sexta-feira, 12 de agosto de 2011

PAULA-PAULA (2010)


Já fazia algum tempo que eu estava devendo um texto sobre uma obra de Jess Franco, o mítico cineasta espanhol que já dirigiu mais de 200 filmes (o IMDB registra "apenas" 192, mas o próprio Franco jura que foram 209 até o momento em que publico este texto). Nada mais justo, portanto, do que introduzir (ui!) Jess Franco no FILMES PARA DOIDOS com seu filme mais recente, o esquisitíssimo PAULA-PAULA.

Quem conhece um mínimo sobre a carreira do cineasta sabe que ele adorava produzir filmes baratos e rápidos, chegando a fazer 10 num único ano (!!!). Em alguns deles, filmava meia dúzia de cenas para ter uma "historinha" e depois deixava atores e atrizes pelados ou transando no restante do tempo.

PAULA-PAULA é apresentado com o subtítulo "Una experiencia audiovisual de Jess Franco", o que significa que o octagenário cineasta resolveu esquecer as convenções narrativas e partiu para a "experimentação" pura e simples. Portanto, não espere uma história com começo, meio e fim (embora muitos trabalhos de Franco no passado também fugissem a essa regrinha).


O filme começa com Paula (a bela Carmen Montes), uma stripper espanhola, sendo interrogada por uma veterana policial interpretada por Lina Romay, esposa e musa do diretor. A garota conta que assassinou uma colega do night club em que trabalhava, e que também se chamava Paula, mas a polícia não dá muita bola para ela, tratando-a como louca (o que, aparentemente, ela é).

Essa é uma das únicas cenas com diálogos, e dura uns três minutos na introdução. A partir daí, PAULA-PAULA se transforma num imenso videoclipe que se divide entre trechos da garota dançando nua intercalados com imagens lisérgicas da outra Paula ("interpretada" por Paula Davis), aquela que supostamente foi assassinada, vestida com trajes de dança-do-ventre e rebolando em câmera lenta diante de um painel de papel-alumínio.


A montagem fica pulando de uma Paula para outra, em cenas cada vez mais surreais, até que finalmente ambas se encontram e começa uma longa (literalmente) transa lésbica em super-câmera lenta, sem pressa, com incontáveis beijos antes de as duas partirem para o rala-e-rola. Só esse "momento romântico" ocupa meia hora (!!!) da "narrativa".

Finalmente, no que parece ser a "conclusão" da trama, uma das Paulas mata a outra degolada, e um letreiro anuncia: "E nunca mais se ouviu falar de um show de Paula-Paula". The end.


Qualquer pessoa que por ventura queira assistir PAULA-PAULA como um filme convencional vai quebrar a cara. Eu já tinha sido alertado sobre isso antes de colocar o DVD para rodar e já esperava a doideira que vinha pela frente, senão provavelmente ficaria muito puto. O próprio Jess aparece na introdução dizendo que este é "um dos dois ou três filmes mais estranhos" que ele fez na vida.

E é claro que não dá para esperar muito do 209º filme (!!!) de um cineasta de 80 anos cuja carreira foi justamente marcada pelo improviso e muitas vezes pela picaretagem. Se com 103 anos de idade o respeitado diretor português Manoel de Oliveira continua filmando, e fazendo filmes cada vez mais chatos, por que Franco não pode?


PAULA-PAULA tem apenas 66 minutos de duração, tempo mais do que suficiente para Jess aprontar das suas maluquices. Embora os créditos iniciais tragam a informação de que o "roteiro" é baseado em "O Médico e o Monstro", não há nada sequer parecido com o livro de Robert Louis Stevenson. A não ser que algum cinéfilo com muita boa vontade encare a relação entre as duas Paulas como uma metáfora para o "Jekyll e Hyde" que todos temos dentro de nós.

(Eu, particularmente, só vi duas gostosas peladas rebolando e se comendo, mas fiquem livres para viajar como quiserem na "história".)

Menos um filme e mais uma espécie de "vídeo-arte erótica", PAULA-PAULA parece ter sido filmado em algumas horas e no interior do apartamento do próprio diretor (estantes com livros e caixas empilhadas aparecem no fundo de algumas cenas, bem como o tripé e a iluminação, comprovando que Franco não estava muito preocupado com "burocracias técnicas"). Deve ter custado uma mixaria, foi gravado em vídeo digital e editado às pressas.


O filme todo parece ser uma desculpa do diretor para usar uma fantástica trilha inédita de jazz do pianista austríaco Friedrich Gulda. Ele compôs a música de um dos antigos trabalhos de Franco (o fantástico "Necronomicon", de 1968), e os dois continuaram amigos até a morte do músico, em janeiro de 2000. Foi um filho de Gulda que entregou a Franco o disco com a música original e ainda não-utilizada do pai, que toca durante os 66 minutos de PAULA-PAULA.

E assim, como um enorme videoclipe, as cenas se arrastam ao som da belíssima música de Gulda. Como aparentemente não tem material suficiente, Franco usa e abusa de câmera lentíssima para que as imagens "caibam" na trilha. Também se dá ao direito de brincar com os efeitos da edição por computador, adicionando, por exemplo, a imagem duplicada de espelho nas cenas em que a Paula loira dança.


Esse tipo de doideira, somada à música doidona e à ausência de narrativa, personagens ou diálogos, fazem de PAULA-PAULA uma autêntica viagem audiovisual, que poderia muito bem ser exibida em exposições de arte moderna ou bares de jazz. Mas também é um negócio perfeito para ver em casa chapado: apenas escolha seu entorpecente preferido e prepare-se para a loucura.

Confesso que em alguns momentos eu prestei mais atenção na trilha sonora do que nas imagens. Até porque, lá pelas tantas, estas começam a ficar repetitivas ou enfadonhas (principalmente os intermináveis beijos entre as duas Paulas na sua transa de meia hora em câmera lenta). Mas as mulheres são belas e valem o espetáculo.


O show é todo de Carmen Montes (acima), uma bela espanholinha que aparece completamente pelada desde os primeiros minutos do filme. Ela deve ser a nova musa do cineasta, já que tem sete filmes no currículo e seis dele são dirigidos por Franco, numa parceria que começou com "Killer Barbys vs. Dracula", em 2005.


A outra Paula, a loira Paula Davis (acima; esse é seu primeiro e único filme), chama a atenção por fugir daqueles padrões de beleza da mídia e do marketing: é mais cheinha, não exatamente gordinha, mas peituda, coxuda e bunduda. Ela dança vestida a maior parte do tempo, mas no final finalmente fica peladona para o rala-e-rola lésbico com Carmen, quando o espectador pode apreciar melhor seus "dotes".

Já Lina Romay não tem muito tempo para fazer coisa alguma e aparece mais como participação especial, ao lado do jovem produtor Alberto Sedano. Juntos, os três (Franco, Lina e Sedano) são responsáveis por toda a parte técnica do filme (câmera, edição, maquiagem, iluminação e até "efeitos especiais"), comprovando que ele deve ter sido gravado num único dia, no improviso e a preço de banana.


PAULA-PAULA me deixou curioso sobre os futuros trabalhos de Jess Franco. Se antes ele já fazia dez filmes por ano, imagine o que poderá aprontar agora, com as facilidades do vídeo digital e da edição por computador?

Esse filme até dá uma idéia das possibilidades da tecnologia nas mãos do diretor, pois tem uma equipe técnica mínima (com apenas 6 pessoas envolvidas!) e no máximo 20 minutos de cenas repetidas ou esticadas pela câmera lenta para fechar o tempo de um longa. Safado como é, Franco poderia fazer uns 20 trabalhos parecidos por mês, até que os produtores fiquem de saco cheio e implorem para que ele tente dirigir outra coisa!

Obviamente, PAULA-PAULA não é para todos os públicos. É preciso comprar a proposta antes de encarar a viagem, caso contrário você dificilmente passará dos cinco minutos iniciais. Mas, sabendo que é um grande clipão com duas gatas peladas dançando ao som de jazz, relaxe no sofá com sua bebida alcoólica preferida ou baseadinho, e relaxe com a "experiência audiovisual de Jess Franco".


Até porque o filme é muito mais prazeroso que qualquer vídeo-arte ou vídeo-instalação. Afinal, não foi feito para ganhar prêmios em festivais de filmes-cabeça, nem para discutir o sentido da vida, e sim para puro e simples consumo pornográfico.

Doideira por doideira, também é muito mais apreciável em seu erotismo sem frescura e menos chato do que os últimos filmes do David Lynch.

Continue pelando a mulherada, Jess!

PS: Para quem procura uma leitura mais "filosófica" e "metafórica" de PAULA-PAULA, deixo essa resenha em português como sugestão. Confesso que a interpretação feita tem certa lógica, mas, como já disse, tudo que eu vi foram duas gatinhas peladas dançando, e isso já me bastou (não fiquei procurando muito sentido na putaria)!

Trailer (?) de PAULA-PAULA


Trailer provided by Video Detective


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Paula-Paula (2000, Espanha)
Direção: Jess Franco
Elenco: Carmen Montes, Paula Davis e Lina Romay.

4 comentários:

Anônimo disse...

Pelo jeito consegue ser mais divertido que qualquer blockbuster em 3D da atualidade.

Oficial de Ciências disse...

Já tem um tempo que acompanho o blog, e muitas vezes tenho vontade de ver vários dos filmes que são listados aqui mas quase nunca os encontro, o que é um problema. Mas enfim, o caso que me passa agora é: como estes diretores sobrevivem ao mesmo tempo que filmam estes filmes. Ou, de onde sai (ainda que a merreca) para se filmar estes filmes de baixo orçamento? Isso aguça minha curiosidade pois sou escritor hobbista, e tenho um primo fascinado por cinema, acontece que nunca que consigo visualizar, por exemplo, conseguir viver de escrever ou ele de fazer curtas ou algo do tipo.

Anônimo disse...

seria ótimo se tivesse links para baixar e/ou assistir os filmes.

Felipe M. Guerra disse...

Querido ANÔNIMO, meu objetivo com esse blog é apenas escrever sobre os filmes, não incentivar a baixação/pirataria. Além do mais, é tão fácil encontrar qualquer filme na internet hoje, e em um montão de outros sites, que prefiro ficar apenas nas resenhas mesmo. Grande abraço!