domingo, 28 de março de 2010

REMO - DESARMADO E PERIGOSO (1985)


No estranho mundo do cinema, é comum que filmes que não foram originalmente pensados para ganhar continuações se transformem em séries intermináveis ("Sexta-feira 13", "Jogos Mortais", "A Colheita Maldita", "Rambo", "Rocky", "Duro de Matar", "Tubarão", "Psicose", "Grito de Horror"...), graças ao sucesso de bilheteria do original. Por outro lado, isso raramente acontece com aquelas produções geradas desde o princípio para se tornarem extensas franquias - com exceções óbvias, como as séries do James Bond e do Harry Potter.

Alguns exemplos: o pavoroso "A Reconquista" (2000) devia dar origem a uma série de adaptações dos livros de L. Ron Hubbard, assim como "Duna" (1984), de David Lynch, era para ter virado uma franquia inspirada na obra de Frank Herbert, mas o fracasso comercial das duas milionárias produções acabou cancelando os planos.


O mesmo aconteceu mais recentemente com as adaptações literárias "A Bússola de Ouro" (2007), baseado na obra de Philip Pullman, e "Eragon" (2006), baseado nos livros de Christopher Paolini. Embora ambos terminem com ganchos escancarados para seqüências (já que a história continua nas aventuras seguintes dos livros), estes novos filmes provavelmente jamais serão produzidas - e quem quiser saber como termina vai ter que ler os livros!

E há um outro exemplo famoso que pouca gente lembra de citar: em 1985, o produtor Larry Spiegel adquiriu os direitos de um famoso título de livros "pulp" de aventura - a série "The Destroyer", criada por Warren Murphy e Richard Sapir -, e achou que o material poderia render uma ótima série de filmes de ação.

Por isso, não economizou na publicidade e nem na produção, chamou Guy Hamilton (que dirigiu vários filmes do 007) para a direção e torrou 40 milhões de dólares (uma fortuna para a época) construindo cenários grandiosos, como uma réplica da Estátua da Liberdade. Nascia "Remo Williams - The Adventure Begins", no Brasil rebatizado REMO - DESARMADO E PERIGOSO.


O que ninguém poderia prever é que o filme iria bombar violentamente nas bilheterias. Nos EUA, por exemplo, arrecadou míseros 17 milhões de dólares (menos da metade do que custou!), abortando os planos de Spiegel de fazer uma longa série de filmes (e assim o subtítulo original, "A Aventura Começa", tornou-se até irônico, já que a aventura começou e nunca continuou!).

"The Destroyer", a série de livros, conta a história de um super-agente do governo, Remo Williams, que pertence a uma organização secreta chamada CURE. Nos seus mais de 140 livros publicados lá nos EUA, Remo enfrentou tenebrosas conspirações, planos maléficos e poderosos inimigos humanos e super-humanos.

No cinema, entretanto, a única aventura de Remo Williams é fraquinha, fraquinha, sem vilões memoráveis, cenas de ação interessantes ou fôlego para manter-se por outras cento e tantas histórias, como aconteceu na literatura.


O roteiro de Christopher Wood começa contando a origem do nosso herói, que ocupa praticamente os primeiros 50 minutos do filme! Mostra-se didaticamente como um policial durão de Nova York, Samuel Edward Makin (interpretado por Fred Ward, fisicamente parecido com Robert DeNiro), foi selecionado pela CURE para tornar-se agente secreto, devido à sua experiência no Vietnã.

A organização simula a morte do policial e realiza uma série de operações plásticas para mudar seu rosto (a bem da verdade, só o que fazem é cortar seu bigode e aparar o cabelo!), e nasce o "novo" Remo Williams. O próximo passo é treiná-lo numa arte marcial milenar (e fictícia) chamada Sinanju, cujos benefícios incluem matar com um simples toque dos dedos e desviar-se magicamente de tiros disparados à queima-roupa (simplesmente escutando o som do dedo pressionando o gatilho, ou algo do gênero).


Remo precisa encarar um duro e rigoroso treinamento à la Pai Mei com o mestre Chiun (o ator norte-americano Joel Grey, com uma fantástica maquiagem de velhinho oriental), até finalmente estar apto para a ação.

E é aí que reside o principal problema de REMO - DESARMADO E PERIGOSO: a primeira parte do filme, com o treinamento e o bem-humorado relacionamento de amor e ódio entre Remo e Chiun, é ótima; porém, quando o herói finalmente parte para a sua primeira missão (relacionada, veja só que emocionante, ao desvio de verbas governamentais e à venda de armas defeituosas para o Exército americano), o filme naufraga graças a uma trama bisonha que não tem nem ao menos vilões interessantes (eles são políticos e empresários corruptos, ora bolas!).

Até tentaram criar um capanga excêntrico com um diamante no dente, provavelmente para tentar imitar aquele climão bizarro dos vilões da série James Bond, mas sem melhores resultados, e nem mesmo a presença do sinistro Michael Pataki, vilão de inúmeros filmes B, ajuda.


Assim, é o extremo oposto, por exemplo, da aventura de estréia do agente 007, "O Satânico Dr. No", que já conseguia deixar o público ávido por novos filmes com o personagem. No caso de REMO - DESARMADO E PERIGOSO, se a idéia também era criar uma grande série, o primeiro filme mostrou-se um péssimo aperitivo para o que viria pela frente, motivo pelo qual a franquia foi abortada antes mesmo de começar!

Os problemas também passam pelo elenco, já que Fred Ward tem uma carranca que combina melhor com papéis de vilão do que de herói. Ele certamente não foi a melhor escolha para viver um super-agente como Remo Williams, nem convence nas (fraquinhas) cenas de ação ou luta. E como a grande especialidade do herói é desviar-se de balas (à la Neo em "Matrix", mas sem efeito bullet time), o truque logo acaba sendo repetido em demasia. Afinal, qual é a graça de você ter um herói treinado para paralisar e matar com um simples toque dos dedos, e até caminhar sobre a água (Jesus Cristo style!), se ele raramente usa estas habilidades contra os vilões?

Não vou ser injusto, até há alguns bons momentos aqui e ali, como a luta de Remo contra uns capangas em plena Estátua da Liberade - que, na época, estava rodeada de andaimes, durante um processo de restauração do monumento.


Ver o herói saltando de um lado para o outro no topo da gigantesca estátua até dá alguma esperança (até porque usam dublês em cenas perigosíssimas, não CGI, como hoje), mas o filme segue ladeira abaixo e o restante é pura rotina, incluindo deslocados momentos nonsense como o cão de guarda "inteligente" que persegue o herói equilibrando-se até sobre um fio de eletricidade!

Para mim, a única coisa boa de REMO - DESARMADO E PERIGOSO é o treinamento do nosso herói, com a "amigável" e engraçadíssima troca de insultos entre Remo e Chiun, um sábio oriental apaixonado pelas novelas americanas (!!!), e as bizarras estratégias utilizadas pelo mestre para treinar seu discípulo (uma das tarefas do aprendiz é encarar uma voltinha de roda-gigante PELO LADO DE FORA do brinquedo!).


E se a produção tem algum mérito, este certamente é a maquiagem de Carl Fullerton, que conseguiu transformar o ator ocidental que fez "Cabaret" em velhinho oriental. A perfeição do trabalho rendeu ao filme indicações para o Oscar de Melhor Maquiagem (a estatueta ficou com "Marcas do Destino") e para o Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante, que Joel Grey perdeu para Klaus Maria Brandauer em "Entre Dois Amores". Mas cá entre nós, vai entender porque colocaram um branquelo no papel de Chiun ao invés de contratar um veterano ator oriental para o papel...

Quando o filme naufragou nas bilheterias, o teimoso produtor Spiegel não desistiu e tentou levar seu herói para outro formato, a TV. Assim, em 1988, foi exibido o piloto do seriado "Remo Williams", que teria o desconhecido Jeffrey Meek como Remo e Roddy McDowall como Chiun. Novamente, o resultado foi um fiasco, e nenhum novo episódio foi filmado, encerrando de vez a carreira "fílmica" do agente da CURE. Você pode ver a abertura do fracasso seriado no vídeo abaixo:

REMO, o seriado de TV


É realmente uma pena que tenha faltado competência para concretizar o projeto de uma série de filmes, já que até há algumas coisas boas em REMO - DESARMADO E PERIGOSO, e a própria proposta da série (agente invencível que é uma "arma humana") poderia ser melhorada em futuras seqüências.

Bem-humorados, os autores da série "The Destroyer", Murphy e Sapir, chegaram a ironizar o péssimo resultado do filme em suas aventuras literárias!

Falou-se, há algum tempo, em um remake de REMO - DESARMADO E PERIGOSO, que retomaria a trajetória cinematográfica de Remo Williams do zero, com maior fidelidade ao teor dos livros; em outra palavras, criando aventuras amalucadas e exageradas à la James Bond, agora que o próprio Bond ganhou um tom mais realista e menos fantasioso.

Entretanto, como não saíram novas notícias sobre o projeto desde então, Remo continua desarmado, perigoso e morto no cinema - e a "aventura" que "começou" lá em 1985 parece bem longe de ter continuidade.

Trailer de REMO - DESARMADO E PERIGOSO


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Remo - Desarmado e Perigoso (Remo
Williams: The Adventure Begins, 1985, EUA)

Direção: Guy Hamilton
Elenco: Fred Ward, Joel Grey, Wilford
Brimley, J.A. Preston, George Coe,
Kate Mulgrew e Michael Pataki.

quarta-feira, 24 de março de 2010

O Livro de Eli... e do ódio


E lá se vão 10 anos desde que eu escrevi sobre o irregular "Constantine" (2005), de Francis Lawrence, lamentando o fato de que o filme seria incompreendido: um roteiro inteligentíssimo - sofisticado até - perdido numa embalagem chinfrim de blockbuster descerebrado, e que acabou não agradando nem quem foi ao cinema pela história, nem quem só queria ver os efeitos em CGI e o Keanu Reeves explodindo demônios.

Agora, a história se repete com O LIVRO DE ELI, dirigido pelos irmãos Albert e Allen Hughes, e atualmente em cartaz nos cinemas brasileiros. O trailer dá uma idéia errada de que este é apenas mais um filme pós-apocalíptico com ação ininterrupta, mas não há ação suficiente para quem busca apenas isso; por outro lado, há idéias fantásticas e originais no roteiro de Gary Whitta, mas nem sempre utilizadas como deveriam.

O resultado é um filme híbrido e que também vem sendo incompreendido, como "Constantine" foi cinco anos atrás. Por exemplo, entre as muitas bobagens que li sobre a obra pela internet afora, estão comentários taxando o filme de passar uma mensagem cristã e de ser uma "história evangélica". E chamo isso de bobagens porque a mensagem passada pelo filme é justamente O CONTRÁRIO DISSO.


A trama do filme se passa num mundo devastado e desértico, 30 anos após uma misteriosa guerra que devastou o planeta (e sobre a qual não são dadas maiores informações, nem mesmo com um letreiro inicial, algo muito bem-vindo nestes tempos de "quero tudo bem explicadinho").

Um andarilho solitário chamado Eli, e interpretado por Denzel Washington, vaga rumo ao Oeste carregando na sua mochila o que pode ser o último exemplar existente da Bíblia Sagrada, já que todos os livros foram queimados depois da guerra (mais sobre isso em seguida). Enquanto lê e recita os salmos bíblicos, nosso "herói" vive de amputar membros e matar violentamente os inúmeros criminosos pós-apocalípticos que encontra pelo caminho.

Finalmente, Eli chega a uma cidadezinha - o mais próximo de um núcleo civilizado em quilômetros. O lugar é controlado por Carnegie (Gary Oldman, uma boa surpresa), vilão cuja missão de vida é justamente encontrar um exemplar da Bíblia para poder "dominar" mais facilmente os sobreviventes do apocalipse. Ao descobrir que Eli carrega o livro, Carnegie faz tudo para tomá-lo, dando início a uma caçada humana pelo mundo devastado.

Bem, não sei o que viram de mensagem cristã ou história evangélica num filme sobre um anti-herói errante que viaja pelo que restou do mundo lendo e recitando a Bíblia, cujas passagens já sabe de cor, mas ao mesmo tempo matando brutalmente quem quer que se coloque em seu caminho. Se esse é o ideal de um "herói católico", então podemos fazer uma analogia do Eli de Denzel Washington com vários outros homens que tomaram a "palavra de Deus" (ou de Alá, ou de qualquer outra divindade) como desculpa para a violência durante a história da humanidade - dos Cavaleiros Cruzados aos Inquisidores, dos homens-bomba muçulmanos aos sacrifícios humanos.


Aliás, a idéia pareceu familiar? E é! Até achei engraçado o fato de a nossa "imprensa especializada" estar muito ocupada comparando O LIVRO DE ELI com "Mad Max" e "Eu Sou a Lenda" (hã?!?) para esquecer que a principal fonte de inspiração do filme é a graphic novel "Apenas um Peregrino", de Garth Ennis e Carlos Ezquerra. Os quadrinhos contam a história de um peregrino errante num mundo pós-apocalíptico (devastado pela explosão do Sol), que intercala passagens da Bíblia e orações com a matança desenfreada dos "infiéis" - além de usar "inocentes" na sua Guerra Santa e descartá-los assim que não têm mais utilidade.

Pois há muito do Peregrino no Eli de Denzel Washington. Ambos perseguem cegamente suas próprias "missões religiosas", podendo ser facilmente comparados a fanáticos ou extremistas religiosos. No filme, nunca fica bem claro o objetivo de Eli ao preservar com tanta obstinação o livro sagrado, e é isso que o torna um anti-herói tão dúbio - nos quadrinhos, o Peregrino era um psicopata canibal arrependido e que "encontrou Jesus", mas não entendeu muito bem a sua mensagem. Eli também não, pelo jeito: tanto ele quanto o Peregrino são representados como egoístas que matam e deixam pessoas inocentes para morrer nas mãos dos bandidos. São, portanto, heróis imperfeitos e cheios de problemas morais, verdadeiros anti-heróis que não passam uma bela imagem de "soldados de Cristo", como certos cinéfilos carolas vêm propagando por aí...

O roteiro de O LIVRO DE ELI também é bem claro no juízo que faz do livro sagrado transportado por seu Mad Max negro: como diz o vilão Carnegie, "não é a porra de um livro, é uma ARMA!". E não o é até hoje? Conforme uma célebre frase cujo autor me escapa, "nenhum reino teve tantas guerras quanto o Reino de Deus". Dos primórdios da humanidade até o universo do filme dos irmãos Hughes, a religião (aqui na forma da última Bíblia existente) é a desculpa adotada por heróis e vilões para justificar a matança dos rivais.


Mensagem cristã ou evangélica? Pelo contrário: acho que fica muito claro, até a (surpreendente) revelação final de O LIVRO DE ELI, que o tom do roteiro não é "pró-religião", mas sim anti-religião. Aliás, o filme é radical ao mostrar que heróis e vilões estão se matando por uma Bíblia (no fundo, um livro!), num mundo em que ninguém sabe ler e em que há outras preocupações muito maiores do que "evangelizar" os sobreviventes. Até mesmo os capangas iletrados de Carnegie questionam a importância do livro para provocar tantas mortes.

Quando o roteiro revela que todas as bíblias foram queimadas, junto com outros livros, depois da misteriosa guerra que destruiu o mundo, é só ligar os pontos para chegar à conclusão que o conflito apocalíptico foi uma Jihad, uma Guerra Santa, cujo dramático resultado fez com que os sobreviventes se voltassem contra as religiões, queimando seus livros sagrados para que a "palavra" se perdesse e a história não se repetisse.

Ao preservar o último exemplar de uma Bíblia, Eli pode não ser exatamente um valoroso herói, mas justamente o homem que recolocará a humanidade na sua trajetória de destruição provocada pelo extremismo religioso. Não que o mundo apocalíptico sem religião seja melhor (o filme deixa bem claro que não é, com seus bandidos canibais e saqueadores nas estradas à la "Mad Max"), apenas não parece haver mais lugar para Deus, Alá, Buda ou quem quer que seja naquele universo pleno de outras prioridades.


Por sua vez, Carnegie conhece bem o poder da evangelização, de disseminar o medo entre seus comandados - os desesperançados sobreviventes do apocalipse -, fazendo-os acreditar numa força superior para que fiquem "sob controle". O roteiro também explica que pouquíssimos sobreviventes ainda sabem ler (Eli e Carnegie são duas das exceções), remetendo à Idade Média, quando quem detinha o poder sobre os livros (logo, sobre o conhecimento) era a Igreja.

Eu, pessoalmente, acredito que a religião é a raiz de todo o Mal, e isso também está nas entrelinhas de O LIVRO DE ELI. Com a Bíblia em seu poder, Carnegie poderia usar a "palavra de Deus" para dominar seus súditos a exemplo do que fazem hoje muitos sacerdotes e pastores evangélicos. Por isso o irônico comentário "não é um livro, é uma arma". Uma arma que vem sendo usada desde a aurora dos tempos, e é eficiente o bastante para fazer com que seres humanos explodam bombas no próprio corpo sonhando com um Paraíso repleto de virgens!

Ainda é possível fazer uma relação entre o vilão Carnegie e um certo ex-presidente norte-americano chamado George W. Bush, que usava Deus como desculpa para tudo, inclusive para bombardear o Iraque! Não que seja exclusividade dele, a julgar as atrocidades cometidas em nome de Alá e a eterna guerra entre palestinos e judeus.


Enfim, o que O LIVRO DE ELI procura deixar bem claro é que a Bíblia, por mais que represente a "palavra de Deus", foi escrita pelo HOMEM. E baseado nela, o próprio homem é capaz de cometer os piores atos de injustiça e violência, seja herói ou vilão, dependendo da forma como manipula/interpreta a sua mensagem. O filme usa a Bíblia, mas em seu lugar podia ser o Alcorão, a Torá ou qualquer outro texto sagrado tomado como "verdade absoluta e inquestionável" pelos seus seguidores, que a mensagem será a mesma.

Confesso que fiquei até imaginando, no final: SPOILER Será que Eli ditou uma versão decorada e integral da Bíblia ou inventou a sua própria (como também podem ter feito os monges copistas que registraram as primeiras Bíblias)? Afinal, os "fiéis" iriam segui-la do mesmo jeito, como fazem até hoje inspirados pelos evangelhos escritos por pessoas mortas há dois mil anos! FIM DO SPOILER

Descontando todo este aspecto religioso, O LIVRO DE ELI também é tecnicamente atrativo pela fotografia acinzentada, quase monocromática, que transporta o espectador àquele mundo destruído onde vivem os personagens. Os irmãos Hughes usam vários planos abertíssimos, revelando estradas desertas, carcaças de veículos, cidades destruídas e principalmente enormes crateras e marcas de explosões da tal guerra que destruiu o planeta.


Os irmãos também demonstram-se competentes nas cenas de ação, sem abusar da câmera epilética típica das produções modernas (embora os cortes rápidos na cena da luta no bar desorientem completamente o espectador). O grande momento do filme, disparado, é a câmera entrando e saindo do interior de uma casa durante uma feroz batalha entre os heróis e os vilões do lado de fora - não é um plano-seqüência, obviamente, mas a "maquiagem digital" engana e realmente parece que a cena não tem nenhum corte.

Pouca gente lembra que os Hughes têm pelo menos duas obras bem interessantes no currículo, o policial "Perigo Para a Sociedade" (1993) e a adaptação de HQ "Do Inferno" (2001), sobre os crimes de Jack, O Estripador. Mas O LIVRO DE ELI é disparado o seu melhor trabalho, com herói, vilão e ambientação que lembram um faroeste futurista - a vila de Carnegie até parece uma cidadezinha do Velho Oeste, e a briga no salloon só reforça a semelhança!

Há também o final espertíssimo com uma bela revelação-surpresa, e até participação especial do faz-tudo Malcolm McDowell, que parece ter abandonado definitivamente o universo dos filmes classe Z para virar coadjuvante de luxo em Hollywood. (O elenco excêntrico tem ainda Ray "Justiceiro" Stevenson, uma envelhecida Jennifer Beals e o músico Tom Waits)


Claro que há algumas bobagens típicas dos blockbuster hollywoodianos, como o fato de que todo mundo é feio e acabado no mundo pós-apocalíptico, mas a mocinha que acompanha Eli (Mila Kunis) é uma gata com cabelo lisinho e limpinho, apesar do racionamento de água e de não existirem mais comésticos naquele ambiente.

Muito pouco para desmerecer um blockbuster inteligente e cheio de atrativos como O LIVRO DE ELI, que pode ser definido como um clone de "Mad Max" onde o grande tesouro para os personagens não é a água ou a gasolina, mas sim a esperança proporcionada pela religião - ou o poder de manipulação da mesma.

Em tempos de "Avatar", sempre é bom ver uma história conhecida sendo contada de um novo jeito. Mas é uma pena que, como "Constantine", o filme dificilmente encontrará o seu público.

domingo, 21 de março de 2010

MISSÃO COBRA (1986)


"Cobra Mission"... Não sei exatamente por que, mas sempre adorei este título. E assim como o Tarantino se apropriou do título "Inglorious Bastards" por gostar muito da obra do Enzo G. Castellari, o dia em que eu fizer um filme de ação e guerra também vou batizá-lo "Cobra Mission". Claro que isso não quer dizer que a produção barata italiana originalmente batizada com ele seja um clássico do gênero. Ou mesmo um bom filme.

Estamos nos anos 80. Os mesmos italianos que deixaram bem mais interessante um gênero tipicamente norte-americano (o western) agora tentam fazer o mesmo com os filmes sobre uma guerra tipicamente norte-americana, a do Vietnã. E tome produções baratas e repletas de tiros e explosões, copiando de "Rambo" a "Apocalypse Now", normalmente rodadas a toque de caixa nas selvas filipinas por diretores tão diferentes quanto Antonio Margheritti e Bruno Mattei.

MISSÃO COBRA foi inspirado principalmente por "Rambo 2 - A Missão", mas traz ainda um toque de "Braddock - O Super Comando" e "De Volta para o Inferno", aquele filme do Ted Kotcheff em que Gene Hackman liderava um pelotão de mercenários de volta ao Vietnã para resgatar seu filho prisioneiro de guerra.


A boa notícia é que essa produção de 1986 tem uma contagem de cadáveres mirabolante (semelhante à de "Rambo 4", feito 22 anos DEPOIS) e inúmeras cenas de explosões de praticamente todo tipo de veículo (caminhões, helicópteros, barcos...). É estrelada por Christopher Connelly ("Os Caçadores de Atlântida"), John Steiner ("Tenebre"), Manfred Lehmann ("Casablanca Express") e Oliver Tobias ("Mata Hari"). E tem pequenas participações de gente como Donald Pleasence, Gordon Mitchell, Ennio Girolami e até do diretor Enzo Castellari, aqui como ator. Também tem uma eficiente trilha sonora composta pelo especialista Francesco De Masi (uma de suas últimas, por sinal).

Quantas boas notícias, não é? Bem, agora vem a má: MISSÃO COBRA é dirigido pelo péssimo Fabrizio De Angelis, usando seu habitual pseudônimo Larry Ludman.

Como produtor, De Angelis foi responsável por alguns dos grandes filmes italianos dos anos 80, de "Zombie" e "The Beyond", do Lucio Fulci, a "1990 - Os Guerreiros do Bronx" e "Fuga do Bronx", do Castellari.

Como diretor, entretanto, o sujeito é uma nulidade, que só ganhou certa fama por ter dirigido a trilogia "Thunder" (aquela com Mark Gregory interpretando um índio metido a Rambo). O trabalho do homem vai do regular ao ridículo, e é claro que um especialista em ação faria a diferença no comando de MISSÃO COBRA. Ainda assim, pelo menos neste caso a ruindade geral do filme acaba transformando-o num passatempo bastante divertido.


Antes de mais nada, você precisa esquecer todas as leis da física e da lógica. Este é um daqueles filmes em que helicópteros explodem no ar, mas não são vistos caindo no chão; em que quatro homens de pé disparando metralhadoras, sem qualquer tipo de cobertura ou escudo, conseguem detonar um batalhão de 40 soldados sem tomar um mísero tirinho de raspão; em que granadas demoram de 3 segundos a 10 minutos para explodir, dependendo do tempo que o herói precisa para escapar do local da explosão, e por aí vai. Sabe, todas estas bobagens que você comenta em voz alta e entre risadas quando assiste ao filme com um grupo de amigos ao redor...

MISSÃO COBRA começa apresentando nossos "heróis": quatro fracassados veteranos do Vietnã cuja vida não vai nada bem. Roger Carson (Connelly) é um panaca casado com uma megera rica, e cuja única alegria consiste em jogar "Enduro" no seu velho videogame Atari (!!!); James Walcott (Steiner) é um perdedor que precisa empenhar suas medalhas conquistadas na guerra para faturar uma graninha; Mark Adams (Lehmann) é um homem que vive de bar em bar de beira de estrada, comendo as proprietárias em troca de uns trocos; e Richard Wagner (Tobias) está internado num hospital psiquiátrico, fingindo-se de louco para poder ganhar comida e hospedagem grátis!!!


Certo dia, Roger, James e Mike se encontram no casamento da filha de Roger. E, enquanto tomam uns tragos num boteco, descobrem pela TV que um prisioneiro norte-americano dos tempos da guerra conseguiu escapar de um campo de concentração no Vietnã (onde estava preso desde os anos 70) e voltar para os EUA. Curioso, o trio vai visitar um velho amigo da época, o major Morris (interpretado por Castellari), que está obcecado com a idéia de resgatar todos os prisioneiros norte-americanos que ainda estão apodrecendo nos campos de concentração vietnamitas.

E assim, sem mais nem menos, nossos heróis quarentões resolvem tirar o parceiro Mark do hospício e voltar para o Vietnã para tentar ganhar a guerra que seu país inteiro perdeu da primeira vez. E quando escrevo "sem mais nem menos", é porque é assim mesmo: o filme corta de uma cena em que um deles diz "Devíamos ir ao Vietnã dar uma olhada nestes campos de prisioneiros", para outra cena em que os quatro já estão em Saigon e prontos para a guerra, como se fosse a coisa mais simples do mundo (e vai saber de onde os fracassados tiraram o dinheiro para bancar a viagem e todas as despesas da operação...).

O mais engraçado é que o quarteto de veteranos nem ao menos tem um plano: eles não sabem onde ficam os campos de prisioneiros, não têm armas nem equipamentos, e muito menos apoio do exército para tocar adiante sua pequena operação - ao contrário do Rambo, por exemplo. Mesmo assim, tudo é facilitado para os caras no momento em que eles pisam no Vietnã. Primeiro, ganham uma grana preta de um ex-combatente que agora é proprietário de um cassino (!!!).


Depois, topam com um padre francês chamado Lenoir (Pleasence), que guarda um arsenal completo no porão da igreja (!!!) e, pelo visto, estava só esperando um grupo de desocupados aparecer para lhes entregar as armas. Para facilitar ainda mais, Lenoir também conhece bastante a região e até a localização dos campos de prisioneiros!!! Assim até eu...

O restante de MISSÃO COBRA é rotina: os quatro amigos perambulando pela selva e detonando inimigos com a maior facilidade. Eles chegam a um dos campos e conseguem libertar boa parte dos prisioneiros, entre eles o jovem Mike (que é interpretado por ninguém menos que Ethan Wayne, filho de uma das lendas do cinema americano, o eterno John Wayne!!!). Milagrosamente, apesar de os caras estarem presos há 10 anos, sendo torturados e agredidos de tempos em tempos, eles estão em perfeitas condições físicas para sair correndo e atirando de volta nos inimigos!

Com os vietcongues em seu encalço, nossos heróis passam o restante do filme metralhando e explodindo o que quer que apareça pela frente, enquanto quase todos os prisioneiros resgatados vão perdendo a vida pelo caminho (!!!), até restar apenas Mike. É então que o diretor De Angelis termina a trama de forma surpreendente (e totalmente debilóide), numa conclusão pessimista e trágica que é de deixar qualquer ser humano com vontade de dar um chute na TV!


Apesar de algumas tentativas de seriedade e de crítica social, felizmente, na maior parte do tempo, MISSÃO COBRA é apenas uma bobagem divertida. Nossos heróis são completos mentecaptos sem estratégia, que conseguem tudo na sorte - e também pelo fato de seus inimigos serem ainda mais burros. Uma cena histórica mostra o personagem de John Steiner posicionando-se na saída de uma casamata e mandando chumbo nos soldados que tentam correr por ali. E eis que, mesmo depois que os primeiros dez ou vinte caem fulminados pelas rajadas de metralhadora, os inimigos restantes continuam vindo correndo PELO MESMO LUGAR, somente para morrer como moscas e cair por cima dos cadáveres dos companheiros que tentaram passar pelo mesmo caminho, ao invés de voltar e buscar uma rota alternativa!!!

Porém o ponto alto da película é a forma como um dos heróis morre, não por causa das incontáveis rajadas de metralhadora dos inimigos, nem pelas muitas explosões, mas sim por culpa de um rabo-de-saia - uma prostituta que queria vingança pelas marcas de queimadura que cobrem seu corpo, provocadas pelo napalm jogado pelos americanos nos tempos da guerra! O mais incrível é a forma como o rapaz seduz sua futura algoz: simplesmente se aproxima da moça e larga um papo do tipo "Você me lembra uma garota que comi em Saigon e que logo depois morreu num bombardeio"!!!! hahahahaha.


Christopher Connelly, para mim, sempre foi um dos mais carismáticos atores destas tralhas italianas, ao lado de David Warbeck e Timothy Brent. Aqui, infelizmente, o roteiro não lhe dá muitas oportunidades. Já os veteranos Pleasence e Mitchell aparecem em duas cenas cada (o último como um general malvado que explica o "acordo" dos EUA com o Vietnã para manter os prisioneiros de guerra por lá); juntas, estas cenas não somam 5 minutos no total. E o finado John Wayne deve ter se revirado no túmulo com o desempenho do filho, que, além de não atuar, nem mesmo se envolve nas cenas de ação (pior é que o marketing da película exaltava justamente a presença do "filho de John Wayne" no elenco!!!).

É claro que existem filmes italianos de guerra (e especificamente sobre a Guerra do Vietnã) muito melhores do que este. Só para arrematar, cito um dos meus preferidos: "The Last Hunter", do Antonio Margheritti. Mesmo assim, MISSÃO COBRA é uma hilária e divertida aventura de guerra com o maior climão trash.


Só fico pensando o que é pior para os americanos: terem levado o maior laço na verdadeira Guerra do Vietnã (mesmo possuindo muito mais tecnologia e armamento que os pobres vietcongues que combatiam), ou terem que agüentar, até hoje, estas bisonhas e delirantes aventuras que insistem em mostrar seus soldados como heróis invencíveis, que sozinhos poderiam ter ganhado a guerra...

PS 1: O filme teve uma seqüência em 1989, dirigida por Camillo Teti. Entretanto, apesar do nome "Cobra Mission 2", não tem absolutamente nada a ver com o original, além do fato de também ser produzida por Fabrizio De Angelis.

PS 2: Quem foi criança/pré-adolescente no início dos anos 90 certamente tem boas recordações de um antiquíssimo jogo de RPG para computador chamado, justamente, "Cobra Mission". Ele marcou época pelo seu farto teor pornográfico, já que o jogador (normalmente recém-ingresso na puberdade) dividia a matança de inimigos com momentos em que precisava seduzir e satisfazer belas moças na cama! Ah, como era boa a juventude naqueles tempos politicamente incorretos...


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Cobra Mission/Operation Nam (1986, Itália)

Direção: Larry Ludman (aka Fabrizio De Angelis)
Elenco: Christopher Connelly, Oliver Tobias,
John Steiner, Manfred Lehmann, Ethan Wayne,
Donald Pleasence, Enzo G. Castellari,
Ennio Girolami e Gordon Mitchell.

terça-feira, 16 de março de 2010

Tudo que você sempre quis ler sobre GLAUBER ROCHA, mas tinha preguiça de procurar


Uma das coisas mais chatas para quem estuda/estudou Comunicação ou Cinema é que os professores tentarão desesperadamente te vender a idéia de que Glauber Rocha é um gênio, um deus, o intelectual dos intelectuais, uma criatura abençoada vários degraus acima de nós, pobres mortais. Isso é sagrado, e se você não concordar com eles é porque a sua ignorância lhe cega, o seu preconceito lhe oprime, e não lhe permite enxergar a beleza e a genialidade do "maior cineasta brasileiro de todos os tempos"!

Pessoalmente, Glauber Rocha para mim sempre foi um chato de galocha e um caso clássico de "Não vi, não gostei", como escrevi nas minhas breves linhas sobre "Deus e o Diabo na Terra do Sol" alguns posts abaixo. Sim, eu conhecia algumas cenas dos seus filmes mais famosos, li muito sobre o homem e a obra, mas sempre que tentei ver algum dos seus filmes, não consegui ir muito além dos primeiros minutos. Vai ver a genialidade do Glauber é demais para a minha pobre cabecinha ignorante e acostumada ao "lixo cinematográfico" mais tradicional, mas juro que não consigo entender a grande contribuição glauberiana para o cinema brasileiro, quem dirá para o cinema mundial!

Enfim, neste ano eu resolvi que ia dar uma chance ao "gênio", forçando-me a agüentar bravamente uma revisão da sua obra. Acabei chegando à conclusão de que o culpado não sou eu. O cinema glauberiano pode até ter seus méritos (imagens e planos belíssimos, algumas ótimas idéias, o aproveitamento da cultura regional, do misticismo do Nordeste...), mas no fim seus filmes não me descem nem à força. EU NÃO CONSIGO GOSTAR DE GLAUBER ROCHA, e sempre me pareceu que a obra de Glauber é exageradamente super-estimada - "suportar" seus filmes até o fim só me confirmou esta suspeita.


É comum se sentir um alienígena por pensar assim, já que a maioria absoluta dos pensadores/pesquisadores/professores/críticos de cinema do Brasil (e alguns do exterior também) acha Glauber um Deus. Tente discutir a obra do cara com um daqueles metidinhos a cinéfilo-cult para ver o que acontece – só não vá armado! E foi justamente por me sentir um alienígena que vibrei de satisfação ao encontrar, por acaso, esta velha crítica de "Deus e o Diabo na Terra do Sol", escrita à ocasião do lançamento do filme, em 1964.

Pois vejam só: a crítica traz tudo aquilo que eu sempre quis ler sobre Glauber Rocha! Podia muito bem ser usada como contraponto, nas universidades, àqueles textos do Ismail Xavier que tratam tudo que vem do Glauber como pura genialidade.

O autor é B.J. Duarte, crítico de cinema que, à época, era inimigo declarado de Glauber por causa das bobagens que o baiano disse e escreveu sobre o cinema paulista. Em alguns de seus artigos, Duarte referiu-se a Glauber e seus colegas cinema-novistas como "cabeludos sem asseio, desmazelados críticos e realizadores, praticantes de um cinema incerto e inculto, pasticheiros incorrigíveis", e outras maravilhas com as quais eu concordo quase 100%. Melhor ainda: escreveu que Glauber e sua turma praticavam "um cinema confuso, mosaico feito com cacos da nouvelle vague, os cacos de muito aparvalhado e a cacologia dos servis imitadores de Godard e Antonioni, de Zavattini e do japonês Oshima". Alguém realmente não concorda com isso?

Segue, na íntegra, os escritos do sujeito sobre "Deus e o Diabo...", e não é preciso concordar 100% com ele, mas reparem que o autor faz observações pertinentes que muitos "entendidos" relevam frente à sua cega paixão (ou seria idolatria?) glauberiana. Muitas vezes, simplesmente por puro medo de fazer feio diante de seu círculo de amiguinhos cinéfilos! Portanto, abram a cabeça e deleitem-se:


"Ao afirmar, desde logo, que não me agradou o filme de Glauber Rocha – Deus e o Diabo na Terra do Sol – não quero, com essa apreciação preliminar e radical, negar a inteligência de seu realizador, nem menosprezar seu entusiasmo de jovem, no manuseio dessa história de cangaço e misticismo, na sua ambição de realizar algo definitivo nesse indefinido 'Cinema Novo', de que é ele o campeão insuperável e o guarda-costas mais fiel.

Uma longa conversa com Glauber Rocha antes de assistir ao filme foi-me muito benéfica, na antecipação da análise da obra, e as declarações prestadas por seu realizador a respeito de suas idéias, gerais e particulares, sobre Deus e o Diabo, a abarcar o panorama do cinema brasileiro atual, firmaram posições, definiram pontos de vista e esclareceram satisfatoriamente algumas contradições e incoerências de atitudes encampadas no livro de Glauber 'Revisão Crítica do Cinema Brasileiro', sobre o qual eu escrevera exaustivamente neste jornal. E, como após a leitura desse livro, a impressão que fica, ao acender das luzes de Deus e o Diabo na Terra do Sol, é a de que Glauber Rocha deu um passo maior do que as pernas, claudicando grosseiramente ao fim desse esforço no campo áspero do cinema.

Seu filme é algo de deplorável em matéria de linguagem cinematográfica, apenas a demonstrar por parte do autor o desejo de colocar o cinema do Brasil na órbita de um movimento 'artístico' surgido na Europa ultimamente (embora as idéias que o configuram sejam antiquadas e superadas), chamado na França de 'cinema-verité', aqui caricaturado a expensas do nosso 'Cinema Novo', também esse, como é sabido, sem ostentar nenhuma novidade digna de atenção e de respeito. De fato até agora, tudo quanto apregoa o 'Cinema Novo' brasileiro ou é algo de muito velho, ou algo de muito ruim.
(Nota do Felipe: Este parágrafo merecia ser emoldurado e pendurado nas salas de aula de cursos de Cinema ao redor do país!)


Suas derivações mais recentes, Glauber Rocha as contou, em prosa inflamada, na sua 'Revisão Crítica', nesse livro tentando a árdua empresa de ordenar e expor o 'modus faciendi' da técnica de suster uma câmara na mão, sem apoio de tripé, sem os óculos dos filtros, sem a reverberação compensatória dos rebatedores, coisa de adolescentes que, pela primeira vez, conseguiram ter à mão uma câmara de amador e que, através do visor restrito, descobrem um mundo novo, configurado por uma técnica que desconheciam. Acontece que o mundo, para eles novo, continua a ser o mundo velho sem as porteiras de sempre e o que o aparelho consegue captar são imagens capengas e canhestras, só formativas da obra característica de aprendizes. Aprendizes de feiticeiros, que ao final, ou ao meio da produção, não sabem como situar-se no tumulto que criaram, nem como terminar a empreitada que a princípio lhes parecia tão fácil.

Deus e o Diabo na Terra do Sol é bem um exemplo disso. Projeção trêmula, quadros trepidantes, incríveis vaivéns de panorâmica sem função, desrespeito absoluto pelas regras mais elementares da técnica cinematográfica, iluminação precária da fotografia (não raro fora de foco) totalmente apartada da dramaturgia cinematográfica, desintegração total da unidade dramática, ausência de qualquer elemento criador na montagem narrativa fragmentada, descosida, tantas vezes incompreensível, eis o espetáculo de Deus e o Diabo na Terra do Sol, algo a que se assiste com enfadonha e fadiga, cujo final se recebe com alegria e desafogo.

'Uma ópera popular primitiva, brasileira e sem rebuscamentos', eis como define sua obra o próprio Glauber Rocha, ao referir-se a Deus e o Diabo na Terra do Sol, em entrevista concedida a este jornal. Primitivo, sem dúvida, seu filme o é; mas, primário seria melhor qualificação. Primário na exposição do tema, primaríssimo em sua feitura e em seu acabamento, uma negação total de seu próprio título. Não há Deus, nem Diabo, nem Sol, nessa terra em que Glauber Rocha erigiu o cenário de sua ópera. O seu Deus é um pobre diabo negro, enfático e declamador, incapaz de convencer o mais bronco dos sertanejos. O seu Diabo é um deus caricato, cabeludo, metido a filósofo do sertão e bailarino das caatingas. E o Sol brilha por sua ausência, nessa terra que deverá estar crestada por ele, nesse chão sofrido que os cantadores populares descrevem como algo ressequido e morto. Pois a paisagem de Deus e o Diabo, ainda que árida, se apresenta sob o foco (ou fora de foco) da 'câmara na mão' de Glauber Rocha, sempre sob um céu nublado, nunca sapecado pelo sol abrasador.


Nesse pano de fundo não raro neutro e sem características maiores, movem-se os personagens da 'ópera': Manuel e Rosa, Sebastião e Corisco, os camponeses do Nordeste, os escravos da gleba, o cego Julio, os minguados cabras de Corisco, o Antônio das Mortes, chapelão texano, capa preta a envolver esse 'Zorro' do sertão. Tudo isso pode ter sido concebido de modo metafórico, alegórico, simbólico, aceito de bom grado essa possibilidade na expressão de Deus e o Diabo. Tais recursos, entretanto, sempre foram utilizados pelo homem, desde que, antes de ter uma câmara na mão, pôde segurar um estilete, ou uma pena para pôr na pedra, no papiro, ou no papel suas idéias, sua sensibilidade, e assim descrever os abismos de sua alma, ou figurar os anseios da sua condição humana.

Mas é preciso que tais recursos - metáforas, alegorias, símbolos - sejam propostos no momento exato, conforme as circunstâncias e de modo funcional. Um homem vestido de capa preta, chapéu de aba larga, lenço ao pescoço, espingarda à mão, a andar de lá pra cá, a correr ou a saltar no campo cinematográfico, sem integrar-se na linha, no cenário, no âmago da ação dramática e na compreensão da história, só continuará a ser um homem de capa preta, simbolizando talvez um tenório em Caxias, ou um 'zorro' ao tempo das missões na Califórnia, nunca a expressar um 'coro', ou um 'prólogo' das tragédias antigas, ou mais simplesmente o 'Antônio das Mortes', matador de cangaceiros, no sertão de Cacorobó...

Não sinto nenhum prazer, senão apenas um sentimento de melancólica decepção ao ter de comentar o filme de Glauber Rocha, não de modo metafórico, mas às claras e sem preconceitos. Admiro a inteligência do jovem cineasta baiano e tenho-o na conta de alguém capaz de muitas coisas no cinema brasileiro. Falta-lhe contudo a maturidade dos velhos, a experiência dos que envelheceram sob a luz dos refletores, desse instrumental cinematográfico que Glauber tanto condena. Mas, isso não é irremediável. O passar do tempo lhe dará tudo e mais alguma humanidade, que é coisa de muita importância na realização do cinema legítimo, desse cinema que tanto ele quanto eu próprio almejamos para o Brasil. Vamos esperar, por isso." (04 e 05/09/1964)



CLAP, CLAP, CLAP, CLAP, CLAP, CLAP!!!


sábado, 13 de março de 2010

O EXECUTOR FINAL (1984)


Você já parou para pensar como o mundo seria triste caso o australiano George Miller não tivesse dirigido o clássico "Mad Max 2" em 1981? Primeiro, porque não teríamos esse FILMAÇO (um dos tantos na minha lista de melhores filmes de todos os tempos). Segundo, porque não teríamos todas aquelas maravilhosas e engraçadíssimas cópias trash de "Mad Max 2" feitas na Itália, como "Guerreiros do Futuro", de Enzo G. Castellari, e "O Guerreiro do Mundo Perdido", de David Worth (dois filmes que merecem seu espaço em breve aqui no FILMES PARA DOIDOS).

Nenhuma delas chega aos pés do original, é claro. Mas convenhamos que parecia relativamente fácil fazer clones de "Mad Max 2", pois não só os italianos, como também muitos norte-americanos e até outros australianos, investiram nas suas "versões genéricas". O visual pós-apocalíptico garantia até certa economia aos realizadores, já que poderiam usar cenários semi-desmontados e figurinos esfarrapados, além de veículos em cacarecos.


O EXECUTOR FINAL é uma destas inúmeras cópias trash italianas do clássico de George Miller. A diferença para as outras é que a trama, escrita por Roberto Leoni (de "A Cruz dos Executores"), não tem cara de clone de Mad Max e traz pouquíssimos elementos das aventuras pós-apocalípticas. A bem da verdade, o roteiro parece ter sido adaptado apenas para faturar em cima da onda, e as poucas cenas "pós-apocalípticas" destoam do resto do filme, como se tivessem sido incluídas de última hora no roteiro apenas para transformá-lo em mais uma aventura do gênero.

E é justamente isso que torna o filme hilário. O EXECUTOR FINAL já começa com a tradicional narração explicando como nosso mundo foi destruído por bombas nucleares - narração esta que se desenrola sobre o maior número de cenas de arquivo que os produtores conseguiram encontrar, de explosões atômicas a fotos de cidades devastadas na Segunda Guerra Mundial, e até a erupção de um vulcão! A coisa é tão bizarra que vale até postar aqui o vídeo do YouTube, para que vocês possam (re)ver e se emocionar:

O Apocalipse com cenas de arquivo


O narrador explica que a terra pós-apocalíptica acabou dividida em duas castas: uma com mais grana (claro!) vivendo nos subterrâneos, e outra lazarenta obrigada a viver na superfície, e contaminada pela radiação. Como uma forma de acabar com o problema dos humanos contaminados, explica o narrador, os ricaços lá do subterrâneo resolveram criar temporadas de caça. Você não leu errado: exóticos caçadores especializaram-se em subir à superfície para divertir-se caçando os humanos radioativos e acabando com a raça deles, para que não possam se reproduzir e continuar espalhando seus genes podres pela terra devastada.

Quando finalmente a história começa, encontramos o herói Alan Tanner, um cientista, sendo transportado do mundo subterrâneo à superfície. Alan é interpretado pelo austríaco William Mang, o mais próximo de um clone do Kurt Russell (em alta na época por causa dos filmes de John Carpenter) que os italianos conseguiram encontrar.

Descobriremos mais tarde que o herói é um cientista condenado injustamente a virar presa dos caçadores da superfície, assim como sua namorada (Cinzia Bonfantini). Ele descobriu que a contaminação terminou e que as pessoas da superfície não precisam mais ser exterminadas. Mas é claro que os fãs das caçadas humanas não querem que este "pequeno detalhe" chegue aos ouvidos do povo... Melhor mandar o cientista sabichão para a superfície como alvo!


Quando a trama sai do metrô para a superfície, o universo de "Mad Max 2" se mescla com o do clássico "The Most Dangerous Game", de 1932 (que influenciou, entre outros filmes, "O Alvo", de John Woo). Afinal, o herói e alguns outros humanos desafortunados servirão como caça para um grupo de exóticos caçadores vestindo o típico figurino pós-apocalíptico trash desse tipo de filme (muito couro preto, fitas na cabeça, adornos com pontas de metal...), ou mesmo as roupas que sobraram das obras anteriores da produtora (uma das moças usa um vestido que parece saído de algum épico sobre o Império Romano, por exemplo)

Os líderes dos caçadores são Edra (Marina Costa, no primeiro dos seus dois filmes) e Erasmus (Harrison Muller Jr.). Depois que os vilões cercam e exterminam um grupo de humanos, Alan e sua garota acabam capturados. Um dos caçadores estupra a moça, que depois é morta.


Já Alan foge e é atingido com um tiro, mas sobrevive e recupera-se nas mãos de um ex-policial chamado Sam (Woody Strode!). Pelos próximos 20 minutos, Sam dá uma de mestre Miyagi e treina Alan para a sua vingança. As cenas de treinamento, usando fogo e arame farpado, estão entre as melhores do filme.

Clássico da era de ouro do VHS no Brasil (saiu pela distribuidora Hipervídeo com uma capinha ridícula reaproveitada do pôster de "Assalto à 13ª DP", de Carpenter), O EXECUTOR FINAL é trash, absurdo, mal-dirigido e por isso mesmo engraçadíssimo. Embora não tenha a violência necessária, em comparação com outros clones italianos de "Mad Max 2", não faltam nudez e baixaria, com cenas de sexo, estupro e a nudez constante das estrelinhas Margit Evelyn Newton (que todos lembrarão de "Predadores da Noite", de Bruno Mattei) e Maria Romano (figurinha carimbada dos filmes italianos de mulheres na prisão).

O veterano Strode, nome conhecido dos western spaghetti (fez até "Era Uma Vez no Oeste"!), aparece em cena durante uns 15 minutos, e mesmo assim é a melhor coisa do filme.


Quando Strode não está, resta ao espectador rir das cenas de ação frouxas e da pobreza geral da produção. Por falar nisso, percebi grandes semelhanças entre os cenários, figurinos e instrumentos usados no filme (inclusive as armas de quatro ou cinco canos usadas pelos vilões) com aqueles que aparecem no clássico trash "Ratos", do Mattei, filmado no mesmo ano de 1984. Será que foram rodados simultaneamente, reaproveitando os mesmos elementos de cena? Eu apostaria 10 centavos que sim.

Vale destacar que todas as cenas com Woody Strode foram reutilizadas, cinco anos depois, em outra bagaceirice da Terra da Bota, "Bronx Executioner", dirigido por Vanio Amici em 1989. Cerca de 50% desse filme é formado pelas cenas de O EXECUTOR FINAL. Inclusive Strode nem precisou pisar no set nesta filmagem de cinco anos depois, e foi apenas redublado! O tipo de picaretagem que os italianos adoravam fazer...


Mais divertido no início do que quando descamba para a batida trama de vingança, O EXECUTOR FINAL tem alguns elementos que só confirmam a fama trash que recebeu desde o seu lançamento, como o péssimo e afetado vilão interpretado por Muller Jr.

Os realizadores até tentaram lhe dar alguma sofisticação: ele está sempre vestido de negro da cabeça aos pés, tem uma motocicleta estilosa, uma espada samurai e até aparece jogando xadrez consigo mesmo em certa cena. Mas não adianta: a suspeitíssima echarpe branca que o sujeito usa, e seus discursos medonhos (chamando os humanos contaminados de "animais"), afundam qualquer tentativa de criar um vilão sério.


Isso, mais a quantidade absurda de imbecilidades e bobagens ao longo da trama (incluindo uma cena de "condicionamento mental" à la "Laranja Mecânica"), transformam o que era para ser um filme pós-apocalíptico numa bizarra comédia involuntária. Principalmente por causa da noite em que o quartel-general dos vilões é invadido por Alan, que mata um deles. Ao encontrar o cadáver, o nosso amigo da echarpe branca ordena aos companheiros: "Alguém invadiu a casa. Vamos dormir e amanhã procuramos por ele!". Isso sim que é avaliar as prioridades...

Não dá para não perceber, ainda, o excesso de câmera lenta nas cenas de ação, à la Enzo Castellari. A menção do nome do mestre não é gratuita: acontece que o diretor de O EXECUTOR FINAL, Romolo Guerrieri, é tio de Enzo.

Pena que, ao contrário do sobrinho, Romolo utilize o recurso sem qualquer critério ou noção de estilo, colocando em câmera lenta até mesmo o que não precisa. Isso sem contar as exageradas piruetas feitas pelos dublês em meio às explosões - coisa de circo, como você pode ver na imagem abaixo!


Ruim em vários sentidos, divertido em outros tantos, e até bem-feitinho em alguns momentos, O EXECUTOR FINAL é aquele legítimo FILME PARA DOIDOS que sempre acaba encontrando o seu público, mesmo que esteja muito abaixo do padrão dos clones italianos de "Mad Max 2". Como eu escrevi lá no começo, parece uma historinha qualquer adaptada de última hora para o universo do filme de George Miller, e isso se percebe claramente.

O negócio é relaxar e rir muito com a quantidade de bobagens, deleitar-se com as belíssimas italianas de peitos de fora (principalmente Margit, uma musa esquecida) e surpreender-se com a precariedade da vingança do herói incompreendido Alan, já que quase todos os vilões de quem ele quer se vingar são mortos por outras pessoas que não ele!!! Bela vingança, hein?

Melhor sorte em "O Executor Final 2"!

Treinamento ninja em O EXECUTOR FINAL


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The Final Executioner/L'Ultimo
Guerriero (1984, Itália)

Direção: Romolo Guerrieri
Elenco: Woody Strode, William Mang,
Marina Costa, Harrison Muller Jr., Margit
Evelyn Newton e Maria Romano.