sexta-feira, 23 de abril de 2010

Mais resenhas curtinhas para analfabetos funcionais

A EPIDEMIA (The Crazies, 2010, EUA. Dir: Breck Eisner)
Há duas maneiras de encarar este filme: comparando com "O Exército do Extermínio", de George A. Romero, já que a obra se propõe a ser remake dele, ou não. Mas das duas maneiras o resultado é frustrante, e na comparação ele ainda se sai pior. Afinal, depois do remake de "Last House on the Left" com final feliz, agora temos uma refilmagem de "O Exército do Extermínio" sem exército do extermínio! Os milicos com roupa de guerra bacteriológica, que eram o grande vilão do original, aqui se transformam em míseros figurantes, com os "crazies" do título em inglês ganhando o destaque que não tiveram lá nos anos 70 (ainda bem que tiveram a dignidade de mudar o título brasileiro!). Parece até que os realizadores confundiram "O Exército do Extermínio" com "Extermínio", já que os loucos do remake não são mais pessoas normais com tendências homicidas, como no filme de Romero, e sim criaturas quase mutantes com o rosto deformado, como os raivosos de Danny Boyle (o vírus agora muda até a cor do olho dos caras, vê se tem cabimento!). Só isso já estraga o clima de paranóia do original, em que você não sabia quem estava infectado ou não - o remake faz questão de diferenciar os loucos didaticamente, através de sintomas como sangramento nasal e veias escuras e dilatadas no rosto. Situações interessantes do filme de Romero, como a busca da vacina para o vírus e o militar preocupado com o avanço da epidemia, são simplesmente deletadas. Enfim, se aqui tiver 10% das idéias do Romero, é muito! Para piorar, acrescentaram besteiras como o militar arrependido que ajuda os heróis, no melhor estilo "politicamente correto" desses novos tempos. Para não ser injusto, até há algumas boas cenas de suspense isoladas - como a do lava-jato. Porém, mesmo sem comparar com o original (o que é bem difícil), o resultado é um filme estúpido e sem propósito, repetitivo (há TRÊS cenas idênticas em que um dos personagens principais é salvo da morte no último momento por alguém que chega por trás), e cheio de rombos no roteiro - como os loucos que não fazem cerimônia em matar qualquer um que cruze seu caminho, mas têm o discernimento de parar para amarrar uma das vítimas, só porque ela é a esposa do herói e precisa ser salva na hora H...


MORGUE STORY: SANGUE, BAIACU E QUADRINHOS (2009, Brasil. Dir: Paulo Biscaia Filho)
É uma bela surpresa este filme independente nacional com óbvias influências "tarantinescas", entrelançando os destinos de três personagens bizarros (e um universo de figuras secundárias milagrosamente unidas ao trio) dentro de um escuro e mórbido necrotério. A trama transborda citações a filmes, música e quadrinhos, com doses cavalares de humor negro - há referências a zumbis haitianos, catalepsia e necrofilia. Estiloso, o diretor Biscaia Filho consegue um ótimo resultado com as idas e vindas no tempo, num filme que, como já anuncia o título, realmente lembra uma absurda história em quadrinhos. Também há sangue e violência, mas nada de muito chocante ou apelativo. Começa meio devagar, com enormes diálogos à la Tarantino que podem desestimular alguns espectadores (o filme é baseado numa peça teatral escrita pelo diretor); mas depois engrena e torna-se bastante divertido e original, com ótimas interpretações do trio central, especialmente Leandro Daniel Colombo como o médico-legista sociopata com hábitos, digamos, bastante esquisitos. Em meio ao festival de citações gratuitas ou não (a protagonista chama-se Ana Argento), o ator que interpreta o cataléptico (que retorna repetidas vezes da "morte" ao longo do filme) é muito parecido fisicamente com Tim Matheson, que também interpretou um homem que "volta da morte" no interessante "Morto, Mas Nem Tanto", de Frank Darabont - terá sido uma citação intencional? Uma pena que "Morgue Story" tenha ficado restrito ao circuito de festivais, e dos bem alternativos (talvez até em função do título amalucado), pois merecia pelo menos um lançamento comercial em poucas salas - como aconteceu com bobagens cult como "Os Famosos e os Duendes da Morte". Enfim, um filme diferente e sem paralelo na cinematografia nacional contemporânea, e que por isso mesmo merece ser descoberto.


ABISMO DO MEDO 2 (The Descent: Part 2, 2009, Inglaterra. Dir: Jon Harris)
Eu posso estar sendo generoso demais, pois até agora só li críticas negativas ao filme, mas achei esta seqüência tão boa quanto o "Abismo do Medo" original, dirigido por Neil Marshall em 2005. Até porque é uma daquelas raras continuações que realmente fazem jus ao "Parte 2" no título, com uma trama que se passa poucos dias depois do primeiro filme e ainda resgata diversos personagens deste - inclusive os que morreram, e cujos cadáveres são encontrados pelo caminho! A trama é simplória: a polícia resolve levar a sobrevivente do original (Shauna Macdonald) de volta à caverna em que ela e as amigas foram atacadas por misteriosas criaturas assassinas. Segue-se um festival de cenas claustrofóbicas realmente incômodas, que colocam seus personagens em lugares cada vez mais escuros e apertados, passando uma sensação de desconforto ao espectador (claustrofóbico ou não). Uma delas, que mostra duas garotas cruzando um túnel subterrâneo por baixo d'água, respirando no exíguo espaço que separa a superfície da água do teto do túnel, me lembrou o clássico da Globo "A Fortaleza" (aquele das crianças seqüestradas). Como não há mais novidade, o diretor Harris encharcou o filme de sangue, com diversas cenas de violência explícita e jatos do famoso líquido vermelho-escuro - e sem poupar os personagens, que sofrem horrores. O final traz um furo de roteiro gigantesco (SPOILER - Se o velhote ajudava as criaturas, por que ele não matou a sobrevivente logo na cena inicial para proteger o segredo, ao invés de permitir que ela voltasse à cidade e originasse uma expedição de volta à caverna? - FIM DO SPOILER), mas até ali a montanha-russa de sustos, gore e nojeiras variadas já terá cumprido o seu objetivo. Como eu escrevi no começo, talvez esteja sendo generoso, mas realmente achei o resultado muito divertido - além de uma das raras boas seqüências dos últimos anos. Mas estou na torcida para que não exista um "Abismo do Medo 3", pois a trama já é satisfatoriamente concluída e uma terceira aventura no interior da escura caverna já seria repetitiva demais...


CABANA DO INFERNO 2 (Cabin Fever 2: Spring Fever, 2007/2009, EUA. Dir: Ti West)
Tem algo de muito estranho nessa continuação que eu aguardava com bastante ansiedade até, esperando por um "terrir" no mesmo nível do divertidíssimo "Cabana do Inferno" (2004), de Eli Roth. O fato de a seqüência ter sido filmada em 2007 e engavetada desde então já evidencia que houve diversos problemas durante a produção: inúmeras mudanças de roteiro, cortes e refilmagens de cenas. O resultado final é tão grotesco que o diretor West tentou tirar seu nome dos créditos, e nem dá para culpá-lo: a montagem é uma atrocidade, e o tempo todo parece que falta alguma coisa - ou MUITA coisa -, que provavelmente veremos algum dia numa "director's cut". A trama mostra o vírus devorador de carne humana saindo da cabana do filme original para invadir uma escola, justamente na véspera do baile de formatura. Há um espírito exagerado e brincalhão de terror oitentista (o diretor West repetiu a homenagem em "The House of the Devil"), e uma tentativa de superar o nível de nojeira do original, jogando na tela todo e qualquer tipo de aberração, de peitos cobertos de feridas até o close num pênis necrosado ejaculando pus (!!!). West também tenta recuperar o bizarro humor sexista de Eli Roth, filmando uma cena de sexo com uma gorda enorme. Mas a edição tenebrosa não permite nem ao menos conhecer os personagens antes que eles comecem a morrer, e quando a história "acaba", o filme ainda segue adiante com uma última cena completamente deslocada, que certamente deveria ter sido mostrada ANTES. Mesmo a cena do baile de formatura, que pelas fotos divulgadas prometia um banho de sangue histórico, fica aquém do esperado. E por mais que o filme tenha seus momentos gore e/ou engraçados, quando surgem os créditos finais você fica na dúvida se gostou (pela "coragem" de apresentar tamanho festival de esquisitice e nojeira) ou não (pelos mesmos motivos). Mas é possível que o melhor tenha ficado no chão da sala de edição. Ou não. Assista e tire suas próprias conclusões - ressaltando que isso é para públicos beeeeem específicos.


AS MELHORES COISAS DO MUNDO (2010, Brasil. Dir: Laís Bodanzky)
Sempre reclamei que não se faz comédia adolescente no Brasil (a última digna de menção é "Houve Uma Vez Dois Verões", de Jorge Furtado, e lá se vão 8 anos!). Aí é só sair um filme nacional dentro desta proposta, e que logo se revela um sucesso com seu público-alvo, para a nossa medíocre "crítica especializada" sair fustigando. Pura implicância: "As Melhores Coisas do Mundo" é um retrato bastante divertido de uma geração que vive cercada pela falta de privacidade promovida pela tecnologia (com internet, câmeras digitais e telefones celulares tornando públicas as fofocas e segredos). De quebra, ainda enfoca questões como amizade, perda da virgindade e o drama com o divórcio dos pais. Tudo bem que há algumas coisas gratuitas e uma sensação de que o filme tenta abraçar o mundo (a subtrama do adolescente que tenta se suicidar, por exemplo, é gratuitíssima!). Mas o filme é engraçado, realista e bastante simpático, conseguindo se comunicar muito bem com seu público-alvo e com os adultos. É por isso que soam como implicância as resenhas ranzinzas que queixam-se de o filme retratar um universo de jovens da classe média-alta. Típica cretinice de crítico tupiniquim, que nunca deve ter visto uma comédia adolescente norte-americana. Ou então esperava ver uma comédia adolescente passada na favela, ou no Nordeste (talvez queiram promover um "sistema de cotas" no cinema nacional também?). Afinal, para certos críticos, todo filme brasileiro precisa ser um tratado de sociologia - uma triste herança dos tempos do Cinema Novo. Um aspecto curioso é o fato de que diretores e roteiristas adultos, como Jorge Furtado em "Houve Uma Vez Dois Verões" e Laís Bodanzky aqui, conseguem se comunicar com os adolescentes muito melhor do que certos jovens realizadores, cujas obras tentam ser "cult" e acabam direcionadas a um público moderninho muito restrito - claro que falo de "Os Famosos e os Duendes da Morte" e "Apenas o Fim", dois recentes e decepcionantes "filmes sobre jovens feitos por jovens que pensam ser adultos". Meus melhores votos para que "As Melhores Coisas do Mundo" continue fazendo sucesso e gere mais uma série de bons filmes para jovens.


DUPLA IMPLACÁVEL (From Paris with Love, 2010, França. Dir: Pierre Morel)
Curto e grosso: "Dupla Implacável" é aquele filme de ação imbecil que você assiste agora e daqui a meia hora até lembra de algumas cenas, mas já esqueceu completamente sobre o que é a história ou mesmo o nome dos personagens. Mas o que esperar de um filme cujo pôster traz John Travolta careca e disparando uma bazuca? Mesmo tendo gostado muito do trabalho anterior de Pierre Morel (o ótimo "Busca Implacável", com Liam Neeson), eu já fui ao cinema com o cérebro desligado, sem esperar grande coisa, e por isso acho que o programa valeu o ingresso. Afinal, como não gostar de um filme em que um John Travolta sem noção sai enchendo terroristas árabes (claro!) de tiros, disparando frases de efeito ("Wax on, wax off") com a mesma velocidade das balas? É quase um retorno àquelas maluquices dos anos 80. E, nestes tempos politicamente corretos, é digno de menção um "herói" que cheira cocaína e transa com prostitutas quando não está salvando o mundo. E que não hesita em meter bala na cabeça de uma terrorista durante um jantar de amigos, cena impagável que lembra momento semelhante de "Busca Implacável". Isso, mais a citação explícita a "Pulp Fiction" e seu "royale with cheese", garantem o programa para aqueles que não querem nada além de uma aventura estúpida e movimentada; já aqueles que esperam um "algo mais" certamente ficarão decepcionados, pois não há nada além do que promete o pôster do cinema - John Travolta careca e disparando uma bazuca... Enfim, um futuro novo clássico do Domingo Maior.


ZONA VERDE (Green Zone, 2010, França/EUA/Espanha/Inglaterra. Dir: Paul Greengrass)
Momento de confissão: eu nunca tinha visto um filme dirigido por Paul Greengrass (nem mesmo os da série "Bourne"), e, a julgar por este seu mais recente trabalho, não perdi muita coisa - e vou continuar sem ver os próximos. Como o nome do diretor e o pôster (que só traz a fuça de Matt Damon) jamais me chamariam a atenção, o que me levou ao cinema foi a trama, que parecia interessante (ênfase no "parecia"), e as inúmeras comparações da crítica brasileira (de novo eles) entre "Zona Verde" e "Guerra ao Terror". Bem, a não ser que eu não tenha entendido bulhufas do grande vencedor do Oscar 2010, os dois filmes não têm absolutamente nada em comum: enquanto "Guerra ao Terror" não tinha heróis e preferia fazer um retrato da inutilidade da guerra (qualquer guerra), "Zona Verde" tem um herói bem definido e uma tentativa clara de "cinema-denúncia" em relação à Guerra do Iraque, algo semelhante às maquiavélicas teorias conspiratórias de Oliver Stone e Michael Moore. Greengrass precisa de um filme inteiro para contar que não existiam as armas de destruição em massa que motivaram a invasão norte-americana ao Iraque (como se isso fosse novidade), e coloca Matt Damon como o militar revoltado com a situação que resolve investigar o caso por contra própria, descobrindo uma conspiração envolvendo altos escalões políticos e militares. Tudo filmado naquele característico estilo documental (leia-se "câmera sacolejando o tempo todo"), numa obra cujo maior mérito é mostrar americanos contra americanos no Iraque, mas com um discursinho fuleiro que nunca convence - e um final feliz dos mais absurdos. Mesmo que a "perseguição" no clímax seja muito boa, não justifica tanto barulho por nada. Sorte que Greengrass tem seus muitos fãs (assim como os igualmente malas Stone e Moore). Mas se o restante da "obra" do homem for tão chata quanto esse filme, creio que não perdi nada ao nunca ter visto seus trabalhos anteriores.


UM OLHAR DO PARAÍSO (The Lovely Bones, 2009, EUA/Inglaterra/Nova Zelândia. Dir: Peter Jackson)
Deve ser a segunda e única vez em que eu concordo 100% com certo crítico de cinema xarope cujo nome está proibido por aqui (a primeira vez foi com relação ao "Clube do Filme"). Tremendo vacilo de Peter Jackson, numa tentativa desesperada - e fracassada - de colocar mais alguns Oscars na sua coleção. O resultado é um filme híbrido que tenta misturar muitos gêneros, mas não escapa de ser uma cópia fuleira e excessivamente melodramática de "Amor Além da Vida" e "Ghost - Do Outro Lado da Vida" (e sem que nenhum dos gêneros misturados seja satisfatoriamente desenvolvido). Não li o livro em que o filme se baseia para saber o quanto da obra foi incluído na adaptação, mas já pesquisei para descobrir que Jackson foi cagão para não incluir o momento mais chocante, que é justamente o assassinato da jovem protagonista. Até então (e isso acontece na primeira meia hora), o filme ia razoavelmente bem; a partir de então, se transforma justamente no que anuncia o título brasileiro: a vítima fica "olhando do Paraíso" pela próxima 1h40min, sem nunca participar do que acontece na "vida terrena". Acompanha a impunidade do seu assassino, a investigação obsessiva movida pelo pai e a desintegração da sua família pela perda. Jackson tenta fazer um pouco de tudo: melodrama familiar, suspense investigativo, thriller sobre serial killer (a despeito das muitas opiniões favoráveis e da indicação ao Oscar de Melhor Ator, achei Stanley Tucci insuportavelmente clichê e caricatural na sua composição vilanesca), e até comédia, graças à personagem completamente dispensável da avó (Susan Sarandon, pagando um micaço). Com tudo isso ao mesmo tempo, Jackson só consegue é fazer um filme interminável, cujas cenas no Paraíso oscilam entre o clichezão (campos verdejantes e ensolarados) e a viagem de LSD, e as várias tramas alinhavadas no mundo real nunca emocionam ou se concluem com satisfação. E é tanto personagem sobrando no filme (como a garota médium que não faz nada no final, apesar de todo mundo esperar que sim) que fica ainda mais complicado agüentar até o "The end" (só consegui terminar de ver porque acionei a tecla FF). Pode ser que eu estivesse em "dias de insensibilidade", mas o filme não me convenceu em momento algum e só serviu mesmo para comprovar o declínio de mais um cineasta independente deslumbrado com os milhões que ganhou em Hollywood.

domingo, 18 de abril de 2010

Mostra Cinema de Bordas em SP


Começa na terça-feira, 20 de abril, a segunda edição da Mostra Cinema de Bordas, que o Itaú Cultural promove até o domingo, 25, mais uma vez reunindo produções independentes e/ou amadoras vindas de todas as partes do Brasil, e exibindo-as em pleno glamour da Avenida Paulista, em São Paulo.

Vou repetir o que escrevi sobre o evento em 2009:

"A importância de uma mostra como essa é algo indescritível: para o público, é uma oportunidade única (e GRATUITA) para ver filmes vindos de diferentes partes do país e realizados à margem do cinemão comercial, de maneira improvisada e sem recursos, por cineastas auto-didatas que, na 'vida real', são estudantes, jornalistas, donos de locadora e até camelôs e agricultores; para os próprios realizadores, também é uma oportunidade única de mostrar seus trabalhos num espaço nobre e com toda a divulgação, já que o grande problema de quem faz filme independente é justamente a distribuição."

Eu novamente estarei presente na Mostra com meu segundo longa-metragem, a sátira de 2001 ENTREI EM PÂNICO AO SABER O QUE VOCÊS FIZERAM NA SEXTA-FEIRA 13 DO VERÃO PASSADO, provavelmente um dos filmes amadores mais conhecidos e menos vistos do país. São 83 minutos satirizando o cinema slasher norte-americano com um toque todo especial da cultura do interior do Rio Grande do Sul. E custou apenas R$ 250,00!

Trailer de ENTREI EM PÂNICO...


Segue a programação completa, e reforço o convite para a galera de Sampa conferir essa mostra fantástica e dar o devido reconhecimento a quem consegue fazer muito com quase nada:

* Terça-feira, 20 de abril
- 20 horas:
Abertura do evento (só para convidados)
Palestra com os curadores e exibição dos filmes
VLAD, de Pedro Daldegan (SP), e NINGUÉM DEVE MORRER, de Petter Baiestorf (SC)

Início de NINGUÉM DEVE MORRER


* Quarta-feira, 21 de abril
- 16 horas:
GATO, de Joel Caetano (SP)
A BRUXA DO CEMITÉRIO 2, de Semi Salomão (PR)
- 18 horas:
Bate-papo com o diretor Rodrigo Aragão e a pesquisadora Laura Cánepa
- 18h30min:
CHUPA-CABRAS, de Rodrigo Aragão (ES)
MORGUE-STORY – SANGUE, BAIACU E QUADRINHOS, de Paulo Biscaia Filho (PR)

Trailer de MORGUE STORY


* Quinta-feira, 22 de abril
- 18 horas:
DOUTOS EKARD, de Marcos Bertoni (SP)
CORONEL CABELINHO VS. GRAJAÚ SOLDIAZ, de Pepa Filmes (RJ)
- 20 horas:
Bate-papo com a diretora Liz Marins e Laura Cánepa
- 20h30min:
APARÊNCIAS, de Liz Marins (SP)
ENTREI EM PÂNICO AO SABER O QUE VOCÊS FIZERAM NA SEXTA-FEIRA 13 DO VERÃO PASSADO, de Felipe M. Guerra (RS)

Trailer de CORONEL CABELINHO VS. GRAJAÚ SOLDIAZ


* Sexta-feira, 23 de abril
- 18 horas:
O MASSACRE DA ESPADA ELÉTRICA, de Gerson Castilho, Lucio Gaigher, Merielli Campi e Rodolfo Arrivabene (ES)
O SHOW VARIADO, de Simião Martiniano (PE)
CYBERDOOM, de Igor Simões Alonso (SP)
- 20 horas:
Bate-papo com o diretor Joel Caetano e Laura Cánepa
- 20h30min:
GATO, de Joel Caetano (SP)
A BRUXA DO CEMITÉRIO 2, de Semi Salomão (PR)

Trailer de GATO


* Sábado, 24 de abril
- 16 horas:
CHUPA-CABRAS, de Rodrigo Aragão (ES)
MORGUE-STORY – SANGUE, BAIACU E QUADRINHOS, de Paulo Biscaia Filho (PR)
- 18 horas:
DOUTOS EKARD, de Marcos Bertoni (SP)
CORONEL CABELINHO VS. GRAJAÚ SOLDIAZ, de Pepa Filmes (RJ)

* Domingo, 25 de abril
- 16 horas:
APARÊNCIAS, de Liz Marins (SP)
ENTREI EM PÂNICO AO SABER O QUE VOCÊS FIZERAM NA SEXTA-FEIRA 13 DO VERÃO PASSADO, de Felipe M. Guerra (RS)
- 18 horas:
O MASSACRE DA ESPADA ELÉTRICA, de Gerson Castilho, Lucio Gaigher, Merielli Campi e Rodolfo Arrivabene (ES)
O SHOW VARIADO, de Simião Martiniano (PE)
CYBERDOOM, de Igor Simões Alonso (SP)

Trailer de CYBERDOOM

sexta-feira, 16 de abril de 2010

REEFER MADNESS (1936)


No fantástico livro "Medo e Delírio em Las Vegas" (transformado num filme igualmente fantástico por Terry Gilliam nos anos 90), o saudoso jornalista Hunter S. Thompson narra a ocasião em que participou - completamente chapado com todo tipo de droga ilícita - de uma convenção de policiais da Narcóticos em Las Vegas. Lá pelas tantas, Thompson narra o comunicado hilário feito por um dos delegados sobre o usuário de marijuana, ou Cannabis sativa, a popular maconha:

"Talvez você não enxergue os olhos vermelhos de um maconheiro por causa de seus óculos escuros, mas os nós de seus dedos estarão brancos por conta da tensão interna; suas calças estarão cobertas por crostas de sêmen, porque ele se masturba sem parar quanto não encontra alguém para estuprar. Quando interpelado, vai hesitar e não falar coisa com coisa. Ele não respeitará seu distintivo. O maconheiro não tem medo de nada, atacará sem motivo, usando qualquer arma à disposição. Qualquer policial, ao prender um suspeito viciado em maconha, não deve hesitar em usar toda a força necessária. Cada pancada que você der em um maconheiro evitará que você leve nove! Boa sorte!"

É mais ou menos este tipo de estupidez e desinformação em relação aos efeitos do uso da maconha que o espectador encontrará em REEFER MADNESS, um hilário "documentário" sensacionalista produzido nos anos 30 para "alertar sobre os perigos da marijuana", mas que com o passar do tempo ganhou status cult de comédia involuntária JUSTAMENTE entre os usuários de maconha!


Inicialmente batizado "Tell Your Children" ("Conte aos seus filhos", ou "Avise seus filhos"), o documentário foi produzido por um grupo religioso com a proposta de ser um filme educativo (e de moral duvidosa) para exibição em escolas e salões paroquiais de pequenas cidades, destinado a "alertar" os pais preocupados com a popularização da "erva do demônio" nos Estados Unidos da década de 30.

Entretanto, depois de filmado, "Tell Your Children" acabou sendo adquirido por um distribuidor conhecido justamente pelo sensacionalismo, Dwain Esper. Ele fez alguns cortes na parte do melodrama, inseriu cenas didáticas (e reais) sobre o combate aos entorpecentes na época, e mandou o filme para os cinemas com o título REEFER MADNESS, algo como "A Loucura do Baseado" - "reefer" era a gíria da época para o cigarro de maconha, algo como "fininho" em português. O objetivo de Esper com o título dúbio e os inserts de drogas era atrair aos cinemas tanto os pais preocupados quanto os próprios usuários de drogas!


Quanto ao filme em si... Bem, vamos por partes.

Nestes nossos tempos atuais, é muito difícil que alguém nunca tenha fumado um baseadinho, ou pelo menos visto alguém fumar. Sendo assim, os "efeitos nocivos" da maconha já são popularmente conhecidos: não passam de uma leve histeria seguida de sensação tranqüilizante, além dos tradicionais olhos vermelhos e de uma vontade irresistível de comer tudo que vier pela frente (comida mesmo; não maliciem, seus pervertidos!).

E não passa muito disso. Ninguém que fume um baseado vai ficar louco, psicopata, perder-se numa viagem sem volta ou sentir uma vontade irresistível de cheirar, se picar ou fumar crack. Portanto, se você passou a vida inteira sem fumar maconha com medo dos seus "terríveis efeitos", perdeu tempo!


Mas é claro que lá atrás, nos anos 30, os efeitos da marijuana ainda eram demonizados pela lei e pelas ligas de moral e bons costumes. Gente que nunca colocou um baseado na boca se dizia especialista na droga e dava palestras sobre os tenebrosos efeitos da maconha, capaz de transformar jovens inocentes em bárbaros estupradores e assassinos. Foi esse tipo de gente que produziu REEFER MADNESS.

O "documentário" começa com a palestra de um falso médico, o Dr. Alfred Carroll (interpretado por Joseph Forte), sobre a disseminação das drogas pelos Estados Unidos - quando entram as cenas verdadeiras de policiais queimando narcóticos e de baseados sendo didaticamente preparados.

O "médico" põe-se a falar sobre os trágicos efeitos da maconha na juventude, citando exemplos como o do rapaz que fumou um baseado e depois matou toda a família a machadadas (!!!). Finalmente, resolve contar uma história acontecida "bem perto dali", e o filme passa a dramatizar a narração do "especialista".


Moralista, inocente e desinformada até o talo, a história apresenta o casal Mae (Thelma White) e Jack Perry (Carleton Young), dois adultos que vivem de vender maconha à juventude. Jack, sempre vestido de terno e gravata, tem o hábito de circular por colégios e lanchonetes para seduzir e viciar novas vítimas, que eventualmente se tornarão novos clientes.

O drama todo gira em torno de Bill (Kenneth Craig), um jovem nerd que até usa gravata-borboleta (!!!), e é influenciado pelas "más companhias" ao conhecer Blanche (Lillian Miles), uma viciada em Cannabis que vive na casa de Jack e Mae. Blanche atrai Bill até a toca do lobo e lhe dá um baseado, que obviamente provoca terríveis efeitos colaterais no rapaz: ele fica doidão e transa com Blanche!


Ou seja: apesar de este ser um filme com mensagem anti-droga, o apelo de tal cena entre a juventude é inegável, e o efeito deve ter sido justamente O CONTRÁRIO do pretendido pelos realizadores. Tipo: "Fume maconha e você vai transar, mesmo que seja um nerd com gravata-borboleta"!

Enquanto Bill acorda depois da transa e se desespera (ah, esses tempos em que a virgindade era sagrada...), sua namoradinha Mary (Dorothy Short) chega à casa dos traficantes procurando pelo rapaz, mas acaba igualmente sendo conduzida à maconha por outro viciado que vive no local, um demente chamado Ralph (Dave O'Brien), que passa o filme inteiro rindo como um psicopata após dar umas baforadas num baseado. Mary também fica doidona e Ralph tenta estuprá-la; Bill surge para o resgate, mas a coisa acaba mal: um tiro é disparado e Mary morre!


Segue-se um filme de tribunal, com Bill sendo julgado pelo assassinato da namorada e o promotor e o juiz deixando bem claro que tudo só aconteceu porque o jovem estava sob efeito de maconha.

Eventualmente a verdade será descoberta, o inocente libertado e os culpados punidos (lembre-se que estamos nos puritanos anos 30). O castigo inclusive vem a cavalo, com o traficante Jack sendo morto pelo viciado Ralph em desespero provocado pela abstinência. Bill é inocentado e promete nunca mais envolver-se com a droga do demônio. Final feliz. Até esquecem da pobre moça morta.


De volta à reunião com os pais do início do "documentário" (lembra?), o dr. Carroll alerta o público para que tenham cuidado em suas próprias casas: "Ou a próxima tragédia poderá acontecer com sua filha... Ou com seu filho... Ou com o seu... Ou com o seu...", e ele então aponta o dedo acusadoramente para a câmera (e para o espectador) e conclui: "OU COM O SEU!!!".

REEFER MADNESS é simplesmente hilário: os atores interpretam usuários de maconha como se fossem bêbados (cambaleando pelos cantos e fazendo macacaquices), ou como se fossem psicopatas (com profundas olheiras e soltando gargalhadas maléficas).


As próprias cenas dos sujeitos fumando baseado demonstram que ninguém tinha muita intimidade com a coisa e acreditavam cegamente nos "especialistas" da área - só o jeito que eles SEGURAM o cigarrinho do demônio já é de rolar de rir!

Ainda há uma cena deprimente em que um rapaz dá duas ou três tragadas num baseado quando está no carro e repentinamente começa a dirigir como louco (no caso, como se estivesse bêbado, e não chapado), acelerando pelas ruas e atropelando um velhinho ao furar o sinal vermelho! Definitivamente, os "especialistas" que ajudaram na realização do filme confundiram maconha com cachaça...

O objetivo do roteiro é amedrontar a juventude dos anos 30, ainda sem acesso à televisão e muito menos à internet (e, portanto, recebendo informações ainda restritas aos pais e professores). Sustenta que o uso da maconha pode transformá-los em assassinos ou levá-los a uma "viagem sem volta". Enfim, nenhum esforço é poupado na tentativa de demonizar a erva e seus efeitos, naqueles tempos em que dar uns amassos numa garota antes do casamento era o fim da picada!


Ironicamente, o filme é absurdamente hipócrita ao condenar os supostos malefícios da marijuana, mas ao mesmo tempo mostrar todos os seus personagens "corretos" (pais, policiais, jurados, médicos...) fumando cigarros e charutos "normais" e bebendo álcool, como se só a maconha fosse prejudicial (por ser ilícita), mas todo o resto estivesse liberado sem restrição! Provavelmente deve ter afastado muitos jovens lá dos anos 30 da maconha, porém criando uma geração de fumantes e alcoólatras!

O relativo sucesso de REEFER MADNESS deu origem a uma série de outros filmes anti-maconha, como "Assassin of Youth" (1937) e "The Terrible Truth" (1951), todos sensacionalistas e nada informativos, todos exageradamente sensacionalistas e absurdos. Mas logo os produtores perceberam que a batalha estava vencida e deixaram a marijuana em paz, dedicando-se a fazer filmes sobre outras drogas mais pesadas e realmente perigosas, como o LSD e a heroína.


O próprio REEFER MADNESS sumiu de circulação por décadas até ser redescoberto mofando na Biblioteca do Congresso, no começo dos anos 70 - justamente por uma geração de maconheiros! Foi Keith Stroup, fundador da NORML (Nation Organization for Reform of Marijuana Laws), quem comprou os direitos sobre o filme, que já estavam em domínio público. A partir de 1971, Stroup passou a exibi-lo em seminários e festivais pró-maconha (!!!), onde os usuários acabaram adotando-o como uma divertida comédia involuntária, tal seu nível de sensacionalismo e desinformação.

E, quem diria, a venda de cópias do "documentário" foi uma das primeiras atividades financeiras a gerar capital para uma pequena companhia que surgia na época, uma tal de New Line Cinema, que hoje é simplesmente uma das grandes produtoras da indústria de Hollywood!

REEFER MADNESS ficou tão marcado na cultura popular ianque que ganhou diversas versões em DVD por lá, inclusive uma colorizada por computador (!!!). Também ganhou recentemente, em 2005, uma homenagem em forma de comédia musical, estrelada por atores famosos como Neve Campbell e Steven Weber - lançada no Brasil com o título "A Loucura de Marijuana".


Confesso que seria engraçado colocar aqueles pais dos anos 30, que ficavam apavorados com filmes como este, numa máquina do tempo, para que eles pudessem ir ao cinema nos dias atuais e ver filmes como "Up in Smoke", da dupla Cheech & Chong, ou "Segurando as Pontas", além de jovens fumando maconha não mais escondidos ou na casa de "traficantes", mas em ruas e parques mesmo.

Talvez estes pais de outrora também pudessem dar uma voltinha na Crackolândia para perceber que há coisas bem piores do que o inofensivo cigarrinho do demônio...

Já para a geração atual, só posso recomendar que REEFER MADNESS seja visto como a comédia involuntária que realmente é - de preferência fumando um baseadinho.

Veja REEFER MADNESS na íntegra!



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Reefer Madness/Tell Your Children! (1936, EUA)
Direção: Louis J. Gasnier
Elenco: Dorothy Short, Kenneth Craig,
Lillian Miles, Dave O'Brien, Thelma White,
Joseph Forte e Carleton Young.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

O POVO CONTRA GEORGE LUCAS (2010)



Onde você estava em junho de 1999? Pois eu, como boa parte da humanidade, estava numa sala de cinema a 45 km da minha cidade para ver o aguardado e tão sonhado "Star Wars Episódio 1 - A Ameaça Fantasma". E, como boa parte da humanidade, saí do cinema frustrado, tentando achar fatores que redimissem aquela experiência insatisfatória ("Pelo menos o duplo duelo final com o Darth Maul foi ótimo!"), mas acabando por concluir que aquele não era bem o filme que eu esperava 16 anos depois de "O Retorno de Jedi". Também como boa parte da humanidade...

É sobre isso o interessante documentário O POVO CONTRA GEORGE LUCAS, dirigido pelo norte-americano Alexandre O. Philippe e lançado este ano: o dúbio sentimento de amor e ódio dos fãs de "Star Wars" pelo seu criador, George Lucas. Embora tenha alguns problemas evidentes (é muito longo e arrastado, além de repetitivo e inconclusivo), o filme traz algumas discussões bastante pertinentes sobre o universo criado (e, para muitos, também destruído) por Lucas.

Uma das questões que permeia o documentário é justamente a insatisfação dos antigos fãs da série com os três novos filmes ("A Ameaça Fantasma", de 1999; "O Ataque dos Clones", de 2002, e "A Vingança dos Sith", de 2005).


Eu nunca me considerei um viciado em "Star Wars", pelo menos não como algumas pessoas que eu conheço (que assistiram os fraquíssimos novos filmes da série até nove vezes na semana de lançamento), e muito menos como os malucos entrevistados em O POVO CONTRA GEORGE LUCAS, que dedicam suas vidas, seu tempo e seu dinheiro à série. Muita fã histérica da saga "Crepúsculo" passa vergonha perto do nível de loucura de alguns viciados em "Star Wars" mostrados no documentário.

Enfim, mesmo não sendo um viciado, sempre gostei muito da chamada "trilogia original". Não tive a sorte de ver os filmes no cinema (apenas quando foram relançados, no fim dos anos 90, com novas cenas e efeitos de computador), mas lembro que vi o original de 1977 pela primeira vez na TV Manchete, na década de 80. Na época, o filme se chamava simplesmente "Guerra nas Estrelas" - e não "Star Wars Episódio 4 - Uma Nova Esperança", como hoje. Aliás, sempre achei esquisito aquele "Episódio 4" no que para mim era o primeiro filme da série, mas faz parte da infância.


A verdade é que não tem como não gostar de "Guerra nas Estrelas" quando você é criança. Os efeitos especiais (bons até hoje), os personagens carismáticos, os vilões antológicos, os nomes esquisitos, as lutas de sabre de luz...

Nada do que Lucas mostrou era exatamente novo (afinal, não passa da velha história do cavaleiro indo salvar a princesa em perigo), mas a coisa era tão bem feita que você se apaixonava por aquilo. E depois veio "O Império Contra-Ataca" para confirmar que estávamos diante de algo muito interessante ("O Retorno de Jedi" já é mais fraquinho e infantil, mas está valendo).

Nestes 16 anos de silêncio entre o final da trilogia clássica e o início da nova trilogia (com o "Episódio 1"), muitos transformaram "Star Wars" em uma religião. Enquanto Lucas curtia umas férias como produtor em outros filmes de outros diretores, os próprios fãs trataram de expandir a mitologia da série, em quase duas décadas de "fan films", sátiras dos originais, "fan fiction" e livros especulando sobre o início e o final da saga.


Isso sem contar os produtos "oficiais" licenciados pelo próprio George Lucas, como brinquedos, jogos de videogame, roupas, revistas em quadrinhos e todo tipo de bugiganga com a marca (até cuecas e pijamas!).

Os problemas começam nos anos 90, conforme enfocado em O POVO CONTRA GEORGE LUCAS. Primeiro, George Lucas endoidou e resolveu mexer nos filmes que milhões de fanáticos aprenderam a amar apaixonadamente desde seu lançamento. A "maquiagem digital" na trilogia clássica não foi apenas para modernizar os efeitos, mas também para adicionar/modificar/excluir cenas, o que revoltou muitos fãs.

Pior: Lucas esnobemente declarou que aqueles velhos filmes idolatrados por pelo menos duas gerações estavam incompletos, e que a "sua visão original" estava nestas versões "melhoradas" digitalmente - em outras palavras, "Esqueçam os antigos, o que vale são estes novos!".


A primeira parte do documentário lança esta interessante discussão: afinal, qual é o limite da "posse" de um criador pela sua criatura? Ao realizar essas mudanças de certa forma discutíveis na sua própria obra, George Lucas estaria exercendo seu direito de realizador que quer melhorar seu trabalho ou "traindo" os fãs que gostavam dos filmes como eles eram antes?

A refletir: Ridley Scott já mexeu umas 500 vezes em "Blade Runner" (inclusive mudando todo o sentido original do filme na director's cut), mas os fãs da obra nunca reclamaram tanto quanto os fãs de "Star Wars". Por outro lado, um fanático por "Star Wars" entrevistado no documentário alega que se DaVinci viajasse no tempo para os dias atuais e quisesse mudar o sorriso da Monalisa, o mundo inteiro iria criticar a atitude do artista.

Uma das alterações mais polêmicas feitas pelo diretor, e que ganha bastante espaço no documentário de Philippe, é a clássica boiolagem do "Greedo atirou primeiro". Lucas achou que o fato de Han Solo atirar a sangue-frio em um caçador de recompensas em "Guerra nas Estrelas" desmerecia a "nobreza" do personagem.


Inventou, então, um primeiro tiro digital efetuado por Greedo, ao qual Han Solo reage, numa cena completamente estúpida - primeiro porque estraga a idéia de Han Solo ser um anti-herói das antigas, e segundo porque ninguém erraria um tiro a meio metro da vítima, como acontece nesta cena modificada!

(E como um fã comenta em O POVO CONTRA GEORGE LUCAS, o pai de "Star Wars" preocupou-se tanto em mudar o tiroteio entre Han Solo e Greedo, para supostamente transformar o personagem de Harrison Ford num sujeito mais legal, que se esqueceu de cortar a cena em que descobrimos que Han Solo é um traficante espacial de drogas e armas!)

(A propósito, até George Lucas deve ter se arrependido dessa história toda, pois, nos bastidores das filmagens de "Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal", foi fotografado com uma camiseta que diz "Han atirou primeiro"!!!)


Enfim, esta questão do "limite de posse" de uma obra é uma pergunta interessante que acaba ficando meio sem resposta no documentário, mas todos os fãs entrevistados por Philippe são unânimes em afirmar que George Lucas NÃO deveria ter mexido na trilogia clássica para fazer o que fez, muito menos recusar-se a relançar as obras no seu formato original.

Eu mesmo nunca comprei esses DVDs com a "nova versão" do diretor, e nem os discos da nova trilogia, que considero muito fraca. O único box de "Star Wars" que tenho é aquela lata que traz a trilogia clássica supostamente sem novos efeitos e novas cenas, embora alguns fãs argumentem que mesmo nesta versão há algumas diferenças em comparação aos filmes originalmente lançados no cinema e em VHS décadas atrás (felizmente, também tenho as velhas fitas de "Guerra nas Estrelas" e "O Império Contra-Ataca" na coleção!).

Na segunda parte de O POVO CONTRA GEORGE LUCAS, a discussão entra numa seara ainda mais polêmica: o inconformismo dos fãs antigos com a nova trilogia dirigida por Lucas. A maioria é unânime em reafirmar seu ódio pelos filmes e suas invencionices, como o irritante Jar Jar Binks e os "Midi-chlorians" que os Jedi têm no sangue (argh!).


Praticamente todas as pessoas entrevistadas discutem sua frustração com a forma como George Lucas conduziu uma trama que daria origem aos personagens imortais da trilogia clássica. "Nós ficamos 16 anos pedindo um novo 'Star Wars', mas esquecemos de pedir que fosse um bom 'Star Wars'", resume um fã.

Uma das justificativas mais comuns para a baixa qualidade da nova trilogia é o fato de George Lucas desta vez ter abraçado tudo sozinho, enquanto na trilogia antiga estava cercado por uma equipe de pessoas criativas que ajudaram-no a criar os filmes (Lucas dirigiu apenas o "Guerra nas Estrelas" de 1977, mas os dois seguintes foram conduzidos por outros cineastas, e com uma mãozinha de Lawrence Kasdan nos roteiros).


Esta é a talvez a parte mais interessante do documentário, quando são analisadas as "fan editions" produzidas por fãs de "Star Wars" para tentar dar um "formato mais agradável" aos dispensáveis novos filmes.

Entre elas, a já famosa "Phanton Edition" (que resumiu o "Episódio 1" para 70 minutos e eliminou bobagens como o personagem de Jar Jar Binks), e uma versão condensada que um fã fez resumindo os três filmes da nova trilogia em um único longa de 90 minutos, mas em preto-e-branco! Vários entrevistados argumentam que estas versões são muito melhores que as originais!

O POVO CONTRA GEORGE LUCAS também analisa a absurda quantidade de "fan films" produzidos a partir do universo de "Star Wars" (que demonstram claramente como os fãs acabaram tomando o controle sobre a obra). São mostradas várias cenas destes trabalhos, para dar uma idéia da riqueza criativa dos seus realizadores.


Alguns "fan films" são famosos e estão disponíveis no YouTube, como "Troops", que, copiando o formato do seriado de TV "Cops", apresenta o dia-a-dia dos Storm Troopers de Darth Vader. Outro muito interessante é "George Lucas in Love", sátira de "Shakespeare Apaixonado", mostrando um jovem Lucas tendo a idéia de fazer "Star Wars" a partir de seus colegas de faculdade. Os diretores destes dois curtas, Kevin Rubio e Joe Nussbaum, inclusive são entrevistados no documentário.

Há uma infinidade de material na rede. Procure por "Star Wars fan film" no YouTube que aparecerão mais de 5.000 vídeos, alguns apenas brincadeiras feitas por garotos que aprenderam a mexer no programa que cria os "sabres de luz", mas outros muito interessantes, como "Forcery" (outro que tem cenas exibidas no documentário). Este curta é uma sátira de "Louca Obsessão", e mostra George Lucas sofrendo um acidente de carro logo após escrever o roteiro do "Episódio 3", e sendo resgatado e aprisionado por uma fã psicótica de "Star Wars", que obriga o diretor a reescrever o roteiro!

Outros vídeos mostrados no documentário trazem brincadeiras com os personagens de "Star Wars" em forma de desenho animado, Lego, bonequinhos, garrafas e até ovos (!!!) em stop-motion.


Infelizmente, O POVO CONTRA GEORGE LUCAS termina sem chegar a nenhuma conclusão - ou veredicto, já que se propunha julgamento. George Lucas é culpado de ter estragado a trilogia original ou estava no direito de mexer nos filmes que ELE escreveu e dirigiu? É culpado de ter frustrado os fãs com uma nova trilogia cheia de bobagens, ou os fãs é que levaram aqueles três filmes antigos a sério demais, e não conseguem se divertir com os novos?

São questões que permanecem no ar para serem discutidas pelos nerds em fóruns de "Star Wars" na internet, pois talvez cada espectador, fã da série ou não, deva chegar ao seu próprio veredicto. Eu, que me incluo naquela categoria de fãs que prefere pensar que a nova trilogia nunca existiu ou aconteceu, até prometo dar uma chance aos Episódios 1 a 3 daqui uma década, para ver se a minha impressão sobre eles melhora.

E mesmo cheio de defeitos, O POVO CONTRA GEORGE LUCAS vale exatamente como documento e registro dessa louca febre, paixão ou obsessão, como preferirem, pelo universo criado por George Lucas em 1977. Quem diria que aquele "Há muito tempo atrás, em uma galáxia muito, muito distante..." iria dar origem a um culto tão grande?


Termino citando um quadro clássico do programa humorístico "Saturday Night Live", em que William Shatner, o próprio, participa de uma convenção de fanáticos por "Star Trek" e xinga aqueles sujeitos: "People, please, get a life!".

É impossível não lembrar disso ao ver, no documentário, diversos adultos e pais de família acampados em frente aos cinemas na época do lançamento do "Episódio 1", ou vestindo-se como seus personagens preferidos. É apresentado até o caso de uma mulher cujo casamento acabou por causa da sua obsessão por colecionar bonequinhos de "Star Wars"!

Bem que próprio George Lucas podia aparecer no final de O POVO CONTRA GEORGE LUCAS e dizer exatamente isso, direto para a câmera: "People, please, get a life!".


Trailer de O POVO CONTRA GEORGE LUCAS



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O Povo Contra George Lucas
(The People Vs. George Lucas, 2010, EUA)

Direção: Alexandre O. Philippe
Entrevistas com: Kevin Rubio, Joe Nussbaum,
Brandon Kleyla, Matt Cohen, Frankie Frain e
George Lucas (cenas de arquivo).

sábado, 10 de abril de 2010

Plágio nas Estrelas


Acabei de voltar de uma sessão do curioso documentário "O Povo Contra George Lucas", que está sendo exibido dentro da programação do 15º Festival Internacional de Documentários "É Tudo Verdade", aqui em São Paulo. Estava animado para escrever algumas impressões sobre o trabalho do norte-americano Alexandre O. Phillipe, mas achei que uma imagem (ou várias, neste caso) vale mais que mil palavras, principalmente depois que encontrei esta impressionante comparação de fotos feita por um usuário do site Cinemageddon.

Eis que o paciente rapaz colocou lado a lado cenas do épico e famoso final de "Guerra nas Estrelas" (ou "Star Wars Episódio 4 - Uma Nova Esperança", como preferirem) e de um obscuro filme de guerra inglês/norte-americano de 1964, chamado "633 Squadron", sobre corajosos pilotos que precisam voar baixo para explodir um super-forte nazista durante a Segunda Guerra Mundial, antes que os chucrutes consigam disparar mísseis que destruirão a Inglaterra e impedirão o "Dia D".

Bem, uma olhadinha por cima nas imagens abaixo já revela de cara que George Lucas não apenas "se inspirou" no final de "633 Squadron" ao filmar o ataque da Aliança Rebelde à Estrela da Morte, mas sim COPIOU o filme de 1964 praticamente quadro a quadro em seu "Guerra nas Estrelas"!

Não sei se alguém aqui já conhecia essa "inspiração" de George Lucas, mas para mim foi uma grande novidade e resolvi compartilhar com todos. Para ver as imagens maiores, basta clicar em cada bloco que uma ampliação abrirá automaticamente. A propósito, "633 Squadron" também é um filme bem interessante, vale a pena (re)descobrir.

"That's all, folks!".

(E quem puder, vá conferir o documentário "O Povo Contra George Lucas", que, apesar de longo demais e repetitivo demais, propõe uma interessante discussão sobre até onde um diretor tem controle e poder sobre a sua obra!)

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Resenhas curtinhas para analfabetos funcionais

CHICO XAVIER (2010, Brasil. Dir: Daniel Filho)
Depois que "Bezerra de Menezes" revelou uma nova galinha dos ovos de ouro do cinema nacional (os filmes "para espíritas"), chega aos cinemas a biografia do maior médium do país, com o objetivo de tornar-se aquele estrondoso sucesso de bilheteria que um certo "Filho do Brasil" quis ser e não foi. É preciso despir-se dos preconceitos para ver a obra de Daniel Filho, que é bem melhor do que parece. Escapa do novelão na maior parte, não cai na armadilha de tentar fazer o espectador chorar a cada cinco minutos, e, principalmente, não se propõe a evangelizar ninguém. Se você não conhece ou não gosta de Chico Xavier ao entrar no cinema, provavelmente vai sair do mesmo jeito. Eu mesmo sabia bem pouco da vida desse clone do Roy Orbison, e o que vi na tela apenas me comprovou que Chico foi um sujeito simpático com um dom difícil de explicar (até porque um cara que escreve mais de 400 livros, sejam realmente psicografados ou não, é uma figura no mínimo diferente). Nem por isso o filme tenta vendê-lo como grande santo ou mártir, e o roteiro inclusive tenta humanizar a sua figura, ao mostrá-lo fazendo xixi, preocupado com a própria vaidade, às vésperas de um exame de próstata (!!!) e até gritando desesperado durante um vôo de avião que sofre violenta turbulência (episódio verídico). O diretor foge do lugar-comum dessas biografias de figuras religiosas e desenvolve a trama a partir de uma histórica entrevista de Chico para a TV Tupi (as cenas reais dessa entrevista são apresentadas durante os créditos finais); a partir de então, desenrola-se o drama de uma família que perdeu o filho e os tradicionais flashbacks contando a história do médium (com bela reconstituição de época). A passagem do tempo é mostrada por meio de duas criativas elipses, grandes saltos temporais entre Chico criança e Chico adulto, e depois do adulto à velhice. E ainda que o filme não escape de alguns clichês (madrasta malvada, padre que tenta desacreditar o médium) e problemas narrativos (como a representação do "espírito-guia" de Chico como um... ator vestindo túnica branca, lógico!), o resultado final é bem divertido e até visualmente interessante - Nelson Xavier encarna o médium com perfeição. Sem contar que vê-lo no cinema lotado é uma experiência única: multidões de crentes riem e choram com a mesma intensidade, e parte da sala até acompanha o personagem em voz alta na cena em que ele reza um Pai-Nosso!


ATRAÍDOS PELO CRIME (Brooklyn's Finest, 2009, EUA. Dir: Antoine Fuqua)
Pense num titulo nacional ridículo: a trama acompanha três personagens policiais (um veterano prestes a se aposentar, um outro que passa dificuldades financeiras e está a um passo de tornar-se corrupto, e um terceiro que não agüenta mais viver infiltrado junto a uma quadrilha de traficantes), mas em nenhum momento qualquer um dos três se sente "atraído pelo crime", muito pelo contrário. Esse novo filme de Fuqua se parece tanto com um trabalho anterior do diretor que até poderia se chamar "Dia de Treinamento 2"; o filme também não escapa de muito clichê do policial hollywoodiano contemporâneo, como os dilemas do policial infiltrado, já encenados à exaustão nas duas últimas décadas (de "Donnie Brasco" a "Os Infiltrados"). Mas há muita coisa boa aqui, como os elencos principal, que está soberbo, e secundário, cheio de nomes conhecidos e esforçados (Wesley Snipes finalmente aparece num filme decente!). Em dois momentos, na metade e no final, Fuqua usa montagens paralelas mostrando situações tensas vividas pelos três personagens ao mesmo tempo, e só estes dois momentos já valeriam como aula de manipulação do suspense no cinema. O diretor ainda demonstra muita coragem ao terminar o filme de uma maneira totalmente anti-convencional: quase todo mundo se dá mal, o que me lembrou o clássico "Viver e Morrer em Los Angeles", de William Friedkin. A coisa é tão pesada que muito espectador saiu esbravejando da sessão de cinema em que eu estava, mas eis o charme desse bom filme policial: a conclusão inesperada. Claro que ninguém vai perder nada se esperar que o filme chegue às locadoras ou passe na TV. Menção honrosa para Richard Gere, em sua primeira interpretação marcante nos últimos anos, envelhecido e "sem glamour" fazendo personagem bastante antipático.


OS FAMOSOS E OS DUENDES DA MORTE (2009, Brasil/França. Dir: Esmir Filho)
O título e o cartaz de cinema não dizem coisa nenhuma - mas até aí tudo bem, é coisa típica do "cinema cult" brasileiro. O que realmente me chamou a atenção para esta pequena produção foi o fato de ser uma história sobre adolescentes na região de colonização alemã do interior do Rio Grande do Sul. Eu mesmo passei 28 anos da minha vida ali bem pertinho de Forqueta (a cidade em que se passa a história), embora a minha região seja diferente, de colonização italiana. Infelizmente, o filme que eu esperava com certa curiosidade revelou-se uma grande decepção. Uma interminável punheteação cinematográfica, com loooooooongas cenas em que nada acontece, loooooongos takes de silêncio e um festival de experimentalismos sem objetivo, coisa típica de estudante de cinema recém-saído da faculdade que quer mostrar pra todo mundo o que aprendeu (eis o problema de "alfabetizar" esses jovens com Cinema Novo e Cinema Marginal...). A maioria das cenas do filme poderiam durar pelo menos 30 segundos a menos, mas o diretor (famoso no mundo dos curtas, talvez deslumbrado por ser este seu primeiro longa) aparentemente não sabe como desligar a câmera. Tudo bem, a fotografia é linda e algumas cenas visualmente deslumbrantes... Mas peraí: e a história, cadê? Até tem argumento para uns 15 minutos de filme, mas nada que justifique a duração de mais de 1h30min - até porque o filme termina do mesmo jeito que começou, sem que haja qualquer conflito ou relacionamento entre os personagens principais! Nada acontece, na verdade: o personagem principal passa o filme todo citando um show de Bob Dylan na Capital, parece que ali será o clímax da coisa, mas o evento de repente é esquecido; uma festa junina na cidadezinha também é bastante comentada pelos jovens, achei que ali seria o palco onde os "dramas" iriam se resolver, mas a tal festa não tem utilidade alguma no filme além de servir como curiosidade para os espectadores das grandes capitais (uma "festa junina alemã" de cidade pequena). E por aí vai... Será mais um caso de falta de sensibilidade minha, já que o mundo inteiro está elogiando o filme (como também aconteceu com o intragável "Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo")? Boa pergunta; talvez esses filmes metidos a cult não sejam mesmo a minha praia. Também não concordei com a abordagem do diretor sobre seus jovens e adultos interioranos. Tudo bem, a vida numa cidade pequena e rural pode ser ingênua, lenta e com poucas alternativas de futuro (para quem não sai em busca de trabalho numa grande cidade); mas, no filme de Esmir, TODOS os personagens, dos adultos aos jovens, parecem maníacos-depressivos que lamentam a sua vida sem perspectivas no "cu do mundo" e vêem como única saída para a letargia de suas existências o suicídio em uma ponte na saída da cidade (quando na vida real a qualidade de vida nas cidades do interior é muito melhor, entre uma série de outros fatores). Eu passei minha infância e adolescência num "cu de mundo" semelhante a Forqueta, mas estávamos a um ônibus de distância de Porto Alegre ou do litoral gaúcho; logo, os personagens do filme só são alienados, sem perspectivas de futuro e suicidas em potencial porque querem, ou porque é "cult" sofrer no cinema brasileiro - até a neblina característica do inverno gaúcho é usada para acentuar a melancolia do filme, comprovando que o diretor leu Steinbeck demais na adolescência. Mas, como eu já disse, todo mundo está maravilhado com a obra, então talvez o errado seja eu. De qualquer forma, ainda lamento o fato de que o cinema brasileiro não consegue (ou não quer) representar personagens adolescentes e suas angústias, e esse filme metido a artístico não é exceção.


A ILHA DO MEDO (Shutter Island, 2010, EUA. Dir: Martin Scorsese)
Francis Ford Coppola teve sua iniciação no mundo do cinema com um pequeno filme de suspense classe B, "Dementia 13" (1963), cujo maior mérito não era a trama, mas sim a capacidade do diretor de manipular a atenção do espectador. Pois "A Ilha do Medo" parece justamente isso: um "Dementia 13" dirigido por outro cineasta veterano, Martin Scorsese, e com muito mais grana, obviamente. O filme se passa nos anos 50 e já começa evocando aquele climão B das produções policiais da época, com dois detetives de casacão, chapéu e cigarrinho sempre no canto da boca. Como em "Dementia 13", a trama é de certa forma banal, e o espectador antenado já consegue matar o mistério ainda na meia hora inicial (até porque tal revelação já se tornou uma espécie de clichê do cinema contemporâneo). Menos pelo roteiro, mais pela forma como narra a sua historinha clichezenta, Scorsese consegue enredar o público num clima de tensão e paranóia, mas nunca de medo - o título dá a idéia de ser um filme assustador de horror, mas não é por aí. O suspense é crescente e muito bem sublinhado pela trilha sonora; o clima de loucura vai se estabelecendo a partir de personagens secundários interpretados por ótimos atores (Max von Sydow, Jackie Earle Haley, Elias Koteas), e quando o "final-surpresa" finalmente se confirma, certamente valeu o passeio até ali - embora o filme pudesse ser mais curto, e a "explicação tintim por tintim" da conclusão mais aberta, permitindo duas possibilidades. Por causa disso tudo, o filme tem divivido opiniões, mas eu achei um trabalho bem digno de Scorsese - difícil não imaginar que seria apenas um filmeco comum nas mãos de qualquer outro diretor menos gabaritado. E a nossa "imprensa especializada" não cansou de comparar "A Ilha do Medo" com "O Iluminado" (por que, mesmo?), mas não vi ninguém falar sobre a citação explícita a outro clássico, "Inverno de Sangue em Veneza", repetindo até no ângulo da câmera a imagem de um pai com sua filha morta dentro do lago.


O QUARTO DE FERMAT (La Habitación de Fermat, 2007, Espanha. Dir: Luis Piedrahita e Rodrigo Sopeña)
Sabe aqueles filmes simples e extremamente interessantes que fazem você esquecer da tonelada de blockbusters estúpidos lançados todo ano? Eis aqui mais um: "O Quarto de Fermat" é uma pequena produção espanhola de 2007 que eu só fui descobrir agora, e que milagrosamente ainda não ganhou remake nos Estados Unidos. A fórmula do filme lembra o fantástico "Cubo", de Vincenzo Natali: quatro matemáticos que não se conhecem são aprisionados numa sala cujas paredes vão se fechando progressivamente; a única forma de pará-las (e evitar um esmagamento coletivo) é resolver complicados enigmas matemáticos enviados via celular por um tal Fermat, com tempo determinado para sua resolução - "estourando" o tempo, as paredes avançam contra os prisioneiros. Num clima crescente de tensão, enquanto sofrem para fazer os cálculos e resolver os desafios propostos, os quatro tentam descobrir porque estão ali e quem será o misterioso Fermat, o homem que os colocou na armadilha. A história já começa com uma explicação sobre números primos, e seu mistério gira em torno de um problema matemático real, a Conjectura de Goldbach, proposta em 1742 e até hoje sem solução. Tudo bem que a revelação final não fica à altura do nível do filme até então (parece coisa de cinemão americano, sempre com uma soluçãozinha fácil para tudo), e que a resolução dos problemas às vezes é muito corrida e pouco explicativa para quem não tem afinidade com matemática. Ainda assim, "O Quarto de Fermat" é uma daquelas histórias tão bem contadas, e criativas mesmo quando trabalham com óbvios clichês, que estes pequenos defeitos são facilmente perdoados. Afinal, o maior mérito do filme é ser uma história sobre matemática e matemáticos que não é chata (pelo contrário, é até bem divertida!), nem mesmo para aqueles que nunca morreram de amores por números e cálculos, como eu.


REC 2 - POSSUÍDOS (REC 2, 2009, Espanha. Dir: Jaume Balagueró e Paco Plaza)
Diz uma velha piada de português que, em Lisboa, "Psicose" ganhou o título "O Filho que Era a Mãe". Bem, a julgar pelo subtítulo nacional adotado pela distribuidora de "REC 2", nunca mais poderemos rir dos nossos amigos lusitanos: os desavisados tradutores simplesmente entregaram, no subtítulo, a grande surpresa dessa seqüência - a de que os infectados mostrados em "REC 1" não são zumbis, mas sim pessoas possuídas pelo cramulhão, algo que já ficava implícito na conclusão do original. Talvez até por isso, muita gente (mas muita gente MESMO) torceu o nariz para essa seqüência, que vem recebendo algumas críticas bem injustas. Já vi compararem "REC 2" com "Demons", mas acho que a maior influência dos realizadores foi "O Príncipe das Sombras", de John Carpenter, onde a possessão demoníaca também se espalha por fluidos corporais. E é óbvio que este novo filme é bem mais fraco que o primeiro, mas ainda assim mostra-se bem-sucedido em repetir aquela atmosfera de medo "em primeira pessoa" do original, dessa vez através das câmeras colocadas nos capacetes de soldados que entram no prédio do primeiro filme atrás de sobreviventes. Há cenas muito tensas, como aquela do soldado no túnel de ventilação, e um desprezo total pelos personagens (ninguém é simpático e quase todos morrem de maneira imbecil ou repentina). Entre os defeitos, a inclusão de um humor tosco (rojão enfiado na boca de infectado?) e de adolescentes idiotas que não precisariam estar aí. Mas como até o veterano George A. Romero tem cometido esses deslizes em seus filmes recentes, dá até para fechar um olho e perdoar. A conclusão deixa as portas escancaradas para um terceiro filme, e só espero que dessa vez eles filmem fora do prédio, pois este aqui, praticamente no mesmo cenário, já se mostra um tanto repetitivo. Enfim, não é tão ruim quanto falam - ainda mais no ano em que o ultrajante "Halloween 2" de Rob Zombie chegou aos nossos cinemas.


TRAIN (2008, EUA. Dir: Gideon Raff)
Curto e grosso: não há absolutamente nada de novo aqui. Este slasher barato, suposto remake do "Terror Train" de 1980 (mas sem nada em comum além da ambientação), é "Hostel" dentro de um trem. Entendido? Até a história é parecida (com um quê de "Turistas"): um grupo de jovens norte-americanos em um país que desconhece (aqui é a Rússia) acaba se metendo onde não deve ao perder seu trem e pegar um outro bem suspeito. Pois ali dentro atua uma organização envolvida com tráfico de órgãos humanos (dentro de um trem???), e é claro que os jovens estrangeiros logo serão "convidados" a doarem os seus. Bem bobinho e sem grandes surpresas ou novidades, "Train" vale unicamente para quem curte filmes de horror pelo gore. Há todo tipo de barbárie sangüinolenta filmada em close, e felizmente os efeitos especiais e de maquiagem são todos "old school", sem computação gráfica. Os créditos iniciais já se desenrolam sobre uma cirurgia extremamente gráfica em que a pele de um sujeito é arrancada. A partir daí, o filme segue demonstrando crescente sadismo, cujo cúmulo é a cena em que a espinha de um rapaz é arrebentada "a seco" para que ele pare de se debater e possa ser "operado" - ainda vivo e sem anestesia, lógico. Nada de novo para quem já é do ramo, mas um belo filme para você indicar para aquele seu irmão adolescente que está começando a ver filmes de terror agora.


O LOBISOMEM (The Wolfman, 2010, EUA. Dir: Joe Johnston)
Outro filme que foi e continua sendo bastante criticado. Entrei na sala de cinema meio a contragosto, já esperando pela bomba da década, mas confesso que gostei do que vi - uma releitura moderna de um clássico da Universal bem mais digna do que, por exemplo, o "A Múmia" do Stephen Sommers. Há vários problemas típicos de uma produção conturbada como foi a de "O Lobisomem" (que teve troca de diretores e montagem às pressas), principalmente o roteiro meio indeciso entre qual rumo tomar. Por exemplo, o drama familiar envolvendo o personagem principal (Benicio Del Toro) e seu pai (Anthony Hopkins) é de certa forma ridículo, dramaticamente inexistente, ainda mais no "duelo final" da conclusão (que mais parece um videogame). E o filme às vezes é bem desinteressante, como se estivesse contando a mesma história pela milésima vez sem grandes inovações (e realmente está!). Ainda assim, o resultado final é envolvente e digno de nota, apesar das críticas demolidoras que o filme recebeu. Os efeitos em computação gráfica incomodam um pouco (e a transformação de "Um Lobisomem Americano em Londres" segue sendo a melhor cena do gênero), mas na maior parte do tempo Del Toro aparece realmente maquiado como homem-lobo, não é um bonequinho de CGI tipo a Múmia. O filme também surpreende pela quantidade de violência e mutilações, especialmente no ataque do lobisomem a um acampamento de ciganos - até porque, pelo trailer, eu jurava que seria uma adaptação "comportada", mais calcada no romance do que no sangue, e felizmente não é. Agora está para sair em DVD uma versão do diretor, mais longa que a do cinema. Quem sabe o charme do filme não fica mais evidente para o seu grande séquito de detratores?

quinta-feira, 1 de abril de 2010

O IMPÉRIO DO SEXO EXPLÍCITO (1985)


Você já sabe que O IMPÉRIO DO SEXO EXPLÍCITO vai ser um filme mágico só pela primeira cena, que mostra um prisioneiro sendo colocado na cela apertada de um presídio e encontrando Satã (aquele gigante dos filmes do Zé do Caixão) peladão! Satã então diz ao recém-chegado: "Meu nome é Tadeu, mas eu prefiro ser chamado de Deus! E pra começar, você vai lavar a minha cueca!". Segue-se uma pancadaria, com o recém-chegado esmagando a cabeça de um outro preso (que veste apenas uma cueca vermelha!) contra a parede, e os créditos iniciais onde o nome do filme é absurdamente grafado como "O Império do SÉXO Explícito"!!!

(Detalhe: Tal cena não tem ABSOLUTAMENTE NADA A VER com o restante do filme, e é simplesmente esquecida depois dos créditos iniciais!)


Não bastasse estes "pré-requisitos", o filme é mais uma daquelas indigestas misturas de pornô hardcore com elementos dos gêneros ação e policial, como era comum produzir na Boca do Lixo dos anos 80.

Tem um milhão de erros de continuidade, cenas de sexo explícito enxertadas de qualquer jeito na montagem, tiroteios e até uma rápida perseguição de automóveis.

Tem também um grande motivo para agüentar cenas como a de Satã peladão: a musa das musas ZILDA MAYO, em várias cenas peladona, mas sempre linda e maravilhosa (e isso já é motivo mais que suficiente para grafar seu nome em maiúsculas).


O IMPÉRIO DO SEXO EXPLÍCITO é assinado por Marcelo Motta, ex-aluno de Mojica, que o dirigiu em "A Estranha Hospedaria dos Prazeres" (1976) e depois partiu para a pornochanchada ("O Chapeuzinho Vermelho", de 1980, também com Oásis Minitti), e finalmente para o sexo explícito, logo sumindo sem deixar rastros.

Como muitos outros pornôs brasileiros da época, este também tem a maior cara de ser um filme policial "sério" que teve cenas explícitas adicionadas posteriormente na montagem, apenas para aproveitar a nova moda do hardcore na Boca do Lixo. Afinal, o filme é de 1985, o grande ano da fodelança no cinema brasileiro. Como escreveu Edward Janks na revista virtual Zingu, mais de 70 filmes de sacanagem foram produzidos/lançados em 85, entre eles "clássicos" como "O Viciado em C...", "O Analista das Taras Deliciosas" e "Edifício Treme-Treme".


Entre uma trepada enxertada e outra, O IMPÉRIO DO SEXO EXPLÍCITO conta a história de Marcelo (o falecido Oásis), um ex-presidiário em busca de vingança - mas não pergunte vingança de quem ou por quê, pois estas explicações devem ter ficado nas páginas de roteiro eliminadas quando o filme se transformou em pornô.

Ele se une ao amigo Luanda (Satã) para passar a perna em duas violentas quadrilhas de traficantes de drogas, que estão para fazer uma negociação milionária. Quando chega a hora da troca, Marcelo embolsa o dinheiro, rouba a muamba, mata o entregador e inicia uma sangrenta guerra entre quadrilhas.


Mas o cerco se fecha também contra ele e suas duas amadas, Cris (não sei quem é a atriz) e Linda (ZILDA MAYO, óbvio!), uma amante do passado que o anti-herói reencontra.

Apesar do seu tom sério, o filme é uma comédia involuntária do início ao fim: os gângsters fazem o tipo mafioso (no Brasil!), andando de lá para cá em terninhos brancos e com óculos escuros, mas aparecem telefonando de orelhão (!!!) e promovendo orgias caligulescas, quando entram as tais cenas enxertadas de sexo hardcore.

Claro que nenhum dos personagens principais participa destes oba-obas: um take de Oásis Minitti abrindo uma porta é seguido por outro (filmado em outro tempo e outro lugar) de uma suruba rolando no interior do quarto, e por aí vai.


O único dos atores principais que realmente aparece num rala-e-rola explícito é o próprio Oásis, que protagoniza uma cena de penetração, sexo oral e gozo com uma loira anônima na cama. Misteriosamente, assim que a cena acaba a tal loira é substituída pela outra atriz que interpreta a sua namorada, sem que uma tenha nada a ver fisicamente com a outra! Nem Ed Wood aprontava dessas...

Já ZILDA MAYO não participa de nenhuma cena explícita (ela nunca fez pornô hardcore, ao contrário do que muitos sites desavisados divulgam por aí), mas está maravilhosamente sexy nas várias cenas em que aparece tomando banho nua de piscina, ou protagonizando sexo simulado com Oásis e com outro ator anônimo na praia.


Esta cena da praia inclusive tem um lance divertido: o tal ator tenta "animar" as coisas metendo a mão na perereca da ZILDA, e ela, visivelmente sem jeito, arranca o braço do sujeito dali rapidinho! O cara é até capaz de ter tomado umas porradas depois que o diretor gritou "Corta"...

E tome abobrinha em 80 minutos de filme: os gângsters ora falam diálogos rebuscados, como "A entrega será realizada dentro de 72 horas" (por que não fala "3 dias" de uma vez, caramba?!?), ora desfilam pérolas no estilo "Você se julga muito esperto, não é? Pois amanhã nós saberemos quem você é, de onde é e até a cor da merda que você caga!", ou "Descubram esse Boccato nem que ele esteja escondido debaixo da saia fedorenta da puta da mãe dele!".

O tal Boccato é uma pérola: o bandidão é interpretado por um dos piores atores coadjuvantes do cinema brasileiro, o histórico Marthus Mathias (de "Prisioneiras da Ilha do Diabo", 1980), imortalizado por ter emprestado a sua voz ao Fred Flinstone na dublagem clássica do desenho. Pois Marthus passa o filme inteiro arregalando os olhos, e ainda protagoniza uma constrangedora cena de sexo (implícito, graças a deus!), em que toma porradas de uma garota.


O sexo de O IMPÉRIO DO SEXO EXPLÍCITO também é daquele tipo feio, sujo e malvado característico do cinema pornô da Boca, com suas mulheres feias desfilando celulite e pêlos enormes nos lugares mais estranhos. As cenas hardcore, sempre filmadas em motel, ficam interrompendo a narrativa o tempo inteiro, e mostram homens e mulheres que nem ao menos fazem parte da história, deixando o filme truncado, especialmente no final (uma trepada explícita chega a cortar no meio o clímatico duelo entre herói e vilões!!!).

Mas é simplesmente inesquecível a cena de sexo explícito ao som de uma versão instrumental de "Can't Take My Eyes off You"; não bastasse a música completamente deslocada, o sujeito lá pelas tantas começa a masturbar a mulher com o próprio sapato dela (!!!), enfiando o salto na vagina da coitada! E viva o romantismo no cinema pornô brasileiro...

E como se isso tudo não bastasse, o filme ainda traz uma pequena participação do mito SADY BABY como coadjuvante. A bem da verdade, apesar de seu nome aparecer nos créditos iniciais, Sady fica na tela apenas por alguns segundos, e está quase irreconhecível como um dos capangas do vilão (eu mesmo só o reconheci porque o Gio Mendes, do blog Mondo Cane, deu a letra!).


Por essa tonelada de bobagens e pelas divertidas cenas de ação - quando Oásis Minitti misteriosamente começa a usar uma touca ninja (!!!) para detonar os rivais com tiros de espingarda na fuça (!!!) -, O IMPÉRIO DO SEXO EXPLÍCITO é diversão garantida para os fãs do escalafobético e delirante cinema pornô brasileiro.

E ainda tem o colírio ZILDA MAYO para nos fazer esquecer do Satã pelado, do salto de sapato na vagina ao som de "Can't Take My Eyes off You", do Marthus Mathias semi-nu e da pança de chopp do Oásis Minitti.


Como curiosidade, o elenco traz três envolvidos em "Coisas Eróticas", o primeiro pornô brasileiro: o galã Minitti, Deusa Angelino e Laerte Calicchio, que inclusive dirigiu um dos episódios de "Coisas Eróticas".

Enfim, O IMPÉRIO DO SEXO EXPLÍCITO é altamente recomendável para todos os débeis mentais, tarados-dementes e cultuadores do mais pútrido lixo cinematográfico - ou seja, todos vocês, nobres leitores do FILMES PARA DOIDOS!

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O Império do Sexo Explícito (1985, Brasil)
Direção: Marcelo Motta
Elenco: Oásis Minitti, Zilda Mayo, Satã
Marthus Mathias, Mara Prado, Bianca Blonde,
Grace Beck, Deusa Angelino e Noelle Pinne.