sábado, 30 de outubro de 2010

Faroeste caboclo


Um policial jovem e idealista passa a fazer parte de um grupo de elite da polícia e fica revoltado com os métodos violentos dos colegas, que são incentivados pelo seu superior. Porém, à medida que o combate ao crime revela-se cada vez mais violento e desleal, o próprio protagonista rende-se à brutalidade que antes condenava, tornando-se "um deles".

Parece até "Tropa de Elite", mas não é. Este é o argumento de FEDERAL, filme policial de Erik de Castro (do documentário "Senta a Pua!", sobre a participação brasileira na Segunda Guerra Mundial), que finalmente chegou aos cinemas.

O filme começa com um múltiplo assassinato numa área nobre de Brasília. O Comando de Operações Táticas (COT) da Polícia Federal, espécie de Bope da PF, entra em cena, representado pelo veterano delegado Vital (Carlos Alberto Riccelli, ótimo), pelo novato Dani (Selton Mello) e pelos policiais civis Rocha (Christovam Neto) e Lua (Cesário Augusto), dupla recentemente convocada por Vital para integrar um grupo de "intocáveis" na PF.


"Investigando" o crime (o que inclui, claro, a violenta tortura de um suspeito com a técnica do saco plástico), Rocha e Lua acabam recebendo uma pista não-relacionada aos assassinatos, sobre uma nova boca de tráfico que abriu no subúrbio. Pode ser a chave para prender Béque (o músico Eduardo Dussek!), um perigoso traficante de drogas que a polícia procura há anos.

Ao longo da caçada (e do filme), o personagem de Selton Mello passará por um processo de "brutalização". Inicialmente revoltado com os métodos usados pelos seus colegas - e incentivados por Vital -, Dani compara-os à Ditadura Militar. Mas, à medida que progride na investigação, acabará tragado para dentro desse mundo violento.

Era inevitável: a crítica dita especializada (os mesmos de sempre, que eu e você conhecemos bem) logo sentou o pau no filme, sem dó nem piedade, taxando-o de mera cópia carbono de "Tropa de Elite", e usando termos "sofisticados" como "mise-en-scène" e "contra-plongeé" para desmerecer o trabalho do cineasta brasiliense.


O fato de FEDERAL trazer o personagem de um superior violento à la Capitão Nascimento, cuja esposa também está grávida, ou ainda a cena em que um suspeito é torturado com um saco plástico na cabeça, também depõem contra ele na acusação de ser uma mera cópia de "Tropa de Elite".

A própria cena final, em que o policial idealista entrega-se à barbárie e "se transforma" no seu superior, é muito parecida com a do filme de José Padilha.

Falando em sua defesa, o diretor e co-roteirista Erik garantiu que seu roteiro foi escrito ainda nos anos 80, e que FEDERAL estava sendo produzido nos últimos quatro anos, portanto antes de "Tropa de Elite" ser lançado. Não sei de quando é o roteiro, mas atesto que já sabia do projeto de FEDERAL há no mínimo uns três anos - esta é mais uma produção brasileira que sofreu com as incontáveis dificuldades de se fazer cinema no país.


Pessoalmente, acho que as semelhanças com "Tropa de Elite" não tiram os méritos desse filme policial bem interessante. Até porque se formos reclamar de "argumentos parecidos", 90% dos filmes de ação norte-americanos precisariam ser criticados pela mesma ótica.

A própria sessão de FEDERAL que peguei, no Shopping Santa Cruz, foi precedida pelo trailer de "Centurião", de Neil Marshall, e o casal na minha frente logo reclamou: "Ah não, outra cópia de 'Gladiador'!". Como se qualquer filme sobre a Roma Antiga feito pós-"Gladiador" fosse cópia dele. Aliás, como se ninguém tivesse feito filmes sobre a Roma Antiga ANTES de "Gladiador"! Quando são espectadores com pouca cultura cinematográfica eu até entendo; duro é a crítica embarcar na onda.

Portanto, é uma pena que o filme brasiliense tenha estreado logo agora, quando as pessoas ainda estão maravilhadas com "Tropa de Elite 2" (ainda em cartaz e ainda com filas na entrada do cinema).


A concorrência é injusta, porque FEDERAL também toca (de leve) nos mesmos temas dos dois filmes de José Padilha: a corrupção no Palácio do Planalto (de onde vem um telefonema anônimo para o vilão, garantindo impunidade, em certo momento do filme), as ONGs de fachada, a relação de figurões (advogados, pastores de seitas moderninhas) com o tráfico de drogas, e as festas descoladas onde a classe média alta se esbalda de drogas.

A diferença é que a Erik de Castro, ao contrário de Padilha, não interessa tanto a crítica social, a investigação das raízes da corrupção e a denúncia; FEDERAL é, para todos os efeitos, um filme de AÇÃO, onde esses elementos aparecem, mas sem o mesmo destaque que em "Tropa de Elite".

Repleto de defeitos (a única coisa que a crítica brasileira viu), FEDERAL também tem muitas qualidades, que apontam um caminho para a produção nacional de filmes policiais e/ou de ação, dando ao público exatamente o que ele quer ver: tiroteios, socos, sangue e até um festival de nudez gratuita e cenas de sexo que não existem em "Tropa de Elite".


Eu diria que este é um filme bem mais popularesco que a obra de José Padilha, e certamente será melhor apreciado por aquele público que não gostou tanto de "Tropa de Elite 2" por ter poucos tiroteios e muitos diálogos. Porque aqui o bicho pega.

A dobradinha "sexo e violência" aproxima FEDERAL do inconsequente cinema de ação dos anos 80, quando o roteiro teria sido originalmente escrito - como comprova a participação de Eduardo Dussek como ator e da banda brasiliense Plebe Rude na trilha sonora, músicos populares daquela década.

Falando em termos de Brasil, lembra a produção do prolífico Tony Vieira, que dirigia filmes policiais cheios de tiros, mulher pelada e sem frescuras justamente para o povão.


Para alguns críticos (como o conhecido P.V.), essa semelhança é motivo de vergonha. Aqui no FILMES PARA DOIDOS não. FEDERAL é Tony Vieira para o século 21: sem frescura e sem freios. Torço muito para que consiga atingir seu público, algo que "Segurança Nacional" (outra tentativa recente de se fazer cinema de ação brasileiro) não conseguiu.

E já que falamos nele, FEDERAL é superior a "Segurança Nacional". Mas aí também não precisava muito: aquele era mais válido pelo ar trash do que por seus méritos.

Mesmo com os óbvios problemas técnicos da produção (os tiroteios e cenas de ação ainda soam muito falsos, especialmente em comparação a "Tropa de Elite"), FEDERAL traz algumas boas surpresas, principalmente na caracterização do seu quarteto de protagonistas: todos são "heróis" cheios de defeitos.


O personagem de Selton Mello, por exemplo, reclama dos métodos dos colegas, mas esconde o fato de ser viciado em drogas (algo meio hipócrita quando se está combatendo justamente o tráfico). Outro dos "heróis", Lua, é um alcoólatra em recuperação que não suporta a tensão do trabalho e passa os momentos de folga limpando sua arma ao invés de dialogar com a esposa.

Já o Rocha de Christovam Neto surge como alívio cômico, e tem uma cena impagável em que transa com uma mulata apenas para descobrir que um dos seus amigos já havia "feito o serviço" na moça momentos antes.

O melhor do filme, entretanto, é o Vital de Carlos Alberto Riccelli. É muito fácil compará-lo ao Capitão Nascimento de Wagner Moura, já que ambos compartilham esposa grávida, métodos truculentos e frases reacionárias como "A única coisa que não pode acontecer é perder pra vagabundo". Numa cena, Vital orienta seus subordinados a atirarem na cabeça de uma testemunha que está no hospital, caso seus cúmplices tentem resgatá-la.


A diferença entre Vital e Nascimento é que o personagem de Riccelli não está puto com a situação desde o início, como Wagner Moura em "Tropa de Elite". Vital é apresentado como um policial que gosta e acredita no seu trabalho, e que vai "perdendo a fé" aos poucos, percebendo que luta uma guerra sem chance de vencer.

Para isso contribui a presença do ator norte-americano Michael Madsen como Sam Gibson, um agente corrupto do DEA (órgão de combate às drogas dos Estados Unidos) que facilita o acesso dos traficantes brasileiros a materiais ilegais. Quando Vital encara Gibson, o gringo dá a mesma desculpa dos policiais corruptos de "Tropa de Elite": que passou a vida inteira arriscando o pescoço em troca de nada e agora quer garantir sua aposentadoria.

(É uma pena que Madsen seja sub-aproveitado no filme. Confesso que queria vê-lo numa cena de ação, e não apenas gastando seu inglês com Riccelli.)


Uma das coisas que mais me agradou em FEDERAL é a coragem do diretor em não poupar seus protagonistas. Lembrando filmes policiais estrangeiros recentes, como "Atraídos pelo Crime" e "Os Infiltrados" (e o filme em que este se baseia, "Conflitos Internos"), quase todo mundo se dá mal na conclusão, e o roteiro chega a eliminar dois personagens principais de uma só vez, numa cena surpreendente e totalmente inesperada!

Infelizmente, a narrativa apresenta alguns problemas graves (e olha que o roteiro estaria sendo trabalhado desde os anos 80!). A apresentação dos personagens principais é truncada, e demora para descobrirmos quem são os protagonistas; o vilão, Béque, só aparece depois de meia hora, participa pouco da trama e praticamente não oferece nenhum perigo (as notas de produção dizem que ele é filho de políticos influentes de Brasília, mas isso nunca é mencionado).

Na metade do filme, quando um dos personagens diz que Vital criou um grupo de policiais incorruptíveis e bons atiradores (à la "Os Intocáveis") para combater o vilão, eu até imaginei que teríamos uma cena de flashback para explicar como e porquê aqueles homens foram selecionados, mas é outro ponto em que o roteiro fica devendo mais profundidade.


Também aconteceu algo semelhante a "Tropa de Elite": Selton Mello deveria ser o protagonista, mas a câmera está sempre acompanhando o personagem de Carlos Alberto Riccelli, de forma que Selton se transforma quase em coadjuvante.

A mim não incomodou, já que acho Selton Mello intragável (como Lázaro Ramos, ele parece interpretar sempre o mesmo papel, e não faz diferente aqui). Mas a idéia do policial dividido, que combate o tráfico enquanto é usuário de drogas, infelizmente é pouco aproveitada.

E tem aqueles problemas tradicionais de diretor de primeira (ou segunda) viagem, como um tiroteio, no final, filmado e editado de maneira confusa (não se sabe quem atira em quem), e uma cena pavorosa em que a "câmera na mão" segue Ricceli e Madsen enquanto eles descem uma escada (a câmera treme tanto que parece até "A Bruxa de Blair 3"!).


Apesar desses defeitos, encarei FEDERAL como um filme despretensioso e bem divertido, que cumpre o que promete - além de trazer as tais reviravoltas no ato final que realmente pegam o espectador de surpresa.

Sem contar que, como em "Tropa de Elite" e "Rota Comando", temos aqui um dos raros filmes brasileiros a enfocar o papel da polícia, e não do bandido (pois cineasta brasileiro adora glorificar o mundo do crime, algo que não é de hoje).

Diferente de "Tropa de Elite", em que tudo se resolve na porrada, aqui até tem algumas cenas que mostram os policiais investigando o caso (acompanhando o movimento de uma boca de tráfico, por exemplo), algo que levou o diretor a comparar, exageradamente, o seu filme com o clássico "Operação França", de William Friedkin.


Meu conselho é que corram aos cinemas para ver FEDERAL na tela grande, com todos os seus defeitos e qualidades, pois, como "Segurança Nacional", o filme de Erik de Castro dificilmente permanecerá muito tempo em cartaz.

E não dê bola para críticas toscas com frases como "O Brasil começou a investir há pouco tempo no gênero policial" (claro, "Assalto ao Trem Pagador" é APENAS de 1962!).

Se estivéssemos nos anos 80, FEDERAL certamente seria produzido pela Cannon e lançado em VHS pela América Vídeo, o que já dá uma idéia da proposta.


Que venham mais filmes nacionais como este, pois não é só de "Tropa de Elite" que vive o espectador brasileiro fã de ação ou de histórias policiais. E há MUITAS boas histórias do gênero para contar aqui no país, como mostram os seriados "9MM: São Paulo" e "Força Tarefa" (e vem aí o longa "Assalto ao Banco Central", que também promete).

Como se sabe, o que falta é investimento, e quem sabe um pouquinho de valorização. Mas aí o buraco é mais embaixo.

PS 1: Sérgio Farjalla Jr. assina os efeitos especiais do filme. Ele é filho de Sérgio Farjalla, um dos primeiros técnicos de FX do país, que trabalhou em clássicos como "Perdidos no Vale dos Dinossauros" e "O Segredo da Múmia".

PS 2: O amigo Osvaldo Neto, do blog Vá e Veja, postou uma seleção de entrevistas com Michael Madsen sobre FEDERAL. Vale uma olhada, porque o ator também fala sobre a sua carreira e a amizade com Quentin Tarantino.

PS 3: Sua personagem não faz muita coisa, mas é injustiça não citar a bela Carolina Gómez (a lindinha aí embaixo), ex-Miss Colômbia que enfeita diversas cenas com seu corpão seminu, "interpretando" a namorada de Selton Mello.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

OS TRAPALHÕES NA GUERRA DOS PLANETAS (1978)


Alguns filmes são "hors concours" nas listas de piores de todos os tempos, como "Plan 9 From Outer Space", de Ed Wood, ou "Robot Monster". Injustamente, ninguém nunca lembra do cinema brasileiro ao fazer essas listas. E digo injustamente porque OS TRAPALHÕES NA GUERRA DOS PLANETAS deveria estar no topo de qualquer lista das maiores bombas da história fílmica.

Para quem achou que "As Aventuras de Sergio Mallandro" era o grande clássico do trash nacional, conferir essa produção dos Trapalhões, produzida em 1978, será uma verdadeira prova de fogo. Inassistível por qualquer ser humano com idade mental acima dos 6 anos, talvez seja o grande "trash dos trashes" do cinema brasileiro, e uma lenda no exterior por causa do seu título alternativo: "Brazilian Star Wars"!


O título em português (Guerra dos Planetas) já entrega a fonte de inspiração do roteirista Renato Aragão: "Guerra nas Estrelas" (ou, atualmente, "Star Wars Episódio 4 - Uma Nova Esperança", como é chamado pelos nerds), o primeiro filme da saga interplanetária de George Lucas, lançado no ano anterior (1977) e um sucesso de bilheteria também no Brasil.

A farta bilheteria das aventuras de Luke Skywalker animou produtores inescrupulosos ao redor do globo. Os italianos, reis da picaretagem cinematográfica, não demoraram a realizar as mais diversas cópias de "Star Wars" (diversas também em criatividade e qualidade), de "Star Crash", de Luigi Cozzi, ao hilário "O Humanóide", de Aldo Lado. Mas o auge da loucura plagiadora certamente é o clássico "Dünyayı Kurtaran Adam", ou "Star Wars Turco", realizado em 1982.


Pois OS TRAPALHÕES NA GUERRA DOS PLANETAS rivaliza em ruindade com o "Star Wars Turco".

O cinema brasileiro várias vezes utilizou a paródia para brincar com superproduções hollywoodianas, especialmente nos tempos da chanchada - quando saíram filmes tipo "Matar ou Correr" e "Nem Sansão Nem Dalila".

Para os Trapalhões, paródia não era novidade. Afinal, quase todos os seus filmes até então eram versões cômicas de clássicos da literatura ("A Ilha do Tesouro", "As Minas do Rei Salomão", "Robin Hood"...), e eles já haviam se aventurado com a sátira cinematográfica no anterior (e superior) "O Trapalhão no Planalto dos Macacos" (1976).


O próprio diretor de OS TRAPALHÕES NA GUERRA DOS PLANETAS, Adriano Stuart, egresso da Boca do Lixo, era um notório parodiador, tendo realizado dois outros clássicos do trash brasileiro: "Bacalhau" (1976), uma sátira a "Tubarão", e "Kung Fu Contra as Bonecas" (1975), brincadeira com os filmes de Bruce Lee e com o seriado "Kung Fu".

O problema do filme dos Trapalhões é que a paródia não funciona. Ao invés de brincar com os elementos de "Guerra nas Estrelas", o roteiro de Renato Aragão apenas empresta os seus principais elementos: a vila no deserto com iglus, que parece Tatooine; o herói que é cópia xerox de Luke Skywalker e que tem um ajudante com cara de cachorror à la Chewbacca; o vilão que é a cara (e a máscara) do Darth Vader; cenas como a da taverna de Mos Eisley...

SEPARADOS NO NASCIMENTO


Só que estes elementos são jogados na trama sem que se faça piada com eles. O Luke Skywalker brasileiro pode ser pobretão, mas é heróico, e não engraçado como deveria ser; o Darth Vader brasileiro pode vestir uma fantasia de baile de carnaval, mas é um vilão patético levado a sério, ao invés de ser tratado como piada - algo que Mel Brooks faria posteriormente com o "Darth Vader" de Rick Moranis em "Spaceballs", uma sátira de "Star Wars" feita quase 10 anos DEPOIS dos Trapalhões, e infinitamente mais engraçada.

Enfim, o riso vem da precariedade da produção, dos figurinos e dos efeitos especiais, mas sempre involuntariamente, e não porque era essa a proposta. As piadas "prontas", que deviam provocar risadas, nada causam além de tédio. O riso vem sempre nas horas erradas; por outro lado, a sensação de tempo perdido, e de "Porra, como esse filme é ruim", é constante.


OS TRAPALHÕES NA GUERRA DOS PLANETAS marca um momento importante dos Trapalhões. Primeiro, eles estavam mudando de trio para quarteto com a entrada de Mauro Gonçalves, o Zacarias (este é seu primeiro filme como Trapalhão; os outros traziam apenas Didi, Dedé e Mussum). Segundo, o grupo deixava a TV Tupi, onde fazia o maior sucesso com seu programa semanal, para ir à TV Globo, onde alcançaria uma projeção ainda maior.

O dedo da Globo na produção é perceptível, até porque o filme todo foi gravado não em película, como os anteriores, mas em videotape, um formato televisivo, que permitia maior rapidez e menos custos para filmar. A imagem em VT depois foi ampliada para 35mm, mas mesmo assim ficou muito estranha, mais com cara de "especial de televisão" do que de filme.

A aventura começa com uma interminável perseguição de automóveis sem diálogos, em que Didi e sua turma fogem de perseguidores anônimos (mais tarde, Dedé xinga Didi dizendo que ele deve aprender a não se meter com a mulher dos outros).


A seqüência já dá o tom do que vem pela frente: gigantesca, sem qualquer noção de ritmo, usa e abusa da inexpressiva trilha musical de Beto Strada, que praticamente martela os tímpanos do espectador.

Depois de despistar os perseguidores, os quatro amigos resolvem dormir ao relento no meio de um bosque, onde testemunham o pouso de uma tosquíssima nave espacial em esquema "chroma-key" (os discos voadores de "Plan 9..." parecem coisa do George Lucas depois disso).


Da nave sai o Luke Skywalker tupiniquim, rebatizado Príncipe Flick, e interpretado por Pedro Aguinaga - que à época era considerado um dos maiores gatões do Brasil, se é que essa informação serve para alguma coisa.

Flick pede a ajuda dos Trapalhões para combater o maligno Príncipe Zuco (que algumas fontes indicam ser interpretado por Carlos Kurt, vilão de quase todos os filmes do grupo na época). O vilão quer a outra metade de um poderoso computador para dominar a galáxia, mas pode esquecer, isso não faz diferença alguma na trama.

Diante da promessa do seu peso em ouro como prêmio, Didi, Dedé, Mussum e Zacarias embarcam no disco com Flick e seu navegador, Bonzo (!!!), o Chewbacca brasileiro ("interpretado" por Emil Rached).


Chegando no planeta - um grande deserto imitando Tatooine -, o grupo entra numa gigantesca (literalmente) briga com os monstros de Zuco. Sem diálogos e repleta de efeitos digitais ridículos (como se alguém estivesse brincando com um velho teclado eletrônico Casio), esta cena de pancadaria é dose pra leão: dura uns 10 minutos, e parece ainda maior por causa dos efeitos de repetição (estilo replay) usados à exaustão.

Sabe aquilo que o "Pânico na TV" faz hoje, de repetir alguma bobagem qualquer até três ou quatro vezes? Pois devem ter aprendido aqui nesse filme dos Trapalhões, onde cada macacada ganha replay e repete três vezes, para desespero do espectador! (Se tiver paciência, veja a cena no vídeo no final desse texto.)

No meio da briga, Zuco foge com a amada de Flick, a princesa Myrna (Maria Cristina Nunes). A partir de então, o príncipe, Bonzo e os Trapalhões ficam circulando pelo filme sem muito rumo, visitando lugares como uma danceteria alienígena (emulando a "cena da cantina" de "Guerra nas Estrelas"), florestas com seres invisíveis e cavernas com aranhas gigantes (que ganham vida através de efeitos à la "Chapolim"!).


OS TRAPALHÕES NA GUERRA DOS PLANETAS devia se chamar "Zorra Total", já que do roteiro às piadas, dos personagens aos cenários, dos figurinos aos efeitos especiais, da música aos efeitos sonoros, NADA funciona!

Quase todas as cenas com "efeitos especiais" usam o "chroma-key", um dos recursos mais simplórios e artificiais da televisão (o mesmo utilizado nos episódios do "Chapolim", para o leitor ter uma idéia). Na cena dos homens-invisíveis, o chroma-key é tão vagabundo que você percebe pedaços das pernas e das mãos dos homens invisíveis, que "vazam" para dentro da imagem.

Chroma-key ruim de doer



Aliás, toda a parte técnica do filme é um fiasco, com destaque para o disco voador de brinquedo (cujo "trem-de-pouso" foi feito com desentupidores de pia!) e para a cena em que, no meio da pancadaria em "Tatooine", várias das "criaturas alienígenas" caem no chão revelando pernas humanas, meias humanas, tênis humanos e até as CUECAS HUMANAS dos figurantes por baixo da roupa de ET! Morra de inveja, Ed Wood!!!


Ainda assim, é possível encontrar alguns momentos marcantes nessa agonia.

Um destes momentos, de tão "sem noção", salta aos olhos. A cena mostra Didi comprando armas de raios de um vendedor alienígena. "Testando" as pistolas, o trapalhão desintegra (isso mesmo, DESINTEGRA) dois grupos de alienígenas e uma nave espacial!

Depois, quando o vendedor não aceita seus "cruzeiros" pela compra das armas, Didi simplesmente usa uma das pistolas para desintegrar o sujeito! A patrulha do "politicamente correto" certamente crucificaria os realizadores do filme caso ele fosse feito hoje.


Mas nada pode preparar o espectador para a conclusão, de longe uma das mais tristes e depressivas da história dos Trapalhões.

Em vários dos filmes anteriores do grupo, o personagem de Renato Aragão se apaixonava pela mocinha e a perdia para o "galã" secundário da trama. Aqui isso também acontece, mas de uma maneira muito dramática.

Acontece que o vilão Zuco confessa a Flick que sua amada princesa morreu durante o processo de preparação de um clone da moça (exato, a mocinha do filme MORREU!). Aí, Flick precisa contentar-se com a irmã dela, que vem a ser Loya (Wilma Dias), a namorada do Didi.


A cena é de partir o coração, e me espanta estar num filme "infantil": num momento, Didi e Loya estão fazendo planos de casar e morar para sempre no planeta alienígena; no minuto seguinte, Flick levanta e tasca um abraço e um beijo na namorada do "amigo", diante dos olhos estupefatos do Didi! Jamais uma cena igual seria feita hoje!

Outra qualidade de OS TRAPALHÕES NA GUERRA DOS PLANETAS é a participação (pequena) de uma das deusas da Boca do Lixo da época, a loira Arlete Moreira (que fez "Perversão", do Mojica), como namorada do Mussum.

Ela é um dos poucos motivos para ficar de olho no filme, ao invés de fazer qualquer outra coisa enquanto a "trama" se desenrola.


Apesar do humor do filme ser praticamente nulo, às vezes é possível dar algumas risadinhas de leve, especialmente em momentos que parecem ser os tradicionais improvisos de Renato Aragão.

Ao "imobilizar" o vilão Zuco com seus raios, por exemplo, Didi começa a fazer todo tipo de palhaçada com o sujeito, inclusive tirando seu capacete de Darth Vader para colocar na própria cabeça! É tanta micagem que parece que baixou o Sergio Mallandro no Didi!


OS TRAPALHÕES NA GUERRA DOS PLANETAS dificilmente seria lembrado, hoje, se não fosse pela sua associação com "Star Wars". Tanto que, lá fora, virou cult e peça disputada a tapa por colecionadores - principalmente quando o primeiro DVD do filme, lançado pela Som Livre ainda nos anos 90, esgotou.

É hilário ler as críticas dos gringos sobre a obra e vê-los questionando o humor "sem pé nem cabeça" (eles obviamente não conhecem os Trapalhões como nós), como na cena em que Didi rebola diante de uma aranha gigante (coisa que nós esperamos que o Didi faça, mas os gringos não). Aliás, Trapalhões lá fora é "The Tramps", e Didi é "Dee Dee". hehehehe.

Temos, assim, mais um FILME PARA DOIDOS com louvor, e só mesmo sendo doido para agüentar esse martírio até o final. Mesmo assim, confesso que já revi OS TRAPALHÕES NA GUERRA DOS PLANETAS umas dez vezes - e a cada reprise, continuo espantado com a ruindade da coisa toda!


E pensar que este é um dos maiores sucesso de bilheteria dos Trapalhões, quase empatando com a renda que o próprio "Star Wars" fez nos cinemas brasileiros na época: a "sátira" levou 5 milhões de espectadores aos cinemas, tornando-se uma das maiores bilheterias do cinema nacional de todos os tempos (mais que o público que foi ver "Tropa de Elite" e "Cidade de Deus", para dar uma idéia).

Também é o 3º filme mais rentável dos Trapalhões, atrás apenas do grande recordista "O Trapalhão nas Minas do Rei Salomão" e de "Os Saltimbancos Trapalhões"!


É, assim, a prova de que Renato Aragão não tem nada de bobo, e estava antenado com o que acontecia no mundo do cinema da época.

Até porque, além de copiar "Star Wars", o filme traz uma coincidência estranhíssima: Didi aparece vestindo uma camiseta vermelha com a palavra "Flash" em letras brancas, IDÊNTICA àquela que seria utilizada por Sam Jones no filme "Flash Gordon" - que só foi filmado dois anos DEPOIS, em 1980!!! Eu jurava que era uma citação ao filme gringo até descobrir que os Trapalhões vieram antes.

Ah, e se você pensa que o diretor Adriano Stuart aprendeu com seus erros, pense de novo: dez anos depois, ele seria o responsável por "Fofão e a Nave Sem Rumo", outro escalafobético clássico trash brasileiro!

A pancadaria na Tatooine tupiniquim



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Os Trapalhões na Guerra
dos Planetas (1978, Brasil)

Direção: Adriano Stuart
Elenco: Renato Aragão, Dedé Santana, Mussum,
Zacarias, Pedro Aguinaga, Carlos Kurt, Emil Rached,
Maria Cristina Nunes e Arlete Moreira.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Um osso muito mais duro de roer


Assisti TROPA DE ELITE 2 na primeira sessão do dia do seu lançamento nacional (8 de outubro de 2011). Saí abobado do cinema. Nem percebi a viagem de ônibus de volta para casa, de tanto que estava imerso no filme que acabara de ver.

A prova é que somente hoje, cinco dias depois, consegui finalmente escrever algumas mal-traçadas linhas sobre o novo petardo do José Padilha.

TROPA DE ELITE 2 é uma cacetada na cabeça. E provavelmente o filme mais corajoso já feito no Brasil, ou pelo menos no pós-Retomada (o que também não é muito difícil). Duvido que alguém seja macho para fazer algo mais corajoso do que isso nos próximos dez ou vinte anos. Se "Tropa de Elite" enfiava o dedo na ferida, este segundo filme enfia a mão inteira na ferida, e ainda taca sal em cima depois.

Ainda me lembro de quando começava a se falar no original, na época em que o filme começava a vazar na internet. Alguém, não vou lembrar quem, postou nos comentários do blog do Caraça que "Elite Troop" (na época do vazamento, ainda era conhecido pelo título em inglês) era obrigatório.

Baixei sem nem saber o que era e fiquei louco. "Tropa de Elite" era o filmaço brasileiro que eu esperava há anos para ver. Não aquela beatificação do papel do bandido que cineasta brasileiro (vulgo "sociólogo") adora fazer, mas um filme sem frescuras sobre os problemas pessoais e a violência do dia-a-dia dos que tentam manter a lei no Rio de Janeiro.


Pra quê? Obra, personagens e diretor foram acusados até de fascistas!

Enfim, gostei tanto do "Tropa de Elite" original que gravei vários DVDs piratas e distribuí para todos os meus amigos dizendo que eles PRECISAVAM ver aquele filme. Dito e feito: virou febre ANTES de chegar aos cinemas. Só eu vi no mínimo umas 15 vezes.

(Desculpe, José Padilha, pelo meu ato de pirataria. Mas pode estar certo de que quase todos os meus amigos que viram esse DVD que eu distribuí depois foram conferir "Tropa de Elite" na telona, pelo menos uma vez!)

Com o sucesso do original, começavam a pipocar os boatos sobre o que seria do Capitão Nascimento, personagem principal do filme, e os soldados durões do Bope. Falava-se em transformar "Tropa de Elite" em seriado de TV, com uma missão diferente por episódio, idéia que não era de todo desprezível. Falava-se até em criar uma franquia nos moldes das aventuras hollywoodianas, transformando Nascimento em herói casca-grossa à la "Stallone Cobra", outra idéia nada desprezível.


E o que faz José Padilha?

Acredite se quiser, mas TROPA DE ELITE 2 é um filme ABSOLUTAMENTE DIFERENTE do primeiro.

Quem só quer ver o Bope invadindo morro e passando fogo nos traficantes poderá até ficar decepcionado, já que esta sequência é uma história de intrigas palacianas, onde os tiroteios no morro foram trocados pelas guerras de interesses (não menos violentas) em gabinetes.

Assim, ao invés de fazer o descerebrado filme policial ou de ação que seria natural após "Tropa de Elite" e suas dezenas de frases de efeito ("Bota na conta do Papa", "Pede pra sair", "Você é um fanfarrão", e por aí vai...), Padilha preferiu entregar um filme que, como já foi escrito por aí, lembra aqueles filmes policiais introspectivos e lentos do cinema italiano, tipo "Confissões de um Comissário de Polícia", do Damiano Damini, em que um policial de boa índole vai enfrentar o "Sistema" e acaba sendo destruído por ele.

Se no primeiro filme o Capitão Nascimento e seus homens enfrentavam o tráfico de drogas no Rio de Janeiro, enquanto Padilha e o roteirista Bráulio Mantovani apontavam o dedo acusando a classe média de financiar o mesmo tráfico, agora o enfoque é diferente. A frase no cartaz de TROPA DE ELITE 2 já alerta: "O inimigo agora é outro". E mais perigoso do que o original.


Passado nos tempos atuais (e não em 1997, como o original), este segundo filme traz um envelhecido Capitão Nascimento, agora Tenente-coronel Nascimento, soberbamente interpretado por Wagner Moura.

A primeira cena do filme na verdade é quase o final. Nascimento é emboscado por um grupo de inimigos armados (não numa favela, mas no meio da cidade) e tem seu carro completamente metralhado. Com sua tradicional narração em off, ele diz "É na hora da morte que a gente entende a vida", e põe-se a contar como acabou daquele jeito.

O público fica em suspense até perto da conclusão, quando a cena é retomada: terá Nascimento realmente morrido?

A narrativa volta no tempo alguns meses, quando o Bope foi chamado para controlar uma rebelião de presos em Bangu I e acabou provocando um massacre ("Bandido bom é bandido morto", lembra?). Na imprensa, os tradicionais defensores dos direitos humanos caem matando e pedindo a cabeça de Nascimento.

(Esta cena lembra dois dramáticos fatos verídicos recentes da história brasileira: a desastrada ação do Bope no caso do sequestro do ônibus 174 e o massacre no Carandiru.)


Só que, para o horror dos defensores dos direitos humanos, o cidadão comum festeja a ação do Bope e a chacina dos marginais. Isso coloca o governador do Rio de Janeiro numa sinuca: não pode simplesmente demitir Nascimento, para não provocar a fúria da opinião pública. Solução: nosso "herói" sai do Bope, mas é "encaixado" como subsecretário de Segurança Pública.

Ali, Nascimento tem a chance de tentar lutar contra o Sistema por dentro do próprio Sistema. Transforma o Bope numa máquina de guerra, e praticamente limpa o tráfico dos morros. Mas é quando surge um novo problema: a corrupção na polícia militar carioca, que se organiza em milícias para "vender segurança" na favela.

Convém não falar muito mais sobre a história para não estragar as surpresas, como fizeram outros críticos "profissionais" por aí. Só vá ao cinema sabendo que o "novo inimigo" citado no cartaz não são os traficantes semi-analfabetos e truculentos de "Tropa de Elite", mas sim a corrupção.


E aí sobra para todo mundo: políticos, polícia militar e imprensa. Padilha, Mantovani e o Tenente-coronel Nascimento miram para todos os alvos e dão balaços certeiros em cada um deles, mas sempre deixando bem clara a impotência de um único homem "honesto" contra um Sistema podre e corrupto.

Acredite: é um osso muito mais duro de roer. E se Nascimento saía-se razoavelmente bem contra os marginais na favela, quando podia usar livremente armamento pesado e técnicas de tortura, contra políticos corruptos a solução não é assim tão "simples".

TROPA DE ELITE 2 traz de volta velhos conhecidos, como o agora capitão do Bope Matias (André Ramiro), o covarde Capitão Fábio (Milhem Cortaz), dessa vez promovido a coronel, e o Major Rocha (Sandro Rocha), que no original tinha apenas uma ceninha (onde dizia o bordão "Pra rir, tem que fazer rir", citado aqui outra vez em cena impagável), e agora foi alçado ao papel de terrível vilão.



A ex-mulher de Nascimento, Rosane (Maria Ribeiro), também volta, e agora há um drama secundário com a figura do filho adolescente do casal, que não concorda com o "trabalho" do pai.

E surgem novos e ótimos personagens, como o ativista dos direitos humanos Diogo Fraga (Irandhir Santos) e o apresentador sensacionalista de televisão Fortunato (André Mattos), que manipula as massas e defende que não se investigue nada "em ano de eleição". Eles estão entre as melhores coisas deste segundo filme.

Pela cena inicial, eu temia que o papel de Irandhir fosse se transformar naquele típico mala que fica o filme todo incomodando o protagonista. Mas o "Che Guevara" (como Nascimento apelidou Fraga) mostra-se um personagem muito mais rico e interessante, principalmente da metade para o final.


Já Fortunato, que grita, dança e esbraveja em seu programa de TV "Mira Geral", lembra um cruzamento de Wagner Montes com Datena.

Quando digo que TROPA DE ELITE 2 é um filme corajoso, não é exagero meu. Padilha e sua trupe jogam na tela, sem rodeios ou maquiagem, que a culpa pela violência urbana é dos políticos, e que a violência no morro é apenas a ponta de um iceberg que envolve os palácios dos governos e a própria Brasília.

Se no original víamos o traficante Baiano executando friamente dois adolescentes no "microondas", como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo, agora Padilha nos mostra políticos participando de banquetes ou relaxando na sauna enquanto seus "aliados" matam personagens principais da trama sem dó nem piedade (prepare-se para ficar puto ao sair do cinema).


Por sinal, é esse belo jogo de contrastes que torna TROPA DE ELITE 2 tão rico, e muito superior ao primeiro filme - que já era um filmaço, é bom que se ressalte.

Se em "Tropa de Elite" o povo vibrava ao ver o Capitão Nascimento torturando e espancando marginais no morro, aqui a cena aplaudida com mais entusiasmo é aquela em que o Tenente-coronel Nascimento faz a mesma coisa com um político corrupto. O cinema vem abaixo: é como se fosse uma vingança contra a corrupção que já virou praticamente um sinônimo da política brasileira.

Outro momento marcante é a primeira vez em que vemos Nascimento voltando para a sua casa após um dia de "trabalho". Pois a câmera está posicionada da mesma forma no mesmo cenário da casa do personagem em "Tropa de Elite", e ele novamente vai para a cozinha servir-se de um copo de água gelada, como fazia no original, comprovando que absolutamente nada mudou para o protagonista de 1997 para cá.

Finalmente, a cena em que o Capitão Matias, agora no comando do Bope, espanca um traficante e depois tortura, com a ajuda do tradicional saco plástico, ilustra a transformação do policial idealista visto no primeiro filme no seu mentor Nascimento, que fazia exatamente a mesma coisa em "Tropa de Elite". Neste cena, Matias não assume apenas o manto de Nascimento, ele SE TRANSFORMA em Nascimento.


(E é no mínimo triste ver como o Capitão Nascimento fodão de "Tropa de Elite", aquele que atirava antes e perguntava depois, agora dá espaço a um Tenente-coronel Nascimento preso a burocracias e entraves políticos, sem a menor possibilidade de ganhar a briga "do seu jeito". Isso fica muito claro na cena em que todo o seu argumento contrário a uma missão é desconsiderado com um simples telefonema para uma "autoridade")

Mesmo que boa parte do filme se passe em gabinetes e escritórios, TROPA DE ELITE 2 consegue criar aquele suspense tenso que faz o espectador roer as unhas. Desta vez os protagonistas não estão marchando pelas ruas e becos dos morros na mira de traficantes, mas ironicamente lidam com inimigos tão perigosos quanto - e que também atiram pelas costas.

Não dá pra deixar de citar o personagem de Milhem Cortaz, novamente roubando a cena sempre que aparece, agora com um bigodinho e jeitão cafajeste que lembram o saudoso Jece Valadão. Seu Coronel Fábio tem algumas das melhores falas do filme, incluindo a já clássica "Se quer me foder, me beija".

Talvez o único ponto fraco do filme seja Rafael, o filho adolescente de Nascimento. A impressão que fica era que o personagem deveria ter um espaço maior no filme, mas talvez suas cenas tenham sido limadas pela inexpressividade do ator-mirim Pedro Van-Held. Todas as cenas com o garoto ficam aquém do seu potencial, mesmo a singela "conversa" entre pai e filho num ringue de artes marciais.


Todo o resto é irrepreensível, ainda mais para quem jurava que o raio não poderia cair duas vezes no mesmo lugar e dificilmente Padilha, Wagner Moura e cia. fariam algo tão legal quanto o primeiro "Tropa de Elite".

Com direito a uma série de divertidas citações feitas pelo roteirista Mantovani, pescando frases não apenas do original ("Você é um moleque!", "Pra rir, tem que fazer rir"), mas de outros trabalhos que ele escreveu (tem uma fala que remete ao diálogo "Quem disse que a boca é tua?", de "Cidade de Deus").

Como escrevi no começo, eu saí da sala de cinema literalmente abobado, entre os aplausos do público que lotara a sessão. Mas também saí preocupado com um possível fracasso comercial do filme, justamente por tocar num tema mais espinhoso, sem os tiros, espancamentos e bem-humoradas frases de efeito do original.



Pelo jeito, não é o que vai acontecer: os números de bilheteria estão nas alturas, crítica e público estão amando a obra com igual intensidade, e TROPA DE ELITE 2 tem tudo, mas tudo mesmo, para ser o melhor filme do ano.

De minha parte, espero revê-lo em breve, outra vez no cinema, e (tomara!) outra vez num cinema lotado, para vibrar com a sala toda na cena do espancamento do político corrupto.

Quem sabe o povão não começa a abrir os olhos com filmes como esse, principalmente depois da arrepiante cena em que uma câmera aérea passeia por Brasília enquanto a voz em off de Nascimento explica, sem rodeios, quem é o verdadeiro inimigo.

Que, como eu já escrevi, é um osso muito mais duro de roer.