segunda-feira, 26 de julho de 2010

Os filmes que eu vi no Fantaspoa

TUCKER & DALE ENFRENTAM O MAL (Tucker & Dale vs. Evil, 2009, Canadá. Dir: Eli Craig)
Talvez o filme mais divertido do Festival, e um dos melhores "terrir" da última safra. O roteiro inspiradíssimo parte de uma idéia original que muita gente irá arrancar os cabelos por não ter pensado antes: o medo daqueles típicos caipiras norte-americanos (os chamados "rednecks"), quase sempre representados como vilões estupradores, assassinos ou canibais em filmes como "O Massacre da Serra Elétrica" e "Amargo Pesadelo". Pois Craig, co-roteirista da pérola, transforma estes rednecks em heróis: os simpáticos Tucker e Dale são dois pobres coitados que compram uma cabana caindo aos pedaços no meio do bosque e se mandam para passar as férias no local, pensando apenas em pescar e beber cerveja. O problema é que um grupo de adolescentes promíscuos e idiotas (tradicionais vítimas de slasher movies) vai acampar naquela mesma área. Após uma série de mal-entendidos, os jovens acreditam que aqueles inocentes caipiras são assassinos cruéis como os dos filmes de horror. E, na tentativa de escapar deles, ou de enfrentar os "vilões", acabam sempre morrendo, numa sucessão de acidentes violentíssimos que, claro, parecem ter sido provocados pelos pobres Tucker e Dale! O filme é repleto de sangue e violência, mas nunca se leva a sério. Tudo que os caipiras fazem para "ajudar" os jovens acaba piorando a situação, num festival de gags e piadas muito engraçadas. Destaque para a cena da serra elétrica, em que Tucker serra acidentalmente uma colméia de abelhas. No terceiro ato o ritmo cai um pouco e a trama tenta ficar mais "séria", mas nada que estrague a diversão. E o resultado é uma belíssima comédia de humor negro onde, pelo menos uma vez na vida, os rednecks são os heróis!


O CAVALEIRO (The Horseman, 2006, Austrália. Dir: Steven Kastrissios)
Esta tradicional história de vingança lembra bastante dois filmes: "Hardcore", de Paul Schrader, e "Busca Implacável", de Pierre Morel. Em todos eles, um pai vingativo e extremamente furioso parte numa cruzada solitária em busca dos homens que fizeram mal à sua filha - a motivação dos vilões sempre envolve sexo e pornografia. A diferença é que "O Cavaleiro" parece uma versão muito mais casca-grossa dos dois filmes citados: não há astros de cinema nem frases de efeito para suavizar a brutalidade do negócio. E bota brutalidade nisso: Christian, o pai vingativo cuja filha morreu de overdose após "estrelar" um filme pornô, sai arrebentando todo e qualquer sujeito que ele considere responsável pela sua perda, usando instrumentos como pé-de-cabra, marretas e até anzóis enfiados no pênis (ouch!). Para quem gosta dessas histórias "nuas e cruas" de vingança, o filme é um prato cheio. Afinal, Christian não brinca em serviço e parece ter prazer em torturar e matar os homens que persegue. Infelizmente, "O Cavaleiro" tem dois probleminhas. O primeiro é a estrutura do filme, que praticamente só pula de um sujeito torturado e morto para outro, sem grandes reviravoltas ou acontecimentos entre cada momento sangrento. O segundo probleminha é o final, quando se revela que os bandidos são todos malvados e sádicos, sacrificando a coisa mais interessante da trama: a dúvida de que talvez as pessoas mortas por Christian não fossem realmente culpadas pela morte da sua filha, e que ele as estaria castigando apenas para minimizar a dor da perda e o fato de ter sido um péssimo pai. Mesmo assim, o filme prende a atenção do começo ao fim, e é difícil encontrar tramas de vingança sérias e pesadas como esta (que parece saída diretamente dos anos 70) no cinema atual, bem como um herói imperfeito e mais sádico que os vilões. Com certeza vale o ingresso.


GLENN, O ROBÔ VOADOR (Glenn, The Flying Robot, 2010, Bélgica. Dir: Marc Goldstein)
Se eu apenas tivesse visto o filme sem jamais conhecer seu realizador, provavelmente ficaria com a impressão de que o diretor belga Marc Goldstein não tinha a menor idéia do que estava fazendo ao escrever, produzir e dirigir esta sua estréia cinematográfica. Mas tendo convivido alguns dias com o esquisitão Marc, e principalmente acompanhando sua palestra pós-exibição de "Glenn", o que era apenas uma impressão se confirmou: o coitado realmente não tinha A MENOR IDÉIA do que estava fazendo, e até confessou ao público que hoje faria tudo completamente diferente! Do jeito que está, o filme é uma zona em que pouco se salva: nunca se decide entre ser uma história de suspense, de ficção científica ou a fantasia censura livre que o título propõe. Aliás, o título não se justifica, considerando que todos os robôs da história voam, e não apenas o tal Glenn. Em linhas gerais, Goldstein situa sua história num futuro próximo, quando os robôs trabalham como escravos para a humanidade (tão original...). O fiel robô Glenn pertence a Jack, um pianista famoso que perdeu o dom depois de um acidente. Após muita lenga-lenga, Glenn toma para si o desejo de vingança do seu mestre e aprisiona Henry, o seboso pianista rival de Jack, propondo um "jogo mortal": ele precisa tocar habilmente uma sinfonia ao piano para não morrer numa explosão. Enfim, um fiapo de história que até daria um curta-metragem interessante, mas que, esticada para virar longa, se transforma num melodrama frustrante e muito chato. A parte final, com a ameaça mortal de Glenn, jamais passa qualquer tensão, e é até um alívio quando o filme termina. Afora alguns mínimos detalhes, como o visual dos robôs, "Glenn, O Robô Voador" é um fiasco de primeira, onde não se salvam nem mesmo os atores conhecidos (Billy Boyd, Dominic Gould, Gérard Depardieu numa ponta). Mais divertido que o próprio filme foi conviver com as excentricidades do seu realizador, mas isso é assunto para outra hora.


AMARGO (Amer, 2009, França/Bélgica. Dir: Hélène Cattet e Bruno Forzani)
Confesso: dormi uns 15 minutos durante a sessão deste filme, cansado que estava das maratonas etílicas que eram praticamente diárias nos bastidores do Fantaspoa. Cheguei a taxar o filme de chato ao sair da sessão, e ele ingavelmente o é em vários momentos. Apesar disso, as imagens não saem da cabeça. Esta é uma belíssima homenagem ao cinema italiano dos anos 70, especialmente os trabalhos de Mario Bava e Dario Argento. O fiapo de trama acompanha três momentos na vida de uma moça, desde a infância até a vida adulta. Não há muita relação entre estes momentos além de uma atmosfera de sensualidade e, ao mesmo tempo, perigo e horror. É quase um "giallo", pois lá pelas tantas aparece um assassino com navalha e luvas de couro pretas. Mas também tem um tom sobrenatural à la Bava, com um cadáver arrepiante que lembra o episódio do anel em "As Três Máscaras do Terror". No fim, "Amargo" não é nem uma coisa nem outra, nem giallo nem terror, mas sim uma experiência artística belíssima. Quase não há diálogos; em compensação, há uma maravilhosa composição de efeitos sonoros que praticamente joga o espectador no universo do filme. Quase não há planos abertos, e toda a história é contada em detalhes, closes cada vez mais próximos. Isso tudo, somado à iluminação e à montagem, comprovam que "Amargo" não tem muito interesse em contar uma história, mas sim em acumular cenas e imagens tão bonitas que poderiam ser emolduradas e penduradas na parede. Outras provocam arrepios em cada pêlo do corpo, como a do homem retalhado a navalhadas em close! Eu tenho o hábito de às vezes pegar o DVD de filmes como "Era Uma Vez no Oeste" não para assisti-lo inteiro, mas sim para rever as cenas mais bonitas. Quando "Amargo" sair em DVD, eu provavelmente vou fazer a mesma coisa, assistindo e reassistindo várias vezes os seus diversos belos momentos. Definitivamente não é para todos os públicos, mas é um dos filmes mais visualmente hipnotizantes que eu vi em, sei lá, muito tempo!


MASSACRE ESTA NOITE (Masacre Esta Noche, 2009, Argentina. Dir: Adrián e Ramiro García Bogliano)
Um dos destaques do Fantaspoa 2010. Com câmera digital e produção quase amadora, conta a história de um pobre videomaker argentino contratado para trabalhar como operador de câmera nas filmagens de um suspeitíssimo filme pornô, numa fazenda deserta e durante a noite. Quando o diretor grita "Ação!", os temores do rapaz se concretizam: ele acabou envolvido com uma cadeia internacional de realizadores de "snuff movies", e terá que lutar - literalmente - para não se transformar no próximo "ator" a ser assassinado diante das câmeras. Com idéia simples e divertida, tudo funciona que é uma beleza no filme. Inicialmente, pelo resumo da trama, pode até parecer uma comédia de humor negro, mas na verdade "Massacre Esta Noite" é um terror sério e violentíssimo, embora com um senso de humor doentio que faz graça de momentos asquerosos (como aquele em que os sujeitos posam para fotografias ao lado de um cadáver decapitado!). O elenco está inspiradíssimo, principalmente o diretor malucão que acredita estar fazendo arte (interpretado por Diego Cremonesi) e o decadente e barrigudo ator pornô (Rolf García). Os diálogos também fogem do besteirol típico do gênero e buscam discutir seriamente a questão do fascínio pelos "snuff movies" - um tema recorrente em diversas produções recentes. Principalmente quando o afetado diretor compara o gigantesco número de acessos em um vídeo real colocado no YouTube com a bilheteria reduzida do último filme de David Lynch. Já o final é um show de sangue e variados tipos de agressão física, com direito a faca enfiada no pescoço saindo por dentro da boca (à la "Terror na Ópera"). Uma verdadeira surpresa, que mais uma vez comprova o banho que nossos hermanos estão nos dando também em matéria de cinema fantástico.


FILHOS DA FORMATAÇÃO (Eraser Children, 2009, Austrália. Dir: Nathan Christoffel)
Até os primeiros 20 minutos de "Filhos da Formatação", eu acreditava estar diante de uma daquelas pérolas sobre as quais ninguém fala ou escreve, e que depois de ver você sai animado recomendando para todo mundo. Havia algo de muito interessante e sedutor na mistura bem-humorada de "Brazil - O Filme" com "Max Headroom" (aquele seriado que só quem é dos anos 80 vai lembrar). Infelizmente, após os tais 20 minutos, o filme afunda como uma bigorna na piscina, e a trama sobre uma opressiva sociedade futurista à la "1984" se transforma numa bobajada pseudo-mística envolvendo colírios alucinógenos, regressão a vidas (ou memórias) passadas e MUITA pretensão. A história se passa num futuro em que uma megacorporação domina a humanidade, despejando dezenas de novas leis estúpidas por dia (tipo "É proibido apertar mãos"), todas elas rigorosamente monitoradas pela polícia fascista. Os cidadãos também podem apagar suas memórias e comprar sonhos "pré-fabricados" para escapar das suas vidas medíocres. O problema é que um deles, um funcionário burocrático que vive de revisar as novas leis criadas pelo Governo, descobre que era um terrorista cuja memória foi apagada. Contatado por um "ex-colega", é convencido a tomar parte num plano para eliminar o ditador que comanda a sociedade. Lendo assim até parece divertido, mas a história perde completamente o foco quando a dupla de protagonistas foge para os subterrâneos, onde se passa a maior parte do filme até a conclusão - num festival de flashbacks, diálogos desnecessários e delírios, bem distante daquele clima de humor negro do início. Uma ótima idéia mal-conduzida. E ainda não foi dessa vez que surgiu um novo "Brazil - O Filme"...


RECORTADAS (2009, Argentina. Dir: Sebastián De Caro)
Ironicamente, na mesma semana em que "À Prova de Morte", do Tarantino, finalmente chegava aos cinemas brasileiros, esta obscura produção argentina foi exibida no Fantaspoa. E a comparação é inevitável: em oitenta e poucos minutos, "Recortadas" é uma homenagem muito mais sincera e fiel ao espírito "anos 70" de cinema sexploitation do que as duas horas do filme do Tarantino, ou do que as mais de três horas do fracassado projeto "Grindhouse" - algo que eu disse aos próprios realizadores do filme, os simpáticos Juan Pablo Caserta (produtor) e Mauro Narducci (assistente de direção), no final da sessão. Como muitas daquelas amalucadas produções feitas nos anos 70 para exibição em cinemas pobretões ou drive-ins, "Recortadas" tem um fiapo de história (muito semelhante a "Hostel 2") costurado com uma miscelânea de cenas, personagens e diálogos que pouco ou nada têm a ver com o "todo": um sujeito engraçado falando sobre a importância das estátuas-vivas, um velhote se masturbando num museu diante de pássaros empalhados, o sexo virtual praticado por uma garota com um nerd numa lan house, e por aí vai. No meio dessa balbúrdia, e com as generosas cenas de nudez das duas gatinhas que estrelam o filme (mulheres fortes e "machonas", como as de Tarantino), fica até fácil embarcar na brincadeira e esquecer que o filme não tem muito objetivo. Mantendo o espírito "grindhouse" que nem Tarantino nem Robert Rodriguez conseguiram emular a contento, "Recortadas" também traz uma divertida seqüência com os atores dublados em outras línguas (alemão e italiano), homenageando o sexploitation produzido na Europa. Um filme que com certeza cumpre seu objetivo (e diverte) muito mais que o pretensioso e cansativo "Death Proof".


THE UH-OH SHOW (2009, EUA. Dir: Herschell Gordon Lewis)
Não dá para esperar muita qualidade do veterano Herschell Gordon Lewis, atualmente com 81 anos. Tudo bem que ele foi um dos precursores do gore no cinema de horror, mas mesmo seus "clássicos" dos anos 60 e 70, como "Banquete de Sangue" e "Maníacos", já eram bem ruinzinhos, e só valiam mesmo pelo pioneirismo do uso de mutilações explícitas. "The Uh-Oh Show", novo filme do maníaco, é um atentado ao bom gosto e a prova cabal de que Lewis não só ficou gagá, como perdeu completamente a vergonha na cara com a idade. Tão ruim ou pior que seus filmes antigos, soa ainda mais enfadonho pelo fato de a violência exagerada no cinema de horror hoje ser regra, e não exceção. A história não é nova (lembra um pouco "O Sobrevivente", aquele filme do Schwarzenegger), e envolve um bizarro programa televisivo de perguntas e respostas em que os membros dos participantes são arrancados com serra elétrica quando eles erram as questões. No começo parece bobagem assumida, com direito a pessoas ainda vivas mesmo depois que suas cabeças são decepadas ou suas tripas arrancadas. Mas Lewis, também autor do roteiro, comete um pecado mortal quando passa a levar a história a sério, colocando uma repórter para investigar os bastidores do programa. Os baratíssimos efeitos sangrentos são tão mal-encenados que pareceriam vergonhosos mesmo num filme amador do catarinente Petter Baiestorf; mas o pior é que o filme tem uma quantidade absurda de "matação de tempo", com uma infinidade de personagens (interpretados por PÉSSIMOS atores) e diálogos sem razão de existir. Enfim, uma das grandes bombas dos últimos tempos, que eu nem consegui suportar até o final!


ARMAZENAGEM A FRIO (Cold Storage, 2006, EUA. Dir: Tony Elwood)
Pelo título, pelo pôster e pelo argumento, você pode até não levar muita fé nessa produção independente - que, pasmem, demorou mais de 20 anos para sair do papel. É uma trama que lembra muito "Psicose": uma moça sofre um acidente na estrada, morre e é "raptada" (seu cadáver, no caso) por um caipira esquisitão, que vive isolado numa floresta, nas cercanias de uma cidadezinha. Alguns dias se passam e, sem notícias da garota, a irmã e o namorado da finada resolvem investigar seu paradeiro, como também acontecia no clássico de Hitchcock. O que faz de "Armazenagem a Frio" outra boa surpresa do Fantaspoa é que o "Norman Bates" da hora, Clive Mercer (muito bem interpretado por Nick Searcy), é apresentado como uma figura mais humana, nada maléfica e até simpática aos olhos do espectador. Ele não é assassino e muito menos necrófilo (em nenhum momento o filme sugere que Clive tenha atração sexual pelo cadáver que abrigou em sua cabana; é "amor" mesmo). Mas é claro que, à medida que a história vai se complicando (não é fácil esconder uma falecida, ainda mais numa cidade pequena), o pobre ermitão acabará se transformando num vilão meio trágico, que foge muito daquela cartilha padrão de psicopatas cinematográficos. Outros pontos positivos são as boas reviravoltas do roteiro, algumas cenas nojentas ou sangrentas (incluindo uma gráfica decapitação no prólogo, que não tem nada a ver com o resto do filme) e impagáveis e engraçados momentos da vida interiorana, com destaque para o personagem do xerife balofo e preguiçoso que, em momento inesquecível, aparece chupando a gema de um ovo com canudinho!!! Vale a pena conhecer.


É PRECISO AMAR A MORTE (Must Love Death, 2009, Alemanha. Dir: Andreas Schaap)
Com um senso de humor (negro) muito estranho, às vezes lembrando Eli Roth e outras vezes lembrando Peter Jackson, o alemão Andreas Schaap é o responsável por "É Preciso Amar a Morte", uma amalucada mistura de comédia romântica com horror gore. O filme conta a história de um panaca de coração partido que, sem coragem para se matar, resolve apelar para um grupo de suicidas em potencial que, pelo menos teoricamente, irão ajudá-lo em seu intento. Mas o rapaz acaba topando com uma dupla de psicopatas cuja diversão é torturar e matar pessoas em frente à câmera, simulando um programa de auditório. A partir daí, é um festival de sangueira e cenas macabras de violência, mas que, graças aos diálogos irônicos e às atuações cômicas da dupla de psicopatas, não chocam o espectador; pelo contrário, fazem você rir de nervoso diante de atrocidades como a garota que tem seu pé esmigalhado em um torno mecânico. O filme termina com um banho de sangue à la Peter Jackson, e a ambientação numa cabana na floresta também lembra Sam Raimi e "Evil Dead", com um toque de Irmãos Coen na estupidez dos personagens e nos rumos que a trama vai tomando. Schaap não poupa seus personagens, e o resultado fica beeeeem no limite entre comédia e terror. Logo, é um programa perfeito para quem quer "iniciar" sua namorada fã de comédias românticas no mundo do horror sangrento.


8th WONDERLAND (2008, França. Dir: Nicolas Alberny e Jean Mach)
Outra das boas surpresas do Fantaspoa: 8th Wonderland é um "país virtual" criado pela internet, e que reúne pessoas do mundo inteiro. Cansados de esperar pelos seus governantes "oficiais" para mudar os problemas sociais do planeta, os habitantes deste país de mentirinha reúnem-se semanalmente via internet para votar em novas ações para tornar o mundo melhor. Seus atos começam com vandalismos bem-humorados, como a instalação de máquinas de preservativos nas igrejas do Vaticano ou a publicação de uma nova Bíblia devidamente adaptada para a Teoria da Evolução de Darwin. Mas logo seus integrantes começam a aproveitar a fama conquistada na mídia para atos mais extremos, praticamente terroristas, como executar um ditador reeleito na América do Sul ou contaminar os filhos dos presidentes do G-8 com o vírus da Aids para acelerar as pesquisas de novas vacinas para a doença. Os governantes do "mundo real" tentam acabar com a ameaça mas... como entrar em guerra com um país que não existe? A idéia é incrivelmente criativa e muito bem desenvolvida, e o filme oscila entre momentos de puro humor negro e outros mais sérios, questionando as ações da 8th Wonderland em sua busca por um "mundo melhor". Mas também não é para todos os públicos: a dupla de diretores franceses sacrifica o ritmo e a "ação" em prol dos diálogos em dezenas de idiomas e das intermináveis deliberações dos "habitantes" do país virtual. Milagrosamente, apesar disso, o filme nunca se torna chato. Às vezes, os diretores até conseguem criar certo clima de tensão só com os diálogos. Uma obra bastante criativa, talvez uma das primeiras a discutir, a sério e sem exageros, a influência da internet na sociedade moderna. E se esta influência é boa ou ruim, cabe a cada espectador julgar - embora a conclusão (feliz) do filme deixe bem claro qual é o ponto de vista dos realizadores.