segunda-feira, 28 de junho de 2010

OLHOS DE VAMPA (1996)


OLHOS DE VAMPA é mais um daqueles casos bizarros da filmografia brasileira. O leitor curioso para saber mais sobre o filme encontrará poucos e raros comentários na internet, quase todos desfavoráveis. O próprio lançamento comercial foi problemático, e a obra permaneceu engavetada por um longo intervalo de tempo até ser finalmente desovada nas locadoras, sem muito alarde. Hoje, é aquela típica produção que todo mundo ouviu falar (mal, geralmente), mas pouquíssima gente viu.

É meio estranha a trajetória atribulada da película. Afinal, quem assina direção, roteiro e produção executiva é Walter Rogério, um sujeito cujos trabalhos anteriores (roteiro do ótimo "Cidade Oculta" e estréia na direção com o simpático "Beijo 2348/72") foram extremamente badalados, premiados e elogiados por crítica e público. Pois OLHOS DE VAMPA é o segundo e até agora último filme de Walter Rogério, sem filmar desde 1996, provavelmente escaldado pelo retumbante fracasso da obra.


Motivos para explicar este retumbante fracasso existem aos montes, mas também há um pouco de injustiça. Para começar, OLHOS DE VAMPA é um dos raros filmes brasileiros da Retomada que tiveram coragem de buscar uma aproximação com aquele clima sacana e "vale-tudo" das pornochanchadas e das produções baratas da Boca do Lixo.

Enquanto crítica e público redescobriam e elogiavam um "novo cinema nacional melhor fotografado e produzido" (originando comentários estúpidos como "Nem parece filme brasileiro"), Walter Rogério foi na contramão e propôs exatamente um retorno àquelas produções inconseqüentes das décadas de 70 e 80, que retrabalhavam clichês do cinema fantástico internacional dentro de uma atmosfera de sensualidade e sensacionalismo tipicamente brasileira.

Em outras palavras, é um filme com muita violência, palavrão e mulher pelada. Não falta nem uma incursão aos tradicionais inferninhos da noite paulistana, onde rola um gratuitíssimo número de striptease digno dos clássicos da Boca do Lixo. Não faltam filmagens nas ruas sujas e repletas de camelôs e mendigos. Há até uma rápida incursão num depósito de lixo!


Mas OLHOS DE VAMPA tem um grande problema: parece não se decidir entre ser uma brincadeira auto-consciente com esse cinema oitentista, um filme de horror sério ou um "terrir" na linha de Ivan Cardoso. O resultado fica num meio-termo entre essas três opções: há as brincadeiras de cinéfilo, há as tentativas de horror sério, mas também se busca um clima de "terrir" (às vezes o riso é involuntário).

Só que o filme não é suficientemente terror, suficientemente engraçado ou suficientemente auto-referencial (Mário Vaz Filho, diretor de divertidas produções da Boca como "Um Pistoleiro Chamado Papaco", é assistente de direção). O resultado, como escreveu a professora Laura Cánepa, é um filme "no meio do caminho entre drama e comédia", que "não se leva a sério e nem ri de si mesmo o suficiente para funcionar".


Para exemplificar, imagine Ivan Cardoso tentando fazer de "O Segredo da Múmia" um filme sério ao invés de avacalhado; ou João Batista de Andrade injetando um humor chulo ao seu thriller "A Próxima Vítima", sobre o serial killer apelidado de "Vampiro do Brás". Pois assim é OLHOS DE VAMPA. Um filme... esquisito!

Provavelmente nem os produtores sabiam como "marketear" obra tão disparatada, e ela acabou perdida no limbo da distribuição. Finalizada em 1996, foi exibida uma única vez naquele ano (no Festival de Brasília), e depois desapareceu até 2004, quando ganhou outra sessão na Mostra de Cinema de São Paulo. Mas nunca chegou a ter lançamento comercial nos cinemas: no mesmo ano, chegou às videolocadoras em VHS e DVD. E sumiu outra vez.

Críticas da época se dividiam entre os que taxavam o filme de "terrir" e entre os que encaravam como terror sério, enquanto a própria distribuidora divulgava o lançamento com a seguinte chamada: "Despontando como um dos mais recentes trashes (!!!) brasileiros". Isso comprova que ninguém entendeu a proposta da obra. Aliás... nem eu!


OLHOS DE VAMPA começa com a polícia encontrando o corpo de uma adolescente assassinada em pleno Parque Ibirapuera. Ela tem as mãos amarradas com fita isolante, um pêssego enfiado na boca e uma mordida numa das nádegas, por onde foi drenado todo o seu sangue.

A polícia começa a investigar o crime bizarro, e logo um dos investigadores, Leôncio (Washington Luiz Gonzales, péssimo no papel), surge com a teoria de que o assassinato foi obra de um vampiro. Risos generalizados ecoam pela delegacia. Afinal, como imaginar um vampiro no Brasil fora das obras cômicas de Ivan Cardoso ("Nosferatu no Brasil" e "As Sete Vampiras")?


Logo um segundo crime acontece, com uma outra bela garota sendo encontrada nas mesmas condições e de bunda pra fora. A polícia começa a investigar os casos como sendo obras de um serial killer. Apenas Leôncio mantém sua tese de que o culpado é um vampiro 100% brasileiro. Para provar, alia-se ao fotógrafo forense Oscar (Marco Ricca!!!) para caçar o criminoso - ou monstro.

Leôncio e Oscar resolvem seguir, disfarçadamente, a bela stripper Diva Botelho (Christiane Tricerri, musa das velhas fotonovelas da revista Chiclete com Banana). Tudo porque ela tem uma bunda fenomenal e "faz questão de ostentar", nas palavras de Leôncio. Assim, o policial acredita que ela será a próxima vítima do "vampiro", apelidado de Vampa pela imprensa. A idéia é pegá-lo com a boca na botija, literalmente.


Mas, alheio à caçada, o Vampa continua deixando uma trilha de corpos no bairro de Pinheiros - sempre belas garotas com a bundas mordida e um pêssego na boca.

É até difícil descobrir quando OLHOS DE VAMPA está sendo conscientemente divertido e quando é trash não-intencional. Mas há vários momentos hilários justamente pelo ridículo da situação, como a recomendação do delegado Arthur (Antonio Abujamra, um ator seríssimo!) aos seus policiais: "Se vocês notarem um homem perseguindo um traseiro bem-feito, vão atrás! Pode ser o nosso homem!". No Brasil, certamente não iriam faltar suspeitos...

O maior problema do roteiro é nunca deixar claro se o Vampa é realmente um vampiro ou apenas um serial killer "humano". Embora a explicação sobrenatural seja a mais plausível (ainda mais considerando a cena do lixão, no final), a mitologia vampiresca é completamente desprezada, pois o "vampiro" anda tranquilamente à luz do dia. No caso de ser um serial killer, o filme jamais explica que arma ele usa para retirar todo o sangue das suas vítimas pela bunda!


A verdade é que OLHOS DE VAMPA tem algumas ótimas idéias, mas não as desenvolve. Por exemplo, a obsessão do fotógrafo Oscar pelas fotos das belas bundas das vítimas e sua identificação com o assassino (algo mencionado beeeeem de passagem e logo ignorado pelo roteiro). Ou o próprio personagem do Vampa, interpretado pelo lendário Joel Barcellos ("Rio Babilônia"), que infelizmente aparece muito pouco. E, afinal, qual a justificativa do uso do pêssego nos crimes?


Outras coisas parecem ter sido jogadas aleatoriamente na trama, como a aparição de uma bizarra mendiga que faz longos discursos incompreensíveis, e tem uma parceria nunca explicada com o Vampa. Ou a paixão platônica do policial Leôncio pela sua "isca", a stripper Diva, outra personagem pouco aproveitada, e que não abre a boca o filme inteiro - apenas rebola a sua belíssima bunda pra lá e pra cá em calças cada vez mais apertadas!


E mesmo com tantos elementos e detalhes para desenvolver em uma duração relativamente curta (apenas 74 minutos), OLHOS DE VAMPA é arrastado e redundante em diversos momentos, repetindo desnecessariamente as cenas da stripper caminhando de lá para cá e os detalhes das cenas dos crimes - sim, todo mundo já sabe que as vítimas têm um pêssego na boca e a bunda mordida, mas a câmera fica um tempão filmando todos esses detalhes a cada nova vitima encontrada.

Não há nem mesmo a tentativa de se criar suspense, pois todas as vítimas do Vampa ao longo da história são encontradas já mortas, no "pós-ataque". Por isso, o filme lembra muito mais um policial ou suspense investigativo do que propriamente uma história de horror (ou "terrir", como preferirem).

Sim, são vários defeitos e problemas... Mas mesmo assim eu confesso que gostei de OLHOS DE VAMPA. Mesmo que não seja tão bem desenvolvida, a idéia de um vampiro brasileiro que, como tal, morde suas vítimas na "paixão nacional" é muito boa. Lembra inclusive um obscuro filme de horror canadense de 1987, chamado "Noites Macabras de Nova York", em que o vampiro sacana mordia belas mulheres nos seios!


Também achei muito interessante o foco no "mundo cão" terceiro-mundista, com a revolta da população diante da morosidade policial, o sensacionalismo da mídia (o título de uma das manchetes sobre os crimes diz, em letras garrafais: "Vampa só gosta de bumbum"), as incursões da câmera - de maneira quase documental - pelas ruas e inferninhos da noite de São Paulo e um momento grotesco em que policiais fazem elogios e comentários pornográficos examinando as fotos da bunda de uma das vítimas. Parece até uma produção da Boca do Lixo feita no período da Retomada e com um pouquinho mais de grana.

Outra boa idéia de OLHOS DE VAMPA é a busca de Leôncio e Oscar por "rostos suspeitos" nas fotografias tiradas nas cenas de crime. É a ampliação de uma destas fotos que identificará o principal suspeito de ser o Vampa, num detalhe que parece remeter a "Blow Up - Depois Daquele Beijo", de Michelangelo Antonioni.


E não tem como não gostar de um filme sem-vergonha, com nudez gratuita em doses cavalares, que foi corajosamente produzido num dos períodos mais caretas do nosso cinema, quase como uma provocação.

Os bumbuns mordidos ao longo da trama, sempre mostrados com riqueza de detalhes, pertencem a Vanessa Goulart, Kalinka Prates, Paula Melissa, Malu Bierrenbach, Mari Alexandre, Rosângela do Brazil e Áurea Lucia Ambrósio (algumas são velhas conhecidas de colecionadores de revistas femininas). Seis deles você confere a seguir. Tente adivinhar quem é quem!


Ainda que muito aquém do seu potencial, OLHOS DE VAMPA merece ao menos algum reconhecimento por ser um dos poucos investimentos em cinema fantástico (ou thriller de mistério, como preferirem) no período da Retomada. Outras apostas só surgiriam quase uma década depois: "Um Lobisomem na Amazônia", de Ivan Cardoso, e "Encarnação do Demônio", de José Mojica Marins, que também não conseguiram encontrar seu público nos cinemas.

Creio que um dia iremos descobrir que boa parte do roteiro de OLHOS DE VAMPA acabou no chão da sala de edição, justificando a trama desconexa. Ou talvez o diretor-roteirista Walter Rogério quebre o silêncio e explique que tudo era apenas uma brincadeira anárquica e cinéfila que foi levada muito a sério.


E depois de uma bizarra comédia romântica sobre a burocracia das leis brasileiras ("Beijo 2348/72") e deste igualmente bizarro horror/comédia/suspense/policial sobre um vampiro brasileiro que morde bundas, fico só imaginando o que Walter Rogério faria em seu terceiro filme!

Enquanto isso, nas sombras, o misterioso Vampa aguarda por novas vítimas, sem que nunca se saiba com certeza se é realmente um vampiro ou um "simples" serial killer...


PS 1: Como o trailer do filme não estava no YouTube, tomei a liberdade de ripá-lo do meu DVD para adicioná-lo no site - num serviço de utilidade pública e de singela colaboração na divulgação de uma produção tão esquecida. E repare como o trailer vende OLHOS DE VAMPA como um suspense sério!

PS 2: Amanhã embarco de volta para o meu amado Rio Grande do Sul, onde participarei de mais uma edição do Fantaspoa. Este ano promete ser muito interessante com a presença do diretor italiano Luigi Cozzi. Devo ficar afastado do blog por alguns dias, mas aguardem novidades!

Trailer de OLHOS DE VAMPA



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Olhos de Vampa (1996, Brasil)
Direção: Walter Rogério
Elenco: Marco Ricca, Washington Luiz Gonzales,
Antonio Abujamra, Joel Barcellos, Christiane Tricerri,
Mari Alexandre e Paula Melissa.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

PROJETO FILADÉLFIA (1984)


É sempre um risco rever aqueles seus filmes preferidos da infância. Afinal, para cada "Fuga de Nova York", "Mad Max 2" e "A Noite dos Arrepios", que parecem envelhecer como o vinho, existem incontáveis obras tipo este PROJETO FILADÉLFIA, que, como vinhos vagabundos que são, envelhecem e se tornam um vinagrão dos mais azedos. Enfim, aqueles "clássicos da sua infância" que você revisita apenas para perceber o quão ruins eles sempre foram - e também para constatar como você era ingênuo na juventude por gostar tanto deles.

Produzido por John Carpenter (sim, "o" John Carpenter) e dirigido por Stewart Raffill (quem?), o filme teve certa fama também no Brasil na época do seu lançamento. Por aqui, saiu em VHS pelo selo Top Tape, nos primórdios das videolocadoras brasileiras, quando quase todas as fitas à disposição eram piratas.


O roteiro de William Gray e Michael Janover chama a atenção por ser baseado num intrigante acontecimento supostamente real: o Projeto Filadélfia, que teria sido realizado nos Estados Unidos em 1943, durante a Segunda Guerra Mundial.

Muitos juram que é apenas lenda urbana ou teoria da conspiração, mas o que se conta é que, em 1943, no auge da guerra, cientistas norte-americanos conseguiram deixar um imenso navio (o destróier USS Eldridge) completamente invisível.

Usando campos eletromagnéticos no interior do barco, a intenção era apenas fazê-lo desaparecer dos radares dos alemães. Só que a experiência deu certo DEMAIS: o barco e toda sua tripulação simplesmente sumiram da face da terra por alguns minutos! Ou, pelo menos, é assim que se conta.


Mas o pior estava por vir: quando o tal navio "reapareceu", voltando sabe-se lá de onde tinha ido parar, era a própria visão do inferno, com marinheiros carbonizados, outros enlouquecidos, outros ainda fundidos ao casco da embarcação (!!!). O caso permanece um mistério até hoje, enquanto o governo e o exército norte-americanos continuam jurando de pés juntos que a história toda é uma farsa e que nunca houve tal experimento, quanto mais um navio inteiro ter ficado invisível.

Pois PROJETO FILADÉLFIA começa justamente no ano de 1943 e mostrando o tal experimento na prática, sob a coordenação de um cientista chamado James Longstreet (Miles McNamara).


Entre os marujos que embarcam no navio fadado a desaparecer estão David Herdeg (o canastrão Michael Paré, na época em alta por causa do sucesso de "Eddie and the Cruisers" e "Ruas de Fogo", dois clássicos da Sessão da Tarde) e Jim Parker (o igualmente canastrão Bobby Di Cicco, que apareceu na comédia "1941", de Steven Spielberg). Este último é casado com Pam (Debra Troyer), que espera o primeiro filho do casal.

Quando a experiência começa, é um verdadeiro pandemônio: o navio inteiro é sugado para dentro de um vórtex no tempo e no espaço, que no filme é representado como um túnel com luzes coloridas, bem parecido com aquele do final de "2001 - Uma Odisséia no Espaço". Enquanto seus colegas gritam e agonizam, David e Jim se desesperam e resolvem fazer alguma coisa; neste caso, atirar-se para fora do barco, bem no meio do tal vórtex!


E eis que ambos reaparecem em pleno deserto de Nevada (Área 51, alguém?), bem distante do local em que foi feita a experiência com o navio. E como se não pudesse ficar pior, o ano também é outro: 1984! Os dois marujos viajaram no tempo e, agora, enfrentam as enormes diferenças culturais proporcionadas por uma viagem de 40 anos no tempo. Como esta:

- Quem ganhou a guerra?
- Qual guerra? A do Vietnã?


Tudo é novidade para os rapazes, da programação ultraviolenta e cheia de mulher pelada da TV aberta à eleição de um ator da sua época, Ronald Reagan, como presidente dos Estados Unidos. Até uma latinha de Coca-Cola é vista como algo bizarro para quem só conhecia o refrigerante vendido em garrafa de vidro. E como pode uma garrafa de cerveja alemã em território ianque se horas antes eles estavam em guerra justamente com a Alemanha?


Finalmente, a desnorteada dupla encontra a bela Allison (uma jovem e linda Nancy Allen, atualmente sumida). Como toda boa alma tradicional desse tipo de aventura, a ingênua mulher tenta ajudá-los a descobrir a verdade sobre o que aconteceu - mesmo que seja seqüestrada pelos dois estranhos na primeira vez em que se encontram. Só que a investigação não vai ser tão fácil, porque todos são perseguidos pelo exército, que parece bastante interessado nos dois marujos.

Para complicar mais a trama, sem ter aprendido nada com o fracasso lá de 1943, um agora envelhecido dr. Longstreet (desta vez interpretado por Eric Christmas) tentou realizar o projeto novamente 40 anos depois, e abriu novamente o tal vórtex no tempo, desta vez fazendo sumir uma cidade experimental inteira. Foi por este buraco que David e Jim viajaram no tempo. O problema é que a "passagem" não fechou, e, como um grande buraco negro, pode engolir todo o planeta!


Se há algo interessante em PROJETO FILADÉLFIA - além, obviamente, do ponto de partida - é que o roteiro lembra muito um "De Volta Para o Futuro" (que é posterior, de 1985) às avessas: enquanto no filme de Robert Zemeckis o rapaz volta de 1985 para os anos 50, aqui são dois jovens dos anos 40 que avançam no tempo para os amalucados anos 80.

Infelizmente, a comparação com o ótimo "De Volta Para o Futuro" fica por aí: como PROJETO FILADÉLFIA é um filme de ação, o roteiro logo abandona o drama dos heróis perdidos em uma época que não conhecem para concentrar-se em perseguições a pé e de automóvel. É aí que a coisa toda degringola. O melhor da película é justamente a primeira meia hora, que mostra a experiência, a volta no tempo e o divertido choque cultural dos personagens.


Quando a história entra no território da ação, o filme afunda que nem o Titanic. Não bastasse o diretor Raffill ser um cabeça-de-bagre no quesito, sem nunca passar uma idéia de suspense ou de perigo (apesar do excesso de explosões de carros, prédios e até helicópteros!), o roteiro tem uma tonelada de furos, quase como o tal vórtex que ameaça engolir o mundo na trama.

Por exemplo: perto do fim, descobrimos que os militares precisam de David vivo e bem para fechar o tal vórtex antes que ele engula o mundo, já que o herói seria o responsável por voltar no tempo até a época do experimento (1943) e destruir o maquinário para que o navio e sua tripulação tornem-se visíveis de novo (ou seja, a história já está escrita e é imutável).

Logo, se este passado já é líquido e certo, e eles sabem que David é peça fundamental para viajar no tempo e salvar o mundo, por que diabos os soldados passam o filme inteiro perseguindo o rapaz e inclusive disparando tiros nele, sabendo que a sua morte poderia provocar um desastre temporal e mudar todo o rumo da história (para pior, no caso)?


Sem contar que essa história de que "tudo já está escrito" é uma bosta, pois no momento em que o roteiro deixa bem claro que o passado, o presente e o futuro já estão definidos e são imutáveis (ao contrário, por exemplo, da série "De Volta Para o Futuro"), você também já sabe que tudo vai se resolver facilmente no final, sem complicação, sem suspense e sem grandes perigos para os personagens ou para o planeta Terra.

(E é nessas horas que faz falta alguma cena de tensão como aquela do dr. Brown correndo contra o relógio para conectar os cabos na torre do relógio, no final de "De Volta Para o Futuro".)

O que sobra de PROJETO FILADÉLFIA é uma boa idéia (ou talvez um bom ponto de partida) mal-aproveitada e mal-filmada. O próprio "Experimento Filadélfia" em si - que, segundo algumas teorias da conspiração, realmente teria aberto um buraco negro no planeta, aquele conhecido como Triângulo das Bermudas! - é muito mais interessante do que o filme inteiro, e mal-aproveitado na trama, aparecendo apenas no começo e no final (com direito às cenas tétricas dos marinheiros fundidos com o navio).


Taí uma idéia que mereceria ser retrabalhada por algum diretor-roteirista mais criativo. Alô, fazedores de remakes: por que ao invés de estragar filmes bons vocês não tentam melhorar os ruinzinhos, como este?

Acredito, portanto, que alguns filmes deveriam permanecer apenas em nossas memórias lá da infância, já que revistos hoje, com mais senso crítico e toda uma bagagem cultural, acabam perdendo toda a graça.

PROJETO FILADÉLFIA é um deles: um argumento interessante, mas um resultado final bobo e sonolento. Ainda assim, um passatempo razoável para quem curte histórias sobre viagem no tempo, mesmo que aqui o tema seja trabalhado anos-luz aquém do seu potencial.

E bem que eu queria voltar também no tempo, mais precisamente para aquela época em que tudo era menos complicado e se podia ficar vendo PROJETO FILADÉLFIA nas tardes do SBT. E ainda gostar muito do filme!


PS 1: Em 1993 saiu uma produção direto para as locadoras chamada "Projeto Filadélfia 2", cuja trama envolve experiências de viagem no tempo dos nazistas (o vilão inclusive é interpretado por Gerrit Graham). Lembro pouco desta seqüência e também preciso rever (medo!), mas, através do IMDB, descobri que o personagem de David Herdeg está de volta, desta vez interpretado por outro ator (Brad Johnson).

PS 2: Clique AQUI para ser redirecionado a um interessantíssimo site em inglês com uma das análises mais completas da internet sobre o misterioso "Experimento Filadélfia" que deu origem ao filme.

Trailer de PROJETO FILADÉLFIA



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Projeto Filadélfia (The Philadelphia
Experiment, 1984, EUA)

Direção: Stewart Raffill
Elenco: Michael Paré, Nancy Allen, Eric
Christmas, Bobby Di Cicco, Louise Latham,
Kene Holliday e Stephen Tobolowsky.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

HOLLYWOOD - MUITO ALÉM DAS CÂMERAS (1997)


Na postagem anterior, sobre "Brazil - Love Conquers All", eu discuti a influência nefasta dos estúdios sobre diversas conhecidas produções hollywoodianas. Para dar prosseguimento ao assunto, nada melhor do que falar sobre uma obra que justamente satiriza e critica a figura do produtor de Hollywood. Não, não se trata do maravilhoso "O Jogador", de Robert Altman, mas sim de uma produção mais condizente com o nome do blog. Por isso, preparem-se para o choque de conhecer (ou relembrar) a obscura comédia HOLLYWOOD - MUITO ALÉM DAS CÂMERAS.

Com um título original muito melhor ("Queime, Hollywood, Queime!"), esta esquecida produção de 1997 é mais um daqueles casos em que a proposta do filme e as histórias dos bastidores são mais interessantes do que o produto em si. Até porque TUDO deu errado nesta suposta comédia que nunca consegue ser engraçada. Mas vamos devagarzinho para eu poder contar tudo, e então vocês perceberão que os bastidores renderiam um filme até mais engraçado do que o próprio HOLLYWOOD - MUITO ALÉM DAS CÂMERAS.


Para início de conversa, este é aquele tipo de obra destinada exclusivamente a cinéfilos com grande bagagem fílmica ou pessoas que trabalham no ramo do cinema (ou então têm muito conhecimento sobre os bastidores de uma filmagem). Afinal, todas as piadinhas e citações são internas, e não terão a mínima graça para 99% da humanidade - o que explica o fato de esta ser uma "comédia" assim, entre aspas.

Para fim de conversa, este é um filme sobre o famoso diretor Alan Smithee. Você provavelmente já viu algum dos seus trabalhos, como "Hellraiser 4 - Herança Maldita", "Os Pássaros 2" ou "Solar Crisis". Mas a verdade é que Alan Smithee não existe. Sempre que algum diretor perde o "controle criativo" sobre uma obra (em outras palavras, ela é reeditada ou alterada pelos produtores sem o seu consentimento), ele pode retirar o nome dos créditos e substituí-lo por "Alan Smithee", pseudônimo oficial criado pela Directors Guild (o sindicato dos cineastas norte-americanos) para que os créditos do filme não fiquem em branco.

Muita gente famosa já usou o nome "Alan Smithee" para não passar vergonha, como Dennis Hopper (que condenou a montagem do estúdio para o seu "Atraída Pelo Perigo"), Kiefer Shuterland (insatisfeito com a remontagem de "Procura-se") e até o veterano John Frankenheimer (no telefilme "Riviera").


A idéia de HOLLYWOOD - MUITO ALÉM DAS CÂMERAS é hilária (mas só a idéia): o diretor interpretado pelo inglês e ex-Monty Python Eric Idle perde o controle do seu primeiro filme para os produtores, que mandam e desmandam nas filmagens e na edição. Furioso, o diretor resolve tirar seu nome dos créditos, mas neste caso a obra ganhará o nome do famigerado Alan Smithee. Probleminha: o nome do diretor é, justamente, ALAN SMITHEE!!!

Sem ter o que fazer, e ciente de que a ruindade deste trabalho por encomenda destruirá para sempre a sua carreira, Smithee resolve roubar as latas com os originais do filme, provocando uma polêmica que se estende por toda Hollywood e logo chega à mídia, transformando o cineasta num "terrorista pela arte".


O roteiro bizarro foi escrito por Joe Eszterhas. Muita gente provavelmente nem lembra mais da peça, mas Eszterhas foi provavelmente o roteirista mais badalado (e bem pago) em Hollywood durante os anos 90. Foi o sucesso estrondoso de "Instinto Selvagem", que ele escreveu em 1992, que da noite para o dia transformou-o em "galinha dos ovos de ouro". A partir de então, o medíocre roteirista achou um nicho de mercado: filmes "pornô-chic" com histórias sacanas dignas do Cine Privê, mas produções milionárias e astros famosos pagando mico.

Após "Instinto Selvagem", Eszterhas repetiu a dose com outras misturas de suspense e putaria: "Invasão de Privacidade" (também com Sharon Stone), "Jade" e "Showgirls". O fracasso dste último, reconhecidamente um dos piores filmes de todos os tempos, enterrou a carreira do roteirista e por pouco não levou junto o diretor (o holandês Paul Verhoeven).


Subitamente, o tão requisitado e badalado Eszterhas viu-se na sarjeta, sem novos trabalhos e sem grana. Resolveu, assim, escrever HOLLYWOOD - MUITO ALÉM DAS CÂMERAS como desabafo contra o sistema de produção hollywoodiano e seus homens de terno e gravata, que usam e abusam dos autores e depois jogam fora. Sobrou também para as figuras da mídia e dos astros, destruídas sem piedade. Enfim, uma autêntica lavação de roupa suja.

(Só para constar, o último roteiro escrito por Joe Eszterhas que chegou às telas foi para um filme HÚNGARO de 2006. Ele nunca mais conseguiu emprego em Hollywood.)


Por mais que eu condene as motivações do roteirista e o próprio trabalho de Joe Eszterhas (que realmente era um "autor" dos mais medíocres e mereceu o fim que teve), é preciso ressaltar a coragem do sujeito ao atacar furiosamente tudo e todos em HOLLYWOOD - MUITO ALÉM DAS CÂMERAS.

Produtores e agentes de Hollywood são apresentados como um bando de idiotas viciados em drogas e sexo com prostitutas. Astros surgem como pessoas mesquinhas movidas pelos seus egos. Repórteres, no filme, são idiotas. Todos são apresentados com legendas depreciativas e/ou irônicas.


Sem noção, Eszterhas não teve medo nem de transformar a si próprio em piada, e aparece no filme, "interpretando" ele mesmo, como um roteirista medíocre e sem talento - além de fazer uma piadinha com seu maior fracasso, quando o diretor Alan Smithee diz que o seu filme, reeditado pelo estúdio, ficou pior que "Showgirls"!


Mas o mais engraçado e bizarro dessa história toda vem agora: para dirigir HOLLYWOOD - MUITO ALÉM DAS CÂMERAS, foi convocado o veterano Arthur Hiller, na ativa desde a década de 50 e diretor de filmes como "Cegos, Surdos e Loucos" e o clássico da choradeira "Love Story".

Aí, num daqueles episódios simplesmente inacreditáveis de tão absurdos, Hiller perdeu o "corte final" da obra para os produtores (entre eles, o roteirista Joe Eszterhas), e não gostou nada de como eles editaram seu trabalho. Resultado: tirou seu nome dos créditos e usou o famoso pseudônimo "Alan Smithee" para manter sua integridade artística.

Não, você não leu errado: a comédia sobre um diretor chamado Alan Smithee acabou se tornando, na vida real, um "filme de Alan Smithee"!!! É o tipo de coisa tão difícil de acreditar que até hoje imagino ter sido um golpe publicitário dos realizadores para tornar a brincadeira toda mais bizarra. Ou será apenas mais um legítimo caso de "a vida imita a arte"?


Tirando todas essas histórias, HOLLYWOOD - MUITO ALÉM DAS CÂMERAS é, como eu já alertei, uma comédia de poucas risadas, muitos ataques e acusações e intermináveis diálogos que só Eszterhas deve ter achado engraçados.

A trama toda é filmada como se fosse um documentário, com os "envolvidos" no episódio falando diretamente para a câmera e explicando a história. Tudo começa quando o famoso editor Smithee, responsável pela montagem de clássicos como "Touro Indomável" (!!!), ganha a direção do seu primeiro longa, um blockbuster chamado "Trio" e estrelado por ninguém mais ninguém menos que Sylvester Stallone, Whoopi Goldberg e Jackie Chan!!!

(Sim, os três famosos atores aparecem em cena satirizando a eles próprios, no que talvez seja a melhor coisa dessa comédia.)


Começam as primeiras piadas sobre o "processo de criação" de Hollywood, quando o inescrupuloso produtor James Edmunds (interpretado pelo veterano Ryan O'Neal) explica que o roteiro original de Shane Black (o roteirista de "Máquina Mortífera"!!!) era muito bom, mas teve que ser "adaptado" quando Stallone, Whoopi e Jackie entraram no projeto, porque Whoopi e Jackie não queriam que seus personagens morressem, como estava originalmente no roteiro, e Stallone queria um personagem com "história de redenção" a exemplo de Rambo e Rocky Balboa. Ver os atores comentando estas mudanças diretamente para a câmera é algo curioso, principalmente Chan resmungando que nunca "morre" em seus filmes. Na vida real, esses caras devem ser assim xaropes mesmo!

O roteiro foi então reescrito por diversos outros roteiristas, como o próprio Joe Eszterhas e o ator Billy Bob Thornton (que também aparece em cena), voltando depois a Shane Black para os "ajustes finais". Black, outro que faz participação especial, declara à câmera não ter reconhecido nem uma vírgula do seu roteiro original depois que ele foi reescrito por várias outras mãos! Isso é Hollywood...


Quando as filmagens de "Trio" começam, fica claro que o pobre Alan Smithee é apenas uma marionete nas mãos dos astros e dos produtores Edmunds e Jerry Glover (o comediante Richard Jeni, que se suicidou em 2007), e que eles são os verdadeiros "diretores" do filme. É quando Smithee, em nome da sua "integridade artística", resolve roubar os negativos e fugir com a obra dias antes da estréia oficial.

Sobram também piadinhas para os cineastas negros e "socialmente engajados" como John Singleton, Spike Lee e os Irmãos Hughes. Estes últimos são satirizados na figura dos "Irmãos Brothers" (Brothers Brothers, no original), Dion (Coolio) e Leon (Chuck D.), que resolvem fazer um filme independente sobre a trajetória de Alan Smithee.


Infelizmente, o potencial cômico da história acaba ainda na primeira meia hora. A própria brincadeira do "mockumentary" se torna repetitiva e injustificável. Entram personagens secundários sem muita função na trama, como uma garota de programa "que já saiu com Hugh Grant" (referência gratuita ao famoso escândalo sexual do ator inglês), e a ex-namorada do produtor Edmunds, Aloe Vera (interpretada pela modelo Nicole Nagel).

Há também pequenas participações do então chefão da Miramax Harvey Weinstein (como o detetive Joe Rizzo), da comediante e ex-namorada de Madonna Sandra Bernhard, da modelo Naomi Campbell, do famoso produtor Robert Evans (como ele mesmo!), do apresentador Larry King e do diretor Norman Jewison (também "as himself").


Mas certamente os grandes momentos de HOLLYWOOD - MUITO ALÉM DAS CÂMERAS são aqueles em que Stallone, Whoopi e Jackie fazem piada de si próprios. Os depoimentos de Stallone (gravados dentro de uma lanchonete da sua franquia Planet Hollywood) são talvez as únicas partes realmente divertidas do filme, especialmente quando ele brinca com suas falas mais famosas (como o "Adriaaaaaan" de "Rocky").

E o trailer de "Trio", que mostra os três astros atirando em direção à câmera, entre explosões, enquanto repetem a frase "Don't fuck with us!", é a melhor coisa do filme inteiro! Pena que nenhuma boa alma teve a decência de colocá-lo no YouTube para que eu pudesse compartilhar com os nobres leitores.


Outras piadinhas internas, como eu já escrevi, são mais curiosas do que propriamente engraçadas, como quando o produtor Glover cita o célebre caso de Michael Cimino e "O Portal do Paraíso" (igualmente citado por mim na resenha de "Brazil - Love Conquers All"), e lamenta o fato de que o blockbuster "Trio" estava até sendo elogiado pela crítica - a mesma crítica que, segundo ele, não gostou de "filmaços" como "Ishtar" e "Waterworld" (dois notórios fracassos de bilheteria de Hollywood!).

Mais adiante, o mesmo produtor explica para a câmera: "Apenas Kubrick e Spielberg têm direito ao 'final cut'. Só. Os outros pensam que têm, às vezes os estúdios até dizem que eles têm, mas não têm não, é apenas para inflar o ego deles".

E se estas são as "cenas engraçadas", imagine as que não são! Pois Eric Idle, que era um dos sujeitos mais cômicos do Monty Python e geralmente faz participações hilárias em comédias, está completamente desperdiçado como Alan Smithee: seu personagem não tem absolutamente nenhuma graça, e olha que a cara do Eric Idle deveria ser cômica por si só!


Assim, HOLLYWOOD - MUITO ALÉM DAS CÂMERAS é uma "comédia" para públicos muito específicos e uma grande decepção como filme. Percebe-se que houve divergências no "final cut" quando você constata que a duração da trama não chega a 60 minutos - o tempo de 76 minutos é completado com INTERMINÁVEIS créditos iniciais e finais.

Não por acaso, no ano de seu lançamento, a obra foi indicada a 9 Framboesas de Ouro (o Oscar dos filmes ruins), ganhando cinco delas, inclusive a de pior filme. Marcando o ponto mais baixo da sua "carreira", Eszterhas ganhou três Framboesas de Ouro só para si: pior roteiro, pior ator coadjuvante e pior estréia como ator! E logo depois desapareceu da cena hollywoodiana.


Nada mais justo, considerando que o filme inteiro nada mais é do que um longo ataque pessoal do roteirista aos produtores e astros de Hollywood após o fracasso de "Showgirls" e a decadência da sua carreira como autor de blockbusters. Como diz o velho ditado, "roupa suja se lava em casa". Eszterhas aprendeu isso na prática!

Porém, como retrato de uma época - e também como uma crítica virulenta à interferência nem sempre positiva dos produtores na realização de filmes -, HOLLYWOOD - MUITO ALÉM DAS CÂMERAS até tem certo valor, mesmo que muito aquém do seu potencial.

Também fica para a posteridade como uma aula perfeita de como NÃO fazer uma comédia.

Trailer de HOLLYWOOD - MUITO ALÉM DAS CÂMERAS



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Hollywood - Muito Além das Câmeras
(An Alan Smithee Film: Burn Hollywood Burn, 1997, EUA)

Direção: Alan Smithee (Arthur Hiller)
Elenco: Eric Idle, Ryan O'Neil, Richard Jeni, Sandra
Bernhard, Sylvester Stallone, Whoopi Goldberg,
Jackie Chan e Harvey Weinstein.