor SEM as trepadas!


Nossa resenha de hoje analisará um destes casos. Trata-se de um mistério chamado AS NINFETAS DO SEXO SELVAGEM, co-dirigido por Wilson Nunes da Silva e um famoso "pau pra toda obra" do pornô nacional, Fauzi Mansur, aqui escondido sob o bizarro pseudônimo "Hizat Surman" (um dos muitos que usou durante sua trajetória no sexo explícito, ao lado de "Victor Triunfo" e "Izuaf Rusnam").

Chamo essa obra de mistério porque temos ao mesmo tempo uma sofisticada história de ficção científica (!!!), sobre um apocalipse nuclear, as duas belas sobreviventes do desastre e um astronauta que volta à Terra, e também o tradicional sexo explícito feio, sujo e malvado que era feito na Boca do Lixo - neste caso numa história paralela sobre sobreviventes do fim do mundo que são aprisionados e estuprados (nem sempre nessa ordem) por um bárbaro que domina o Brasil pós-apocalíptico.


Os créditos iniciais do filme informam que serão apresentados dois episódios. O primeiro, chamado "Só Restam as Estrelas", foi dirigido por Silva e é o tal sobre as duas sobreviventes e o astronauta; o segundo leva o nome do longa, "As Ninfetas do Sexo Selvagem", tem direção de Fauzi (ou "Hizat Surman") e a trama sobre o bárbaro estuprador.

O problema é que os episódios não são apresentados separadamente, mas sim paralelamente. Você está acompanhando uma das histórias e, subitamente, a outra invade a narrativa de sopetão. É tão estranho que, na primeira vez que vi, fiquei boiando durante a maior parte do tempo até entender que na verdade eram duas historinhas independentes apresentadas em paralelo; numa reassistida consegui "pegar" melhor onde começa um e outro segmento, mas creio que o filme ficaria muito melhor se os episódios fossem separados.

A bem da verdade, parece que AS NINFETAS DO SEXO SELVAGEM é um filme meio improvisado. Fica difícil hoje saber como rolou o processo, mas aposto que Fauzi pegou um filme inacabado de Silva, sem nada de pornográfico (pelo contrário, as cenas do episódio "Só Restam as Estrelas" só mostram sexo simulado e nudez), e completou-o com cenas de sexo explícito filmadas por ele mesmo, e sem qualquer relação com a trama do outro diretor.


O fato de as cenas gravadas por Fauzi trazerem o mesmo elenco, cenário e figurinos de uma obra posterior do cineasta ("As Rainhas da Pornografia", de 1984) pode ser uma evidência de que ele filmou tudo ao mesmo tempo - o material para completar esse longa aqui e o outro filme. Além disso, Silva era um diretor veterano sem nenhuma experiência com o cinema pornô, outra prova de que talvez Fauzi tenha apenas completado um filme deixado inacabado pelo outro diretor.

Seja como for, AS NINFETAS DO SEXO SELVAGEM continua interessante para o cinéfilo curioso de hoje como uma obra híbrida e cheia de momentos inspirados, alguns pela beleza (principalmente nos trechos filmados por Silva), outros pela escatologia, incluindo uma terrível cena (real) de violência contra um animal que não faz feio em comparação ao clássico italiano "Cannibal Holocaust"!


Você já percebe que AS NINFETAS DO SEXO SELVAGEM não foi concebido como típico filme pornô só pelas primeiras cenas (dirigidas por Wilson Silva), que trazem dois atores famosos do cinema brasileiro da época, Milton Moraes e Ítala Nandi, num barco em alto-mar. Digamos apenas que nem Ítala e nem Milton eram figurinhas carimbadas nos pornôs da Boca do Lixo...

A trama aparentemente se passa naquele típico futuro pessimista concebido em plena época de Guerra Fria e Corrida Armamentista, já que, através de um rádio no barco, ouvimos notícias sobre um "encontro de chanceleres latino-americanos", protestando contra "a decisão das superpotências de incluírem bombas de nêutrons em seus sistemas orbitais de defesa" (lembre-se, era a Era Reagan com seu projeto "Guerra nas Estrelas"...).


Enquanto olha para suas duas filhas pequenas (interpretadas por Karen Louback e Cristie Stein), que brincam na praia, o personagem de Milton começa a filosofar sobre a situação do mundo, explicando-a didaticamente (até demais) para o espectador:

"Antes a guerra matava mil pessoas, agora mata milhões. Antes era a espada, agora é o SODE - Sistema Orbital de Defesa Estratégica. Defesa não sei de quê... É um satélite artificial lançador de bombas nucleares de 500 megatons de cada vez no alvo que quiser. Sem falar nas bombas de nêutrons, que destróem a vida deixando o resto sobre a Terra para o vencedor tomar conta. Se houver vencedor! Cada superpotência tem um super-assassino no céu. Sabe o que isso representa? Que nesse momento estamos embaixo de um poder maior que seis milhões de toneladas de dinamite! A dinamite pelo menos é limpa. O SODE não. Ele é sujo, imundo!"


O filósofo do apocalipse então explica à mulher - e ao espectador - que estão ancorados diante de uma ilha deserta que encontraram ao acaso, e que não consta nos mapas. Nesse exato momento, explode a guerra nuclear e o próprio barco, matando na hora os pais das meninas enquanto elas continuam brincando na praia. (Destaque para a cabeça decepada de Milton sendo arremessada na areia!!!)

Abandonadas à própria sorte, as duas garotinhas aprendem a se virar sozinhas - e peladas - na tal ilha deserta, e, numa bela elipse de tempo de uns 15 anos, aparecem já adultas, e ainda peladas, agora interpretadas pelas belas Marneide Vidal e Eva de Oliveira. As moças fazem praticamente todo o filme nuas!


Durante um bom tempo, acompanhamos o cotidiano silencioso de ambas, até que, aos 21 minutos, as cenas filmadas por Fauzi invadem a narrativa. Assim, de repente, somos transportados para uma vila (que, ao contrário do que imaginei inicialmente, parece não ficar na mesma ilha, mas em alguma parte do mundo devastado).

Ali, um bárbaro interpretado pelo grande comedor da Boca, Oásis Minitti (de "Coisas Eróticas"), aprisiona os poucos sobreviventes do apocalipse, fazendo os homens de escravos braçais e as mulheres de escravas sexuais.


Esta primeira cena mostra-o prendendo e estuprando duas garotas, interpretadas por Tatiana e Dinéia Dantas (irmãs?), mas as cenas ainda são de sexo simulado, sem os tradicionais inserts de penetração explícita. Aliás, estas duas irmãs provavelmente são as "ninfetas do sexo selvagem" do título, e não as náufragas do outro episódio.

Voltamos então ao episódio das irmãs na ilha (eu avisei que as histórias em paralelo eram confusas), cuja vida é alterada com a chegada de um astronauta norte-americano, Alex (Luiz Ernesto Imbassahy). Ciente de que é um dos poucos seres vivos na face da Terra, o astronauta se surpreende ao encontrar aquelas duas gatas peladas. Primeiro, tenta explicar-lhes a situação do mundo com mais uma caralhada de diálogos pseudo-filosóficos; depois, finalmente cala a boca e começa a passar o rodo nas duas!


Já na trama narrada por Fauzi, o bárbaro Minitti aprisiona Daniel (Alan Fontaine), em cena que rola ao som da trilha sonora de "Poltergeist - O Fenômeno". Depois de tomar uns cascudos de Minitti, Fontaine dá início a um diálogo espetacular:

- Por que me agrediu?
- Porque você invadiu meus domínios. E quem faz isso morre ou se torna meu escravo!



Depois de Daniel, o bárbaro também aprisiona mais três pessoas (quanta gente sobreviveu ao apocalipse, hein?): um casal interpretado por Luiz Dias e Teka Lanza e uma lésbica (?!?) vivida pela loira Kristina Keller. Novamente, uma das mulheres é estuprada por Minitti (a personagem de Kristina, chamada Lilith, protesta dizendo que homem algum vai "possuí-la"), enquanto os homens apanham e se tornam escravos.

O sexo explícito só aparece aos 44 minutos, e a única atriz que protagoniza o tchaca-tchaca na butchaca sem simulação é Teka Lanza (loira jeitosinha que era figurinha carimbada nos pornôs da Boca, aparecendo também em "A B... Profunda" e em "Coisas Eróticas 2"). Teka transa primeiro com Dias, depois com Minitti (umas três vezes). Kristina só aparece tocando uma siririca, e nada mais.


Chegamos, então, ao auge do grotesco de AS NINFETAS DO SEXO SELVAGEM: perto do final do filme, Minitti ataca e mata um homem (MAIS um sobrevivente???) que carregava uma ovelha. O animal é pendurado de cabeça para baixo e degolado com um facão, numa cena real. Em seguida, Minitti e seus escravos esfolam e comem a carne crua do bicho, em momento gráfico e repulsivo que se aproxima das barbaridades vistas nos filmes italianos sobre canibalismo. Tenho certeza que tal cena deve ter sido muito excitante para quem foi ao cinema na época em busca de um filme pornô "normal"...

(Se tiver estômago, veja a cena da ovelha no vídeo abaixo.)

"Cannibal Holocaust" à brasileira



O filme termina tão bizarro quanto começou e se desenvolveu, com uma mal-sucedida tentativa de ligar as duas histórias: enquanto no episódio do astronauta o mar amanhece coberto de peixes mortos e uma das irmãs também morre contaminada por radiação, revelando que em breve o astronauta e a outra garota terão o mesmo destino, no episódio de Fauzi o bárbaro e seus escravos amanhecem moribundos, igualmente por causa da contaminação radioativa (quem mandou comerem a ovelha crua?).

Apenas Daniel e uma das mulheres aprisionadas sobrevivem e caminham rumo ao horizonte, quem sabe para reiniciar um mundo melhor... ou para morrer em breve, vítimas da mesma radiação que matou os demais personagens!


Subitamente, a trama volta para o barco do começo do filme (!!!), e os personagens de Milton Moraes e Ítala Nandi estão vivos!!! O quê??? É isso mesmo! As meninas estão brincando na praia, como no início, e o casal de pais se beija a bordo do barco, que então aparece navegando rumo ao horizonte. Logo, todo o filme foi um pesadelo, delírio ou "futuro alternativo" imaginado pelo personagem de Milton em sua já clássica divagação sobre o negro futuro da humanidade...

AS NINFETAS DO SEXO SELVAGEM é exatamente o que parece pela nem-tão-breve descrição acima: uma confusa e bizarra mistura de gêneros e tramas, onde o sexo explícito só aparece por exigências de mercado e não se encaixa de forma alguma na narrativa.

Também há uma queda de qualidade visível quando o filme pula de um episódio para o outro: enquanto o de Silva lembra um curioso cruzamento entre "A Lagoa Azul" e "O Planeta dos Macacos", o de Fauzi é uma apelativa versão pornô de "Mad Max", mas sem muita história para contar além dos estupros perpetrados por Minitti.


Quem sai perdendo com a mistura dos dois episódios é Wilson Silva, já que suas cenas são as mais belas e interessantes do longa - como aquela em que as náufragas, ainda meninas, precisam enfrentar um escorpião que invade sua tenda. Apesar das garotas crescidas aparecerem nuas o tempo todo (e logo também o personagem de Imbassahy), o episódio da ilha nunca cai na apelação, e as cenas de sexo são delicadas e bem realizadas, com certo romantismo e lirismo até.

Pena que estas cenas sejam entrecortadas pelo espetáculo "mundo cão" dirigido por Fauzi, onde sujeitos barbudos, sujos e vestindo farrapos aparecem estuprando garotas em closes ginecológicos, em mais uma bela amostra do sexo sujo e nojentão filmado na Boca do Lixo.


E a cena da ovelha sendo esquartejada é mais do que broxante num suposto "filme pornô", ultrapassando até algumas das barbaridades gravadas por Sady Baby.

Tudo considerado, o episódio de Fauzi também é o mais estúpido e duro de engolir. Afinal, o tal bárbaro interpretado por Minitti consegue aprisionar facilmente todos os personagens secundários sem que ninguém se rebele contra ele. A cena de "estupro" com Teka Lanza é até engraçada, pois a moça começa protestando e logo está curtindo animadamente o rala-e-rola.


Mas não dá pra aceitar momentos como o que SEIS prisioneiros dividem a mesma cabana com seu algoz, sem nem ao menos estarem amarrados, e ninguém tem a ideia de que pulem todos juntos sobre Minitti para subjugá-lo!

Assim, AS NINFETAS DO SEXO SELVAGEM hoje pode ser visto como um curiosíssimo exemplar de um período fascinante do cinema brasileiro, o dos filmes pornográficos da Boca, que não se contentavam apenas em mostrar gente trepando, como os similares estrangeiros, mas geralmente apelavam para histórias mirabolantes e fantásticas onde o sexo explícito é quase brinde - e geralmente soa deslocado.

Esse filme aqui, por exemplo, é uma mais do que óbvia história de ficção científica, que até poderia ser distribuída com esse rótulo se alguma alma caridosa fizesse o favor de cortar as trepadas explícitas com Teka Lanza. Até porque nada se perderia sem estas cenas - elas são rápidas e nada excitantes.


Até sugiro que alguém experiente no Adobe Premiere use seu tempo livre para eliminar da montagem todas as cenas gravadas por Fauzi (inclusive a chocante "cena da ovelha"), deixando apenas o material de Silva, que poderia ser reeditado e relançado como uma "fan cut" intitulada "Só Restam as Estrelas". Aposto que ficaria bem melhor do que este samba do crioulo doido chamado AS NINFETAS DO SEXO SELVAGEM.

Diferente de outros pornôs da Boca da época, que divertiam pela quantidade de bobagens e diálogos estúpidos, este aqui também tenta ser mais sério do que a média, e por isso nem sempre é tão engraçado - apesar dos longos e pomposos diálogos como o de Milton Moraes sobre o SODE ou o do astronauta sobre o declínio da humanidade.

De qualquer forma, a associação entre Silva e Fauzi tem seu valor justamente pela estranheza, picaretagem e escatologia, dando-nos a certeza de que poucas coisas eram tão malucas quando os pornôs brasileiros dos anos 80...

Cena inicial de AS NINFETAS DO SEXO SELVAGEM



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As Ninfetas do Sexo Selvagem (1983, Brasil)
Direção: Wilson Nunes da Silva e
Hizat Surman (aka Fauzi Mansur)
Elenco: Luiz Ernesto Imbassahy, Marneide Vidal,
Eva de Oliveira, Oásis Minitti, Alan Fontaine, Milton
Moraes, Ítala Nandi e Kristina Keller.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Opiniões resumidas para cinéfilos apressados

BRUNA SURFISTINHA (2011, Brasil. Dir: Marcus Baldini)
Eis que não é tão pretensioso ou pedante quanto eu esperava esse filme baseado em um das muitas pseudo-celebridades que infestam nosso Brasilzão; pelo contrário, quem diria, o filme é até bem divertido, e confesso que tem mais sacanagem e mulher pelada do que eu pensava. O problema é que "Bruna Surfistinha" tem grandes acertos geralmente anulados por grandes erros. Por exemplo, o diretor de primeira viagem e os três (!!!) roteiristas usam e abusam de todos os clichês (inclusive narrativos) para contar a história de ascensão e queda da "prostituta mais famosa do Brasil": da amiga interesseira que só destrói sua vida, levando-a às drogas, ao cliente príncipe encantado que quer salvá-la da vida de quenga. Não falta nem a cena em que a protagonista e suas amigas prostitutas são expulsas de um salão de beleza por preconceito das demais clientes (os realizadores devem ter adorado "Uma Linda Mulher"...). Também é no mínimo curioso como o filme representa todas as prostitutas como mulheres simpáticas, divertidas e boazinhas (na vida real não é bem assim); já o personagem de Cássio Gabus Mendes (o tal cliente bom samaritano) é tão generoso e apaixonado por Bruna que soa absurdamente patético, até porque as motivações do cara nunca são justificadas e/ou explicadas. Entre os pontos positivos, Deborah Secco pelada e em várias cenas de sexo simulado; aliás, o filme acerta ao colocá-la para transar com homens horríveis de todos os pesos e medidas, pois na vida real as prostitutas não têm apenas clientes bonitinhos, como se vê no cinema. Claro que ajuda ter Deborah no papel – ela é muito mais bonita que a verdadeira Surfistinha, uma garota normal, feinha até, que só ficou famosa pelo blog e por dar "atenção especial" aos seus clientes. Pena que o filme prefira uma narrativa clichê e seja bastante superficial, nunca explicando porquê, afinal, uma jovem de classe média resolveu se prostituir. Na média, um bom passatempo que tem o mérito de não glamurizar a vida de puta, mas que não acrescenta absolutamente nada a todos os filmes já feitos com esse mesmo tema. Só uma curiosidade: este é o terceiro filme de Fabiula Nascimento e seu terceiro papel de puta (!!!). Talvez esteja na hora de ela trocar de agente...



A MENTE QUE MENTE (The Great Buck Howard, 2008, EUA. Dir: Sean McGinly)
Tem um quê de Alexander Payne nesta comédia dramática, que infelizmente passou em branco no Brasil - talvez até pelo título estúpido em português, que força um trocadilho engraçadinho sem nenhuma relação com a trama. Na verdade é uma bela surpresa essa obra escrita e dirigida por Sean McGinly, um sujeito sem créditos expressivos anteriores. John Malkovich está ótimo como Buck Howard, um "mentalista" (espécie de mágico que faz truques com a mente) bem distante do sucesso que fazia nos anos 60, ultrapassado nesses tempos de grandes espetáculos de mágica estilo Sigfried e Roy. Colin Hanks, um rapaz sem muita certeza sobre o que quer fazer da vida, resolve assumir o emprego de assistente de Buck e acompanhá-lo em viagens por teatros e salões comunitários de pequenas cidades norte-americanas, numa viagem de auto-descoberta para ambos. É impossível não se sensibilizar com os personagens, especialmente o ora divertido, ora insuportavelmente egocêntrico artista interpretado por Malkovich. "The Great Buck Howard" também tem participações de Emily Blunt, Tom Hanks, Griffin Dunne e do mala do Steve Zahn, que pelo menos aparece pouco e não incomoda tanto. O resultado é emocionante e muito divertido, e no final você se pega com um sorrisão no rosto, torcendo pelos personagens. Um filme que merecia ser mais conhecido.



O FILHO DE RAMBOW (Son of Ranbow, 2007, França/Inglaterra/Alemanha. Dir: Garth Jennings)
Desde "Ed Wood" que eu não via uma obra tão emocionante e divertida sobre o mundo do cinema, com o diferencial de que a trama aqui usa a sétima arte apenas como pano de fundo para uma bem-amarrada história sobre amizade, família e nostalgia. Num verão dos anos 80, na Inglaterra, dois garotos se conhecem e acabam ligados pela paixão em comum pelo filme "Rambo - Programado para Matar": um é um menino tímido cuja família pertence a uma seita religiosa que proíbe até TV em casa; o outro é o encrenqueiro da escola, que usa a câmera VHS do irmão para fazer filminhos caseiros. Juntos, resolvem gravar sua própria versão caseira de "Rambo", com muita imaginação e criatividade. Pessoalmente, me identifiquei com a trama porque quando criança eu sempre sonhei em fazer meus próprios filmes caseiros - mas não tinha câmera. Os momentos em que os garotos usam de muita inventividade (e grandes doses de inocência) para recriar as cenas do filme de Stallone "à sua maneira" são hilários, mas a trama ainda tem toques de drama e sentimento, no que tange à relação dos dois amigos e deles com seus (problemáticos) familiares. O resultado é uma obra fantástica e singular, que até faz esquecer bobagens como "Rebobine Por Favor". E duvido que algum cinéfilo não fique emocionado e com lágrimas nos olhos quando a versão editada do filminho dos garotos é exibida num cinema na conclusão. Mais do que recomendado, obrigatório!



LEGIÃO DO MAL (La Horde, 2009, França. Dir: Yannick Dahan e Benjamin Rocher)
90% da humanidade sentou o pau nesse pequeno filme de zumbis vindo da França, mas eu achei divertidíssimo. Começa como uma história policial qualquer: buscando vingança contra os bandidões que assassinaram um dos seus parceiros, um grupo de tiras forma um grupo de extermínio e segue a quadrilha até um prédio abandonado, onde acontece sangrento tiroteio. Lá pelas tantas, saídos literalmente do nada e mudando completamente o tom da história, zumbis invadem o edifício e obrigam os dois lados inimigos a juntarem forças. A reviravolta lembra uma espécie de "Um Drink no Inferno" com zumbis no lugar dos vampiros, mas no final "Legião do Mal" parece mesmo é uma versão ensandecida (e muito mais sangrenta) de "Madrugada dos Mortos". Na comparação entre os dois, fico com esse aqui - que ainda rende umas boas gargalhadas para quem já viu dezenas de filmes de mortos-vivos e sabe que não há mais muitas surpresas no subgênero. Impagável, por exemplo, a cena do sujeito que enfrenta centenas de zumbis sobre um carro, armado apenas com um facão. O personagem do velhote folgado que mora no prédio e entra na trama somente na metade também é impagável, e a resolução da trama foge do clichê. Enfim, diversão garantida, desde que não se espere muito. E depois da overdose de filmes de zumbis feitos de "Terra dos Mortos" para cá, confesso que não espero mais nada do gênero, ainda mais quando até veteranos como George A. Romero pisam na bola.



RASTROS DE VINGANÇA (Red, 2008, EUA. Dir: Lucky McKee e Trygve Allister Diesen)
Tem ecos de "Gran Torino" e "Harry Brown" esse surpreendente filme que ficará para sempre marcado como a melhor atuação de Brian Cox, um ótimo ator geralmente desperdiçado em bombas tipo "Voo Noturno", do Wes Craven. Ele interpreta um velho solitário, traumatizado e amargurado pela perda da família, que tem como única diversão as longas pescarias ao lado do seu cachorro Red. Até que três jovens delinquentes tentam assaltar o velhote e, insatisfeitos com a pequena soma de dinheiro que ele tem, reagem matando o cachorro. O restante do filme acompanha a busca de justiça do protagonista, primeiro procurando as vias "legais" (advogado, polícia, imprensa, os pais dos jovens), e depois finalmente tomando a justiça nas próprias mãos, dedicando o que resta da sua existência a transformar a vida do trio de garotos num verdadeiro inferno. "Rastros de Vingança" começou a ser dirigido pelo cineasta cult McKee, mas ele foi despedido pelos produtores e substituído pelo europeu Diesen. É difícil saber quem dirigiu o quê, mas a história é narrada de maneira contida e com várias surpresas, deixando o soco no estômago para o impactante final, e acentuando o talento de Cox, que praticamente leva o filme nas costas. Destaque ainda para pequenas mas significativas participações de Tom Sizemore, Amanda Plummer e Robert Englund. Um filme que, como "A Mente que Mente", passou praticamente em branco no Brasil, mas merece ser descoberto ou redescoberto.



O RITUAL (The Rite, 2011, EUA. Dir: Mikael Håfström)
Cinco "O Exorcista". "O Anticristo". "Espírito Maligno". "Exorcismo Negro". "O Exorcismo de Emily Rose". "O Último Exorcismo". Isso sem contar todos os filmes bagaceiros que nem valem citação. Pensa comigo: depois de tantas produções sobre possuídos pelo demônio e exorcismos, será que ainda existe alguma maneira minimamente criativa de contar histórias do gênero? Se depender desse "O Ritual", não: do começo ao fim, essa bomba atômica não passa de um reaproveitamento de todos os clichês do gênero vistos desde "O Exorcista": padre jovem que está perdendo a fé e é escalado para ajudar velho e experiente exorcista; demônio possuindo corpos e aprontando poucas e boas, inclusive contorcionismos absurdos; e aquele ritual de exorcismo barulhento e exagerado na conclusão. Sem nenhuma novidade na trama ou na forma de contá-la, não consigo entender o porquê de uma filme assim durar quase duas horas (insuportáveis). Até porque não há a menor história para contar, e boa parte da narrativa é, mesmo, pura enrolação. Dá pena de ver um ator como Anthony Hopkins perdido numa porcaria como essa, mas já faz anos que ele virou uma espécie de "Lima Duarte de luxo", repetindo sempre o mesmo papel com as mesmas caras e bocas; a brasileira Alice Braga está perdidaça, e Rutger Hauer, como sempre, é desperdiçado em papel de coadjuvante sem nenhum brilho. De tão maçante e sacal que é a narrativa (que ainda tenta posar de "séria" e "inteligente"), confesso que cochilei três vezes antes que a agonia finalmente terminasse. Para não perder o trocadilho: um filme ruim como o Diabo gosta!



SOLDADO UNIVERSAL 3: REGENERAÇÃO (Universal Soldier: Regeneration, 2009, EUA. Dir: John Hyams)
Antes de tudo, tenham em mente que esse filme é uma enganação: como se fossem dois ex-craques do futebol, Jean-Claude Van Damme e Dolph Lundgren só entram em campo aos 35 do segundo tempo (ou, no caso do filme, depois de 65 dos 97 minutos) para tentar tirar a partida do empate, reprisando seus papéis do "Soldado Universal" original, de 1992. Antes, quem comanda o espetáculo é o apagado Mike Pyle como herói e também o brucutu Andrei Arlovski, que está fantástico como o grande vilão da história. Apesar da alta contagem de cadáveres e dos montões de tiros e explosões até então, o filme não fede e nem cheira antes que Van Damme e Lundgren finalmente entrem em ação. E aí justiça seja feita: "Soldado Universal 3" parece um "Os Mercenários" melhorado, incluindo um fantástico plano-sequência em que Van Damme sai atirando em inimigos dentro de um prédio em ruínas (lembrando "Filhos da Esperança") e as duas violentas "lutas finais" contra Lundgren e Arlovksi, respectivamente. E mesmo que a enganação continue (percebe-se claramente que são dublês na maior parte da pancadaria), o duelo Van Damme x Lundgren é muito, mas muito melhor (filmado e editado inclusive) do que o troca-socos Lundgren x Jet Li em "Os Mercenários". Resumindo: é um filme bem convencional, fraquinho até, mas que vira um filmaço quando os ex-craques entram em campo no finalzinho do segundo tempo (e, quem diria, conseguem reverter o placar!). Uma promissora estreia para o diretor John Hyams - filho de Peter Hyams, que dirigiu Van Damme em "Timecop" e "Morte Súbita" mais de 10 anos antes.



RELÍQUIA NEGRA (Dark Relic, 2010. EUA. Dir: Lorenzo Sena)
OK, OK, esta é uma produção barata realizada pelo canal de TV a cabo SyFy. Dito isso, você já sabe o que esperar: orçamento paupérrimo e efeitos em CGI que parecem ter sido animados num velho computador 386. Fechando um olho para estes óbvios defeitos, até que a história é razoavelmente interessante. Acompanha um grupo de cavaleiros durante as Cruzadas (não espere uma maravilhosa reconstituição de época, muito pelo contrário), liderados por um nobre que questiona a validade do confronto. Até que eles encontram uma relíquia para levar até o Vaticano: um pedaço da cruz em que Jesus Cristo foi crucificado. O problema é que o artefato está amaldiçoado, e os cavaleiros serão assombrados por todo tipo de tragédia, do naufrágio do seu navio (bad CGI alert!!!) ao ataque de lobos, insetos, monges possuídos (!!!) e até um diabão terrível (no mau sentido) feito por computação gráfica. Tudo bem, é preciso muita paciência para acompanhar até o final, justamente devido à pobreza risível da película. Mas quem suportar vai perceber que o filme é até divertido, na linha daqueles trashões italianos dos anos 80, com boas ideias (a relíquia amaldiçoada, o fato de os cruzados cristãos terem que somar forças com seus inimigos muçulmanos) e até uma mensagem anti-intolerância religiosa. Podia ser um filmaço com um orçamento decente, um diretor de verdade e uma boa recauchutagem no roteiro, mas Hollywood anda muito ocupada refilmando tudo que um dia já foi filmado para se preocupar com tramas originais...



ANO 2003 - OPERAÇÃO TERRA (Futureworld, 1976, EUA. Dir: Richard T. Heffron)
"Westworld - Onde Ninguém Tem Alma" (1973) é simplesmente um dos meus filmes preferidos. Esse aqui pretende ser uma continuação. Desde que fiquei sabendo disso, procurei loucamente pelo filme, sem nunca encontrar. Então fui ver só agora, 15 anos de procura depois. E o resultado foi uma decepção incomensurável. "Futureworld" é simplesmente uma continuação pífia e sem nenhuma razão de existir. Se o original era uma aula de tensão, nesse aqui não acontece absolutamente nada em momento algum. Na trama, uma megacorporação reabre os parques de diversões com robôs imitando humanos após o massacre do filme original, e convida autoridades e jornalistas para conferir as instalações. O protagonista é Peter Fonda com cara de sono, eternamente zanzando pelo cenário e tentando descobrir algo sobre os bastidores do local. Aí você vê os visitantes se divertindo nos parques com os robôs. Vê os técnicos montando e desmontando robôs. OK, já vi tudo isso no original. E aí, quando é que os robôs vão se rebelar de novo e começar a matar os humanos? Epa, peraí... Isso nunca acontece! É isso mesmo: o filme se resume a Peter Fonda eternamente zanzando pelo cenário com cara de sono!!! Mas o pior é a desculpa que os realizadores encontraram para trazer de volta o sinistro pistoleiro interpretado por Yul Brynner no original, por meros cinco minutinhos, numa absurda cena de pesadelo de uma personagem, sem qualquer relação com a trama! Apesar da tentativa de fazer um final "inteligente", pouco ou nada se salva em "Futureworld", uma obra que pode entrar, com louvor, em qualquer lista de piores (e mais desnecessárias) sequências já produzidas.



PASSE LIVRE (Hall Pass, 2011, EUA. Dir: Bobby Farrelly e Peter Farrelly)
Já virou clichê e redundância dizer que os Irmãos Farrelly perderam o jeito para a comédia escrachada que demonstraram em "Debi & Lóide", "Kingpin" e "Quem Vai Ficar com Mary?" (seus primeiros filmes). Mas eles continuam dando mais e mais argumentos para que se use esta frase clichê e redundante. É o caso desse "Passe Livre", comédia "adultescente" que parece seguir a linha "Se Beber Não Case", mas anos-luz distante do humor deste. Owen Wilson e Jason Sudeikis interpretam dois sujeitos casados que ganham das esposas um passe livre de uma semana para curtir a vida como se estivessem solteiros. A premissa podia render uma comédia fantástica com muita sacanagem, mas os Irmãos Farrelly preferem mostrar os bundas-moles aprontando todo tipo de besteira - como comer brownies com maconha e ficar terrivelmente chapados -, MENOS situações envolvendo sexo. Estas se concentram na parte final, e, mesmo com algumas piadas mais fortes (como o espirro que provoca evacuação involuntária numa mulher), ficam devendo. Até porque o roteiro prefere seguir por um viés romântico e estupidamente moralista. Fala sério: quem engole que um homem casado há 20 anos e feio que nem o Owen Wilson resista a uma gata seminua e doidinha para transar com ele (Nicky Whelan)? Clique aqui, dê uma boa olhada na moça e me diga sinceramente se VOCÊ resistiria! Mais tarde, a esposa de um dos caras pula a cerca e, claro, é "punida" com um acidente de carro. Enfim, aquele tipo de mensagem moralista que eu não consigo mais suportar em filmes do gênero, pois eu quero ver comédias para rir e me divertir, e não para receber lições de vida. O que parece no final é que os personagens do "Se Beber Não Case" aprontaram muito mais numa única madrugada do que os dois manés daqui em uma semana, e que os mesmos caras que fizeram Jim Carrey vender um pássaro morto para um cego (em "Debi & Lóide") perderam totalmente o jeito. Ah: alguém também precisa avisar o Jason Sudeikis que ele não é NADA engraçado, e vetar sua participação em futuras produções do gênero.

quarta-feira, 16 de março de 2011

EMOÇÕES SEXUAIS DE UM JEGUE (1986)


(Esta resenha é dedicada ao grande cinéfilo Hugo Malavolta, leitor contumaz do blog que foi iniciado, segunda-feira, no estranho mundo de Sady Baby, e justamente com esse filme aqui!)

Segundo o jornalista Gio Mendes, um dos seus biógrafos oficiais, o cineasta brasileiro maldito Sady Baby nunca ouviu falar no Marquês de Sade. Ironicamente, o célebre escritor do século 18 cuja obra cunhou a palavra "sadismo" e o ex-jogador de futebol gaúcho que virou diretor de cinema pornô têm muito, mas muito em comum.

Como Sade, Sady (nome de batismo: Sadi Plauth) também tem uma obra cult marcada pelo sexo e pela violência, em que o prazer anda lado a lado com a dor, a humilhação e o sofrimento do parceiro. O próprio cineasta, estrelando seus filmes, costuma interpretar um personagem sádico (ou, nesse caso, "sádyco"), geralmente um perigoso bandido ou vingador, que estupra as mulheres, pratica assassinatos violentos ou força pessoas a fazer sexo contra a vontade.


O cinema de Sady Baby é apenas para estômagos fortes. Em "A Máfia Sexual", por exemplo, ele obriga um casal de irmãos a fazer sexo sob a mira do seu revólver; em "No Calor do Buraco", mata uma garota, faz sexo com o cadáver e fala, diretamente para a câmera: "Dar uma trepada com uma pessoa morta é uma sensação arrepiante!".

É por isso que eu falo para os cinéfilos que babam ovo de supostos "filmes extremos" recentes, como "Irreversível" e "A Serbian Film": assistam as obras do Sady Baby que ele já fez quase tudo antes. E pior.


Porém, de tão fragmentados, absurdos, inesperados, extremos e amalucados, os filmes de Sady acabaram se tornando algo difícil de definir - algo numa fronteira bastante tênue entre a completa loucura e uma genialidade bem particular. Suas obras podem ser consideradas FILMES PARA DOIDOS por excelência, com cadeira cativa nesse blog (e se não aparecem por aqui com frequência, é justamente pela dificuldade de escrever sobre filmes TÃO doidos!).

Conhecedores da sua filmografia alegam que "No Calor do Buraco" é o seu melhor filme. Mas para o próprio Sady Baby e para mim particularmente, o "grande momento" do diretor é EMOÇÕES SEXUAIS DE UM JEGUE, que provavelmente também é sua obra mais divertida e mais fácil de acompanhar, narrativamente falando.


Produzido em 1986 (embora o site da Cinemateca Brasileira informe o ano de 1987), o filme parece uma tentativa de aproveitar o sucesso da obra anterior de Sady, o pornô zoófilo "Emoções Sexuais de um Cavalo", estrelada pela célebre "Cicciolina do Bexiga" Makerlei Reis. E, como na maioria das suas produções, Sady não apenas estrela como divide direção e roteiro com o amigo Renalto Alves.

Este pornô, que é bem menos "zoófilo" do que o título anuncia, foi produzido em plena era do medo da AIDS, quando pouco se sabia sobre a doença além do fato de ela ser mortal. Nada mais certo, portanto, que Sady Baby explorasse esse medo de forma sensacionalista: Gavião, seu personagem na trama, é um presidiário que fugiu da cadeia e é portador do vírus HIV por, segundo o próprio, ter dado a bunda na prisão.


Logo na cena inicial, já apresentando o clima tosco e pobre que permeia o filme, Gavião caminha por uma floresta e, faminto, disputa um osso com um cachorro. A cena não tem cortes: Sady realmente tira um osso roído da boca de um cachorro e come o pouco de carne que ainda resta nele!

Em seguida, uma garota loira (interpretada por X-Tayla, figurinha carimbada nos pornôs do diretor) caminha inocente pela floresta e é agarrada por Gavião, que resolve estuprá-la para satisfazer seus desejos carnais há muito refreados no presídio.

Num caso clássico de contraste entre o som (dublado) e a imagem, as falas de Gavião ("Eu não vou te machucar! Eu não vou fazer nada contigo!") se sobrepõem a essa cena aí embaixo, o que já provoca as primeiras gargalhadas!!!


Gavião leva a loirinha até um caixão (feito visivelmente de papelão!) e segue-se um dos primeiros diálogos geniais da película: "Esse é o caixão do amor", declara o presidiário aidético. "Aqui eu faço sexo. Eu tô com fome de sexo! Eu vou comer seu cu dentro desse caixão!". Bizarramente, a moça fica excitada (!!!) e aceita participar de uma cena de sexo (simulado, sem penetração) dentro do caixão!

Acredite: esse é um dos momentos mais "normais" do filme!!!


Pulando as inevitáveis cenas de sexo explícito sem conexão com a trama que se seguem (conforme comentarei mais adiante), EMOÇÕES SEXUAIS DE UM JEGUE continua com Gavião voltando para casa e encontrando sua esposa, Cocota, grávida. Hora do segundo diálogo genial do filme:

- O que é isso, Cocota?
- É... É um tumor!
- Isso é gravidez! Além de presidiário agora eu sou otário? Um chifrudo? Eu sou um corno? Engraçado: pra ajudar não tem ninguém, agora pra botar no rabo dos outros...



Em meio à sua fúria, Gavião descobre que o responsável por engravidar a esposa foi seu próprio pai, sogro da moça, conhecido apenas pelo apelido de "Velho Paçoca". Ele resolve se vingar do progenitor e vai até a casa da família, onde encontra a irmã mais nova (rápida participação de Makerlei Reis) também grávida do velhote! Segue-se novo diálogo antológico:

- Quem é o pai da criança?
- É o pai!
- Que pai?
- Nosso pai!
- Não... Velho fedido! Eu vou comer o cu daquele velho filho da puta!


Cada vez mais descontrolado, Gavião volta para sua própria casa e começa a socar a barriga da esposa, na tentativa de provocar-lhe um aborto involuntário. Depois, arranca-lhe das mãos uma banana que ela está comendo, e berra: "Você não vai comer porra nenhuma! Você vai morrer de fome!".


Mas no momento seguinte ele muda de ideia: ao invés de esperar que Cocota morra de fome, Gavião resolve queimar a esposa viva, incendiando o próprio barraco!!!

A partir de então, EMOÇÕES SEXUAIS DE UM JEGUE divide-se em três segmentos distintos: a busca de vingança de Gavião contra seu pai, o Velho Paçoca; a fúria do presidiário aidético contra a humanidade em geral, pelo fato de ele estar contaminado pelo HIV e sofrer preconceito (momento "crítica social" do roteiro); e, finalmente, uma suruba caligulesca que ocupa meia hora da narrativa.


Entre os momentos que fazem parte dessa subtrama da AIDS, estão as melhores cenas do filme.

Na primeira delas, Gavião invade o consultório do dr. Chabú (!!!) para vingar-se do médico, que supostamente teria lhe vendido um remédio para curar a AIDS (!!!) sem nenhuma serventia, óbvio. O protagonista dispara um quase-monólogo entre gritos e ameaças que é de deixar qualquer um chorando de rir:

"Você me enganou, médico trambiqueiro! Tu pediu grana pra me salvar, e eu fui na tua conversa, meu! Tu falou que tinha remédio pra AIDS, cara! Eu acreditei nisso, cara! Por que você fez isso comigo, médico filho da puta? Eu vou comer seu cu, cara! EU VOU COMER SEU CU, CARA!!! Olha aqui pra mim! Olha pra dentro dos meus olhos! Eu tô podre, cara! EU TÔ PODRE, CARA!!!" (Você pode ver esse lindo momento clicando aqui!)


Revólver em punho, Gavião primeiro estupra a secretária do dr. Chabú (outra cena implícita protagonizada pelo próprio Sady), sem que a moça proteste muito. Pelo contrário, ela até parece gostar - e a moça é a única razoavelmente gatinha no elenco, o que é um verdadeiro alívio depois de tantas caras feias vistas até então.

Depois, diante do olhar perdido da garota, o bandido força o "médico trambiqueiro" a sugar o sangue de uma ferida no seu braço. Ato feito, o ator que interpreta o doutor, no auge da sua interpretação forçada de galã de quinta categoria, declara, com os lábios ainda ensanguentados: "Sou um homem contaminado!", enquanto Sady, claro, gargalha maleficamente!!!


A outra melhor cena do filme acontece quando Gavião é expulso de uma boate por um grupo de homossexuais quando as bibas percebem que ele é aidético. Furioso, o bandido irrompe no local com uma motosserra (!!!) e mata violentamente uma das bonecas, serrando-lhe o torso!!!

A cena, realista e bastante sangrenta, foi feita com Sady realmente serrando o peito do sujeito, onde foi amarrada uma chapa de metal que protege o corpo do ator! Revelando todo seu "sadysmo", Gavião acaba com o rosto todo vermelho por causa do sangue que jorra durante a mutilação, enquanto ri e berra alucinado: "Hahahaha! Sangue! SANGUE!!!".


Já a busca do protagonista pelo pai garanhão encerra com um dramático reencontro dos dois. Ferido por um tiro, Gavião diz ao progenitor: "Ah, Velho Paçoca... Meu grande pai... Meu grande filho da puta!!! Vai comer capim, velho!!!".

Todas essas cenas sem-noção fazem de EMOÇÕES SEXUAIS DE UM JEGUE um filme simplesmente incrível, inacreditável até, daqueles em que você não sabe se ri ou chora, e em que um momento bizarro é seguido por outro ainda mais escalafobético.


Infelizmente, este também é um filme pornográfico produzido na Boca do Lixo. E, como tal, traz um montão de cenas de sexo porcas, mal-filmadas e protagonizadas por pessoas feias e peludas (com "nomes artísticos" do calibre de Rui Taradão, Rinaldo Pilantra e Cilene Bucetão!!!).

Quem já viu algum pornô da Boca sabe o que esperar, mas os filmes de Sady Baby descem a um nível de feiúra e vulgaridade ainda mais abominável do que a média. É simplesmente a maior reunião de gente feia e desdentada fora de um filme do Fellini ou do Pasolini! E o pior: esses caras e barangas geralmente estão pelados e trepando!!!

Sady provavelmente contratava mendigos da Rua do Triunfo a preço de cachaça e colocava-os para protagonizar, sem muita distinção, cenas homossexuais ou de zoofilia!!!


Uma curiosidade: nem todos os pornôs brasileiros daquele período eram exclusivamente "heteros", como os estrangeiros. Se hoje você entra numa videolocadora e escolhe um filme só com lésbicas, só com gays, só com travecos ou só com dupla penetração anal, na época era comum ter tudo isso misturado no mesmo balaio - e mais zoofilia, no caso das obras da Boca do Lixo!!!

É o caso aqui, onde há diversas cenas gays protagonizadas por homens barrigudos e peludos. Numa delas, um policial leva um casal homossexual para um matagal e obriga ambos a fazerem sexo com ele. Enquanto é sodomizado por um e chupa o outro, grita: "Você não é estuprador? Então me estupra!". Mais adiante, outros dois homens transam ao som da Marcha Nupcial (!!!) e da música-tema de "Carruagens de Fogo" (!!!).


E há a gigantesca orgia de meia hora no bar, detalhe característico da maioria dos filmes de Sady (quando a narrativa é interrompida para uma grande suruba entre vários atores e atrizes). Sem distinção entre gays, lésbicas e simpatizantes, o povo transa animadamente e até um cavalo entra na jogada.

Com a boca cheia de iogurte ou leite, homens e mulheres aplicam um singelo boquete zoófilo no equino e simulam a ejaculação do animal - uma cena que só lembro de ter visto "de verdade" no igualmente inacreditável "Experiências Sexuais de um Cavalo", de Rubens Prado.

Destaque para o "cardápio" do bar, que anuncia "buceta ao molho" como prato do dia e opções do tipo "sopa de menstruação", "rolê de rola" (!!!) e até "feijoada de cu"!!! A "imaginação" de Sady e sua trupe realmente não tinha limites...


E por falar nisso, ainda nessa cena da suruba, Sady inseriu um momento que é absolutamente genial: sem poder colocar uma câmera dentro da vagina da atriz (lembre-se que eles ainda filmavam com enormes câmeras de película, e não existiam microcâmeras de vídeo, como hoje), o diretor simulou um plano "por dentro da perereca" simplesmente dando um close no pinto do "ator" enquanto ele penetra um pedaço de bife até a ejaculação!

(É uma pena que esse blog seja "respeitável" e eu não possa publicar fotos desse momento maravilhoso de criatividade cinematográfica aqui...)


Mas péra lá: e onde entra o jegue do título nessa história? Bem, na verdade o jegue faz uma minúscula participação especial só para justificar o nome do filme, quando X-Tayla encontra o animal e simplesmente fica se esfregando pelada nele, mas sem muita ousadia, o que pode frustrar quem foi atrás do filme APENAS para ver as emoções sexuais do tal jegue!!!

(E é claro que, como em quase todos os pornôs da Boca, o jegue "pensa alto", como o Garfield, enquanto X-Tayla sensualiza com ele...)


O resultado é que EMOÇÕES SEXUAIS DE UM JEGUE é um filme inclassificável, em que momentos de extrema violência (como o esquartejamento com motosserra) aparecem depois de diálogos cômicos e nonsense, mas também estão separados por intermináveis trepadas literalmente nojentas entre homens e mulheres, homens e homens e ambos os sexos com animais!

Não foge à regra: como a maior parte dos pornôs da Boca, este também ficaria muito mais divertido (e fácil de assistir) SEM o sexo explícito, que aqui é tão excitante quanto se masturbar assistindo "Os Dez Mandamentos" (se bem que no filme do Cecil B. De Mille até aparecem umas figurantes bonitinhas com pouca roupa, enquanto no do Sady Baby todo mundo é feio e asqueroso, fora, talvez, a secretária do dr. Chabú!).


Se você nunca viu um filme de Sady e pretende começar a conhecer sua insólita filmografia, EMOÇÕES SEXUAIS DE UM JEGUE é uma boa opção: traz tudo aquilo que caracteriza o cinema do sujeito (frases de efeito, personagem "sádyco", violência explícita e sexo nojento) de uma forma menos insuportável e desconexa que as suas outras obras. Até existe uma história e uma trama para seguir, mesmo que na maior parte do tempo as cenas apenas se sucedam sem muito critério e praticamente no improviso.

Afinal, de que outra maneira você consegue encarar a despedida entre Sady e X-Tayla na história, quando ele entrega dezenas de fotos para a garota e diz: "Quero que você faça um favor para mim, porque eu estou morrendo. Eu quero que você trepe com todos!"?!?

Um momento insólito que só poderia ter saído da cabeça do nosso "Marquês de Sady", um dos "artistas" mais estranhos dessa miríade de bizarrice chamada "cinema pornô nacional dos anos 80"...


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Emoções Sexuais de um Jegue (1986, Brasil)
Direção: Sady Baby e Renalto Alves
Elenco:Sady Baby, X-Tayla, Renalto Alves,
Neilton Mofarrej, Kátia Bokão, Makerlei Reis,
Feijoada e Karla Karbley.