quarta-feira, 29 de setembro de 2010

STALLONE COBRA (1986)


"Com louco eu não negocio, eu mato!"

"A culpa é do juiz. A gente prende e o juiz solta."

"Você é a doença. Eu sou a cura".

"Aqui a lei termina... e eu começo!".


São frases de efeito como essas que o policial Cobra, interpretado com olhar de peixe morto por um Sylvester Stallone no auge da fama, sussurra antes de crivar bandidos de balas em STALLONE COBRA, um daqueles clássicos do cinema de ação apelativo dos anos 80 que todo mundo viu, e se não viu deveria correr atrás imediatamente.

Até porque, de tão exageradas e amorais, estas obras acabaram se transformando não só em clássicos do politicamente incorreto, mas em verdadeiras comédias involuntárias.


Pois STALLONE COBRA é a essência do cinema descerebrado e casca-grossa da década de 80, e talvez um dos melhores representantes da estupidez daquela Era Reagan. Uma sessão dupla inesquecível seria vê-lo junto com "Comando para Matar", do Schwarzenegger, ou "Desejo de Matar 3", de Michael Winner.

Na época do seu lançamento (1986), o filme provocou bastante polêmica pela extrema violência. Muita gente nem lembra, mas quando ele chegou aos cinemas brasileiros, entre 86 e 87, foi retalhado pela censura e proibido para menores de 18 anos.

Inclusive uma das minhas mais perenes memórias de infância é a do dia em que meu pai chegou extasiado em casa com uma fita pirata de STALLONE COBRA em versão "sem cortes", e reuniu toda a família na sala para ver (ignorando o fato de eu ser, na época, um moleque com 8 ou 9 anos de idade). A verdade é que a cópia era tão ruim que nem permitia ver muita coisa, mas a imagem do policial durão vestido de preto, com óculos espelhados e um fósforo no canto da boca não me saiu mais da cabeça.


Hoje, é fácil entender que a polêmica em torno do filme lá em 1986 não era tanto pelas cenas de violência (bastante comuns), mas sim pela visão distorcida do papel do policial ao fazer justiça com as próprias mãos. Afinal, o tal Cobra, que devia ser o herói, muitas vezes se assemelha aos bandidos, atirando em adversários desarmados, comprando briga por bobagem e até matando sadicamente os vilões com um sorrisinho cínico no rosto.

Para dar uma idéia da amoralidade da coisa toda, numa cena Cobra incendeia um criminoso vivo enquanto diz "Você tem o direito de permanecer calado...", e fica assistindo o infeliz se debater em chamas, ao invés de pelo menos poupar-lhe do sofrimento com um tiro de misericórdia.


Em outra, um repórter pergunta ao policial, após a ação onde um criminoso foi múltiplas vezes baleado, se era mesmo necessário acabar daquele jeito, com o bandido morto. "Não houve excesso de força?", questiona o jornalista. Cobra, pouco ligando para a liberdade de imprensa, pega o sujeito pelo colarinho, enfia a fuça dele na maca onde está deitado um refém morto pelo bandido e diz: "Pergunta isso pra família dele!".

Essa visão exagerada do papel do policial não era exatamente uma novidade na época. Afinal, 15 anos antes, "Perseguidor Implacável", com Clint Eastwood, já havia causado bastante polêmica exatamente por trazer um policial vingador que preferia executar os bandidos a prendê-los - o clássico Dirty Harry, grande inspiração para o truculento Cobra. Mas para um Brasil ainda em lento processo de abertura, e traumatizado por uma igualmente truculenta Ditadura Militar, as ações do "herói" Stallone pareciam soar excessivamente fascistas.


(Por sinal, muitos críticos juravam que STALLONE COBRA era um remake de "Perseguidor Implacável", não apenas pela trama parecida do policial durão enfrentando psicopatas, mas também pela presença de dois atores do filme de 1971, Andrew Robinson e Reni Santoni. O primeiro fez o psicopata caçado por Clint Eastwood, e aqui, ironicamente, é um policial revoltado com os métodos violentos de Cobra. Já Santoni repete o papel de parceiro do herói, e seu personagem tem o mesmo nome, Gonzales, o que deve ter contribuído para que muitos pensassem na hipótese de refilmagem.)

E já que estamos falando de polêmicos policiais vingadores, é bom lembrar que mais recentemente, aqui mesmo no Brasil, o Capitão Nascimento de "Tropa de Elite" gerou acalorados debates sobre violência policial - e até sobre fascismo!

Talvez todo mundo devesse relaxar um pouquinho e curtir estes filmes pelo que eles realmente são: histórias de FICÇÃO.


O próprio STALLONE COBRA é tão tosco, caricatural e exagerado, com um roteiro ridículo e preguiçoso (os personagens quase nem têm nomes), que não pode em momento algum ser levado a sério. O próprio Stallone - além de astro, roteirista - declarou que o filme tinha o clima de uma história em quadrinhos.

Então, relaxem e gozem, já diria certa política brasileira. Até porque STALLONE COBRA é realmente muito divertido e muito engraçado, com ações e frases prontas do Cobra que espantam qualquer mau humor - e o "padrão de qualidade" dos produtores Golam & Globus, da saudosa Cannon Pictures, aqui provavelmente em seu filme de maior destaque.


O curioso é que a gênese de STALLONE COBRA é "Um Tira da Pesada", de 1984, o filme que transformou Eddie Murphy em astro. Acontece que Stallone era o nome originalmente cotado para o papel, quando o projeto ainda era para uma história policial séria. Só que o astro exigiu várias modificações no roteiro que os produtores de "Um Tira da Pesada" não poderiam pagar. Resultado: ele pulou fora do projeto e usou essas suas idéias mirabolantes no roteiro de STALLONE COBRA.

Uma prova de que o filme não deve ser levado a sério em momento algum, e sim curtido como uma inconseqüente história em quadrinhos, é o seu próprio personagem principal. Stallone faz de tudo para mostrar o policial Marion Cobretti (verdadeiro nome do Cobra) como o mais durão dos durões, o mais fodão dos seres humanos.


Cobra não é uma pessoa normal, mas uma máquina de matar. Anda sempre com luvas de couro negras, os óculos escuros espelhados de motorista de ônibus e o palitinho de fósforo super fashion no canto da boca. Quase nunca abre a boca, e quando fala é para ameaçar ou xingar algum bandido. E em todas as cenas em que aparece "fora do trabalho", ele não aparenta ter qualquer vida pessoal: está ou treinando tiro, ou limpando sua pistola enquanto come pizza cortando as fatias com uma tesoura!

Ou seja: Cobra vive e respira violência, e quer encrenca 24 horas por dia. Como na cena em que vai estacionar seu carro em frente de casa e teima em colocá-lo numa vaga onde o veículo não cabe, batendo na traseira do carro da frente e empurrando-o até o seu caber. Os donos do carro, latinos, saem furiosos querendo tirar satisfação - e com razão! Cobra dá uma olhada para o cigarro na boca de um deles e diz: "Isso faz mal, sabia?". O cara responde: "O quê, o cigarro?". E o Cobra: "Não, eu!". Ele então arranca o cigarro da boca do homem e rasga infantilmente a sua camisa, só para provocar, antes de sair bufando! Dá pra argumentar com um "herói" desses?


STALLONE COBRA já começa sem meias-medidas, com o close de uma pistola sendo apontada para a câmera (e diretamente para a fuça do espectador) e disparando; a bala sai em direção ao "alvo", num efeito que ficaria interessantíssimo em 3-D. Isso já dá uma idéia do que vem pela frente, considerando que a primeira cena do filme é, literalmente, um tiro na cara do espectador!!!


Em seguida, um maluco sitia um supermercado, onde faz vários reféns. A polícia cerca o local com mais de 30 homens armados até os dentes, mas o inspetor diz apenas: "Chame o Cobra". Cobretti chega, entra no local, fala meia dúzia de frases de efeitos e simplesmente pipoca o bandido de tiros. Quer dizer, nenhum outro dos 30 policiais armados até os dentes podia fazer a mesma coisa?

Esta cena inicial traz um dos diálogos traduzidos mais antológicos da história da dublagem brasileira. Quem viveu a época de gravar filmes da televisão certamente lembra que a dublagem costumava alterava o sentido original dos diálogos, para eliminar expressões muito pesadas, palavrões ou referências positivas a drogas.

Pois eis que, na versão dublada do filme, Cobra fala o seguinte para o bandido antes de enchê-lo de chumbo: "Cretino! Você adora dar tiro. Eu odeio gente assim. Você é um imaturo. Você é um... cocô! (assim mesmo, com pausa reflexiva) E eu vou matar você!".


Na versão original, o diálogo tem bem pouco a ver com a dublagem brazuca: "Hey dirtbag, you're a lousy shot. I don't like lousy shots. You wasted a kid... for nothing. Now I think it's time to waste you!". Sacou? "You waste a kid" virou "Você é um imaturo"!!! Mesmo assim, a dublagem neste caso é tão hilária (porra, que tipo de herói xinga um bandido com "Você é um... cocô!"????) que ver a versão dublada de STALLONE COBRA é garantia de gargalhadas em dobro.

Mas enfim: depois desta bela introdução, descobrimos que um grupo de assassinos está atacando a cidade e esganando gente inocente. Dezesseis pessoas já foram mortas, e a contagem vai aumentando simplesmente porque a polícia não quer Cobra e seus métodos pouco ortodoxos no caso.

O principal assassino da quadrilha é o "Caçador Noturno", interpretado pelo fortão Brian Thompson com uma cara de psicopata de dar medo - ele tem uns seis ou sete diálogos o filme INTEIRO!


Os malucos matam pessoas esperando criar um "Mundo Novo", mas isso nunca fica explicado. Nas únicas cenas em que vemos os psicopatas reunidos, eles estão realizando uma bizarra cerimônia onde ficam batendo machados ritmadamente. Talvez o "Mundo Novo" seja isso: matar toda a humanidade para que possam bater seus machados em paz!

(Engraçadíssimo é constatar que, nesta cena, no meio de um monte de malucos com roupa de couro e de motoqueiro, aparece um sujeito de terno e gravata batendo animadamente os seus machados! PQP????)


Ah sim, o grupo de psicóticos também inclui uma policial feiosa, chamada Stalk (de "stalker"? dã!), que está infiltrada na polícia justamente para limpar a barra dos amiguinhos. Ela passa o filme todo dando bandeira, acompanhando os matadores nos seus crimes, mas mesmo assim ninguém desconfia dela!

Certo dia, a modelo Ingrid (a linda Brigitte Nielsen) testemunha um dos assassinatos e passa a ser perseguida pelo grupo de malucos, que têm medo de que ela possa reconhecê-los. Aham, tudo bem, eles dão bandeira o filme inteiro e depois ficam com medo de uma provável testemunha!


Claro, Cobra e seu parceiro engraçadinho Gonzales são designados para protegê-la. Ainda que a moça não tenha condições reais de identificar nenhum dos vilões, os assassinos passam todo o resto do filme se expondo publicamente, tentando a todo custo matá-la.

O final é algo bizarro: Cobra, Ingrid e Gonzales fogem para o interior seguidos por um batalhão de malucos em motocicletas, mascarados e com rifles e metralhadoras nas costas - e ninguém suspeita daquilo e chama a polícia!

Pior: o Caçador Noturno arma toda essa guerrilha para silenciar a testemunha que poderia identificá-lo, sem perceber que desse jeito revelou-se muito mais do que se simplesmente deixasse a moça fugir!!!


Como dá para perceber, a maior parte de STALLONE COBRA é uma bobagem - pura, simples e hilária. Entre as muitas cenas sem pé nem cabeça, é impossível não citar aquela em que o Caçador Noturno entra disfarçado (mas qualquer um vê que o cara é um bandido pela cara de psicopata) no hospital onde Ingrid está. Pois o vilão perde tempo matando praticamente todo mundo por ali (enfermeiras, o cara da faxina, outros pacientes...), MENOS a garota. Que, claro, é salva na hora H por Cobra.

Mas convenhamos: quem em sã consciência vai assistir um filme como STALLONE COBRA, que no cartaz traz Stallone com óculos espelhado e uma metralhadora gigante, esperando ver um "Cidadão Kane", e não um "Cidadão Cobra"?


Assim, o filme é perfeito naquilo que se propõe: as cenas de ação são muito bem realizadas e a contagem de cadáveres, generosa (52 pessoas, segundo o IMDB, sendo que Schwarzenegger matou, sozinho, 81 em "Comando para Matar", lançado no ano anterior).

A melhor cena do filme, e que fica ainda melhor nestes tempos de edição videoclipeira, mostra uma perseguição automobilística em alta velocidade pelas ruas de Los Angeles. Cobra, pilotando um carrão anos 50 turbinado com nitro, foge de dois veículos repletos de caras armados. Em determinado momento, o herói fecha um cavalinho-de-pau no meio da estrada e, dirigindo de ré, sem perder a pose, metralha o carro que vem atrás, explodindo-o, só para então dar novo cavalinho-de-pau e voltar à posição normal!


No final, quando Cobra enfrenta sozinho o exército de assassinos e o próprio Caçador Noturno, ele o faz munido de metralhadoras e granadas dignas de um pequeno exército. Você pode questionar como é que um policial tem arsenal de guerra à disposição para uma emergência como essa, mas é melhor deixar pra lá.

Dentro de uma siderúrgica, no auge da sua maluquice, o Caçador Noturno comete o erro de ameaçar o herói: "Me leva preso, seu porco!". Mas é claro que Cobra prefere assumir o papel de juiz e executor, e enfia o psicopata num enorme gancho metálico, que leva o pobre coitado direto para uma morte lenta e horrível dentro de uma fornalha. The End.


O tempo transformou STALLONE COBRA numa divertida comédia, mas não dá para desmerecer o trabalho do (falecido) diretor George Pan Cosmatos. Ele usa e abusa de praticamente todos os recursos à sua disposição para deixar o filme mais "bonito", de filtros coloridos a câmera lenta, de lente grande angular a olho-de-peixe, e por aí vai. Podem reclamar o quanto quiserem do filme, mas ele é inegavelmente bem filmado e bem editado. Claro, no tocante ao roteiro e às interpretações, a história é diferente...

O roteiro infantil de Stallone não se preocupa em momento algum com a lógica. Até porque Cobra poderia resolver o caso todo aos 20 minutos de filme, quando alguns capangas do vilão vão tentar pegá-lo em sua casa. Claro, ele prefere matar os sujeitos (mesmo desarmados) a prendê-los e interrogá-los, mas a identificação dos cadáveres daria no mínimo algumas pistas sobre os outros membros da quadrilha. Só que isso seria algo inteligente demais no universo de HQ de STALLONE COBRA.


Quando não está matando gente, o herói fica falando bobagens que, pelo menos na cabeça de Stallone, seriam uma forma de transformá-lo num sujeito legal. Tenta, por exemplo, incentivar o parceiro viciado em fast food a comer comida saudável. "Vai, come uma fruta, uma uva-passa, uma ameixa. Isso faz bem pra você", diz. Obviamente, soa artificial. Assim como o romance de Cobretti com Ingrid.

E é o cúmulo do hilário ver herói e mocinha sozinhos num quarto de motel: a bela Ingrid desamparada deitada na cama, esperando pelo seu herói... mas este prefere ficar sentado num canto limpando sua metralhadora!!!


É difícil, hoje, imaginar que um filme bobo como STALLONE COBRA possa ter gerado tanta polêmica na época do seu lançamento. Ainda bem que o tempo faz justiça a certas obras: Stallone dizia que seu filme não devia ser levado a sério, e hoje são poucos que o fazem.

Ironicamente, STALLONE COBRA agora pode ser visto como uma sátira do próprio cinema de ação daquela época, e neste aspecto é até mais engraçado que "Chumbo Grosso", comédia (assumida) dirigida recentemente por Edgar Wright.


PS 1: Stallone apaixonou-se pela atriz Brigitte Nielsen, uma promessa de estrelinha da época que acabou não dando certo. Ela também apareceu em "Rocky 4", dirigido por Stallone, na época em que os dois namoravam. Depois, o astro descobriu que era traído: Brigitte saía com sua própria secretária!!! Pode? Nessa, pelo menos, o Cobretti se deu mal...

PS 2: STALLONE COBRA foi considerado um fracasso de bilheteria na sua época, mas ficou tão imortalizado na cultura pop que gerou jogos de videogame e até dois gibis não-autorizados, um na Hungria (!!!) e outro no Brasil! Você pode ver imagens do jogo e dos quadrinhos húngaros abaixo; já para ler a HQ brasileira na íntegra, clique aqui.



E tem uma coisa engraçada: a Ocean, programadora do jogo, fez tudo na corrida para que o lançamento do game correspondesse com a estréia do filme nos cinemas. Por causa da pressa, esqueceram de programar O FINAL DO JOGO! Assim, durante a batalha final do Cobra com o Caçador Noturno, o último chefe simplesmente NÃO MORRIA, e o pobre jogador era obrigado a desligar o videogame quando cansasse de dar porradas inutilmente no sujeito!

PS 3: O IMDB informa que o mito Ron Jeremy foi extra no filme. Alguém conseguiu identificar um gordinho, baixinho, bigodudo de pau grande no meio dos tiroteios?

Trailer de STALLONE COBRA



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Stallone Cobra (1986, EUA)

Direção: George Pan Cosmatos
Elenco: Sylvester Stallone, Brigitte Nielsen,
Reni Santoni, Andrew Robinson, Brian Thompson,
Art LaFleur e John Herzfeld.

sábado, 25 de setembro de 2010

"They call him MACHETE"


Quando 2010 começou, boa parte dos cinéfilos desse mundo (eu inclusive) jurava que dois seriam os filmes do ano: "Os Mercenários", de Sylvester Stallone", e MACHETE, de Robert Rodriguez.

Enquanto o primeiro prometia uma explosiva reunião de ícones do cinema de ação casca-grossa dos anos 80, o segundo apresentava-se como uma brincadeira absurda e sangrenta homenageando o mesmo tipo de ação inconseqüente, mas agregando também elementos do cinema "exploitation" da década de 70.

Bem, as duas grandes promessas de "filme do ano" já foram lançadas, e no fim ambas revelaram-se apenas isso mesmo: PROMESSAS, bem aquém do seu potencial - um tanto burocráticas, um tanto levadas a sério demais -, frustrando as altíssimas expectativas geradas pelos trailers.


Eu até diria que "Os Mercenários" e MACHETE se tornaram dois exemplo clássicos daquele velho ditado: "Quando a esmola é muita, até o santo desconfia".

Não que eles não sejam divertidos, pelo contrário. Só ficam bem abaixo do que todo mundo esperava pelos trailers e pelos conceitos dos projetos, soando até burocráticos e oportunistas.

A idéia de um herói mexicano politicamente incorreto acompanha o diretor-roteirista Rodriguez desde a época de "A Balada do Pistoleiro" (1995), mas não precisa ser muito inteligente para perceber que ele enfrentaria grandes dificuldades para tirar o projeto do papel. Afinal, que estúdio, em sã consciência, financiaria um sangrento filme de ação com Danny Trejo no papel de herói, logo ele que geralmente faz papel de bandido justamente pela feiúra?


O tempo foi passando e Rodriguez encontrou uma brecha para dar vida a Machete no mal-sucedido "Grindhouse", que filmou em parceria com Tarantino. Dentro da brincadeira que o filme propunha, foi inserido um trailer falso de "Machete" que, por incrível que pareça, é uma das melhores coisas de "Grindhouse" inteiro, e acabou dando o sinal verde para que o diretor finalmente realizasse o seu longa com Danny Trejo.

O problema de MACHETE, o longa, é bem simples: o trailer falso é divertidíssimo justamente porque não perde tempo com baboseiras e entrega direto a ação absurda e violenta (e a sacanagem gratuita) que o espectador quer ver; ao ser ampliado para longa, o projeto já sai perdendo de início porque todas as cenas boas já apareciam no trailer falso, e Rodriguez parece ter perdido o espírito da brincadeira, levando o material a sério demais.


Eu, por exemplo, esperava ver Danny Trejo tocando o terror o filme inteiro, num festival de cenas sem-noção e sanguinárias no estilo dos dois "Adrenalina", com Jason Statham. No filme de Rodriguez, Trejo até "faz o serviço", mas essas cenas boas estão separadas por diversos momentos estúpidos e/ou dispensáveis, como longos e desinteressantes diálogos expositivos entre os vilões e entre outros personagens secundários. E quem quer ver Danny Trejo conversando abobrinhas com Michelle Rodriguez e Jessica Alba ao invés de passar o rodo nas duas?

Assim, não é exagero dizer que MACHETE é um filme que você assiste ora com um sorrisão nos lábios, ora bocejando e pensando seriamente em fazer outra coisa da sua vida.

Mas verdade seja dita: os primeiros 15 minutos são espetaculares, e se o filme inteiro fosse assim, certamente manteria a alcunha de "filme do ano".


O prólogo passa-se no México, onde o "federale" Machete tenta resgatar uma bela garota do traficante Torrez (Steven Seagal, uma das melhores coisas do filme, inacreditável como o primeiro vilão da sua carreira).

Sem dar muitos detalhes para não estragar a surpresa, esta cena inicial traz tudo aquilo que você queria ver baseado no trailer falso exibido em "Grindhouse": violência aos borbotões (com direito a cabeças decepadas e cortadas no meio enquanto ainda estão no ar!!!), sacanagem (na pele de uma garota completamente nua que tira um telefone celular DAQUELE LUGAR) e Steven Seagal brigando com Danny Trejo. Nada pode ser melhor...

Aí, depois dos créditos iniciais, o filme começa para valer e o pique cai. Bastante. Se 15 minutos antes parecia que o diretor tinha tomado 30 litros de Red Bull, agora a impressão que se tem é que ele chapou-se com Rivotril.

Três anos depois da cena inicial, vivendo como imigrante ilegal no Texas, Machete é envolvido numa trama política para ajudar na reeleição do senador McLaughlin (Robert DeNiro, pagando um micão), envolvendo um falso atentado e a conseqüente tentativa de assassinato do mexicano. Mas ele sobrevive e parte para a vingança contra seus inimigos.


Rodriguez parece na dúvida entre fazer crítica social séria ou brincadeira de humor negro. O senador McLaughlin defende a expulsão dos imigrantes mexicanos dos Estados Unidos (como vários políticos da vida real, por sinal) e a construção de uma cerca eletrificada na fronteira para impedir que os chicanos voltem ao país. Um dos momentos mais engraçados é o vídeo da campanha do senador, em que os imigrantes ilegais são comparados a baratas e vermes.

Paralelamente, McLaughlin financia uma violenta milícia que dedica-se a exterminar os imigrantes que tentam cruzar a fronteira, e chefiada pelo tenente Von Jackson (Don Johnson, ótimo).

Só que do lado dos imigrantes também há um grupo organizando a "revolução", chefiado por Luz (Michelle Rodriguez), que por sua vez é investigada pela agente Sartana (Jessica Alba).


E não acaba por aí: também temos um político corrupto (Jeff Fahey) e sua filha viciada em drogas (Lindsay Lohan, aparentemente interpretando ela mesma), um padre maconheiro e assassino (Cheech Marin, quem mais?) e um implacável assassino de aluguel (Tom Savini). Machete acaba pego no meio desse fogo cruzado e dessa miríade de personagens excêntricos.

Só que, com essa zona toda, Robert Rodriguez repete um erro já cometido em seu "Era Uma Vez no México": cria uma infinidade de personagens secundários interpretados por celebridades, e estes se tornam mais interessantes que o seu bizarro protagonista.

Como já acontecera antes com o mariachi de Antonio Banderas, o Machete de Danny Trejo logo vira coadjuvante do seu próprio filme - um absurdo completo, já que a grande razão de ser de MACHETE era justamente colocar Danny Trejo como herói e pegador de mulheres!


A coisa é tão sem-noção que, num universo repleto de personagens legais e nomes famosos e/ou conhecidos, Machete acaba nem mesmo cumprindo aquilo que o trailer prometia ("He gets the women, he kills the bad guys").

Sim, o filme até tenta mostrar Trejo como pegador, mas é frustrante quando o ator troca uns beijinhos inocentes com as famosonas do elenco (Lindsay Lohan, Michelle Rodriguez e Jessica Alba) e a câmera logo dá um fade-out, poupando as atrizes de pagar o mico desgraçado de aparecer rolando seminuas na cama com Danny Trejo - mas estragando a melhor parte da brincadeira de colocar um feioso como "galã".

Basta lembrar que em filmes bagaceiros dos anos 80, como "Samurai Cop", feiosos notórios como Robert Z'Dar e Gerald Okamura apareciam rolando entre lençóis com garotas completamente peladas. Como curiosidade mórbida, e parte da brincadeira, eu esperava ver Danny Trejo fazendo a mesma coisa aqui. Não é o que acontece.


Já no tocante ao "he kills the bad guys", sim, Machete mata um montão de gente durante o filme, mas sempre uns figurantes sem importância. É incrível como, na cena final, quase todos os personagens importantes da trama são mortos por outros personagens, mas NÃO por Machete, tornando a "vingança" do protagonista bem idiota no final das contas. Até o duelo final entre Trejo e Steven Seagal tem um desfecho muito diferente do que se espera.

Muita gente não gosta de Robert Rodriguez. Já eu acho o sujeito um brincalhão, um fanfarrão, um garotão fazendo filmes idiotas com atores famosos, o que é inegavelmente divertido. Acho que eu mesmo seria um Rodriguez se um dia conseguisse trabalhar em Hollywood - adoraria ter celebridades pagando mico em cenas e personagens estúpidos.


Só que parece que o diretor anda fazendo sempre o mesmo filme desde "A Balada do Pistoleiro": um montão de tiroteios absurdos, ou cenas de violência exageradas e engraçadinhas, entre atores conhecidos, sem uma história que sustente as cenas de ação.

Ele também não é dos melhores roteiristas. Não por acaso, seu melhor filme é "Um Drink no Inferno", em que a direção frenética do Robertinho está a serviço do belo roteiro escrito por Quentin Tarantino.

Pois MACHETE é um filme que pede diálogos de efeito à la Cannon Pictures ou "Stallone Cobra", e Rodriguez não consegue escrevê-los. O personagem-título raramente fala algo de engraçado ou memorável, quando esta seria a razão de ser de um filme como esse. No fim, a melhor frase é a do padre Cheech: "Deus perdoa, eu não!".

As próprias cenas de ação logo se tornam repetitivas: depois que Machete usa as tripas de um sujeito como corda para descer pela janela de um prédio (algo já visto em "Dead Snow", ano passado), o roteiro não consegue criar mais nenhuma situação tão divertida e nonsense.


Mas a grande decepção do longa é a sua conclusão. Anuncia-se uma batalha épica entre os imigrantes ilegais mexicanos e a milícia de Von Jackson, e tudo que se vê é um combate bem fuleiro, bem xoxo, rapido e sem cenas criativas. Mesmo quando Machete surge com um facão de tamanho descomunal, não faz muita coisa memorável.

A impressão que fica é que Rodriguez perdeu o tesão pelo projeto e foi empurrando pra frente com a barriga, meio desinteressado e filmando de qualquer jeito.

Preguiçoso, ele até pula explicações necessárias (como é que Machete escapou de ser morto por Torrez no início?) para que a ação possa seguir em frente, mas ao mesmo tempo acaba dando muito importância aos joguetes políticos e menos espaço à vingança do herói.


Até a grande cena do trailer falso - Machete encaixando uma metralhadora na frente de uma motocicleta e lançando-se sobre os inimigos - aparece aqui rapidamente, do mesmo jeito que no trailer, soando até desperdiçada e gratuita - quando podia ser o auge do duelo final!

(Não por acaso, parece que Rodriguez realmente foi se afastando do projeto para tocar "Pequenos Espiões 4" e "Sin City 2", deixando a direção de MACHETE para o amigo editor Ethan Maniquis, que assina a co-direção.)

Se tem essa infinidade de defeitos e problemas evidentes, MACHETE também tem vários pontos positivos que não dá para desconsiderar, e que deixam o programa todo um pouquinho acima da média.


A principal qualidade é que o longa cumpre o que promete, ao contrário de "Os Mercenários": aqui os atores famosos não estão do mesmo lado, mas sim se pegando entre eles, estilo "Marvel Versus DC".

E é realmente algo único ver Danny Trejo lutando contra Steven Seagal, no mesmo filme em que vemos outros duelos tão ou mais excêntricos: Tom Savini x Cheech Marin, Michelle Rodriguez x Don Johnson e Robert DeNiro x Lindsay Lohan!!! (Pena que vários desses combates sejam rapidinhos e anti-climáticos...)


Outra qualidade, para o público masculino, é que Rodriguez investe no corpão das suas protagonistas, mostrando Jessica Alba e Lindsay Lohan seminuas, além de exibir todo e qualquer fetiche já imaginado pelo homem, na pele de gostosas vestidas como freiras, enfermeiras e policiais, sempre com roupinhas curtas e armas enormes nas mãos.

Ah, e Michelle Rodriguez está uma graça com calça de couro, barriguinha de fora, tapa-olho (!!!) e uma metranca maior que ela!


Cheio de problemas, enrolado demais e bem abaixo da expectativa que criou, MACHETE até passa como diversão barulhenta e absurda, mas é pouco ou nada memorável. A grande graça do filme é ver o exército de nomes famosos na pele de personagens escrotos (sem esquecer dos nem tão famosos Ara Celi, de "Um Drink no Inferno 3", e James Parks, repetindo seu papel de texas ranger Edgar McGraw de "Kill Bill", "Um Drink no Inferno 2" e "Grindhouse").

Só é uma pena que não foge à regra: o trailer é bem melhor. E, neste caso, estamos falando de um trailer falso do que inicialmente era um filme inexistente. No final, anuncia-se duas seqüências ("Machete Kills" e "Machete Kills Again"), e não se sabe se é pra valer ou mais uma brincadeirinha de Rodriguez.

Se for verdade, talvez esteja aí a chance de o diretor se redimir e finalmente fazer o filme sem-noção que todos queriam ver, sem se levar tão a sério e sem deixar os personagens secundários tomarem conta do show. É esperar para ver.

PS: Muita gente não lembra que um envelhecido Machete, já aposentado, aparece ajudando a garotada na série "Pequenos Espiões".