quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

A NOIVA E A BESTA (1958)


(Aproveitando o "gancho símio" da última atualização - com "The White Gorilla" -, preparem seus cachos de bananas que hoje tem mais macacos tarados e/ou assassinos aqui no FILMES PARA DOIDOS!!!)

O lendário Edward D. Wood Jr., ou simplesmente Ed Wood, é reconhecidamente um dos piores diretores da história da sétima arte, responsável por filmes tão ruins e baratos que se tornaram divertidíssimos clássicos trash, como "Bride of the Monster" e o já clássico "Plan 9 From Outer Space".

Agora responda rápido: o que pode ser pior que um filme dirigido por Ed Wood?

Ora, um roteiro escrito por Wood e filmado por um cara ainda pior do que ele!


Por mais incrível que possa parecer, considerando a qualidade nula de seus filmes mesmo para os padrões da época, Wood foi roteirista contratado para diversas produções de terceiros, que são ainda piores do que as pérolas dirigidas pelo próprio Ed.

Entre seus trabalhos exclusivamente como roteirista estão bombas do calibre de "The Violent Years" (1956, dirigido por William Morgan), sobre delinqüência juvenil; "Orgia da Morte" (1965, de A.C. Stephen), sobre shows de striptease feitos por assombrações (!!!) num cemitério, e "One Million AC/DC" (1969, dirigido por Ed De Priest), onde homens pré-históricos lutam contra ridículos dinossauros de borracha.


Mas uma das obras mais antológicas de Ed Wood como roteirista chama-se "The Bride and the Beast, ou, no Brasil, A NOIVA E A BESTA, de 1958. Este filme barato de aventura e horror é o único dirigido por Adrian Weiss, que contratou Wood para escrever o roteiro baseado numa idéia original sua.

(Ainda não consegui descobrir se Adrian tinha algum parentesco com George Weiss, um famoso produtor de filmes "sexploitation" daquela época, que entrou para a história como o homem que deu a primeira chance a um então iniciante Ed Wood, financiando seu debut como diretor, o lendário "Glen or Glenda?", de 1953.)


A NOIVA E A BESTA é aquele tipo de zorra total que só pode ter saído da cabeça de um lunático como Wood - e que só encontra espaço nobre num blog como o FILMES PARA DOIDOS.

Sua história mistura elementos dos "gorilla movies" tradicionais do período (com sujeitos metidos em ridículas fantasias de macaco), de aventuras sobre a vida na selva (neste caso, os ataques de dois tigres indianos que fugiram do zoológico) e até, acredite se quiser, uma inacreditável trama sobre reencarnação, onde uma inocente garota descobre que, numa vida passada, foi... um gorila!!!


O filme começa apresentando os recém-casados Dan Fuller (interpretado por Lance Fuller) e Laura (Charlotte Austin). Ele é um experiente caçador que tem a mansão repleta de troféus de caça, como animais selvagens empalhados, e ela é uma garota meio maluca com fetiche por materiais felpudos, como o angorá.

O casal Fuller irá comemorar sua lua-de-mel com... um safári na África! Mas Dan resolve passar a noite anterior à viagem em sua própria casa. Ali, acredite se quiser, há uma câmara subterrânea secreta, onde o caçador guarda enjaulado um gigantesco gorila chamado Spanky (!!!!), que ele aprisionou quando ainda era filhote.


É nesse momento que começam os problemas: Spanky (hahahaha) parece se apaixonar por Laura, e, durante a noite, escapa de sua jaula, sai milagrosamente da câmara subterrânea secreta e sobe até o quarto onde o casal de recém-casados dorme em camas separadas (!!!).

Ali, começa a acariciar e cheirar a pobre Laura, que sente-se estranhamente atraída pelo gorila e resolve não gritar por socorro. Mas Dan acorda e, talvez com medo de levar corno de um símio, saca seu revólver, enchendo Spanky de tiros.


No dia seguinte, o pobre marido chama até sua casa um amigo médico, o dr. Carl Reiner (interpretado por William Justine; curiosamente, um conhecido diretor de comédias dos anos 80-90 também se chama Carl Reiner!), para examinar Laura.

O doutor resolve hipnotizar a garota e tentar uma experiência de regressão, quando ele e Dan descobrem, estupefatos, que a inocente garota havia sido um feroz gorila numa outra vida!


Reiner então desperta Laura do seu transe, mas não fala nada sobre o que descobriram com a regressão. Ele também orienta ao marido que evite levá-la para a África, devido aos traumas recentes, mas é claro que Dan não escuta.

Fielmente seguidos pelo escravo africano do caçador, Taro (Johnny Roth, branco maquiado para parecer um nativo, que fica o filme inteiro repetindo "Yes, bwana!"), Dan e Laura chegam à África (obviamente, as cenas foram todas gravadas em um matagal qualquer na Califórnia mesmo).



Mas não há tempo para lua-de-mel, pois Dan é imediatamente recrutado pelo capitão Cameron (Gil Frye) para capturar ou matar a tal dupla de ferozes tigres fugitivos, que anda devorando nativos nas redondezas. Enquanto o marido se ocupa da difícil função, Laura se vê às voltas com seu misterioso passado como gorila, exercendo um estranho fascínio sobre estes animais.

Quem gosta de trash e de filmes na linha "quanto pior, melhor" (o público do FILMES PARA DOIDOS, enfim) não pode perder A NOIVA E A BESTA, possivelmente uma das maiores bobagens já filmadas.

Se já parece impossível levar a sério a história de uma garota que é reencarnação de um gorila (!!!), espere só para ver momentos como Dan lutando corpo a corpo com um tigre visivelmente empalhado, ou a conclusão completamente sem pé nem cabeça que Wood inventou para o drama de Laura - digamos apenas que é de rolar de rir.


Muitos filmes baratos do período costumavam roubar cenas de outras produções mais endinheiradas para economizar dinheiro - quem leu minha resenha de "The White Gorilla" já sabe bem disso. Pois é mais ou menos a mesma coisa em A NOIVA E A BESTA: Weiss e sua trupe contornam o problema de nunca terem pisado na África utilizando, na edição, cenas roubadas de outros dois filmes, "Man-Eater of Kumaon" (dirigido por Byron Haskin em 1948) e "Bride of the Gorilla" (dirigido por Curt Siodmak em 1951).

A coisa funciona mais ou menos assim: na sua selva fuleira feita em estúdio, os atores que interpretam Dan e Laura olham assustados em direção à câmera; aí pimba!, corta para uma fantástica cena roubada de "Man-Eater of Kumaon" onde um tigre de verdade luta contra um crocodilo de verdade bem no meio do rio (graças à boa edição de George M. Merrick e Samuel Weiss, parece que os atores do filme de Weiss REALMENTE estão testemunhando aquele momento que foi simplesmente retirado de uma outra produção).


Em outra cena, closes dos dois atores dentro de um caminhão são editados com cenas de uma caçada a girafas que obviamente também não foi filmada por Weiss, mas sim retirada de um dos outros filmes. Assim fica fácil, não é?

Por esse motivo, é até difícil avaliar o filme no conjunto. Por exemplo, eu ia escrever que o diretor de primeira e única viagem Adrian Weiss tinha conseguido escapar da mediocridade com algumas belas cenas, como a luta do tigre com o crocodilo, ou o plano em que um dos tigres espreita o caçador iluminado pela luz da lua (abaixo), mas depois descobri que talm cena foi tirada de "Man-Eater of Kumaon"!


E como a maior parte das cenas boas de A NOIVA E A BESTA deve realmente ter saído destes dois outros filmes citados, fica difícil tentar avaliar a direção de Weiss - mais fácil é congratular os editores Merrick e Samuel pela sua hábil costura.

Já o roteiro de Wood é péssimo como de costume. Não bastasse a total falta de coerência e de ligação entre os vários elementos da trama (garota que é reencarnação de um gorila, tigres assassinos, regressão a vidas passadas, pesadelos, gorilas apaixonados), nosso amigo Eddie simplesmente não consegue resistir a escrever diálogos horríveis, como "Animais não brigam comigo! Eu tinha um macaco quando criança, e ele me amava, mas odiava todo mundo".


A citação a um suéter angorá em certo momento do filme é a marca registrada do roteirista, que tinha fetiche por esse tipo de roupa (e, como todos devem saber, adorava se vestir de mulher, embora não fosse homossexual).

Isso tudo se soma a um caminhão de incoerências que desafiam a lógica, como o porão secreto da casa de Dan, que é iluminado por uma tocha eternamente acesa, mas ironicamente também tem um freezer que funciona com eletricidade (e se há eletricidade, o local poderia ter luz elétrica, e não a iluminação com uma tocha!!!!).


Ou a longa e redundante cena da hipnose, operada por um médico (!!!) que usa termos científicos mirabolantes para tentar convencer o espectador de que a regressão a vidas passadas é possível e tão simples quanto o filme mostra!

Enfim, é o tipo de coisa que faz esta aventura na selva rápida e rasteira (com menos de 1h20min de duração) tornar-se uma daquelas engraçadíssimas comédias involuntárias digna dos nomes envolvidos, mas especialmente do incompetente Ed Wood. Encare de bom humor (ou sob efeito de drogas) e prepare-se para umas boas gargalhadas!


Como última curiosidade, todos os gorilas de A NOIVA E A BESTA foram "interpretados" por Steve Calvert. Falecido em 1991, Calvert era um especialista em pagar mico (literalmente) dentro de roupas de gorila, tendo interpretado macacões em sete dos 11 filmes que fez na vida - entre eles, "Bela Lugosi Meets a Brooklyn Gorilla" (1952) e "Panther Girl of the Kongo" (1955). Bela carreira, hein?

Em tempo, esse filme saiu em DVD nos Estados Unidos num programa duplo com "The White Gorilla" - trasheira total, para detonar todos os neurônios e talvez regredir ao estado de gorila!!!

Trailer de A NOIVA E A BESTA



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A Noiva e a Besta (The Bride and
the Beast, 1958, EUA)

Direção: Adrian Weiss
Elenco: Charlotte Austin, Lance Fuller, Johnny
Roth, William Justine, Gil Frye, Jeanne Gerson
e Steve Calvert com roupa de gorila.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

THE WHITE GORILLA (1945)


Quer fazer um filme de aventura/horror na África, mas está sem grana para contratar figurantes, construir aldeias indígenas, pagar figurinos, alugar animais selvagens? Ora, não se desespere: com um pouquinho de malandragem e um muitinho de cara-de-pau, você consegue rodar sem dificuldade e com orçamento praticamente zero o tal filme.

Basta se inspirar no "exemplo" do diretor e picareta de marca maior Harry L. Fraser e seu clássico da sem-vergonhice THE WHITE GORILLA, produzido no longínquo ano de 1945.

Fraser queria fazer um filme sobre um gorila assassino na África, mas obviamente não tinha dinheiro para filmar em território africano, e muito menos para recriar a África nos Estados Unidos, como faziam outros produtores de mais cacife.


O que você faria se estivesse no lugar dele? O mais correto seria desistir da idéia, claro, mas o cineasta aparentemente era um sujeito teimoso.

Resolveu, então, "reproduzir" a África usando cenas de um filme mudo de 1927, "Perils of the Jungle", dirigido por Jack Nelson, que foi cortado e reeditado na maior cara-de-pau para "encaixar-se" em meio à meia dúzia de cenas filmadas pelo próprio Fraser em 1945.

Agora imagine: você não tem mais os atores daquele filme de 1927, muito menos os cenários da tal produção. Como fazer para que estas cenas "reaproveitadas" se encaixem com aquelas filmadas 18 anos depois?


Fácil: basta transformar todas as cenas mudas e antigas de "Perils of the Jungle" na história contada em flashback por um dos personagens de THE WHITE GORILLA!!!! Não é demais? Dá até vontade de fazer seu próprio filme de aventura na África depois de ver o resultado do "copiar + colar" de Fraser.

E o resultado, claro, é um daqueles trashaços de rolar de rir, que deixaria até mesmo o lendário Ed Wood envergonhado.

Com as cenas de "Perils of the Jungle" ocupando a maior parte da narrativa, os produtores de THE WHITE GORILLA não precisaram de muito esforço para realizar seu filme. Consta que as filmagens levaram apenas três dias e uma noite, e o elenco tem apenas seis atores: Ray Corrigan, Lorraine Miller, Budd Buster, Francis Ford, Charles King e George J. Lewis.


Todos os outros atores que dão as caras ao longo do filme são os atores de "Perils of the Jungle", e portanto não foram creditados, mas são Harry Belmour, Eugenia Gilbert, Will Herman, Frank D. Hutter, Walter Maly, Frank Merrill, Milburn Morante, Bobby Nelson e Albert Smith.

(Não perca as contas: só nessa brincadeira de reaproveitar cenas de um filme antigo, os produtores já econonizaram nove cachês!!!)

THE WHITE GORILLA começa no Posto de Trocas do Morgan, no coração do continente africano, onde uma dupla de caçadores, Stacey (Francis Ford) e Hutton (George J. Lewis), esperam por notícias de um explorador chamado Ed Bradford, que desapareceu há algumas semanas na selva.

Enquanto eles jogam conversa fora com o proprietário do lugar, J. Morgan (Charles King), eis que surge um dos batedores da expedição do desaparecido Bradford, Steve Collins ("interpretado" por Ray Corrigan), com as roupas em farrapos e coberto de ferimentos ensangüentados.


Pelos próximos cinquenta e poucos minutos, Collins põe-se a narrar o que aconteceu ao azarado grupo que integrava. E a maior parte destas cenas de "flashback" são, na verdade, cenas extraídas do já citado "Perils of the Jungle".

Como tal produção de 1927 ainda era silenciosa (ironicamente, o cinema sonoro começou naquele mesmo ano com "O Cantor de Jazz"), é fácil de identificar quais são as (poucas) cenas filmadas por Fraser para THE WHITE GORILLA e quais são as (muitas) cenas roubadas da produção dirigida por Jack Nelson.

Para "maquiar" o problema das cenas reaproveitadas serem mudas, não há diálogos quando elas são exibidas, apenas a narração em off de Collins explicando a história. Acredite: é de rolar de rir!


Collins conta como Bradford e sua turma se meteram em encrencas com uma tribo belicosa da região. Bradford, no caso, é o personagem construído a partir das cenas que Frank Merrill fez em "Perils of the Jungle", quando se chamava Rod Bedford.

O engraçado é a forma utilizada pelo editor Adrian Weiss (um notório produtor e diretor de exploitation movies do período) para casar as cenas de 1945 com as filmadas em 1927: alguns takes com o ator Ray Corrigan escondido em meio a moitas ou árvores são encaixados entre a ação de "Perils of the Jungle", e Corrigan, obviamente, nunca se mistura ou interage com aqueles atores dos anos 20 - apenas "observa".

Para justificar essa falta de interação, a narração em off usa frases como "Escondido, descobri que Bradford e Allison eram prisioneiros de uma das tribos", ou "Eu resolvi segui-los à distância". Abaixo você pode ver como isso funciona na edição: a cena da esquerda foi feita em 1945 e mostra o ator Corrigan teoricamente testemunhando a ação da cena da direita, que foi retirada do filme de 1927! Sim, amiguinhos, é muita cara-de-pau!!!


Quando acabam as tais cenas de "Perils of the Jungle", finalmente surge a criatura que dá nome ao filme, o gorila branco (que, em várias cenas, foi interpretado pelo próprio Ray Corrigan, para economizar ainda mais dinheiro em cachê de figurantes!!!!).

O monstruoso animal vive hostilizado na selva justamente pela sua cor, diferente da pelagem negra dos gorilas "comuns" - o que não deixa de ser irônico, considerando que o filme foi feito em plena época de preconceito racial dos brancos contra negros.

Collins acaba topando com o monstro enquanto "participa" como observador das cenas de "Perils of the Jungle", e escapa por pouco. Mas a conclusão prevê um novo e mortal duelo entre o caçador e o gorila branco.


Ah: por causa da picaretagem do reutilização de cenas, e como "Perils of the Jungle" NÃO tratava de um macacão assassino, é claro que os personagens e atores do filme de 1927 nunca interagem com o gorila, apenas Collins!

Acho que já deu para entender a mensagem: THE WHITE GORILLA é um trashão picareta e muito divertido, onde a edição das cenas de épocas diferentes funciona como perfeita comédia involuntária. Afinal, a montagem é tão cara-de-pau que quase todas as cenas filmadas por Fraser em 1945 mostram os (poucos) atores sentados e ouvindo a "narração" da "história".

Na conclusão, como não existe qualquer possibilidade de os atores dos anos 40 encontrarem os dos anos 20, o roteiro do próprio diretor utiliza uma solução que beira o surreal: todos estes personagens originais de "Perils of the Jungle" morrem devorados por tigres - "off-screen", é claro, porque isso não acontecia no filme de 1927!


Mas filmes sobre gorilas assassinos estavam em alta naquela época, e isso deve ter sido uma grande motivação para os realizadores dessa pérola, que certamente estavam buscando um dinheiro fácil.

Os chamados "gorilla movies" começaram a pipocar ainda na década de 30, com "The Monster Walks" (1932), de Frank R. Strayer, que mostrava um gorila assassino aprontando o diabo em um casarão durante uma noite de tempestade. Isso um ano antes do clássico "King Kong" de 1933, dirigido por Merian C. Cooper e Ernest B. Schoedsack, trazer o famosíssimo gorila gigante que já ganhou duas refilmagens, uma seqüência e inúmeras aventuras não-oficiais.

Vai saber que graça o povo enxergava nesse tipo de história, mas os gorilas assassinos (obviamente atores enfiados dentro de ridículas fantasias de macaco!) continuaram fazendo vítimas no cinema até os anos 60, em produções paupérrimas como "The Ape" (1940), de William Nigh, com Boris Karloff; "Bride of the Gorilla" (1951), de Curt Siodmak, com Lon Chaney Jr., onde um homem é vítima de uma maldição vodu e se transforma em gorila à noite (vai ver não tinham dinheiro para comprar uma roupa de lobisomem, então inventaram um "gorilatropo" ao invés de um licantropo!); e "The Bride and the Beast" (1958), de Adrian Weiss, outro trashão impagável, este com roteiro do mitológico Ed Wood!


Até o pobre Bela Lugosi, que um dia foi Drácula, viu-se perdido no inferno dos "gorilla movies", interpretando um cientista que se transforma em gorila assassino nos filmes "The Ape Man" (1943), de William Beaudine, e "Return of the Ape Man" (1944), dirigido por Phil Rosen (e que, apesar do título, nada tem a ver com o outro filme).

Lugosi também pagou um mico símio em "Bela Lugosi Meets a Brooklyn Gorilla", dirigido novamente por William Beaudine em 1952, e o último filme "normal" do ator antes de ele começar a trabalhar exclusivamente com Ed Wood.

Voltando a THE WHITE GORILLA, uma resenha do filme que encontrei na internet sugere usá-lo para um criativo "drinking game", e acho que é mesmo uma boa forma de encarar algo tão ruim. As regras são as seguintes: cada vez que a cena muda de 1945 para 1927, você e seus amigos tomam uma dose de alguma bebida alcoólica potente, e vice-versa. De tanto que isso acontece, será bem fácil acabar completamente embriagado ou em coma alcoólico antes do "The End" aparecer - e isso que o filme é curtíssimo, com cerca de 60 minutos de duração!


E não bastasse a edição criminosa, e os malabarismos que ela exige para manter uma narrativa minimamente coerente, THE WHITE GORILLA ainda está coalhado com todo tipo de defeito de produção classe Z, do cenário pobre (a "selva africana" parece o quintal da casa de alguém) às roupas dos gorilas, onde percebe-se nitidamente os buracos para os olhos nas máscaras!!!

Resumindo: um filme divertidíssimo, hilário, de rolar de rir do começo a fim, e que com certeza fica ainda melhor quando visto em turma, preferencialmente sob efeito de álcool ou substâncias entorpecentes.

Um autêntico FILME PARA DOIDOS, digno de figurar entre as produções-símbolo deste blog.

Veja THE WHITE GORILLA na íntegra



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The White Gorilla (1945, EUA)
Direção: Harry L. Fraser
Elenco: Ray Corrigan, Lorraine Miller, Budd
Buster, Francis Ford, George J. Lewis, Charles
King e vários atores em cenas de arquivo.

sábado, 22 de janeiro de 2011

O JOGADOR (2008)


Quando a carreira de um ex-astro de filmes de ação está quase morta e enterrada, o pobre coitado tem dois caminhos a seguir: ou cai no inferno dos filmes "direct-to-DVD", com pouca e às vezes nenhuma visibilidade, ou tenta reinventar sua imagem e voltar às luzes da ribalta, mesmo que às vezes apenas pela curiosidade mórbida.

Não faltam exemplos bem-sucedidos recentes dessa segunda alternativa. Sylvester Stallone, por exemplo, chegou a cair no inferno dos filmes direto para locadora ("Missão Perigosa", de 2002) e até fez um patético vilão em "Pequenos Espiões 3D" antes de reciclar-se com os excelente "Rocky Balboa" e "Rambo 4",

O belga Jean-Claude Van Damme também estava destinado a penar em produções bagaceiras quando estrelou um excelente filme policial, ainda pouco conhecido, chamado "Até a Morte", em que interpretava um anti-herói em busca de redenção. Acabou reencontrando seu público e passou a estrelar alguns filmes melhorzinhos, como o interessante "JCVD" e o divertido "Soldado Universal 3".


Chegamos então a Steven Seagal e O JOGADOR. O ex-astro caiu no inferno do "direct-to-DVD” em 2002, depois de "No Corredor da Morte" (seu último filme a ganhar lançamento nos cinemas). Mesmo seus fãs mais fanáticos pararam de acompanhar sua filmografia, tal o baixo nível da maioria dos filmes.

Para piorar, o próprio ator descuidou-se e engordou demais, tornando-se uma figura patética que não convence mais nem lutando, sendo geralmente substituído por dublês. E como ele nunca conseguiu realmente INTERPRETAR, o que sobra quando o sujeito não convence lutando? Quem quer ver Steven Seagal "interpretar"? Pois é...


Ao contrário de Stallone e Van Damme, entretanto, Seagal parece nunca ter se importado com sua visível decadência. Mesmo gordo, mesmo estrelando produções cada vez mais bagaceiras, ele continua firme e trabalhando, fazendo de quatro a cinco produções por ano, todos elas desovadas direto na prateleira das locadoras.

Mas O JOGADOR, que ele produziu e estrelou em 2008, parece ser uma primeira (e mal-sucedida) tentativa do ex-astro reinventar sua imagem, como antes fizeram Van Damme e Stallone. Pode-se até dizer que o filme é o "Até a Morte" de Steven Seagal, que aqui aparece, talvez pela primeira vez, como um personagem cheio de defeitos, vícios e questionamentos morais - um autêntico anti-herói, em resumo.


Infelizmente, Seagal não é Van Damme. Sua notória incapacidade de mudar de expressão facial não ajuda nada quando você estrela um filme que inclui vários lances dramáticos, interpretando um personagem alcoólatra em busca de redenção. Não é exagero dizer que O JOGADOR poderia ter sido um filmaço com outro ator no lugar do barrigudo Seagal.

Ele "interpreta" Matt Conlin, um policial afastado do departamento por suspeita de ter roubado uma bolada em dinheiro do tráfico. Como Van Damme em "Até a Morte", Matt se transforma numa caricatura de herói: viciado em jogo, perde toda sua grana nas mesas de pôquer e depois enche a cara e dorme com prostitutas em pensões baratas.


Porém, ao contrário de Van Damme naquele filme, Seagal não teve coragem de mostrar com detalhes a decadência do seu personagem. Sim, vemos Matt jogando pôquer e perdendo; sim, vemos Matt segurando copos de uísque na mão (e cheirando e fazendo cara feia), mas nunca vemos o RESTO da viagem do "herói" ao inferno, algo que é somente comentado por outros personagens ao longo do filme.

Enfim, abandonado pela esposa e pela filha, Matt acumula uma dívida imensa no pôquer e provavelmente vai acordar algum dia com a boca cheia de formiga. Mas subitamente aparece uma organização secreta, liderada por um misterioso sujeito conhecido apenas como Old Man (Lance Henriksen!!!!), e paga todas as suas promissórias. Com uma condição: Matt deve fazer uns "servicinhos" para eles.


Serviços de execução, no caso. Como pistoleiro contratado pela organização, o "herói" recebe fotos de alvos que deve apagar, supostamente bandidões que escaparam da justiça e devem receber o merecido castigo. Ele cumpre algumas das missões, mas começa a se questionar: estará fazendo a coisa certa? Principalmente quando descobre que um dos alvos exterminados tinha uma filha da mesma idade que a dele.

Mas a coisa complica de vez quando Matt recebe a missão de matar seu melhor amigo, um policial recém-promovido que, para piorar, é o atual marido da ex-mulher do protagonista - e padrasto da sua filha. A organização secreta argumenta que o tira é corrupto e deve morrer, mas Matt aposta sua vida na integridade do sujeito. Inicia-se o dilema.


Se O JOGADOR tem um ponto positivo, este é a reviravolta no terceiro ato do filme. Tudo se encaminha para um nojento clichê (Matt recusando-se a matar o melhor amigo e combatendo a própria organização que o contratou), até que o filme tem coragem de revelar que o tal melhor amigo é, sim, um policial corrupto e bandidão, e não o cara inocente que Matt imaginava!

Porém, tirando esse contra-clichê, há bem pouco de interessante, ou de novo, para se ver em O JOGADOR. Se essa era uma tentativa de dar um novo rumo à carreira de Seagal, com um personagem um pouco mais complicado e cheio de conflitos, o resultado é medíocre e decepcionante.

E olha que ele fez quase tudo certo: descartou aqueles diretores de segunda com quem vinha trabalhando e chamou o holandês Roel Reiné para comandar a câmera. A direção de Reiné (do divertido "A Encomenda") dá uma certa sofisticação ao filme e à história batida, mas esbarra nas limitações da produção e do ex-astro.


Afinal, qual é a lógica de você encher um filme de ação com cenas "dramáticas", que mostram seu protagonista dividido e martirizado, se o astro da bagaça não tem a menor condição de "atuar" e demonstrar seus problemas? E quem engole que um brutamontes que quebra braços e explode cabeças a tiros tenha inspiração religiosa, vivendo na igreja em conversas filosóficas com um padre?

Toda e qualquer cena em que Seagal tenta mostrar que está "amargurado" tem resultado patético, quando não engraçado. Ao perder uma bolada no pôquer, por exemplo, tudo que ele faz é colocar a mãozinha na testa, mas mantém a mesma expressão facial de sempre!

O mesmo vale para todos os momentos em que ele supostamente precisava demonstrar seu alcoolismo - nunca vemos o ator bebendo, apenas segurando copos de uísque nas mãos e fazendo caretas.


Esse talvez seja o grande pecado de O JOGADOR: parece até que Seagal recusou-se a abandonar totalmente a sua tradicional imagem de "fodão", preferindo não apresentar literalmente os defeitos do seu personagem (ao contrário do que fez Van Damme).

Uma pena, pois interpretar (ou tentar, pelo menos) um personagem cheio de defeitos e pontos fracos, e não o FDP invencível e seguro de si que ele faz sempre, seria um belo diferencial na sua filmografia.

Já as cenas de ação são razoáveis, bem filmadas e sem muitas firulas, apenas em menor número do que se espera num filme de ação com Steven Seagal. Ele atira mais do que bate (e, quando chuta, mal consegue levantar a perna, de tão fora de forma), mas protagoniza algumas cenas interessantes por mostrar-se mais implacável que a média dos heróis "politicamente corretos" de hoje (executa a sangue-frio um alvo desarmado, por exemplo).


O tiroteio final é num cemitério, com música clássica e uma infinidade de cenas em câmera lenta que parecem cópia do que John Woo fazia 20 anos atrás (em outras palavras, estão mais datadas que disquete de computador).

Num plano bem legal, Seagal está se protegendo atrás de uma lápide quando um tiro arranca um pedaço do bloco de pedra; ainda no ar, o estilhaço é atingido por outro tiro e rodopia em câmera lenta!


Se a parte dramática não funciona, as cenas de ação são poucas e rotineiras e Steven Seagal não convence, o que sobra em O JOGADOR para merecer uma resenha tão longa aqui no FILMES PARA DOIDOS?

Nesse caso, o fator trash. O tal de J.D. Zeik, que escreveu o roteiro, estava inspiradíssimo e colocou na boca dos personagens diálogos totalmente sem-noção, que, para piorar (ou melhorar) são falados a sério.

A cena campeã nesse quesito é aquela em que o herói Matt se aproxima de um vilão moribundo e pergunta: "Você quer ser enterrado ou cremado?". Como últimas palavras, o sujeito murmura: "Enterrado". Sem nem esperar o cara morrer direito, Matt atira seu corpo para dentro de um carro e explode o veículo a tiros. Olhando para as chamas, grita: "Você foi cremado, seu filho da puta!".


Por essas e por outras, O JOGADOR até mantém a atenção. Embora seja um dos filmes melhorzinhos que Steven Seagal fez de dez anos para cá, ainda assim é fraco e cheio de defeitos, principalmente os "tempos-mortos dramáticos" arruinados pela incapacidade do ex-astro de atuar.

Ah, e não se espante com o nome de Lance Henriksen nos créditos, pois ele faz uma participação meramente decorativa e não aparece em cena nem cinco minutos. Outro que aparece no esquema "piscou, perdeu" é o astro de quinta categoria Matt Salinger, que no passado foi o Capitão América naquele filme sofrível do Albert Pyun (e aqui interpreta a banca no jogo de pôquer do início).


Talvez eu possa recomendar O JOGADOR como um filme para você ver com seu pai fã do Domingo Maior. Ele é até capaz de ficar entretido com os (poucos) tiroteios e pancadarias, afinal já viu coisa bem pior, enquanto você vai no mínimo dar umas boas gargalhadas com a "atuação" de Seagal e com os diálogos bisonhos de J.D. Zeik.

E se O JOGADOR não funcionou como tentativa de reinventar a imagem de Seagal, e quem sabe resgatar sua carreira do fundo do poço, depois dele o "ator" começou a atirar para todos os lados: fez piada com a própria imagem num trailer falso da comédia "The Onion Movie", lutou contra vampiros em "Escuridão Mortal", fez um ex-mafioso russo (!!!) em "Conduzido para Matar" (espécie de "Senhores do Crime" da Cannon Films, e um belo filme, quem diria...) e uma marcante e hilária participação como vilão em "Machete", de Robert Rodriguez.


É esperar para ver o que todas essas doideiras vão trazer ao ator: um pouquinho de glória ou o fim definitivo do que restou da sua "carreira"? De todo jeito, se continuar assim, Seagal tem papel certo num futuro remake de "Free Willy"...

Mas bem que os roteiristas dos novos filmes do "ator" poderiam explorar melhor a questão da idade e da gordura de Seagal, escrevendo-lhe personagens mais complexos, com limitações e defeitos (como Stallone em "Rocky Balboa", por exemplo), talvez até dificuldades para lutar.

Afinal, não dá mais para engolir uma baleia assassina matando suas vítimas fora da água.

Trailer de O JOGADOR


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O Jogador (Pistol Whipped, 2008, EUA)
Direção: Roel Reiné
Elenco: Steven Seagal, Bernie McInerney, Antoni
Corone, Paul Calderon, Lance Henriksen, Renee
Goldsberry e Mark Elliot Wilson.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

JUSTIÇA URBANA (2007)


Há um bom motivo para ir atrás de JUSTIÇA URBANA, um dos filmes mais passáveis da filmografia recente de Steven Seagal: com algumas pequenas mudanças aqui e ali, esta produção é uma refilmagem disfarçada - e bem mais comedida, claro - de "Desejo de Matar 3", apenas trocando um velho e acabado Charles Bronson por um gordo e acabado Steven Seagal. O resto é tudo igual. Irresistível, não?

Só para constar nos autos, essa é a terceira e última resenha resgatada do meu aposentado Multiply, e publicada originalmente em outubro de 2008. Outra vez, mudei e adaptei quase tudo aqui para a nossa MARATONA STEVEN SEAGAL.


Bom, quem está acompanhando a Maratona deve ter percebido que já virou clichê dizer que o ex-astro Seagal afundou sua carreira, que está gordo que nem um porco, que interpreta sempre o mesmo personagem, bla bla bla. Portanto, vou poupá-los desta lenga-lenga - até porque acho que já usei todas as piadinhas sobre a gordura do Seagal.

Vamos direto ao assunto, que é o que vale: o Steven Seagal de JUSTIÇA URBANA é o mesmo Steven Seagal filha-da-puta e furioso de clássicos dos anos 80-90, como "Fúria Mortal" e "Marcado para a Morte".

Aquele Seagal desgraçado que dá porrada em quem vem pela frente ao invés de fazer discursos medíocres sobre ecologia e paz mundial; aquele Seagal que quebra braços e narizes como se esta fosse a sua forma normal de dialogar; aquele Seagal que não precisa de dublês nas lutas e nem de cenas retiradas de outros filmes e encaixadas na edição; enfim, aquele Seagal que mata a sangue-frio e acha que "bandido bom é bandido morto".


Talvez o ex-astro estivesse se recuperando da sua traumática colaboração com a Millenium Films, que rendeu-lhe alguns dos piores filmes de sua carreira ("Determinado a Matar", "Hoje Você Morre" e "Mercenário").

Após o fim do contrato com aquela produtora (em "Mercenário"), ele pulou de cabeça em três produções baratíssimas rodadas em Bucareste, na Romênia (!!!): respectivamente "O Homem Sombra", "Força de Ataque" e "O Vôo da Fúria" (todas filmadas em 2006).

Voltando para os Estados Unidos, reencontrou-se com o diretor Don E. FauntLeRoy, responsável por alguns de seus piores filmes ("Hoje Você Morre" e "Mercenário"), e aparentemente lhe deu outra chance ao invés de quebrar seu braço em "agradecimento". A surpresa é que dessa vez o trabalho dos dois funciona, talvez por estarem longe do pessoal da Millenium Films!


JUSTIÇA URBANA é uma produção barata e nada hollywoodiana; logo, passa longe daqueles roteiros "socialmente engajados". E ao contrário de outros filmes que Seagal fez no período, este não é repleto de escaramuças, traições e reviravoltas, como se o roteiro tivesse sido escrito por John LeCarré.

Trata-se, isso sim, da simples e boa trama de vingança, e amém. Ainda quer continuar? Então vamos adiante.

Nossa história começa com um daqueles policiais honestos e incorruptíveis típicos do cinema de ação norte-americano. Ele se chama Max Ballister (Cory Hart), e acaba futricando onde não deve quando, num dia de tocaia, flagra colegas corruptos negociando com traficantes de drogas.


Sem pensar duas vezes, Max fotografa os policiais sujos, mas, antes que possa entregar as fotos à corregedoria, é convocado para uma missão noturna num bairro barra-pesada e baleado à traição, morrendo bem no meio da rua. Queima de arquivo, lógico.

Ficaria por isso mesmo, se fosse no Brasil (como vimos em "Tropa de Elite 2"). Mas, para o azar dos tiras corruptos, o finado Max era filho de um ex-soldado das forças especiais, Simon Ballister (Seagal, obviamente). No funeral do filho, Simon promete à sua ex-esposa que vai encontrar o assassino de Max e dar um jeitinho nele. Olho por olho, dente por dente.


A primeira parada de Simon é a delegacia onde o finado trabalhava. Ali, nosso herói encontra o responsável pela investigação, o detetive Frank Shaw (Kirk B.R. Woller, que trabalhou com Spielberg em "A.I" e "Minority Report"). Para Shaw, Max foi morto por uma bala perdida numa guerra de gangues, já que o bairro onde aconteceu a tragédia é dominado por duas violentas quadrilhas de traficantes de drogas.

Ainda sem suspeitar que há sujeira na jogada, Simon decide que a única forma de encontrar o culpado é fazer como Charles Bronson em "Desejo de Matar 3": mudar-se para o bairro violento onde o filho morreu, ficar morando lá por uns dias e enfrentar a bandidagem na cara-dura até encontrar os responsáveis.

Das duas quadrilhas que lutam pelo domínio do bairro, uma é formada por latinos e chefiada por El Chivo (Danny Trejo!!!); a outra é formada por negros e liderada por Armand Tucker (o comediante Eddie Griffin), que é apaixonado por "Scarface" e passa o tempo todo citando frases e cenas do filme de Brian DePalma, numa piada já fraquinha que logo perde a graça.


Simon muda-se para um pulgueiro administrado pela bonitinha Alice Park (Carmen Serano; e como são bonitas as mulheres latinas!). Logo na chegada, é obrigado a quebrar os ossos do "comitê de boas-vindas" enviado por uma das gangues.

Aos poucos, ele vai comprando briga com os dois grupos, surrando seus integrantes até começar uma guerra particular. Quando o próprio El Chivo garante não ter nada a ver com a bronca, Simon intensifica a pressão sobre a quadrilha de Tucker, e descobre que os negros estão associados ao tal grupo de policiais corruptos, chefiado por ninguém menos que o detetive Shaw!


Escrito por Gilmar Fortis II e Gil Fuentes (nunca vou entender porque roteiros rasos como este precisam de dois autores...), JUSTIÇA URBANA não faz feio no quesito ação. A não ser, lógico, que você procure algo diferente de um filme direto para locadora.

Com uma trama descomplicada, muita pancadaria e sangrentos tiroteios (cada tiro resulta num exagerado esguicho de litros de sangue do corpo da vítima), o filme na verdade é surpreendentemente divertido, ainda mais para quem não esperava coisa alguma depois dos péssimos "Hoje Você Morre" e "Mercenário".


O próprio Seagal parece estar se divertindo muito no papel. Destaque para a cena em que Tucker aponta uma pistola para o desarmado Simon e diz: "Então você é o filho da puta que vem dando socos numa briga de armas?". Após arrancar o revólver das mãos do bandido, com um golpe rápido como um raio, o herói aponta a arma para seu antagonista e responde: "Sim, sou eu".

Claro, falta muito para chegar no mesmo nível "cult" do hoje clássico "Desejo de Matar 3", mesmo que as histórias dos dois filmes sejam bem semelhantes. A maior falha do filme de FauntLeRoy é levar tudo a sério demais, coisa que Winner não fazia naquela aventura maluca estrelada por Bronson.


Seria melhor ter partido logo para o exagero e colocar Seagal metralhando os delinqüentes sem dó nem piedade. Mas, pelo contrário, o roteiro aqui gasta um tempão mostrando a investigação de Simon pelos verdadeiros culpados do assassinato do filho, ao invés de simplesmente botar o herói para pipocar todos os marginais que lhe cruzam o caminho.

Uma diferença bem politicamente incorreta: ao contrário do velho Paul Kersey naquele clássico dos anos 80, o personagem de Seagal tem um rígido código de conduta em relação aos bandidos. Uma das diretrizes é não matá-los sem um bom motivo e nem estragar seu "negócio"; tudo que ele quer é chegar ao assassino do filho.


Ou seja, desde que os caras não tenham matado o rapaz, eles estão livres para continuar ameaçando inocentes e vendendo drogas para crianças! Porque em JUSTIÇA URBANA Seagal não é um homem da lei e nem o amigão da vizinhança, apenas um pai louco por justiça.

Quando descobre que o verdadeiro culpado é Shaw e seus policiais corruptos, por exemplo, o "herói" libera tanto El Chivo quanto Tucker de receberem o merecido castigo por serem maus meninos!

É claro que eu preferia ver o herói dizimando os dois lados do confronto, à la Justiceiro (o bairro, pelo menos, ficaria mais seguro). Mas confesso que achei bastante divertida (e corajosa) essa ideia de não se meter com a bandidagem a não ser quando provocado.


E se "Desejo de Matar 3" tinha cenas de ação que não convenciam, devido à idade avançada de Bronson, JUSTIÇA URBANA surpreende ao mostrar um Seagal gordo, mas ao mesmo tempo ainda rápido e mortal.

Acredite se quiser: o homem convence nas cenas de luta, distribuindo chutes altos (algo que não fazia há séculos) e socos a granel. E aqui é ele mesmo, e não um dublê lutando, como você pode ver na foto abaixo. Sobra até para quem não tem nada a ver com a história, tipo o grupo de skinheads que cai de pára-quedas no filme apenas para render mais uma cena de quebra-pau.


Às vezes o filme nega fogo, como numa longa e nada interessante perseguição automobilística pessimamente filmada e editada. E Seagal e Danny Trejo não lutam, apenas conversam, algo meio estranho depois que se assiste "Machete".

Mas estes probleminhas são compensados no tiroteio final, em que Ballister mata mais da metade do elenco, e até demonstra sua fúria descarregando o pente inteiro do revólver em alguns deles (lembrando os velhos filmes de John Woo, que devem ter sido a inspiração do diretor FauntLeRoy)!


Portanto, sem pensar duas vezes, eu diria que JUSTIÇA URBANA é o mais perto de um bom filme de Steven Seagal que vi da safra recente do Free Willy com rabinho-de-cavalo. Tanto que foi cogitado o seu lançamento nos cinemas, o que só não se concretizou pela falta de verba da produtora (o último filme estrelado pelo ex-astro exibido na tela grande foi "No Corredor da Morte", em 2002).

Mas talvez seja melhor assim, porque JUSTIÇA URBANA é aquele típico filme de locadora ou de Domingo Maior, para ver sem grandes pretensões e esquecer tudo horas depois. Aliás, sobre que filme eu estava escrevendo mesmo???

Trailer de JUSTIÇA URBANA



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Justiça Urbana (Urban Justice, 2007, EUA)
Direção: Don E. FauntLeRoy
Elenco: Steven Seagal, Eddie Griffin, Carmen
Serano, Cory Hart, Liezl Carstens, Kirk B.R.
Woller e Danny Trejo.