terça-feira, 31 de agosto de 2010

O TESOURO DO OVNI (1988)


Em 1987, o diretor-roteirista Nello Rossati (aka "Ted Archer") uniu-se a Franco Nero para fazer o descartável western "Django, A Volta do Vingador", única seqüência oficial do "Django" de Sergio Corbucci, e ironicamente muito pior que todas as imitações picaretas e continuações não-oficiais.

Mas isso não vem ao caso.

O que importa é que o resultado frustrante do "Django 2 - A Missão" acabou ofuscando a parceria posterior entre Rossati e Nero, um filmeco chamado O TESOURO DO OVNI, que é tão ruim quanto a volta de Django, mas infinitamente mais engraçado e absurdo.


Trata-se de mais um autêntico FILME PARA DOIDOS: mesmo sem dinheiro para fazer qualquer coisa decente, Rossati juntou, num mesmo filme, alienígenas, cyborgs à la "O Exterminador do Futuro", conspirações universais, um tesouro asteca, o Triângulo das Bermudas, uma caravela espanhola, um disco voador, vilões nazistas, índios, soldados, assassinos e mulheres fatais!!! Tudo com um climão meio Indiana Jones, meio "Tudo por uma Esmeralda" - copiando até a locação deste último em Cartagena, na Colômbia.

Claro que o resultado de uma mistura tão indigesta só poderia ser um trashão daqueles para rir do começo ao fim. Neste caso, entretanto, as risadas se concentram da metade para o final, quando o filme vai ficando progressivamente mais maluco; a primeira parte, que tenta ser "aventura séria", é quase intragável, e exige um pouco de paciência do espectador fã de podreira cinematográfica.


Apesar do pôster que mostra Franco Nero como um aventureiro estilo Indiana Jones, e do título nacional - que parece vender uma história de caça ao tesouro -, o filme começa quase como um suspense. Franco Nero interpreta Ted Angelo, um repórter-escritor alcoólatra que está na Colômbia preparando material para seu novo livro. Isso na teoria, porque na prática ele apareça o tempo inteiro mamado de cachaça e/ou transando com a bonita camareira do hotel de quinta categoria em que está hospedado.

Logo a tal camareira, Juanita (Shirley Hernandez), surge com umas relíquias astecas encontradas pelo namorado pescador, e Angelo se surpreende com a raridade e o estado de conservação das peças. Entre elas, há um diário que relata a viagem de uma caravela espanhola desaparecida há séculos.


Mas o herói cai na burrada de mostrar o material para Heinrich Holzmann, um velho carniceiro nazista colecionador de antigüidades (interpretado por George Kennedy!!!), e a partir de então passa a ser caçado por assassinos, enquanto todos os seus amigos e conhecidos são exterminados sem dó nem piedade.

Angelo descobre que a tal caravela desaparecida está escondida numa caverna no alto de uma montanha, e que foi um disco voador que levou a embarcação até ali (?!?). Começa a elaborar uma mirabolante teoria sobre seqüestros alienígenas de navios e aviões desaparecidos (lembra do Triângulo das Bermudas?), mas não consegue tornar a história pública porque seus perseguidores estão infiltrados em toda parte.


Na verdade, como descobriremos mais tarde, os alienígenas vivem escondidos entre os humanos desde a aurora dos tempos (lembrando "Eles Vivem", que é do mesmo ano), ocupando postos de destaque e influenciando a humanidade para que não acredite na existência de vida fora da Terra.

Como o disco voador encontrado pelo herói é a peça que falta para provar o contrário, os conspiradores resolvem sumir com ele - ao invés de explodir a montanha e o OVNI para deixá-lo sem nenhuma prova...


Como escrevi antes, a primeira metade de O TESOURO DO OVNI não passa de uma aventurazinha de quinta categoria, quando o protagonista é perseguido por tudo e todos por ter descoberto o "segredo" dos aliens. Como num episódio de "Arquivo X", ou como os Homens de Preto do gibi "Martin Mystère", TODOS os personagens secundários do filme parecem fazer parte da tal conspiração e começam a correr atrás do herói para matá-lo, gerando uma série de perseguições chinfrins seguidas de tiroteios idem.

Nesta primeira metade, o pobre Franco Nero passa o tempo todo correndo, inclusive descalço sobre cactos (!!!). É somente na última meia hora que a coisa começa a ficar divertida, quando Angelo une-se a uma bibliotecária bonitinha, June (a inglesa Deborah Moore, que é filha de Roger Moore!!!), para tentar tornar pública a existência do disco voador e salvar o próprio pescoço.


Nesse momento, um cyborg de origem aligenígena cai praticamente de pára-quedas no filme, imitando Schwarzenegger em "O Exterminador do Futuro" e perseguindo nossos heróis com parte do rosto biônico aparecendo por baixo da pele rasgada (os efeitos de maquiagem até que são razoáveis).

A partir daí, o filme de Rossati segue cada vez mais maluco e involuntariamente engraçado. Afinal, nossos heróis usam um touro (!!!) para destruir o cyborg, que convenientemente usava uma camisa vermelha para atrair a fúria do quadrúpede.


Porém o auge da trasheira do filme é a revelação de que a ex-mulher de Angelo (Mary Stavin, que interpretava a vizinha gostosa em "A Casa do Espanto") é uma das alienígenas infiltradas no planeta! Sim, meus caros, nosso herói passou boa parte da sua vida transando com uma (ou um!) extraterrestre!

Para tornar a cena toda ainda mais hilária, o pobre Franco Nero capricha na expressão de "Ai meu Deus do céu, agora fodeu! Minha ex-mulher é um alien!!!", diante da insólita revelação! Um momento lindo que merece até "slide show":


Aliás, méritos para os efeitos da mutação da humana em alien, cheia de melecas e trucagens mecânicas pré-CGI. Parece inspirada em filmes como "A Mosca" (a gosma e os pedaços do corpo caindo) e "Um Lobisomem Americano em Londres" (o rosto "alargando"). Curiosamente, o ET é a cara das criaturas mostradas no posterior "Abismo do Medo".

Por tudo isso, O TESOURO DO OVNI se transforma em uma aventura bagaceira e razoavelmente divertida, bem diferente do que prometia o início insosso. Só é uma pena que os elementos mais interessantes do roteiro, como o disco voador e o navio escondidos no interior da montanha, sejam usados beeeeeeeem brevemente, talvez por contenção de recursos.


A mistureba promovida pelo roteiro também não permite que o diretor Rossati possa desenvolver satisfatoriamente as diversas idéias utilizadas. O cyborg alienígena, por exemplo, surge no filme saído do nada, quando poderia estar perseguindo os heróis desde o início; já o nazista interpretado pelo veterano Kennedy some de cena ainda na primeira parte do filme, numa participação pequena e frustrante para quem esperava ser ele o grande vilão da história.

Também contribui para o fator trash da película a direção patética de Rossati, principalmente nas cenas de ação, que nunca empolgam, e ainda trazem grosseiros erros de continuidade. No maior deles, o herói está de carona na carroceria de uma caminhonete e é visto pelo motorista de um jipe que vem atrás; porém, na cena posterior, vemos que a carroceria da caminhonete estava cheia de gaiolas com galinhas, e o protagonista estava sentado atrás delas, portanto nunca poderia ter sido avistado pelo motorista do jipe!


Felizmente, toda essa incompetência técnica é compensada com as cenas do touro contra o cyborg e da ex-mulher alienígena, que sozinhas já valem uma espiada em O TESOURO DO OVNI. Nem que seja para constatar que os italianos já haviam feito uma aventura à la Indiana Jones com ETs duas décadas ANTES de Spielberg fazer o mesmo "oficialmente" em "Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal"!

PS 1: Outro ator veterano, o austríaco William Berger, também tem participação tão rápida e medíocre quanto a de George Kennedy (será que os caras recebiam o cachê por minuto?). Ele interpreta um professor que é amigo do personagem de Franco Nero e obviamente morre por causa disso!

PS 2: O filme foi lançado nos EUA com o título picareta "Alien Terminator", tentando criar alguma relação com o "Terminator" de James Cameron e a série "Alien".

Como destruir um cyborg usando um touro



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O Tesouro do Ovni (Top Line/
Alien Terminator, 1988, Itália)

Direção: Ted Archer (Nello Rossati)
Elenco: Franco Nero, Deborah Moore, Mary Stavin,
William Berger, George Kennedy, Rodrigo Obregón,
Shirley Hernandez e Larry Dolgin.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

OS TRAPALHÕES NO RABO DO COMETA (1986)


Não vou gastar linhas e linhas (e nem a paciência do leitor) escrevendo sobre o sucesso do quarteto humorístico Os Trapalhões no Brasil dos anos 70 e 80, tanto na TV quanto no cinema. Esqueça o fato de o Renato Aragão ter virado um chato de galocha da década de 90 em diante, e esqueça esse arremedo de Trapalhões atualmente no ar ("Turma do Didi"), que comete até a heresia de colocar um inexpressivo "cantor do tcham" para ocupar uma vaga que já pertenceu ao saudoso e eterno Mussum.

Fato é que, 30 anos atrás, os Trapalhões comandavam nas bilheterias do cinema nacional, lançando religiosamente um filme por ano, sempre na época de férias. Fracassos de crítica e sucessos de público, estas produções, hoje, devem ser vistas (ou revistas) sob um viés nostálgico, e exclusivamente por aquele público adulto que gostava dos Trapalhões na sua infância. Eu sinceramente duvido que a garotada de hoje vá curtir os filmes do quarteto, principalmente os mais antigos.


Eu estou fazendo uma retrospectiva da obra do quarteto (comprei o box lançado recentemente pela Europa), e tenho me surpreendido com a ruindade de alguns dos filmes. É notório que a memória afetiva às vezes nos prega algumas peças. Por outro lado, muitas produções dos Trapalhões continuam tão boas quanto na época em que vi pela primeira vez (fedelho, lógico). OS TRAPALHÕES NO RABO DO COMETA se encaixa nas duas categorias: é, ao mesmo tempo, ruim e bom; logo, mais um autêntico FILME PARA DOIDOS.

Nos anos 80, duas obras marcaram uma ruptura no cinema popular dos Trapalhões. A primeira foi esta, que apresentou Didi, Dedé, Mussum e Zacarias em formato de desenho animado, numa época em que a animação nacional ainda engatinhava - o que é perceptível diante da pobreza de vários momentos do filme. A segunda obra foi "Os Trapalhões no Auto da Compadecida", de 1987, uma tentativa de "intelectualizar" o humor do grupo, que pela primeira vez obteve elogios da crítica, mas foi um fracasso de público (sobre essa falaremos em outra oportunidade; mas já adianto que, para mim, "Auto da Compadecida" é o melhor filme dos Trapalhões).


Em 1986, o Cometa Halley passaria pela órbita da Terra, cumprindo uma trajetória que se repete a cada 76 anos. O acontecimento deixou o mundo todo em polvorosa, como deve lembrar quem viveu naquela época. Criou-se, pela primeira vez, uma maciça campanha de marketing para aproveitar a passagem do Halley, que incluiu até revistas em quadrinhos e desenhos animados de uma família superpoderosa chamada "Os Halleys".

No cinema, o cometa foi citado em obras como "Força Sinistra", de Tobe Hooper, onde sarcófagos contendo vampiros espaciais pelados são encontrados na cauda do Halley e, levados para Londres, espalham uma epidemia incontrolável de "zumbificação".


Os Trapalhões também aproveitaram a deixa. Em 1985, produziram ao mesmo tempo um filme onde apareciam em carne e osso, "Os Trapalhões no Reino da Fantasia", e este OS TRAPALHÕES NO RABO DO COMETA. O primeiro foi lançado ainda em 85, e o segundo somente em 1986. Em "O Reino da Fantasia" já foi inserida uma pequena seqüência em desenho animado, cuja história faz parte da grande trama que teria continuidade no longa posterior - uma espécie de aperitivo do que viria.

O responsável pela produção da animação foi Maurício de Souza, o criador de Mônica, Cebolinha e cia. À época, os Estúdios Maurício de Souza estavam se aventurando em seus primeiros desenhos animados, respectivamente "As Aventuras da Turma da Mônica" (1982), filme dividido em vários episódios curtinhos, e o longa de uma história só "A Princesa e o Robô" (1983), uma espécie de sátira de "Star Wars" estrelada pela Turma da Mônica.

(Claro que estamos falando de desenhos animados da era pré-computador, quando tudo ainda era desenhado e animado à mão, gerando um trabalho imenso!)


OS TRAPALHÕES NO RABO DO COMETA começa com cenas de um show verdadeiro do quarteto no Teatro Scala, no Rio de Janeiro. Ironicamente, estas são as partes menos engraçadas do filme (cerca de 20 minutos), mas têm certo valor documental por registrar o grupo no auge da fama e da popularidade. Eles fazem uma série de piadas infames, interagindo com o público, até o surgimento do próprio Maurício de Souza no palco, com prancheta e tudo mais.

Dedé menciona o trecho de animação em "Os Trapalhões no Reino da Fantasia", e Maurício alerta que o Bruxo que apareceu na cena do filme anterior continua a caça aos quatro amigos. Dito e feito, o maligno vilão se materializa no palco, numa criativa fusão de desenho animado com atores de carne e osso, ANTES que isso ficasse comum em filmes como "Uma Cilada para Roger Rabbit", que é de 1988 (mas os Trapalhões não foram pioneiros, outras produções estrangeiras já haviam utilizado o recurso anteriormente).


A partir de então, Didi, Dedé, Mussum e Zacarias são "sugados" para dentro do universo do desenho animado, e começa o longa de animação propriamente dito - uma viagem no tempo envolvendo vários personagens e acontecimentos históricos.

A trama começa na Pré-História, mostrando Didi como um faminto homem das cavernas. Ele vai parar na caverna onde o Bruxo (dublado pelo humorista José Vasconcelos) realiza um ritual arcano para tornar-se o feiticeiro mais poderoso do mundo. Para isso, ele precisa tocar num triângulo de cristal "no momento em que as forças do Bem e do Mal se unem" (algo que ele repetirá umas 200 vezes ao longo do desenho, como se ninguém tivesse entendido da primeira vez).

O problema é que o malandro Didi toca no triângulo antes que o vilão, achando que isso lhe dará superpoderes para vencer os dinossauros. Resultado: o Bruxo, que tem um corvo no lugar de uma das mãos (!!!), começará a viajar no tempo até os próximos "encontros das forças do Bem e do Mal", quando precisa segurar a mão do Didi (hmmm...) para pegar de volta os seus poderes.


A partir daí, a história pula para a Guerra de Tróia, com direito a "jegue de Tróia" e Mussum como Aquiles; para Roma, onde Zacarias é Nero; para a Idade Média; para o Velho Oeste; para a Chicago dos anos 30 e, finalmente, para a década de 80, quando todos os personagens se encontram numa favela carioca.

O humor chulo do filme, hoje, seria considerado politicamente incorreto. Afinal, a maioria das piadas simplesmente brinca com o "apelo homossexual" da necessidade do Bruxo de segurar na mão do Didi para recuperar seus poderes (na época, a homossexualidade ainda era motivo de piada). Outro momento que provocaria queixas nestes tempos bem frescos mostra o Bruxo construindo uma catapulta para jogar Mussum Aquiles por cima dos muros de Tróia, e apelidando o mecanismo de "lança-negão"!


Mas a verdade é que há partes bem inspiradas no roteiro escrito por Dedé Santana (também diretor!!!), Maurício de Souza e Reinaldo Weissman. Principalmente porque o formato de animação permite adotar um absurdo humor nonsense, bastante diferente do tradicional humor circense e pastelão dos Trapalhões "de carne e osso".

Isso aproxima o desenho animado do humor exagerado dos quadrinhos dos Trapalhões publicados pela editora Bloch na época. Por favor, não confundam com aquele medíocre gibi da Abril que trazia o quarteto em formato infantil; estou falando das revistas dos anos 80, em que os personagens eram adultos e participavam de sátiras estilo revista Mad, ou de histórias com forte teor "para maiores", em busca de mulheres e dinheiro fácil.


(Relendo algumas dessas histórias hoje, fico pensando no estrago irreversível que devem ter feito na mente de muitas crianças inocentes daquele período, muito antes da onda do "politicamente correto" invadir também os quadrinhos).

Entre as várias gags neste estilo, há um momento clássico em que Didi está tentando fugir do canhão de luz apontado pelos guardas de um presídio; ao encontrar uma tomada no meio do caminho, ele a desliga acreditando que assim irá apagar o holofote, mas na verdade apaga a Lua!

Também há três "momentos merchandising" que são engraçadíssimos de tão absurdos, fazendo menção explícita a uma das patrocinadoras do filme, a Royal. Toca até o jingle da empresa na época ("A-bra a boca... É Royal!"). O curioso é que estes três trechos eram cortados sempre que o filme reprisava na TV aberta.


Outra curiosidade é que os animadores aproveitaram para colocar várias citações e referências no fundo das cenas. Assim, há "participações especiais" de personagens clássicos do Maurício (o dinossauro Horácio, o elefante verde Jotalhão e a própria Mônica), do King Kong no topo do Empire State e até uma bandeira com os dizeres "Diretas Já!" na cena do Coliseu!!!

Mas uma das melhores coisas de OS TRAPALHÕES NO RABO DO COMETA é a participação de bandas famosas dos anos 80 na trilha sonora. Algumas são conhecidas até hoje (Ultraje a Rigor, que faz uma sátira do seu sucesso "Eu", e Ira!); outras sumiram sem deixar vestígios, como Premeditando o Breque, Rumo, Suíte, Metalurgia, Synopse e Xarada.


Na conclusão, o desenho animado se encerra e a trama volta para o palco do Scala, quando os Trapalhões de carne e osso reclamam da imaginação fértil de Maurício. Ele então prepara uma última surpresa para o quarteto, fazendo o próprio Cometa Halley aparecer no palco, em outra cena que mistura live-action com desenho animado - num finalzinho bem sem graça, por sinal. Descontando estas cenas com os Trapalhões "de verdade", a parte em animação dura menos de 50 minutos.

Se esquecermos o valor afetivo do filme (que era reprisado praticamente todo ano na televisão em época de férias), ele ainda tem certo valor pelo divertido "fator trash" de analisar a pobreza da animação, com cenários imóveis, personagens de pouca expressão e, muitas vezes, pequenas "travadas" nos movimentos, resultado das técnicas improvisadas ainda utilizadas na época.


Assim, OS TRAPALHÕES NO RABO DO COMETA continua um divertido programa trash e/ou nostálgico para os trintões e quarentões que viveram aquele período de glória dos Trapalhões. Mas confesso que tenho muita curiosidade em saber se esta animação funcionaria com o público infantil atual. Provavelmente não.

Um filme que vale a pena ter em DVD, pois já virou peça de museu! Como os próprios Trapalhões, por sinal...

Cena de OS TRAPALHÕES NO RABO DO COMETA



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Os Trapalhões no Rabo do Cometa
(1986, Brasil)

Direção: Dedé Santana
Elenco: Renato Aragão, Dedé Santana, Mussum,
Zacarias, Maurício de Souza e José Vasconcelos
(voz do bruxo).

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Por um punhado de testosterona

Projeto dos sonhos de todo garoto que teve sua infância ou adolescência nos anos 80, e cresceu vendo descerebrados filmes estilo "exército de um homem só", OS MERCENÁRIOS finalmente chegou aos cinemas, dividindo radicalmente as opiniões. Alguns amaram e rasgaram elogios ao "filme de macho" dirigido e estrelado por Sylvester Stallone; outros fizeram um milhão de críticas, e não só os xaropes de sempre (tipo o crítico aquele), mas também gente que eu jurava que iria adorar, como o Leandro Caraça.

Fui vê-lo esta semana e acabei ficando no meio do caminho entre os dois extremos. Gostei do filme, mas não achei tão maravilhoso quanto fantasiei à medida que acompanhava as novidades sobre o projeto; também não achei tão ruim e indigno quanto os críticos mais ferozes da película. A bem da verdade, curti bastante a "idéia" e os 103 minutos passaram voando, servindo como uma espécie de vacina depois de uma semana de filmes lentos e introspectivos no Festival de Cinema de Gramado!

Porém, numa coisa eu acho que concordo tanto com os admiradores quanto com os detratores do filme: OS MERCENÁRIOS é um programa que vale mais pela EXPERIÊNCIA que proporciona (praticamente uma viagem de máquina do tempo ao cinema de ação dos anos 80) do que pela QUALIDADE do material em si.


A trama pouco importa num filme em que você tem, lado a lado, astros de ação do passado (Stallone, Dolph Lundgren e mais Bruce Willis e Schwarzenegger em pontas) e do presente (Jason Statham e Jet Li), mais aquelas figurinhas carimbadas do cinema classe B e classe C (Eric Roberts, Gary Daniels) e o redivivo Mickey Rourke, que se encaixa praticamente em todas as categorias citadas. Eu veria um filme desses só pelo elenco, mesmo se a direção fosse do morfético Lars Von Trier e essa cambada de gente boa passasse os 103 minutos recitando monólogos para uma câmera parada.

Felizmente, não é essa a proposta. Quando há tantos mal-encarados e durões num mesmo filme, qual é a expectativa do público? Ver tiros, facadas, porradas e explosões, certo? Pois aí chegamos à primeira coisa difícil de entender em relação às críticas feitas a OS MERCENÁRIOS: gente reclamando do roteiro fraco e do "desenvolvimento dos personagens". Tá bom... Como se John Matrix, o personagem de Schwarzenegger em "Comando para Matar", fosse bem desenvolvido - e nem por isso o filme é menos clássico da ação oitentista.

O negócio é dar uma banana para o roteiro e para os personagens, embora realmente falte um pouco mais de "motivação" para gente como Jet Li, totalmente sub-aproveitado no filme. Eu ficaria puto se fosse fã dele, mas na verdade só gosto da fase oriental do ator (mesma coisa com Jackie Chan), e perto das porcarias feitas por Li nos EUA, como "Rogue - O Assassino" (também com Jason Statham), OS MERCENÁRIOS até parece "Cidadão Kane".


Além de Li, outro ator com personagem ingrato é Dolph Lundgren. Mais uma vez, o pobre coitado é sub-aproveitado como "vilão de luxo", como já havia acontecido em "Rocky 4" (com Stallone), "Soldado Universal" (com Van Damme) e até "Johnny Mnemonic" (com... pfffff!, Keanu Reeves). Lundgren também não pode reclamar muito, já que seus últimos filmes "direct-to-video" são umas belas porcarias, mas é uma pena que Stallone não tenha lhe dado uma participação um pouco melhor, tirando-o do "time dos bonzinhos" muito cedo - e de maneira indigna.

Os únicos personagens razoavelmente desenvolvidos são os de Stallone e Statham. Epa, peraí... "Razoavelmente desenvolvidos" é forçar a barra - ainda mais considerando que você nem lembra dos NOMES deles durante o filme (Barney Ross e Lee Christmas, respectivamente, para quem interessar possa).

Tudo bem, digamos então que Stallone e Statham têm mais tempo em cena do que os outros - mais ou menos como um astro de ação veterano passando a bola para um novo nome do gênero, algo como o tradicional caso de "pupilo superando o mestre".


Também reclamaram muito da edição de OS MERCENÁRIOS. Bem, o estilo "picotado" me incomodou muito em dois momentos - a perseguição automobilística à caminhonete de Stallone e a luta entre dois dos "expendables", um deles Jet Li.

A cena na estrada é tão tremida e recortada que você não consegue entender nada do que está acontecendo: qual carro está batendo, quem está levando tiro, quem está explodindo, etc etc...

A luta, que podia ser um dos grandes momentos do filme, é indigna do talento de Li e, filmada muito de perto, estraga totalmente a coreografia feita pelo mestre Corey Yuen. Fica ainda pior quando você pensa: "Pô, quando é que eu vou ter a chance de ver uma coisa dessas outra vez?".

Mas no restante do filme a edição acelerada não me incomodou tanto. Novamente, não sei se foi por causa da overdose de filmes soporíferos que tive nos últimos 15 dias. Só sei que achei a meia hora final eletrizante, no mesmo nível do massacre final de "Rambo 4". Aliás, mais uma vez Stallone acaba com o Produto Interno Bruto de um país terceiro-mundista: se em "Rambo 4" havia exterminado a população da Birmânia, aqui ele e seus mercenários só deixam mulheres e crianças vivas na fictícia república das bananas de Vilena.


E por falar nele, bem que Stallone podia ter tirado um pouco os refletores de cima de si mesmo para dar espaço igualitário aos companheiros. Qual o motivo de ter um time com cinco sujeitos razoavelmente famosos se o personagem de Stallone é o único que aparece fazendo tudo? Pensei que cada "expendable" teria uma especialidade e uma responsabilidade no plano final do ataque à fortaleza do ditador, mas a coisa vai meio de qualquer jeito, com todo mundo atirando em todo mundo, e no meio das explosões você até esquece dos dois heróis menos cotados (interpretados por Randy Couture e Terry Crews), embora volta-e-meia eles insistam em reaparecer para provar que continuam vivos.

Mesmo com os defeitinhos da edição à la Michael Bay, continuo achando Stallone um ótimo diretor de filmes de ação. Ele tem olho para a coisa, devia aposentar a vida de astro egocêntrico para ficar apenas atrás das câmeras. Tem um momento bem legal que não lembro de ter visto em nenhum outro filme: Stallone rola pelo chão dando tiros e a câmera igualmente gira seguindo o ponto de vista do personagem e como ele vê os inimigos sendo alvejados. Algum outro filme provavelmente deve ter mostrado cena parecida, mas não me marcou como aqui em OS MERCENÁRIOS. Toda a cena envolvendo Stallone e Statham no avião (aquela do "Vamos dar a volta") também comprova que o homem entende do assunto.


Um dos maiores problemas do filme, pelo menos para mim, é a divisão bastante clara entre "atores fodões = bonzinhos" e "atores menos conhecidos = malvados". Tudo bem, é muito legal ver Gary Daniels, um ator de ação de araque daqueles filmes bem rampeiros dos anos 90, tomar porrada do Jet Li e do Jason Statham AO MESMO TEMPO. Tipo, parece que um cara do terceiro escalão é tão foda que precisa de dois astros para acabar com ele. (Engraçado que anos atrás escrevi sobre o filme "Lado a Lado com o Inimigo" e comentei que apanhar de um Steven Seagal gordo e decadente provavelmente seria o ponto alto na carreira do Gary Daniels. Ah, se eu soubesse...).

Mas o caso é que os bonzões estão todos no mesmo time, o que tira um pouco da graça do show. Imagine como seria ainda mais legal ver Stallone brigando com Jet Li, ou Jason Statham brigando com Bruce Willis. Aí sim teríamos algo mais no nível de um "Marvel Versus DC", com astros de primeira linha trocando pancadas. Tipo o "Stallone versus Schwarzenegger" várias vezes ameaçado nos anos 80, mas que acabou nunca se concretizando (nem aqui em OS MERCENÁRIOS; apesar da cena entre os dois ser muito divertida, juro que adoraria ver ambos trocando pelo menos umas porradas para realizar meu sonho de garoto!).


Talvez o filme ficasse ainda melhor se cada "expendable" enfrentasse um cara conhecido do gênero. Aqui sobrou para o Gary Daniels, mas imagine (e sonhar não custa nada) Jet Li versus Steven Seagal? Jason Statham versus Joe Lara e Frank Zagarino? Stallone dando porrada no Michael Dudikoff? Nesse sentido, acredito que o aguardado filme do Robert Rodriguez, "Machete", terá um resultado muito mais divertido que OS MERCENÁRIOS, até porque já foi anunciado um duelo entre Danny Trejo e Steven Seagal (!!!), e há um punhado de outros atores conhecidos para brigar entre eles, ao contrário do filme do Stallone.

Ainda assim, a ação desenfreada, as frases de efeito forçadíssimas e a quantidade absurda de mortos, tiros e explosões fazem de OS MERCENÁRIOS um filme muito divertido, de um raro tipo que, lá nos anos 80, seria lançado direto em VHS pela América Vídeo, com direito a caixinha azul com estrelinhas brancas e aquele comercial antológico do "Nossos filmes explodem como dinamite".

Não é, entretanto, um filme de ação maravilhoso ou obra-prima do gênero. Tirando o encontro de caras conhecidas, e duas ou três cenas bem legais, é um típico "direct-to-video" que não fica muito tempo na memória.


OS MERCENÁRIOS não tem absolutamente nada de espetacular, e, num caso típico de "em time que está ganhando não se mexe", o roteiro de Stallone e Dave Callaham reaproveita muita coisa de "Rambo 4", como o herói relutante que é convencido a cumprir sua missão por uma bela mulher (Julie Benz antes, a deliciosa e brasileiríssima Gisele Itié agora), o violento salvamento da mocinha de um inevitável estupro e o final estilo massacre.

A verdade é que OS MERCENÁRIOS apenas PARECE muito melhor do que é em comparação a todos esses filmes de ação para maricas que vêm sendo feitos nos últimos anos.

Lembro que, na década de 90, quando eu conheci o cinema de John Woo através dos lançamentos dos seus filmes em VHS no Brasil, fiquei maravilhado. Depois de "Fervura Máxima" e "No Coração do Perigo", pensei comigo mesmo: "Agora fodeu! Nunca mais vão conseguir fazer filmes de ação iguais a esses!".


Dito e feito: Woo foi para Hollywood, se acovardou depois de um início promissor e o cinema de ação "de macho" norte-americano cada vez mais caiu na vala comum do "politicamente correto". Tipo o "Duro de Matar 4" censura livre, com Bruce Willis virando palhaço ao lado do Justin Long e do Kevin Smith, cenas de ação em CGI e nenhum buraco de bala jorrando sangue, como nos filmes anteriores da série.

É óbvio que perto de babaquices como essa, OS MERCENÁRIOS parece mesmo uma maravilha, a salvação da lavoura, a terceira mensagem de Nossa Senhora de Fátima. Mas não é. E acho que todo mundo imaginou um filme beeeem diferente desde que o projeto começou a ser desenvolvido.

No geral, entretanto, acho que ele cumpre sua função de "passatempo escapista", de transportar a platéia de volta aos inconseqüentes anos 80, sem nenhuma concessão ao politicamente correto ou ao bom gosto (chega a mostrar uma garota indefesa tomando porrada de um marmanjo e até sendo torturada!). E com todos os tiros, explosões e mortes sangrentas que o cinema de ação norte-americano ficou devendo nos últimos tempos.

Além disso, é muito legal ver veteranos dos anos 80 ainda em ação. Se Charles Bronson continuou fazendo o papel de policial durão até quando usava fraldas geriátrias, por que não Stallone e sua turma? E a câmera não poupa os velhotes, dando closes nos rostos profundamente enrugados do astro, de Lundgren, de Mickey Rourke... O filme bem que podia se chamar "Parque dos Dinossauros"!


Mas nada, NADA me tira da cabeça que OS MERCENÁRIOS ficaria ainda melhor com mais lutas entre os "bonzões" do elenco, e com uma edição mais convencional e menos "picotada" das cenas de ação.

Afinal, se filmes de quinta categoria como "Operação Fronteira", do Isaac Florentine, e "Até a Morte", do Simon Fellows (ambos estrelados por Van Damme), parecem muito melhor dirigidos do que uma produção milionária assinada por Sylvester Stallone, é porque alguma coisa está MUITO errada.

Torcendo para que estes probleminhas sejam corrigidos num futuro "Os Mercenários 2" - e sonhando alto com outros nomes famosos para integrar o elenco desta possível seqüência (será que Chuck Norris como vilão é pedir demais?). Porém Stallone pode dormir tranqüilo que seu objetivo foi plenamente atingido: esse seu filme de ação é tão DDD (divertido, descarado e descartável) como muitas de suas fontes de inspiração lá dos anos 80. Nós é que precisamos ser menos sérios e lembrar porque gostávamos tanto de filmes estúpidos como "Invasão USA", "Comando para Matar" e "Stallone Cobra".