terça-feira, 28 de dezembro de 2010

As últimas resenhas curtinhas para analfabetos funcionais de 2010

FOUR LIONS (2010, Inglaterra. Dir: Christopher Morris)
Os críticos medíocres que zombaram do italiano Roberto Benigni por ele "ter feito piada com o Holocausto" (no excelente "A Vida é Bela") provavelmente vão ter uma úlcera ao ver essa brilhante comédia inglesa - presença obrigatória em qualquer lista dos melhores de 2010. Mais ousado que Benigni, o diretor-roteirista estreante (em longas) Christopher Morris não tem medo de brincar com o fanatismo religioso. Esta comédia escrachada acompanha cinco jovens muçulmanos que têm, como grande projeto de vida, virar homens-bomba e dar sua contribuição na infinita guerra santa contra os "infiéis". O roteiro acompanha desde as trapalhadas de dois deles num campo de treinamento de terroristas no Paquistão até a preparação de um mirabolante plano para se explodirem durante a maratona de Londres. Mas é claro que tudo dá errado para os atrapalhados terroristas, em cenas que fazem o espectador rir de nervoso - porque na verdade tudo aquilo é terrivelmente trágico, ainda mais quando lembramos que homens-bomba são uma realidade no nosso mundo contemporâneo. Muitas das piadas ficam no campo da estupidez pura e simples, estilo "Debi & Lóide", graças ao personagem Waj (Kayvan Novak), um completo idiota que é facilmente manipulado pelo melhor amigo, mas não tem certeza sobre os benefícios de ir para os ares em nome de Alá. Só que o roteiro de Morris também enfatiza o humor negro e a crítica social, principalmente ao mostrar como os jovens homens-bomba estão dispostos a morrer por uma "causa" que nem compreendem direito, em nome de uma guerra estúpida que começou milhares de anos antes de eles nascerem. Quem paga o pato, além dos próprios "terroristas" que dão a vida de forma estúpida, são os inocentes explodidos apenas por serem "infiéis" - como demonstra a trágica conclusão do filme. Resumindo, "Four Lions" é uma obra que faz rir mas ao mesmo tempo faz pensar, e que tem coragem de abordar de maneira diferente uma realidade muito triste (algo no estilo "É rir para não chorar"). Altamente recomendado: não deixem 2010 terminar sem ter visto essa pérola. Ah, a piada com Bin Laden, no final, é a cereja do bolo!


CISNE NEGRO (Black Swan, 2010, EUA. Dir: Darren Aronofsky)
Se fosse para eleger um herdeiro do "estilo Stanley Kubrick de filmar" entre os cineastas contemporâneos, eu indicaria dois nomes: Paul Thomas Anderson e Darren Aronofsky. Os filmes de ambos são detalhistas, perfeccionistas, pensados em seus mínimos detalhes - e, na obra de ambos, um filme é completamente diferente do anterior. Sendo assim, "Cisne Negro" é o "O Iluminado" de Aronofsky. Menos uma história de terror convencional - embora tenha seus momentos tétricos e assustadores -, e mais uma análise sobre o comportamento humano. Quanto menos se souber sobre a história, melhor. Assista apenas sabendo que é uma trama ambientada durante os ensaios de uma adaptação do ballet "O Cisne Negro", e que a dançarina escolhida para o papel-título começa a sofrer alucinações como se estivesse vivendo uma "versão real" do espetáculo. O fato de a história ser ambientada no mundo da dança levou muitos críticos "profissionais" a compararem "Cisne Negro" com "Suspiria", de Dario Argento, mas os dois filmes não têm absolutamente nada em comum além das sapatilhas das dançarinas. Aronofsky dirige seu filme como se estivesse dirigindo um ballet: ele é detalhista como o diretor do espetáculo (vivido pelo excelente Vincent Cassel), compondo quadros belíssimos; a própria evolução da história (e a "transformação" da protagonista) parecem seguir a estrutura de um espetáculo musical, embaladas pela belíssima trilha sonora de Clint Mansell. O diretor também arranca interpretações iluminadas de todo seu elenco - mesmo da protagonista Natalie Portman, para quem eu geralmente torço o nariz. E embora "Cisne Negro" não seja o meu filme preferido do diretor, é uma daquelas obras que custam a sair da cabeça, e em cujas cenas você fica pensando por dias a fio. Já está bom demais, nesses tempos de cinema pasteurizado (ou "Avatarizado").


MONSTROS MARINHOS (Mega Shark vs Giant Octopus, 2009, EUA. Dir: Jack Perez)
É fácil fazer um filme ruim, mas muito difícil fazer um "bom filme ruim". Essa bomba da produtora The Asylum é a prova disso. Tudo bem, não dá para esperar nada de um filme cujo título original é "Mega Tubarão contra Polvo Gigante". Mas, como fã de trash movies, no mínimo eu esperava me divertir com tamanha estupidez. Não foi o que aconteceu: os animais do título aparecem dois ou três minutos o filme inteiro (se chega a isso), e o combate anunciado dura uns 20 segundos. Tudo com aquela péssima qualidade de computação gráfica que já é a marca registrada da produtora picareta (responsável por cópias bagaceiras de blockbusters de Hollywood, como "Transmorphers"). Podia ser divertido? Podia. Mas não é. As raras cenas engraçadas - como o tubarão gigante "voando" para abocanhar um avião - são rápidas e separadas por 20 minutos de blablabla e asneiras diversas. E como os monstros gigantes quase não aparecem, o filme fica ancorado em seus protagonistas humanos, que não têm cenas suficientemente divertidas para manter o interesse (que saudade da ruindade inocente dos filmes do Ed Wood!). E por mais que seja engraçado ver os protagonistas Deborah Gibson e Lorenzo Lamas com cara de "O que eu estou fazendo aqui? Preciso demitir meu agente", eles nem ao menos são famosos o suficiente para valer a piada (diferente, por exemplo, de Bruce Davison, que apareceu em outra bomba da The Asylum, "Titanic 2"). Às vezes até parece que os caras estão levando o filme mais a sério do que deveriam, ao invés de avacalhar geral. Por isso, acredito que "Monstros Marinhos" ficaria muito melhor como um curta bagaceiro, ou trailer falso estilo "Grindhouse", do que como o longa chato que é. O que não impediu os produtores de fazer uma espécie de continuação, "Mega Shark vs Crocosaurus" (!!!), dirigido pelo filho do Fred Olen Ray (!!!), e que promete ser tão pavoroso quanto o original - dessa vez com um crocodilo gigante no lugar do polvo gigante.


TRON - O LEGADO (Tron Legacy, 2010, EUA. Dir: Joseph Kosinski)
No começo de "Tron Legacy", quando a megacorporação Encom está prestes a lançar seu novo software, o executivo Alan Bradley (interpretado por Bruce Boxleitner) pergunta o que a nova edição do programa tem de diferente para justificar o preço tão caro, e o CEO da empresa responde simplesmente: "O número na caixa". É exatamente isso que "Tron Legacy" tem de diferente do "Tron" de 1982: uma palavra a mais no título. De resto, é a mesma coisa maquiada com efeitos especiais de ponta, mas ainda assim a mesma coisa (a mesma corrida de "lightcycles", as mesmas lutas com discos, o mesmo visual "neon"...). O que mais desanima é o fato de que o original, com todos os seus defeitos, era um filme visionário, antecipando várias coisas que viriam depois (inclusive a própria escalada do CGI no cinema). Inúmeras mudanças tecnológicas aconteceram nesses 30 anos que separam o antigo do novo, e mesmo assim esse segundo filme parece não ter nenhum assunto novo para abordar, preferindo fazer um repeteco do primeiro com mais dinheiro e tecnologia. É uma pena, porque essa continuação começa muito bem, e com carinhosa fidelidade ao original (aparece até um jovem filho de Dillinger, o vilão interpretado por David Warner no filme de 1982). Eu até estava achando o máximo ANTES do protagonista entrar no mundo digital. Aí é que o filme vai para as cucuias: se "Tron" era um Windows 3.1, "Tron Legacy" é um Windows 7, visualmente mais bonito e bem-feito, mas na essência a mesma coisa enfeitada. Eu nem esperava uma história fabulosa, coisa que o primeiro filme também não tinha, mas pelo menos algo de NOVO. Não há, e "Tron Legacy" ainda se torna extremamente cansativo da metade para o final. Sem falar que destrói de maneira criminosa dois ícones do original, o herói Tron e o protagonista vivido por Jeff Bridges. Tudo bem, é curioso ver uma sequência feita 30 anos depois do original. Mas, no caso de "Tron Legacy", também frustrante, considerando que tinham três décadas para escrever algo novo e no fim apenas modernizaram o filme antigo!


BUSCA SANGRENTA (Red Hill, 2010, Austrália. Dir: Patrick Hughes)
Surpreendente esse faroeste contemporâneo com ecos de John Carpenter - e que me deixou imaginando como "Jonah Hex" ficaria um filmaço nas mãos desse diretor australiano. O filme começa meio "Assalto à 13ª DP", com um jovem policial sendo transferido para uma pequenina delegacia de uma cidade do interior australiano - daquele tipo onde não acontece nada e a ocorrência mais violenta é a morte de um boi. Para seu azar, entretanto, o rapaz encara, já no primeiro dia de trabalho, a ameaça de um perigosíssimo fugitivo da cadeia que segue rumo à cidadezinha, onde tem contas a acertar com o xerife que o prendeu. A maneira como o filme apresenta e trabalha o "vilão", chamado Jimmy Conway, é fantástica: o tempo inteiro ele é temido pelos homens da cidadezinha como se fosse o verdadeiro mal encarnado ("Halloween"?), e seu ataque é silencioso e preciso, matando um por um os inúmeros homens armados deixados pelo xerife para vigiar a entrada da cidade. Para deixar a coisa ainda mais no terreno do cinema de horror, o vilão também tem o rosto parcialmente deformado (Jonah Hex?). Aos poucos, a coisa se encaminha para um confronto entre o policial novato e o implacável assassino, mas há uma reviravolta no último ato que muda completamente o papel dos personagens. Diretor estreante, Patrick Hughes demonstra total controle sobre seu filme, principalmente na criação de suspense e tensão quando a ameaça de Jimmy Conway se aproxima da cidade - o espectador fica tão apreensivo quanto os personagens. O pique cai um pouco na metade, com a insistência do vilão em não matar o jovem policial quando tem chance (algo que fica explicado no final), mas a conclusão é eletrizante. Méritos, ainda, para a trilha sonora "de bangue-bangue" e para a fantástica fotografia do interior da Austrália, remetendo aos antigos filmes de Russell Mulcahy e George Miller. Uma bela surpresa que consegue tirar água de pedra (neste caso, de uma trama já um tanto desgastada).


OS TIRAS DE LOS ANGELES (L.A. Takedown, 1989, EUA. Dir: Michael Mann)
Esse filme, feito originalmente para a TV, é uma espécie de treino para "Fogo Contra Fogo", clássico moderno que o próprio Michael Mann dirigiria cinco anos depois com um elenco de primeira linha (Al Pacino, Robert DeNiro, Val Kilmer...) e uma produção muito melhor. É o tipo de experiência rara que eu adoro: testemunhar um diretor contando a mesma história duas vezes e de maneiras diferentes (algo tipo Hitchcock refazendo seu "O Homem que Sabia Demais" com mais recursos). A história é praticamente a mesma: um policial violento persegue obsessivamente uma quadrilha de assaltantes de carro-forte, liderada por um bandido inteligente e organizadíssimo. Com quase 45 minutos a menos em comparação a "Fogo Contra Fogo", essa versão original perde a riqueza da construção de personagens e algumas situações secundárias. Por outro lado, a narrativa fica mais enxuta e eletrizante. Em outras palavras, vai direto ao assunto, sem muita enrolação, o que pode ser atraente para quem achou o "remake" muito lento. Também é interessante ver a mesma história sem aqueles astros todos nos papéis principais. Os quase desconhecidos Alex McArthur (no papel que depois ficou com Robert DeNiro) e Scott Plank (no papel depois assumido por Al Pacino) dão conta do recado e não fazem feio em comparação aos astros que os sucederam. Plank não demonstra aquele histerismo habitual de Pacino (que às vezes é até irritante), e McArthur é um excelente ator que infelizmente nunca ganhou o devido reconhecimento. Outras caras conhecidas aparecem em pequenas participações: Michael Rooker, Vincent Guastaferro, Xander Berkeley, Daniel Baldwin e Cary-Hiroyuki Tagawa. Para quem gostou de "Fogo Contra Fogo", ver essa versão inicial é obrigatório. Já para quem nunca viu "Fogo Contra Fogo", pode ser uma boa idéia começar por esse e só depois ver o "remake". Até porque o final dos dois filmes é bem diferente. Seja como for, Michael Mann demonstra, nas duas versões, porque é um dos melhores cineastas contemporâneos. Inclusive "L.A. Takedown" merecia um relançamento caprichado em DVD.


I SAW THE DEVIL (Akmareul Boattda, 2010, Coréia do Sul. Dir: Ji-woon Kim)
Uma coisa que você aprende vendo filme coreanos (como a trilogia "Mr. Vingança", "Oldboy" e "Lady Vingança", de Chan-wook Park) é que é melhor não mexer com esses malucos da Coréia do Sul. Afinal, a vingança deles pode ser terrível. E quem duvida disso não pode perder "I Saw the Devil", o novo filme de um diretor que já tinha feito uma fábula moderna sobre o prazer de vingar-se ("O Gosto da Vingança", filmaço). Aqui, Ji-woon Kim reúne dois monstros do cinema coreano: Byung-hun Lee (de "O Gosto da Vingança") e Min-sik Choi (de "Oldboy"). A história é simples, mas não óbvia. Lee interpreta um agente especial cuja esposa, grávida, é assassinada por um serial killer (Choi). Ele começa a investigar paralelamente à polícia e, depois de torturar alguns dos suspeitos, chega ao verdadeiro culpado. Ao invés de matá-lo, coloca um rastreador no sujeito e transforma sua vida num inferno, perseguindo-o para atacá-lo e agredi-lo quando ele menos esperar. Mas o vilão logo vira a mesa, e a caça vira caçador. Como já havia feito em "O Gosto da Vingança", o diretor parece basear-se naquele velho ditado do Chapolim - "A vingança nunca é plena, mata a alma e a envenena". Pois o protagonista tem noção de que nunca vai superar sua perda, mesmo que passe a vida surrando e torturando o homem que matou sua mulher, e ainda assim segue seu plano de destruir a vida do vilão, invariavelmente deixando uma nova trilha de cadáveres pelo caminho. E se o vilão é um monstro, que aparece arrebentando cabeças a pauladas ou marteladas com a maior naturalidade, o "herói" acaba descendo ao nível dele para vingar-se, transformando-se num monstro tão odioso quanto aquele que "combate". O filme é um pouco longo demais, e a conclusão do duelo entre os dois personagens fica aquém do potencial. Mas nada que tire os méritos de "I Saw the Devil", um dos grandes filmes de suspense de 2010, e repleto de cenas violentas de arrepiar até quem pensa que já viu de tudo (como o bisturi no calcanhar).


MERCADORES DA MORTE (Fatal Beauty, 1987, EUA. Dir: Tom Holland)
É um verdadeiro milagre que os realizadores desse improvável filme policial estrelado por Whoopi Goldberg (!!!) não tenham sido processados pelos produtores de "Um Tira da Pesada", tais as semelhanças entre as duas obras. Podiam até trocar o nome para "A Irmã do Tira da Pesada", já que a personagem de Whoopi é uma Axel Foley de saia: uma policial durona que vive fazendo gracinhas e piadinhas, mas ao mesmo tempo criva bandidos de balas sempre que necessário. A atriz ficou marcada como "humorista" em seus filmes posteriores (especialmente "Ghost" e "Mudança de Hábito"), mas esse aqui, apesar do humor eventual, ainda é um policial sério, bastante pesado e violento, com balas atravessando corpos como se estes fossem feitos de manteiga, e uma generosa contagem de cadáveres no sangrento tiroteio final. A própria trama não tem nada de comédia, com a heroína investigando os responsáveis por uma droga assassina que está sendo vendida nas ruas - uma mistura letal de cocaína apelidada "Beleza Fatal". Várias caras conhecidas desfilam pelo filme, de Sam Elliott (como improvável par romântico da protagonista!) a Brad Dourif, Rubén Blades e Cheech Marin. A direção de Tom Holland ("A Hora do Espanto", "Brinquedo Assassino") é eficiente, e também não é sempre que se vê Whoopi Goldberg matando bandidos a tiros de revólver e escopeta. Mas, infelizmente, sempre fica aquele clima de imitação de "Um Tira da Pesada", como se esse fosse um roteiro recusado para uma continuação oficial da franquia estrelada por Eddie Murphy. Talvez se houvesse menos semelhanças entre os dois filmes (até o cartaz de ambos, com o protagonista encostado num carrão, é idêntico!!!), "Mercadores da Morte" funcionaria melhor e seria mais lembrado como o interessante filme policial que é.


DARFUR (2009, Canadá/Alemanha/África do Sul. Dir: Uwe Boll)
Enquanto assistia "Darfur", eu ficava imaginando aqueles cineastas cultzinhos e metidos a polêmicos, como Gaspar Noé e Lars Von Trier, fechando os olhos de medo diante dessa nova loucura perpetrada pelo insano Uwe Boll. Afinal, não é sempre que você vê um bebê recém-nascido ser fatiado a machetadas por soldados inimigos diante dos olhos da mãe. Ou uma criança sendo executada a sangue-frio com um tiro na cabeça. "Darfur" é, até agora, o filme mais bem-feitinho daquele que é considerado um dos piores cineastas em atividade. Mas para quem fez "House of the Dead", o que vier é lucro! Aqui, Boll conta a história de repórteres estrangeiros que cobrem uma sangrenta guerra civil no Sudão e se dividem entre defender ou não uma pequena aldeia do ataque iminente de uma violenta milícia. A narrativa pode ser dividida em duas partes distintas: a primeira parece um Globo Repórter sobre as tribos africanas e é muito enfadonha, documentando os hábitos e paisagens de uma vila com interesse fotográfico, mas abordagem nada interessante; finalmente, a segunda metade é uma aventura violenta estilo Cannon Pictures. No meio das duas partes, Boll tortura o espectador ao mostrar, com detalhes, o brutal massacre de mulheres e crianças da vila, perpetrado por milicianos. É uma cena gráfica e terrivelmente violenta, quase insuportável, que aproxima "Darfur" de "Rambo 4". Mas a comparação é inglória: Boll termina o filme quando parece que a história vai começar (!!!), e nem ao menos dá ao espectador o alívio de uma vingança por aquelas atrocidades mostradas. E os atores conhecidos do elenco (Billy Zane, Kristanna Loken, Matt Frewer, Edward Furlong) nem participam da trama principal, já que seus personagens arregam e fogem na hora do "pega pra capar". Mesmo com os defeitos evidentes, o filme tem atuações interessantes e até um tanto de tensão e suspense na metade final. Boll, quem diria, está aprendendo!


BALAS DE SANGUE (Bullets, Blood & A Fistful of Cash, 2006, EUA. Dir: Sam Akina)
Quando li no IMDB que "Balas de Sangue" era tão violento que fazia Quentin Tarantino parecer um pacifista, corri para conhecer esse filme independente de poucas referências. O diretor-roteirista Sam Akina não esconde nem por um segundo suas principais influências narrativas e estilísticas/visuais: Quentin Tarantino, Guy Ritchie e Robert Rodriguez. Quase tudo que caracteriza os supra-citados está nesse filme: os incontáveis bandidos engraçadinhos e/ou excêntricos, apresentados com legendas nominais; as idas e vindas no tempo; as frescuras narrativas (split-screen, color/PB); os tiroteios estilizados e sangrentos... A história acompanha a busca de vingança de um brutamontes traído pela sua organização num assalto realizado anos antes. É tiro e sangue para todo lado. Pena que Akina não demonstre um pingo da criatividade de Tarantino, Ritchie e Rodriguez: seu filme é interminável, arrastado, amadorístico, e as poucas coisas boas (como as legendas "traduzindo" os códigos usados durante uma negociação de drogas) ficam perdidas num todo medíocre. O filme é tão insuportável que, a partir dos 20 minutos, comecei a passar pra frente no FF, sem conseguir suportar tamanha ruindade e falta de talento generalizado (do diretor, da direção de arte, da edição, dos atores...). A conclusão tem um gigantesco tiroteio onde quase todo mundo morre, mas a essas alturas você nem se importa mais com o que está acontecendo - mesmo que o desfecho da vingança do protagonista seja pelo menos interessante. Uma total perda de tempo.


RED - APOSENTADOS E PERIGOSOS (Red, 2010, EUA. Dir: Robert Schwentke)
Cinema também é entretenimento, e para isso existem filmes como "Red": para você ver no cinema ou em DVD, divertir-se e esquecer meia hora depois. Mas é uma pena que "Red" comece tão bem, prometendo tanto (inclusive no quesito diversão), e logo se revele um filme esquemático, burocrático e bem sem-graça, como se da metade para o final um outro roteirista tivesse assumido a bagaça contra a vontade. O filme supostamente é baseado numa história em quadrinhos, mas não tem absolutamente nada em comum com sua fonte de "inspiração" (onde o melhor matador da CIA saía da aposentadoria para deixar centenas de corpos pelo caminho). Ao invés de um único aposentado, como na HQ, aqui temos um time deles obrigado a voltar à ativa quando seus antigos empregadores tentam matá-los para esconder nebulosos segredos do passado. John Malkovich rouba toda cena em que aparece, como o membro paranóico e violento do grupo (a melhor parte do filme é dele, a do "Old man, my ass!"). Bruce Willis interpreta o seu papel de sempre (careca durão com sorriso cínico no rosto), Morgan Freeman é completamente desperdiçado e Helen Mirren, como a charmosa assassina inglesa, é a única que parece ter percebido que estava fazendo uma comédia e não deveria levar as coisas tão a sério. No mais, como já escrevi, o filme perde completamente o pique da metade para o final, e desiste das absurdas cenas de ação (como o ataque à casa de Willis no começo) para levar-se a sério demais. E se a participação de Ernest Borgnine é digna e muito boa, as de Richard Dreyfuss e Brian Cox são constrangedoras. "Red" pode até cumprir seu papel de diversão descompromissada, mas também é fato que podia ser bem melhor - seu trailer é mais divertido que o filme inteiro.


AVATAR (2009, EUA. Dir: James Cameron)
Demorei tanto para escrever essas mal-traçadas linhas sobre o filme do James Cameron porque o culto a ele é tão grande e chato quanto o "desculto": apaixonados por "Avatar" passaram o ano brigando com quem não gostou, e vice-versa - cada um defendendo seus argumentos com unhas e dentes. Mas como o filme está aparecendo até nas listas de melhores da década (!!!), resolvi expressar resumidamente os meus sentimentos. Vi no cinema e em 3D no começo do ano, e até confesso que não achei tão ruim quanto pensei que seria; ao mesmo tempo, não vi nada da "revolução" alardeada por críticos e adoradores do filme. Confesso, também, que torci para que "Avatar" não ganhasse nenhum dos Oscars na premiação deste ano. Porque, pessoalmente, acho que "Avatar" representa tudo de ruim para o cinema: orçamento inchado, diretor megalomaníaco, tecnologia sobrepujando criatividade, história reciclada, péssimas interpretações e mensagem dúbia. A própria indicação de "Avatar" para tantos Oscars me pareceu um disparate, e cheguei a vibrar quando um filme independente ("Guerra ao Terror") faturou a maioria dos prêmios. Tudo bem, não achei a obra do Cameron propriamente ruim, mas vamos combinar que o tal "sonho visionário" do megalomaníaco diretor não tem absolutamente nada de tão espetacular. Ele pode ter ficado 15 anos pensando na tecnologia para filmar, como falou nas entrevistas, mas o que parece é que ficou 15 minutos pensando na história. "Dança com Lobos"/"Um Homem Chamado Cavalo" no planeta do Noturno dos X-Men (ou dos Smurfs super-desenvolvidos)? E ainda precisa de 166 minutos para contar essa historinha patética? A verdade é que eu sofri para suportar até o fim. Não só pelo excesso de cenas desnecessárias (que só existem para exibir a tecnologia desenvolvida especialmente para o filme), não só pela interpretação patética do "galã" Sam Worthington (mais expressivo como Na'vi do que quando é "humano"), mas principalmente porque "Avatar" não tenta nem ao menos surpreender, narrativamente falando. Com 15 minutos de filme, você já adivinha o que vai acontecer e quem vai morrer. Personagens como o rival do herói pelo amor da mocinha ou o empresário inescrupuloso que quer explorar o planeta são tão clichês que chegam a dar raiva. E mesmo assim o filme segue num ritmo lento como se tivesse história para contar. Sinceramente, se tivesse acabado quando os milicos explodem a árvore dos Na'vi, para mim estaria ótimo (pois nesse momento já começava a achar o filme cansativo). Só que ainda tem mais 1h30min pela frente! Algumas ideias esparsas são muito boas (tipo a cauda dos Na'vi funcionando como um cabo USB para conexão com a natureza), outras são divertidas (como o milico linha-dura que continua lutando mesmo quando está prestes a morrer, e é o melhor personagem do filme). Mas 90% de "Avatar" eu já vi antes, e melhor. Muita gente embarcou nessa reciclagem de ideias, mas eu não consegui - nem mesmo o mundo alienígena criado por Cameron me seduziu. Enfim, "Avatar" é um filme que aguentei até o final por teimosia, mas com certa dificuldade, e que jamais verei uma segunda vez. Até li em algum lugar a opinião de alguém falando que o filme dos Smurfs gigantes é, para a nova geração, o mesmo que "Star Wars" foi para a minha. Olha, sinceramente, os velhos "Star Wars" também reciclavam ideias (cavaleiro salvando princesa?), mas não lembro de eles serem tão chatos, muito menos tão longos e enrolados. E eles se preocupavam em criar uma mitologia ALÉM dos efeitos especiais. Caso façam mais um ou dois "Avatar", que mitologia teremos? Quais personagens interessantes e inesquecíveis existem na obra de James Cameron à altura daqueles que George Lucas criou nos anos 70? Sem contar que essa nova geração já cultua bostas como Restart e "Crepúsculo", então podemos esperar de tudo deles. PS: Avaliando unicamente como "espetáculo 3D para ver em cinema Imax", achei "Resident Evil 4" infinitamente mais divertido (e bem mais curto).

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

OS TRAPALHÕES NO REINO DA FANTASIA (1985)


(A resenha de hoje vai especialmente para o pessoal da mesma idade que eu, que, nesse período de férias, sempre assistia as reprises dos filmes dos Trapalhões nas tardes da Globo.)

Pouca gente lembra que Dedé Santana, além de ser o segundo na hierarquia de importância do quarteto Os Trapalhões, também dirigiu alguns dos filmes do grupo.

Os dois últimos trabalhos assinados por ele se caracterizam pela metalinguagem, trazendo Didi, Dedé, Mussum e Zacarias no "papel" deles mesmos, num interessante conceito que aproveitava a fama estrondosa que os humoristas faziam no Brasil da década de 80.


Esses filmes estão de certa forma conectados. Um deles é a animação "Os Trapalhões no Rabo do Cometa" (1986), já resenhada aqui, em que o quarteto aparece fazendo um show no Teatro Scala antes de "virar desenho animado". O outro é OS TRAPALHÕES NO REINO DA FANTASIA, lançado um ano antes, mas produzido e filmado ao mesmo tempo que "O Rabo do Cometa".

A trama de OS TRAPALHÕES NO REINO DA FANTASIA é simplíssima: Xuxa Meneghel (que então ainda fazia seu show infantil na TV Manchete, tendo se bandeado para a Globo apenas em 1986) é uma freirinha inocente, a Irmã Maria, professora do Orfanato São Judas.


Quando problemas financeiros ameaçam fechar o local, ela decide convidar Os Trapalhões para fazer um show humorístico beneficente, angariando o dinheiro que salvará o orfanato e suas crianças.

Mas um grupo de bandidos liderados por Maurício do Valle rouba a bolada, e Didi e Dedé iniciam uma longa perseguição aos meliantes, enquanto Mussum e Zacarias continuam no palco levando o show adiante para não frustrar o público que lotou o teatro.


O que mais salta aos olhos hoje, revendo o filme, é a ruindade e total falta de coesão/conexão do roteiro escrito por Dedé, Renato Aragão, Paulo Andrade e, vejam só, Jorge Fernando (!!!).

Sem muita preocupação em contar uma história linear, OS TRAPALHÕES NO REINO DA FANTASIA tem números musicais (desnecessários), um trecho de quase 20 minutos em animação (sem muita conexão com o resto da história), vários esquetes humorísticos encenados pelo quarteto durante seu "show beneficente" e, finalmente, a longa perseguição aos bandidos, que ocupa a meia hora final do filme.


Descontando os créditos iniciais e finais, não sobra nem 1h10min de "história". Se tirarmos a animação, os esquetes e as músicas, então, não sobra praticamente nada. Logo, é uma desculpa bem esfarrapada para se fazer um longa!

(Mais ou menos como "Cheech & Chong em Amsterdan", de 1983, outra picaretagem composta, em sua maior parte, pela gravação de uma apresentação ao vivo dos dois comediantes norte-americanos.)


A melhor coisa de OS TRAPALHÕES NO REINO DA FANTASIA é justamente o trecho em animação, novamente produzido pelos Estúdios Maurício de Souza. Mas o mais estranho é que este trecho está ligado diretamente à história do desenho animado "Os Trapalhões no Rabo do Cometa", que foi lançado NO ANO SEGUINTE.

Inclusive traz o personagem do Bruxo (dublado por José Vasconcelos) que precisa segurar na mão do Didi, para recuperar os poderes mágicos roubados pelo Trapalhão. Como toda essa trama é explicada apenas em "O Rabo do Cometa", quem viu OS TRAPALHÕES NO REINO DA FANTASIA em 1985 não deve ter entendido bulhufas...


(A minha teoria é de que "O Rabo do Cometa" foi inicialmente idealizado para ser lançado em 1985, mas Maurício de Souza e sua trupe não conseguiram concluir o processo de animação, assim liberaram apenas um trecho já pronto e os Trapalhões tiveram que se virar para fazer um filme às pressas e tapar o buraco.)

Curiosamente, ainda, esse trecho em desenho animado parece ser justamente O FINAL da história de "O Rabo do Cometa", com Didi, Dedé e Mussum viajando para um futuro em que cachorros-mecânicos fazem xixi elétrico nos postes e robôs-mendigos pedem óleo como esmola.


Ali, o Bruxo é finalmente vencido por Zacarias usando uma arma paralisante. Logo, essa parte não é apenas um "aperitivo" para o desenho animado que seria lançado no ano seguinte, como eu cheguei a pensar, mas um complemento da história do filme POSTERIOR! Melhor não tentar entender...

O restante de OS TRAPALHÕES NO REINO DA FANTASIA dá destaque à apresentação dos humoristas no palco de um teatro - quase como um "Monty Python Ao Vivo no Hollywood Bowl" dos pobres.


É uma rara oportunidade para o quarteto refazer alguns de seus esquetes mais conhecidos do programa de TV dominical, como o do Didi boxeador comendo "rapadura atômica" e soltando bordoada em todo mundo - no rival, no próprio treinador, no juiz da luta e até no câmera!

Outro momento impagável é o dos "Heavy Trap's", trazendo Os Trapalhões como banda de heavy metal. Quem não rir de Mussum na bateria e Didi sem camisa tocando guitarra, ambos com exageradas perucas de cabelos longos, não é humano (confira se você é humano ou não vendo o vídeo abaixo).

Heavy Trap's in concert



(A propósito, o vocalista da banda, que canta a estúpida música "Hoje Não é Meu Dia de Sorte", é um tal de Lenine. Sim, você leu direito: AQUELE Lenine...)

A meia hora final acompanha a longa perseguição de Didi, Dedé e Xuxa aos meliantes que roubaram a bilheteria do espetáculo. Até o falecido Beto Carrero aparece em pessoa para dar uma mãozinha aos Trapalhões, e há perseguições de carro, moto, cavalo e diligência.

Apesar disso, e da pancadaria pastelão típica do grupo, estes são os momentos menos engraçados e divertidos da obra, privilegiando a ação, o corre-corre e o trabalho dos dublês.


A metalinguagem não se resume aos Trapalhões interpretando "eles mesmos", e aparecendo como um quarteto humorístico famoso (que realmente eram).

Também aparece em cena a famosa revista dos Trapalhões publicada pela Bloch (que eu citei na resenha de "O Rabo do Cometa"), e, durante um número musical, são exibidas fotos antigas de cada um dos Trapalhões, além de cenas dos longas anteriores do grupo. Você pode conferir essa parte no vídeo abaixo:

"É legal ser um Trapalhão?"



É óbvio que OS TRAPALHÕES NO REINO DA FANTASIA foi feito para o público infantil e não deve ser levado muito a sério. Mesmo assim, é impossível não se enfurecer com alguns momentos excessivamente ingênuos e absurdos do roteiro, como a diretora que interrompe uma aula da freirinha Xuxa para informar que o orfanato será fechado em um mês por causa dos problemas financeiros - como se essas coisas fossem anunciadas assim, e não em reuniões particulares.

Tem ainda o fato de que alguns dos números apresentados pelos Trapalhões no suposto show humorístico exibem cenários, figurinos e efeitos especiais muito elaborados para estarem realmente acontecendo "ao vivo" no palco de um pequeno teatro.


Porém, mesmo num filme fraco dos Trapalhões, é possível pescar algumas coisas bem interessantes, como Beto Carrero fazendo o tipo "herói do Velho Oeste" (engraçado que ninguém nunca tenha pensado em produzir um longa de ação com o sujeito naquela época).

Ou o curioso (e inapropriado) apelo erótico da freirinha Xuxa, que parece estar num "nunsploitation" dirigido por Jess Franco, sempre com as coxas de fora ou a bundinha empinada, ou então caindo maliciosamente sobre Didi e Dedé - numa cena-chave da trama, Didi confessa estar apaixonado pela religiosa, algo que hoje não soaria nada bem.


Mas o melhor mesmo é o pequeno trecho em desenho animado - pouco, muito pouco, para salvar esse patético projeto de longa, que parece improvisado, feito às pressas, algo meio "tapa-buraco" para aproveitar as férias da garotada e juntar mais uns cobres à fortuna dos Trapalhões na época.

Nesses tempos de tecnologia ao alcance de todos, bem que algum fã dos Trapalhões poderia fazer, no computador, uma "fan cut" de "Os Trapalhões no Rabo do Cometa", eliminando as cenas com o quarteto ao vivo e adicionando este trechinho de animação mostrado em OS TRAPALHÕES NO REINO DA FANTASIA no final, onde ele deveria estar desde sempre.


E não foge à regra: dificilmente a garotada de hoje irá curtir o humor "estranho" deste filme, que acaba sendo indicado, apenas pela nostalgia, àquele pessoal que cresceu vendo as produções do quarteto.

Aproveitando o período de férias que se inicia, OS TRAPALHÕES NO REINO DA FANTASIA é uma boa sugestão para recordar aqueles inocentes tempos da infância ou adolescência. E talvez se pegar rindo sozinho das palhaçadas dos Trapalhões, como um autêntico idiota - tipo eu aqui, durante o show dos "Heavy Trap's".

Cena de OS TRAPALHÕES NO REINO DA FANTASIA



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Os Trapalhões no Reino da Fantasia
(1985, Brasil)

Direção: Dedé Santana
Elenco: Renato Aragão, Dedé Santana, Mussum,
Zacarias, Xuxa Meneghel, Maurício do Valle, José
Vasconcelos (voz do bruxo) e Beto Carrero.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

TRON - UMA ODISSÉIA ELETRÔNICA (1982)


Vi o trailer de "Tron Legacy" no cinema esses dias e fiquei duplamente surpreso: primeiro pela idéia maluca de lançar uma sequência quase 30 anos depois do original; segundo porque eu não lembrava de absolutamente nada sobre TRON - UMA ODISSÉIA ELETRÔNICA (o primeiro filme, lançado em 1982), além do fato de ser estrelado por Jeff Bridges e de se passar quase que interamente em um universo virtual.

Assim, foi com um pouco de nostalgia e um muito de curiosidade que revi TRON como ele deveria ser visto pela primeira vez: não naquelas fitas VHS com qualidade de imagem e som sofrível, e imagem cortada dos lados em tela cheia, mas em DVD, com imagem e som cristalinos, e em widescreeen. Isso tudo pareceu deixar o filme melhor do que eu me recordava das velhas reprises na Sessão da Tarde.


E como eu não lembrava de praticamente nada além de um ou outro detalhezinho (como as "motos eletrônicas" disparando velozes pelas grades de circuitos, algo que deverá ficar lindo no novo filme), foi até surpreendente constatar como TRON ainda funciona direitinho, talvez até melhor agora do que na época do seu lançamento.

Afinal, em 1982, quando foi lançado, o computador ainda era um bicho de sete cabeças para a maior parte das pessoas "normais". O conceito de computador pessoal, para você ter e trabalhar em casa, estava começando a surgir, e pouquíssimos possuíam o equipamento em seus lares, como hoje. (Lembro que eu, particularmente, só fui ver um computador de perto, e mexer nele, por volta de 1994!)


A própria programação das máquinas exigia muito conhecimento, pois não existia um ambiente gráfico como o Windows, onde os programas podiam ser acessados através de clicks em ícones coloridos.

Na época, as operações ainda precisavam ser digitadas na máquina através de longas e complicadas linhas de comando, como devem lembrar os idosos como eu, que aprenderam a mexer no DOS ou a programar joguinhos em Basic (onde se digitava um milhão de linhas de comandos para criar um simples jogo-da-velha, e mesmo assim aquilo parecia o máximo!).


Portanto, o público "comum" do começo dos anos 80 deve ter visto TRON como uma história de ficção científica, já que termos como "programa" e "usuário" estavam começando a aparecer. Isso o transforma num filme visionário, ainda mais pela maneira criativa como a direção de arte imaginou o universo digital que existiria dentro de um computador.

A trama tem como protagonista um "adultescente" chamado Flynn (Jeff Bridges), brilhante programador de jogos de computador que trabalhava para uma poderosa multinacional chamada Encom, até ter seus projetos roubados por um inescrupuloso executivo chamado Ed Dillinger (David Warner). Enquanto o plagiador virou o poderoso da empresa, Flynn foi demitido e passou a administrar um pequeno fliperama.


Porém, nos bastidores, o herói age como hacker, tentando invadir os computadores da Encom para encontrar provas de que Dillinger roubou suas ideias, e assim desmascará-lo e recuperar seu antigo emprego.

Só que Dillinger também é o responsável por um super-programa de computador que acabou criando consciência, o Master Control Program, ou MCP - uma espécie de avô do Skynet da série "Terminator" e das máquinas inteligentes da trilogia "Matrix", e quem sabe um parente próximo do HAL-9000 de "2001".


Ao mesmo tempo em que pensa em dominar o "mundo real", fazendo contatos com a Rússia e com a China (lembre-se que estamos em tempos de Guerra Fria), o MCP também é tirano no ambiente digital, onde escraviza programas de computador, forçando-os a lutar até a morte em videogames.

Quando Flynn invade a sede da Encom e tem acesso a um terminal interno, o Programa Mestre resolve livrar-se dele, "digitalizando-o", com a ajuda de um equipamento ainda em fase de testes, e aprisionando-o dentro do universo digital, onde ele também se tornará um escravo nos jogos de videogame.


O que a máquina não sabe é que Flynn é um craque em jogos eletrônicos, e ele logo consegue escapar do ambiente dos games para tentar iniciar uma revolução digital e destruir o MCP "por dentro". Para isso, conta com a ajuda de um programa de segurança chamado Tron (Bruce Boxleitner).

Não é exagero dizer que TRON foi o "Avatar" da sua geração. A maior parte da trama se passa em cenários gerados por computador, que continuam bonitos e convincentes até hoje, e que também ganharam, agora, um certo charme retrô (o menu animado do DVD do filme é mais "avançado" que o filme inteiro, para dar uma ideia!).


Por mais que o filme tenha alguns defeitos bem básicos - como os personagens sem profundidade e a falta de cenas de ação convincentes -, percebe-se o capricho de todos os envolvidos para criar um universo com regras, paisagens e criaturas próprias, não muito diferente do que James Cameron fez com "Avatar".

As próprias críticas da época destacam mais o lado tecnológico e os efeitos visuais (diferentes de tudo que foi visto até então), falando pouquíssimo sobre a trama ou sobre o desempenho dos atores.


Mais ou menos como aconteceu há pouco com "Avatar", críticos como Roger Ebert disseram, sobre TRON, que os atores realmente pareciam estar vivendo dentro daquele mundo fictício, e não simplesmente cercados por efeitos de computador.

Finalmente, TRON também divide com "Avatar" a trama do sujeito que vai parar num mundo completamente diferente do seu e precisa conhecer seus habitantes e costumes para sobreviver e combater a "tirania" dos vilões.


A isso, soma-se um curioso elemento religioso que posteriormente seria reutilizado em "Matrix": os programas aprisionados no universo digital veneram seus usuários do mundo real como se eles fossem deuses (afinal, são os usuários que decidem o destino dos programas através de suas ações digitadas no computador). Já o MCP e seus asseclas negam qualquer possibilidade de existência dos "usuários" para tentar manter os programas sob controle.

Tron e sua turma acreditam que somente um dos usuários (uma espécie de Messias) poderá libertá-los dos vilões, algo que acontece quando alguém do mundo exterior (Flynn) finalmente chega ao mundo digital, mais ou menos como Neo na "Matrix".


Méritos também para a idéia de seres conscientes (os "programas" aprisionados pelo MCP) sendo usados em jogos de videogame, sentindo dor e morrendo enquanto os humanos se divertem nos fliperamas. Muita gente deve ter começado a jogar videogame com outros olhos.

(E esse conceito seria reaproveitado muitos anos depois em um estranho filme francês chamado "Nirvana", com Christopher Lambert.)

Porém o mais impressionante de TRON é o pioneirismo no uso de imagens geradas por computador, numa época em que isso ainda era coisa de ficção científica.


Vendo o documentário que acompanha o DVD importado, é impossível não ficar de queixo caído com o trabalhão que os caras tiveram para fazer esse filme.

Só para dar uma idéia, todas as cenas dentro do universo digital foram filmadas em preto-e-branco e depois coloridas manualmente, através de retoques fotográficos (quadro a quadro!) e de efeitos de rotoscopia, para inserção dos cenários digitais.


TRON foi, provavelmente, um dos primeiros filmes em que os atores "interpretaram com o nada", olhando para um pontinho que depois viria a ser um personagem digital na pós-produção - algo que o próprio Jeff Bridges comenta no mesmo documentário, dizendo que eles não tinham a menor idéia de como o filme se pareceria depois da inserção dos efeitos em CGI.

Assim fica até fácil perdoar defeitos como a precariedade das cenas de ação. No final, por exemplo, Tron precisa jogar um disco eletrônico com informações (tipo um frisbee) no núcleo do MCP para desativá-lo.

Podia render uma cena tensa no mesmo estilo da destruição da Estrela da Morte no final de "Star Wars" (lançado apenas cinco anos antes), mas ficou uma coisa bem rápida e brochante, provavelmente pela falta de experiência dos realizadores em "dirigir" uma cena que depois seria montada quase inteiramente com efeitos digitais.


A verdade é que quase não há ação/tensão em TRON, simplesmente porque todas as cenas no universo digital precisaram ser filmadas com câmera fixa (para permitir a inserção das trucagens fotográficas/digitais depois; lembre-se que ninguém tinha muita idéia do que estava fazendo lá em 1982!).

Mesmo assim, há um momento brilhante que eu adoraria ver em 3-D (o que deve acontecer agora, com "Tron Legacy"): a corrida das motos eletrônicas. Os veículos disparam velozes deixando rastros sólidos no grid, mais ou menos como aquele joguinho de celular da cobra que precisa desviar do próprio rabo. O objetivo é "fechar" o adversário para fazer com que ele bata no rastro da sua moto. Só essa cena já vale o filme inteiro, e pode ser vista (ou revista) na janelinha abaixo:

Motocross do futuro



Como todo filme à frente do seu tempo, TRON tornou-se "cult movie" depois, principalmente graças aos nerds e viciados em computador, mas foi um fracasso de bilheteria quando lançado.

Para dar uma idéia, o filme custou 17 milhões de dólares, e faturou "apenas" 33 milhões nos cinemas norte-americanos, bem aquém do que os produtores esperavam.

(É bom esclarecer que TRON foi um filme caríssimo para a sua época, tendo custado o mesmo que "Os Caçadores da Arca Perdida", lançado no ano anterior, só que o filme de Spielberg teve bilheteria de 245 milhões de dólares lá nos EUA!)


Ainda no documentário sobre o filme, um executivo dos Estúdios Disney (que produziu TRON) confessa que ninguém entendeu direito o projeto quando deram sinal verde para sua realização, mas que era uma forma de afastar a imagem de "velha e ultrapassada" que a Disney tinha na época.

E, mesmo que o filme ficasse ruim, os produtores já ganhariam uma grana federal só com os direitos sobre as máquinas de fliperama baseadas nele - o que de fato acabou acontecendo.

Que bom que, hoje, a tecnologia do DVD (e do blu-ray) permite rever TRON - UMA ODISSÉIA ELETRÔNICA com outros olhos. No caso, olhos já acostumados à tecnologia, que entendem melhor os termos técnicos usados pelos personagens e também suas ações no mundo digital. Quem diria, aquilo que era ficção científica no começo dos anos 80 hoje é tão comum que até seu sobrinho de 10 anos sabe mais sobre informática do que você!


Independente disso, TRON ainda é um filme bem interessante e divertido, no qual envolveram-se alguns dos grandes talentos daquela época (música de Wendy Carlos, arte conceitual de Moebius), e também iniciantes que revelariam seu talento anos depois (Tim Burton foi um dos anônimos animadores que deram vida ao mundo digital).

Agora é esperar para ver o que virá com "Tron Legacy". Acho difícil que o filme consiga ser tão revolucionário e inovador quanto o original foi na sua época, ainda mais nestes tempos em que é tão difícil algo realmente novo ser produzido. Pelo menos os efeitos digitais devem ter sido bem facinhos de fazer, em comparação com o trabalho braçal dos realizadores lá em 1982...


Mas se a continuação dificilmente deixará de ser algo apenas divertido para a atual geração de frequentadores de "multiplexes", o original, por outro lado, definitivamente já pode ser considerado profético.

Não só pela sua visão de um mundo digital onde usuários interagem e trocam informações (bem parecido com a atual internet), mas também pela frase de um dos personagens no mundo "humano" do filme: "Computadores e programas vão começar a pensar enquanto as pessoas vão parar de fazê-lo".

E não é que foi isso mesmo que aconteceu?


PS 1: Como vários "pioneiros", o diretor Steven Lisberger nunca mais fez nada como TRON. Na verdade, dirigiu apenas outros dois filmes, bem mais simples, e sumiu do mapa, parecido com o que aconteceu a outros dois "visionários" da união cinema-computação gráfica, Brett Leonard ("O Passageiro do Futuro", 1992) e Kerry Conran ("Capitão Sky e o Mundo do Amanhã", 2004).

PS 2: Num universo digital predominantemente masculino, vale destacar a presença das curvas maravilhosas da loirinha Cindy Morgan, a única menina do filme. Poucos devem lembrar, mas a gata mostrou seus "atributos peitorais", por assim dizer, na comédia "Clube dos Pilantras", dois anos antes.

PS 3: O IMDB informa que Michael Dudikoff, o "American Ninja" em pessoa, é um dos figurantes do filme, mas não consegui ver ninguém nem ao menos parecido com ele. Terá ficado no chão da sala de edição?

Trailer de TRON - UMA ODISSÉIA ELETRÔNICA



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Tron - Uma Odisséia Eletrônica
(Tron, 1982, EUA)

Direção: Steven Lisberger
Elenco: Jeff Bridges, Bruce Boxleitner, David
Warner, Cindy Morgan, Barnard Hughes, Dan
Shor e Peter Jurasik.