sexta-feira, 10 de junho de 2011

WET WILDERNESS (1976)


Até a década de 1960, filmes sensacionalistas sobre sexo (os famosos "sexploitation") limitavam-se a produções baratas e quase inofensivas com mulheres nuas e cenas implícitas, até bem comportadas. Eram os chamados "nudies". Porém, já a partir da metade desta década - em grande parte por causa da sensação "the dream is over" provocada por desgraceiras como a Guerra do Vietnã -, os nudies deram lugar aos "roughies", filmes mais sérios e pesados que mostravam, sem pudor, cenas de violência contra mulheres, geralmente envolvendo sequestro, estupro e assassinato.

Diretores famosos como Russ Meyer, Herschell Gordon Lewis e Wes Craven dirigiram seus próprios roughies - respectivamente "Lorna" (1964), "Scum of the Earth" (1963) e "Aniversário Macabro/Last House on the Left" (1972) -, e a partir dos anos 70 começariam a surgir as primeiras obras explícitas nessa linha, como "Forced Entry" (1973) e "Hot Summer in the City" (1976), ambos pornôs sobre estupros e estupradores, sendo que este último supostamente é o filme pornográfico preferido de um tal de Quentin Tarantino...


Produzidos para platéias de depravados interessados em temas moralmente discutíveis, os roughies eram tão baratos e mal-feitos (geralmente filmados às pressas e de forma amadora) que hoje não chocam mais nem a vovó; pelo contrário, podem ser vistos como comédias involuntárias, retratos de uma década marcada pelo exagero e pelo sensacionalismo.

Uma bela introdução (ui!) ao subgênero é WET WILDERNESS (em português literal, algo como "Lugar ermo molhado"!!!), um pornô bagaceira que até meses atrás eu nem sabia que existia, mas me foi fortemente recomendado pela leitora assídua e fã de filmes de sacanagem Daniela Monteiro - que o considera um dos seus cult movies e já reviu infinitas vezes, a ponto de saber os diálogos de cor.


Sabe-se lá se algum dia WET WILDERNESS chocou alguém, mas hoje a abordagem sensacionalista do filme e a tosquice geral da produção mais provocam risos do que náuseas. Curto e grosso, o "roteiro" conta a "história" de uma família que vai passar as férias num bosque isolado da civilização e topa com um psicopata mascarado armado com um enorme machete (e com insaciável apetite sexual, lógico).

Parece até coisa séria, e se vocês virem o trailer produzido recentemente para o relançamento da obra em DVD (na janelinha no fim da resenha), podem até ser enganados e pensar que é um terrorzão pesado. Mas não é: o amadorismo e a falta de recursos permeia cada fotograma, e é impossível não rolar de rir em toda e qualquer cena que supostamente deveria ser chocante.


WET WILDERNESS começa com créditos ao som da trilha sonora chupada de "Psicose", de Alfred Hitchcock (e tenho certeza que o mestre ADOROU a homenagem). Misteriosamente, a música fica "pulando" como se o disco estivesse riscado...

Em seguida, vemos a tal família chegando ao bosque - família que na verdade se resume a um grupo de anônimos manés olhando deslumbrados ao redor e recitando diálogos decoradinhos como "Olhe como é lindo! Olhe todas essas árvores!".


A filha e sua amiga (não tem como saber quem é quem, já que os créditos não identificam os personagens) vão dar uma voltinha no bosque e uma começa a tirar fotos desinibidas da outra (leia-se: sem roupa). E daí para rolar um rósqui-fósqui entre as moças é um pulo.

(Por sinal, a amiga da filha tem um cabelo black power tão imenso que parece esconder um universo paralelo, à la "Homens de Preto". E seu suvaco é tão peludo que pode até ser confundido com uma segunda vagina!)


Enquanto as moças curtem um sexo oral bem tímido (umas lambidinhas inofensivas), surge nosso vilão armado de facão, com uma máscara de esqui amarela onde lê-se, ironicamente, a palavra "love" escrita na testa! Ele ameaça as moças com seu fálico machete e "força" ambas a fazerem sexo oral com ele. Forçar está entre aspas porque logo fica bem claro que elas estão curtindo muito tudo aquilo...

(Mais um parêntese: os efeitos sonoros da chupação são tão exagerados que lembram as onomatopéias dos quadrinhos da Disney, tipo SLURP! Devem ter gravado uma menininha chupando picolé para dublar os boquetes...)

A filha foge enquanto o psicopata enraba sua amiga black power. Para se vingar, o vilão diz à pobre amiguinha: "Tenho uma surpresa para você. Deite e feche os olhos". E não é que a garota obedece? Pimba! Toma uma faconada na barriga pra aprender a não ser besta - e o "efeito especial" é tão obviamente feito com um facão serrado no meio que até meus filmes caseiros parecem mais realistas nesse quesito!


Quando a filha reencontra o resto da família (mãe e irmão), explica o acontecido e eles tentam escapar. Mas o vilão volta a aparecer e força todo mundo a comer todo mundo. Detalhe: quando a garota revê o estuprador, solta um nada emocionado "Not again...", ou "De novo não", como se tivesse pisado pela segunda vez em cocô de cachorro, e não encontrado pela segunda vez um perigoso assassino estuprador!!!

Nosso vilão mascarado "obriga" a mamãe a chupar seu pinto e ordena que a irmã faça o mesmo com o irmão - "Crianças aprendem com as mães", sugere. Depois, "obriga" (sempre entre aspas porque ninguém parece muito contra a vontade ali) a mãe a chupar o filho, e é de doer a barriga de rir o momento em que a mulher dá uma olhada para o pau do rapaz e lamenta com um "Sorry, son" antes de cair de boca com gosto!


Um salto absurdo na edição leva o espectador a imaginar que o vilão matou o filho enquanto mãe e filha fugiram. De qualquer jeito, elas encontram um sujeito anônimo amarrado numa árvore (negro, para justificar alguns comentários racistas). Tentam ajudá-lo, mas logo o vilão aparece pela terceira vez e força as duas mulheres a transar com o prisioneiro, antes de matá-lo a machadadas!

Por fim, nosso "estuprador" tenta completar o serviço com mãe e filha. Mas, enquanto a coroa cai de boca no malvado, a filha aproveita um momento de distração dele para fazer o que devia ter feito ainda na primeira cena, lá no começo do filme: pega o machete que o sujeito deixou esquecido de lado e...

O FILME TERMINA! Com um "The End" tosco e mais nada, deixando subentendido que a garota salvou a mãe matando ou capando o perigoso estuprador. Ou será que, numa reviravolta inesperada, a garota matou a mãe e fugiu com o vilão mascarado, à la "Assassinos por Natureza"? Você decide!


Não pensem que estes saltos na edição e a ausência de cenas são opção estética ou narrativa dos realizadores: como muitos pornôs baratos do período, WET WILDERNESS foi feito para ser exibido em cinemas fuleiros e drive-ins, sem nenhuma pretensão de que um dia fosse relançado para o formato doméstico (videocassete ainda era novidade na época, imagine então DVD e blu-ray).

Assim, as poucas cópias desse tipo de obra ainda disponíveis geralmente encontram-se em péssimo estado, e muitas vezes com partes inteiras faltando porque os projecionistas dos cinemas daquele período costumavam cortar e guardar pedaços para suas "coleções particulares". Isso talvez explique a ausência de um final propriamente dito, e também a curta duração da obra (54 minutos).


WET WILDERNESS foi escrito e dirigido por um tal de Lee Cooper (o IMDB informa que este é seu terceiro e último filme). Hoje não dá pra saber ao certo quais eram as intenções do sujeito, mas como engolir uma obra supostamente séria em que as mulheres estupradas logo passam do choro e da lamentação para a imediata excitação, inclusive se masturbando enquanto são "violadas" pelo psicopata?

O filme também tenta provocar comoção através de cenas como a que o vilão obriga a irmã a fazer sexo oral no irmão, ou o filho a fazer sexo com a mãe. Mas qualquer tentativa de criar polêmica em cima de tabus como o incesto cai por terra quando o filho come a mãe com vontade, beija de língua e ainda goza nos peitos dela; ou quando a irmã lambe a porra do irmão depois da ejaculação - aham, parece mesmo que estão fazendo a coisa à força e contra a vontade...


O amadorismo também rola solto, com grosseiros erros de continuidade (tipo o lençol xadrez que se transforma em lençol preto entre os cortes de uma cena de trepada, como vocês podem conferir nas fotos acima) e uma falta de cuidado que parece proposital. Ao mostrar o cadáver do cara morto a machadadas, por exemplo, o diretor filma por tempo suficiente para que o "ator" respire e comece a se mexer, ao invés de cortar segundos antes!

Em outra cena hilária, mãe e filha fazem um ménage a trois "forçado" com o prisioneiro enquanto o vilão assiste. Pois as atrizes nem tentam fazer a menor cara de revolta ou comoção. Inclusive a filha assiste a mãe trepando enquanto despreocupadamente espanta algumas formigas que começam a subir pela sua perna! Estão tão à vontade que parece que são "estupradas" e "forçadas" a transar com desconhecidos uma vez por semana!!!


Outrora um roughie que, quem sabe, até chocou espectadores mais sensíveis, hoje WET WILDERNESS é indiscutivelmente uma engraçadíssima (embora bizarra) comédia involuntária. Óbvio que não para todos os públicos, mas não deixa de ser hilário imaginar uma sessão dessa podreira com os amigos, regada a cerveja ou substâncias ilícitas para "entrar no clima".

Não que assistir cenas de estupro, humilhação e incesto seja exatamente o meu ideal de diversão. Mas é que a coisa aqui é tão fuleira, tão exagerada, tão mal-feita - em suma, tão idiota! - que é impossível deixar de assistir e rir muito! E é exatamente isso que caracteriza este "clássico" como um autêntico "Filme para Doidos"...


PS 1: Alguns leitores contumazes devem ter percebido que volta-e-meia eu tenho aberto espaço para filmes pornográficos aqui no FILMES PARA DOIDOS. Não é que eu seja tarado e sedento por sacanagem (tá, eu sou, mas isso não vem ao caso). Acontece que as postagens mais acessadas do blog são justamente as de filmes de putaria, sendo que as três recordistas do momento são as de "48 Horas de Sexo Alucinante" (100.106 visualizações até o momento em que escrevo esta resenha), "O Império do Sexo Explícito" (72.532 visualizações) e "Coisas Eróticas" (60.002 visualizações). Sendo assim, para manter o ibope em alta, vou tentar falar de pelo menos um pornozão por mês. Mas é claro que tem que ser um "Pornô para Doidos"...

PS 2: Nenhum dos quatro atores creditados apareceu em outro filme além deste e da obra anterior do mesmo diretor. É compreensível, embora a gata peituda que interpreta a filha seja bem jeitosinha...

PS 3: Uma salva de palmas para a Daniela Monteiro por descobrir e divulgar essas podreiras. E ainda confessar, sem medo da possível humilhação em grupos de cinéfilos, que gosta MESMO do filme!

Trailer de WET WILDERNESS



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Wet Wilderness (1976, EUA)
Direção: Lee Cooper
Elenco: Daymon Gerard, Alice Hammer,
Faye Little e Raymond North.

8 comentários:

Pedro Henrique Gomes disse...

Eita, esse eu ainda preciso ver, Felipe.

Mas, hein, e o Entrei em Pânico...2? Tô só no aguardo. Já vi que vai ser no domingo, então poderei ver. Estarei lá pra cornetear!!!

Abs!

Vulnavia disse...

Não, Felipe, realmente não sobrou mais NADA para eu falar do filme. Você adora me boicotar viu!

E devia me agradecer também, se não fosse meu "entusiasmo"pela película e a minha ideia de fazer um "cena-a-cena" você não teria feito!

Huuuumpf!
te odeio!

Fernando disse...

Pelas fotos e pela tua resenha esse filme deve atingir ao máximo grau de tosquice.

Higor Rocha disse...

Ainda sonho com o dia que você fará uma resenha sobrwe o sueco (acho) Sweet movie....

Daniela Monteiro disse...

Agora um monte de tarado vai baixar essa pérola e achar que eu sou maluca, hahaha...

Daniela Monteiro disse...

Mas eu vou continuar gostando desta maravilha. =D

E obrigada pela dedicatória, moço. =)

Anônimo disse...

CAra, essa sua análise me fez morrer de rir e me deu vontade de assistir a essa obra prima candidata ao oscar de efeitos especiais....

continue assim , tá show de bola o blog, leio todo dia.


alien1rj@hotmail.com

Underbeatz disse...

Putz, queria uma resenha do ¨Hot Summer in the City"! Vlw o post!