segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Uma chance para filmes boicotados - Parte 2


Gostei do retorno que teve o primeiro post desta "trilogia": além de descobrir que outros leitores do FILMES PARA DOIDOS concordam comigo e boicotaram os mesmos filmes (tipo "O Guarda-Costas"), também serviu como pontapé inicial para que os visitantes pudessem confessar quais são os seus próprios títulos boicotados. É bom saber que você não é o único que se recusa a ver algum filme por fatores bem especificos e pessoais. Por outro lado, sempre há tempo de dar uma chance para estas obras que foram jogadas para escanteio.

Nesta segunda parte, veremos mais algumas produções recentes cujo boicote é plenamente justificável (tenho certeza que todos vocês vão concordar comigo), e outras mais antigas que eu só não vi antes por pura preguiça e fui deixando de lado até agora. Algumas se revelaram decepcionantes, como era esperado.

A elas:



Tem gente que gosta da série "A Múmia", iniciada por Stephen Sommers em 1999, que traz o bobalhão Brendan Fraser lutando contra brochantes efeitos de computação gráfica. Eu vi o original e a primeira seqüência, "O Retorno da Múmia", e sinceramente achei ambos muito ruins - trazem tudo o que há de péssimo nas aventuras recentes, do excesso de CGI à falta de seriedade (e criatividade) nos roteiros. Por mim, inclusive, o terceiro filme da série, A MÚMIA: TUMBA DO IMPERADOR DRAGÃO (The Mummy: Tomb of the Dragon Emperor, 2008, EUA/Alemanha. Dir: Rob Cohen) ficaria boicotado para sempre. Mas quando você está na praia em um dia de chuva, qualquer porcaria que passa na TV a cabo acaba ganhando a sua atenção. Mea culpa.

Bem, digamos apenas que os dois filmes anteriores quase ficam bons perto da bobagem que é este terceiro. O vilão agora é a múmia de um imperador chinês interpretado por Jet Li, mas ainda não consegui descobrir qual é a vantagem de ter um ator famoso na folha de pagamento e usá-lo apenas durante 10 minutos (no restante do tempo, a múmia não passa de um boneco deformado feito por computador). E se seriedade nunca foi o forte da série, esta nova aventura trata o espectador por idiota completo: ressuscitar uma múmia é a coisa mais fácil de engolir do roteiro, que traz ainda um ataque de abomináveis homens das neves (!!!), a mítica cidade de Shangri-lá (!!!), guerreiras imortais (!!!) e uma múmia que se transforma, sem explicação, num dragão de três cabeças (!!!!!!!!!!!!!!!!!!).

Tudo acaba naquela tradicional grande batalha "épica" entre bonequinhos de CGI (os soldados de terracota do vilão contra um exército de esqueletos "bonzinhos"), praticamente uma cópia xerox do final de "O Retorno da Múmia". Não há uma única piada ou cena que preste, e é uma pena ver a competente Maria Bello totalmente perdida no lugar de Rachel Weisz, que (muito sabiamente) pulou fora dessa seqüência após ter pagado mico nos dois filmes anteriores. O pior é saber que filmes como este são o mais perto que Hollywood consegue chegar, hoje, das saudosas aventuras de Indiana Jones. Salve-se quem puder!



Outra bobagem indefensável é O VIDENTE (Next, 2007, EUA. Dir: Lee Tamahori). Esse eu já imaginava que era uma bomba, pelas resenhas da época do seu lançamento. Só não podia prever que era TÃO RUIM! Partindo de uma premissa curiosa (baseada em conto de Philip K. Dick), o filme traz Nicolas Cage como um homem capaz de prever o futuro - mas apenas dois minutos à frente. Ele não usa seu dom para proteger a humanidade, e sim para roubar uma graninha dos cassinos ao prever o resultado dos jogos. Mas a coisa muda de figura quando o vidente começa a ser caçado por terroristas e pelo FBI, por causa de uma bomba nuclear escondida em solo americano.

Embora traga algumas curiosas brincadeiras narrativas (como cenas inteiras que se revelam apenas premonições do herói, ou o momento em que ele se divide em vários "clones", representando suas muitas visões do futuro), "O Vidente" falha nos aspectos mais simplórios da construção de suspense e não consegue nem ao menos criar personagens parecidos com pessoa reais: os terroristas, por exemplo, parecem ter saído de uma sátira estilo "Todo Mundo em Pânico", Julianne Moore está ridícula como "agente durona" do FBI, e a ingenuidade da personagem de Jessica Biel, que dá carona e dorme com um completo estranho, é absurda.

Para piorar, o roteiro se acovarda e transforma a maior parte da trama NUMA VISÃO do protagonista. Aí não há saco que agüente, pois este é um dos truques mais revoltantes que um realizador pode utilizar para enganar o espectador (lembrou até minha frustração por "Femme Fatale", do Brian DePalma). E Lee Tamahori mostra ser um dos piores diretores em atividade hoje em Hollywood, anos-luz distante de seus primeiros filmes, como o ótimo "O Amor e a Fúria".



O INFORMANTE (The Insider, 1999, EUA. Dir: Michael Mann) é um daqueles casos atípicos na minha lista de boicote: eu só não tinha visto antes porque esqueci da sua existência. Mas antes tarde do que nunca, e como eu estou redescobrindo a filmografia de Mann (indiscutivelmente um dos melhores cineastas contemporâneos), chegou a hora de corrigir a injustiça.

E você sabe quando um diretor é bom quando ele consegue segurar a atenção do espectador contando uma história que, originalmente, não tem nada de surpreendente ou de tenso. O filme narra a luta do produtor do programa de TV "60 Minutos" (Al Pacino) para levar ao ar a entrevista com um executivo da indústria tabagista (Russel Crowe), contando que as empresas do ramo sabem que o cigarro faz mal à saúde, embora publicamente neguem. A alta cúpula da emissora acaba vetando a entrevista por interesses comerciais, e a vida do entrevistado sofre uma brutal reviravolta.

Tudo bem que as ameaças à vida do personagem de Russel Crowe não passam de "liberdade poética" para manter o espectador antenado, mas ainda assim Mann consegue a façanha de deixar qualquer um vidrado na tela apenas com o jogo de interesses nos bastidores. É uma trama difícil, sem heroísmos individuais ou finais felizes, mas transformada em um filmaço que faz questionar o papel da imprensa no mundo contemporâneo - sua exibição devia ser obrigatória em faculdades de comunicação. Eu só incluiria uma cena final mostrando o personagem de Pacino acendendo um cigarrinho após todos os problemas enfrentados. hehehe.



Se no capítulo anterior eu falei sobre minha "Sessão Dupla John Woo", chegou a hora de contar como foi a "Sessão Tripla Clint Eastwood", um outro diretor cuja obra eu estou aos poucos redescobrindo, principalmente após o excelente "Gran Torino". Vi de uma vez só três filmes recentes dirigidos e estrelados pelo veterano, e que antes não tinham me chamado a atenção. O primeiro foi justamente o mais fraco: DÍVIDA DE SANGUE (Blood Work, 2002, EUA. Dir: Clint Eastwood) traz o ator como uma versão envelhecida de seu Dirty Harry, um veterano agente do FBI chamado Terry McCaleb, que caça um serial killer obcecado por ele.

Após ter um infarto enquanto persegue o maníaco, o herói decide se aposentar e passar por um transplante de coração. Mas logo recebe a visita da irmã da doadora do órgão, que lhe pede para investigar o assassinato da moça. Sentindo-se em dívida com a "dona" do coração, McCaleb sai em busca do responsável pelo homicídio e descobre que é o mesmo serial killer que falhou em prender anos antes. E ele continua deixando uma pilha de corpos para provocar o herói.

O roteiro de Brian Helgeland começa bem, mas logo descamba para todos os clichês de "filmes de serial killers", desde o herói que encontra pistas de crimes acontecidos muito tempo antes (e que a policia, claro, nunca viu) até a tonelada de trilhas falsas seguidas pelo detetive, e que só existem para maquiar a identidade mais do que óbvia do vilão. Vale ressaltar que o serial killer se expõe tanto ao longo do filme que é um verdadeiro milagre não ter sido preso nos 15 minutos iniciais - e a revelação da sua identidade é tão inverossímil que quase provoca risadas, assim como o fato de o código do matador ser decifrado... por uma criança! Em todo caso, vale pelo talento de Clint como ator e diretor.



PODER ABSOLUTO (Absolute Power, 1997, EUA. Dir: Clint Eastwood) é melhorzinho, mas também fica aquém do seu potencial. O ponto de partida é absurdo, porém intrigante: Clint é um ladrão veterano que, numa noite de "trabalho", testemunha um assassinato cometido pelo próprio presidente dos Estados Unidos (Gene Hackman) e por dois agentes do Serviço Secreto (um deles é Scott Glenn, que quase rouba o filme). Ele foge e é caçado por homens acima de qualquer suspeita, envolvendo-se num jogo de gato e rato com o detetive que investiga o crime, interpretado por Ed Harris.

Eis um caso de filme que valeria apenas pelos atores (e se ver Clint, Hackman, Scott Glenn e Ed Harris dividindo a cena não é suficiente, tem ainda E.G. Marshall e Laura Linney). É uma pena, portanto, que o roteiro de William Goldman não aproveite a premissa interessante de um herói fora-da-lei caçado por pessoas que estão totalmente acima da lei: as situações de conflito entre eles são mínimas, e a trama logo descamba para o tradicional "vamos machucar a filha do protagonista para dar-lhe um motivo para se vingar".

A própria relação entre os personagens de Clint e Harris é menos desenvolvida do que poderia, e isso que o filme se estende por duas horas (podiam cortar um pouco da enrolação e do drama familiar envolvendo o ladrão e sua filha para criar mais situações de suspense). Mas é outro que vale só pelo astro, divertindo-se muito como um bandido boa-pinta e esperto, sempre um passo a frente dos seus perseguidores.



O melhor da "Sessão Tripla" acabou sendo CRIME VERDADEIRO (True Crime, 1999, EUA. Dir: Clint Eastwood). A trama também é meio absurda, mas funciona melhor que "Poder Absoluto": Clint é Steve Everett, um repórter encrenqueiro e mulherengo que, de última hora, é escalado para cobrir a execução de um assassino na câmara de gás. Mas Everett teima em achar que o acusado é inocente, e passa os 127 minutos do longa em busca das pistas para livrá-lo da iminente pena de morte.

A corrida contra o tempo desta vez é muito bem aproveitada pelo astro e diretor, principalmente na cena em que seu personagem é obrigado a fazer um "passeio-relâmpago" com a filha pelo zoológico para poder continuar suas investigações. Tudo bem, é difícil de engolir o fato de o protagonista descobrir fatos e pistas anos depois do crime ter acontecido, sendo que o caso foi investigado exaustivamente pela polícia. Assim, é preciso fechar um olho para a lógica e torcer para que o herói encontre as provas da inocência do acusado a tempo de impedir a execução.

"Crime Verdadeiro" também fica acima da média por mostrar com detalhes, paralelamente à investigação de Everett, a rotina de preparação do condenado para a pena de morte, sem demonizar a figura do diretor do presídio ou dos guardas responsáveis pelo trabalho ingrato. E Clint, novamente, está muito divertido como repórter durão e comedor, que aparece seduzindo moças 40 anos mais jovens do que ele. Suas cenas com James Woods, que interpreta o editor do jornal, são antológicas. Em resumo: toda a tensão e suspense que faltaram aos outros dois está neste filme, altamente recomendado para fãs do ator-diretor.



Fechamos esta segunda parte da minha lista de boicote com uma decepção: PECADOS DE GUERRA (Casualties of War, 1989, EUA. Dir: Brian DePalma), um dos trabalhos mais fracos e convencionais de um diretor cuja obra eu normalmente venero. Não vi o filme antes porque estava de saco cheio de histórias sobre a Guerra do Vietnã (já na época em que ele foi lançado havia uma overdose de filmes sobre este conflito). Mas vê-lo hoje parece ainda pior, já que ele envelheceu ainda mais.

A história, baseada em fatos reais, traz Michael J. Fox como um soldado certinho que testemunha o estupro e execução de uma jovem vietnamita pelo seu sargento (Sean Penn) e por homens do seu batalhão. Ele tenta de várias formas salvar a vida da moça, mas falha; passa, então, a ser perseguido pelos ex-colegas, que temem que ele revele o "segredo" e leve todos à corte marcial. Apesar da situação poder render um suspense tenso, a narrativa é convencional e desprovida de emoção.

A melhor cena acaba sendo a execução da jovem estuprada, filmada por DePalma com seu requinte habitual. Mas todo o resto parece um telefilme, com personagens exageradamente burros (interpretados por atores conhecidos como John C. Reilly, Ving Rhames e John Leguizamo), cenas de guerra nada empolgantes e uma resolução anti-climática - até a música de Ennio Morricone soa burocrática e nada memorável.

Na minha opinião, está entre os trabalhos mais fracos do diretor. E é irônico ver uma atuação afetada e exagerada de Sean Penn quando a gente sabe o excelente ator que ele se tornou depois. Veredicto: um pecado de DePalma, não da guerra.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Uma chance para filmes boicotados - Parte 1


Há alguns posts atrás, na parte dos comentários, eu tentei explicar meu critério para "boicotar" filmes como "Avatar", "Anticristo" e a trilogia "Jurassic Park". Mas a verdade verdadeira é que não existe um critério muito definido: eu simplesmente não tenho a menor vontade de assistir certos filmes por diferentes motivos, seja sua super-exposição na mídia, os "talentos" envolvidos ou o fato de alguns não fazerem qualquer diferença para mim como espectador. É basicamente por estas razões que nunca vi "Sociedade dos Poetas Mortos", que não engulo os filmes do famoso L.V.T., e que nem me dei ao trabalho de ver as seqüências de "X-Men" (por ter achado o original tão medíocre).

Aí chega este período mágico das férias, quando mesmo cheias de coisas para fazer, como eu, subitamente se encontram com muito tempo nas mãos. Isso, somado a uma vantajosa promoção na locadora da minha cidade para quem alugasse 10 DVDs por vez, fez com que eu engolisse meu orgulho (hã?!?) e desse uma chance a várias obras, conhecidas ou nem tanto, que eu havia boicotado no passado. O que quer dizer que, num futuro não muito distante, talvez eu dê uma nova chance também para os boicotados de agora, tipo "Avatar".

Bem, como eu já vi 43 filmes neste início de ano (muitos deles anteriormente na lista de "não vi e não gostei"), optei por castigá-los com um extenso relatório em três partes trazendo a minha avaliação de alguns deles, incluindo produções que passei anos (em alguns casos, até décadas!) sem ver. Eu não esperava nada da maioria, mas - quem diria - apareceram boas surpresas, enquanto outros bem que podiam ter continuado boicotados...

A eles:



A parte interessante desse início de ano foi que rolou uma "Sessão Dupla John Woo", em parte motivada pela interessante retrospectiva do trabalho do diretor publicada no blog O Dia da Fúria. Eu tinha boicotado a "fase norte-americana" de Woo a partir de "Missão Impossível 2", porque sentia que este cineasta, cuja obra eu muito admirava, vinha se repetindo, e seus maneirismos já se tornavam motivo de chacota, não de orgulho. Foi com certo receio, portanto, que comecei a ver CÓDIGOS DE GUERRA (Windtalkers, 2002, EUA. Dir: John Woo), mas ao final dos 134 minutos eu simplesmente não conseguia entender o motivo da fria recepção ao filme na época do seu lançamento - foi um fiasco de bilheteria que quase enterrou a carreira do diretor.

A historinha é a de sempre em se tratando de Woo, novamente trabalhando temas como amizade e honra, desta vez em plena brutalidade da Segunda Guerra, filmada com o habitual brilhantismo técnico do diretor - aqui voltando ao "ballet da violência" à la Sam Peckinpah que era a marca registrada dos seus grandes filmes de Hong-Kong.

O resultado parece um remake de "No Coração do Perigo", um dos meus filmes preferidos de Woo, sem poupar em sangue e perdas para os dois lados do confronto, remetendo diretamente ao cinema de Peckinpah (algumas cenas envolvendo corpos arremessados em arame farpado inclusive lembram muito "A Cruz de Ferro", o clássico de guerra do velho Sam). E Woo não faz feio na comparação, mesmo quando apela para clichês típicos do gênero. Veredicto: filmaço de guerra que quase ninguém viu, uma pena!



O mesmo não se pode dizer do segundo filme da Sessão Dupla, O PAGAMENTO (Paycheck, 2003, EUA. Dir: John Woo). A história (baseada em conto de Philip K. Dick) é intrigante o suficiente para manter a atenção do espectador, mas o resultado é burocrático e nada memorável. A relação de defeitos renderia um post inteiro: Ben Affleck não convence como herói de ação, Uma Thurman está feia e vive um romance patético com o protagonista, o vilão de Aaron Eckhart é ridículo, e o impagável Paul Giamatti é sumariamente desperdiçado como alívio cômico.

E se a trama é bastante curiosa (uma espécie de releitura de "O Vingador do Futuro", sobre memórias apagadas e perda de identidade), o maior problema talvez seja justamente a direção de Woo: você fica o tempo inteiro esperando cenas de ação mirabolantes no estilo do cineasta, mas estas nunca aparecem, com a exceção de uma perseguição envolvendo os heróis numa moto sendo caçados por carros e um helicóptero. Pouco, muito pouco, para suprir as expectativas de quem conhece o talento de Woo (até "Blackjack", aquele filme para a TV que ele fez com o Dolph Lundgren, tem mais ação!!!), e por isso um outro diretor talvez conseguisse um melhor resultado.

Não que o resultado seja ruim: passa como Sessão da Tarde, mas desaparece da mente horas depois - o que é irônico, considerando que perda de memória é justamente o tema do filme!



O GUARDA-COSTAS (The Bodyguard, 1992, EUA. Dir: Mick Jackson) foi um fenômeno pop no ano de seu lançamento, e é um dos filmes que minha mãe mais viu na vida (quarenta-e-poucas-vezes, desde a última vez que perguntei). Lá atrás, em 1992, era o "Titanic" do momento, e talvez por isso eu tenha perdido o interesse de vê-lo então. Nem vou explicar os motivos que me levaram a assisti-lo agora, quase 20 anos depois, porque isso também renderia um post a parte. Mas simplesmente não dá para entender os motivos para "isso" ter virado fenômeno pop.

OK, o filme é divertido e até vale como passatempo; tem algumas cenas legais e um Kevin Costner "cool", quase anti-herói, anos antes de virar um mala egocêntrico em tranqueiras ambiciosas como "O Mensageiro". Só que o conjunto da obra é lamentável: não passa de um suspense preguiçoso, com um romance que não convence e um par romântico impossível de engolir. Se eu fosse guarda-costas da Whitney Houston, não iria me esforçar muito para proteger a vida dela, pelo menos não da personagem chatíssima e arrogante que ela interpreta aqui.

Também não dá para entender como um cara do calibre de Lawrence Kasdan escreveu um roteiro tão insosso, daqueles que você adivinha nos primeiros 10 minutos quem é o "misterioso assassino" e o "misterioso mandante do crime", supostas revelações "surpreendentes" do último ato. Conclusão: uma Sessão da Tarde cuja fama não se justifica. E talvez minha mãe esteja necessitando de ajuda psiquiátrica...



Bem, quem acompanha o FILMES PARA DOIDOS sabe que tenho certo preconceito com "moderninhos queridinhos da crítica". O francês Michel Gondry é um deles, mas pelo menos neste caso o culto apaixonado a BRILHO ETERNO DE UMA MENTE SEM LEMBRANÇAS (Eternal Sunshine of the Spotless Mind, 2004, EUA. Dir: Michel Gondry) se justifica: o filme é bem legalzinho, diferente e muito criativo, e ainda traz Jim Carrey muito bem num papel um tanto "diferente" (já que passa a maior parte da trama revivendo suas próprias memórias enquanto elas desaparecem).

O que me fez "desgostar" um pouco da coisa toda é aquela desesperada tentativa de querer ser "moderninho", ou "culti" - como as cores de cabelo da Kate Winslet, algumas doideiras que só existem para justificar a fama de "maluco beleza" do roteirista Charlie Kaufman (outro queridinho da crítica que eu não engulo), e "rebeldias" tipo mostrar atores famosos (Mark Ruffalo, Elijah Wood e Kirsten Dunst) fumando maconha - oh céus, que horror!!!

Por essas e por outras, mesmo que o filme tenha ficado acima do que eu esperava, é obviamente mais um daqueles casos do tipo "Ame ou odeie", como "Encontros e Desencontros" (que eu particularmente amo). Não é que eu tenha odiado "Brilho Eterno...", só não morri de amores não.



Outra bela surpresa deste resgate de boicotados foi REGRAS DO JOGO (Rules of Engagement, 2000, EUA/Canadá/Inglaterra/Alemanha. Dir: William Friedkin). Até porque qualquer filme em que um militar ordena o massacre de dezenas de inocentes no Iêmen, e é o HERÓI da história, merece um mínimo de consideração só pela coragem.

O que diferencia este de bobagens pró-militarismo estilo "Falcão Negro em Perigo" é o fato de Friedkin não estar endeusando o "heroísmo" do milico vivido por Samuel L. Jackson, e sim criticando o fato de ele ser um fantoche orgulhoso de ter "cumprido suas ordens", mesmo que isso envolva o tal massacre de inocentes. Friedkin é um mestre em cenas realistas de ação e violência, como demonstra nas cenas iniciais (no Vietnã) e no já citado massacre em frente à embaixada do Iêmen. O restante do filme se concentra no julgamento do protagonista, mas o diretor não deixa a peteca cair, manipulando cada espectador para tirar suas próprias conclusões sobre a inocência ou culpa do personagem de Jackson.

É uma pena, portanto, que o estúdio tenha forçado o cineasta a incluir uma cena (totalmente dispensável) que comprova a "verdade" sobre o ocorrido, tirando do espectador o veredicto final. Mesmo assim, no conjunto, eis outra gema perdida que eu demorei muito para ver e que, no geral, merecia mais reconhecimento - pelo menos muito mais do que o medíocre "Falcão Negro em Perigo".



Um caso que me deixou perplexo foi CINE MAJESTIC (The Majestic, 2001, EUA. Dir: Frank Darabont). O diretor vinha de dois sucessos ("Um Sonho de Liberdade" e "À Espera de um Milagre", e fez um filme bonitinho com um pouco de tudo que o público podia querer: Jim Carrey como astro, uma linda história de amor, uma situação edificante com lição de moral estilo Frank Kafka, belíssima reconstituição de época e todo aquele "blablabla" tradicional sobre a magia do cinema - parece até que a intenção era fazer um "Cinema Paradiso" falado em inglês.

Mas o resultado foi um fracasso de bilheteria que também quase acabou com a carreira do diretor (ele demorou seis anos para voltar com o excelente "O Nevoeiro"). Uma pena, pois "Cine Majestic" é um ótimo filme. Tudo bem, há defeitos evidentes, como os personagens bonzinhos demais para existirem fora do universo cinematográfico, ou o sentimentalismo empurrado goela abaixo do espectador (só faltam legendas do tipo "Hora de chorar" ou "Prepare-se, agora vai morrer Fulano"...).

Mesmo assim, achei o resultado positivo, nem que seja apenas pelas cenas que retratam a Hollywood dos anos 50, ou pelo falso filme "Sand Pirates of the Sahara" (roteirizado pelo personagem de Carrey), que traz Bruce Campbell como herói estilo Indiana Jones recuperando um ídolo dourado idêntico àquele visto no início de "Os Caçadores da Arca Perdida"! Fechando-se um olho para o excesso de água-com-açúcar, uma obra acima da média - e injustiçada!



Fechando esta primeira parte do resgate dos filmes boicotados, nada melhor do que relembrar o "Avatar" de cinco anos atrás, CAPITÃO SKY E O MUNDO DO AMANHÃ (Sky Captain and the World of Tomorrow, 2004, EUA. Dir: Kerry Conran). Permitam-me arejar vossas memórias: na época do seu lançamento, esta produção relativamente barata (custou 40 milhões de dólares) era saudada com comentários tipo "a revolução do cinema", graças à tecnologia que permitiu que cenários e personagens fossem inteiramente criados por computador, enquanto os atores de carne-e-osso atuavam diante de uma tela azul. Revistas especializadas deram capa e falaram maravilhas sobre a obra, e críticos tipo aquele que é piada em conversas de cinéfilo tascaram cinco estrelinhas, maravilhados com o que viram. Dá até uma sensação de déja-vu agora com "Avatar"...

Ironicamente, ao contrário do que está acontecendo com "Avatar", o público não se sensibilizou: mesmo com orçamento relativamente baixo, o filme acabou nem se pagando, e a "revolução do cinema" foi rapidamente esquecida. Nem é difícil entender o porquê: como parece ser o caso também agora com o filme de James Cameron, a única atração de "Capitão Sky..." são os efeitos digitais, que criam um "mundo novo" (com visual retrô dos anos 30-40), mas sem que exista uma história interessante ou minimamente diferente para prender o interesse do espectador, que logo cansa daquele gigantesco videogame não-interativo.

A intenção do diretor-roteirista de primeira e única viagem era criar um herói de ação com sua própria série, estilo Indiana Jones, mas o Capitão Sky de Jude Law não teve fôlego para justificar a realização de novas aventuras, perdido em cenas de ação frouxas e nitidamente falsas, personagens fracos e sem carisma e uma história inexistente que parece ter sido escrita às pressas. Assim não há visual fantástico que salve, e ainda que o filme tenha algumas qualidades (tipo os robôs, alguns cenários e a piada da cena final), serve mais como prova de que às vezes é cedo falar em "revolução do cinema", pois quem faz este julgamento de valor é o tempo.

Veremos se "Avatar" terá o mesmo destino do Capitão Sky...

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

HOLLYWOOD BOULEVARD 2 (1989)


Diz a lenda que HOLLYWOOD BOULEVARD 2 foi filmado em 1989, mas lançado comercialmente apenas no ano de 1992. Hoje, percebe-se uma irônica coincidência na data de lançamento: no mesmo ano de 92, Robert Altman produziu o impagável "O Jogador", uma demolidora sátira aos bastidores da indústria de cinema de Hollywood. Ora, pois HOLLYWOOD BOULEVARD 2 é exatamente o outro lado da mesma moeda: uma demolidora sátira aos bastidores da indústria de cinema de BAIXO ORÇAMENTO de Hollywood, sendo que o próprio filme foi produzido com baixíssimo orçamento.

Trata-se, como o título já anuncia, de uma obscura seqüência da comédia dirigida por Joe Dante e Allan Arkush em 1976. Enquanto o original nunca foi lançado no Brasil, a seqüência chegou com o título "Um Filme Muito Louco" pela F.J. Lucas. E o termo "seqüência" é generoso, já que esta suposta "Parte 2" é apenas uma refilmagem disfarçada do original.


Naquela época, a Concorde (produtora de Roger Corman) estava entupindo as locadoras com novas versões dos seus clássicos dos anos 70 - são da mesma época os remakes de "Piranha" e "Humanoids from the Deep", além de seqüências picaretas do tipo "Rock'n'Roll High School Forever".

A trama é basicamente a mesma do filme de 76: Candy Chandler, uma jovem e ingênua aspirante a atriz, muda-se para Hollywood e acaba arrumando emprego como figurante das produções bagaceiras da Miracle Pictures (cujo impagável slogan, como no primeiro filme, é: "Se for um bom filme, é um Milagre"). Ela se apaixona pelo roteirista Woody (Ken Wright, de "O Príncipe das Sombras"), e acaba ganhando o papel principal quando todas as outras atrizes da Miracle Pictures morrem em misteriosas explosões - alguém da equipe parece estar sabotando as produções com intenções misteriosas.


Enquanto o original tinha a bonita Candice Rialson no papel principal, HOLLYWOOD BOULEVARD 2 ganha disparado na comparação ao colocar a ex-atriz pornô e musa da geração "anos 80" Ginger Lynn Allen como estrela, em um dos seus poucos destaques em filmes não-pornográficos. E é claro que a moça não se faz de rogada na hora de aparecer nua, mostrando os peitinhos numa divertida cena de sexo protagonizada diante de uma tela de cinema que exibe imagens de cavalos e cabras!

Mas esta talvez seja a única qualidade desta continuação/refilmagem comandada por Steve Barnett (que anos depois dirigiria o divertido terror-gore "Pesadelo Futuro". O velho Guia de Filmes Nova Cultural, que às vezes tinha seus momentos de sabedoria, definiu muito bem: "O humor é mais caótico do que engraçado". Bem por aí, e fico imaginando para que tipo de público estavam produzindo esta suposta "comédia", que não se decide entre fazer piadas infantilóides, cinismo, sátira ou humor negro.


Além disso, a maior parte de HOLLYWOOD BOULEVARD 2 é "Hollywood Boulevard 1" com outros atores e as melhores piadas repetidas. Há o diretor estrangeiro metido a Stankey Kubrick, mesmo quando dirige produções classe Z sobre amazonas peladas (papel feito por Paul Bartel no original, e aqui assumido pelo desconhecido Kelly Monteith); a ambiciosa atriz veterana que não suporta ver uma estreante conseguindo os melhores papéis (Mary Woronov em 1976, a desconhecida Michelle Moffett aqui) e o roteirista pau-pra-toda-obra que vai mudando páginas dos roteiros conforme a necessidade financeira (Wright, substituindo Jeffrey Kramer do original).

Assim como o filme de Dante e Arkush, HOLLYWOOD BOULEVARD 2 é uma irônica sátira ao universo do cinema barato, com algumas divertidas piadas auto-referenciais, como o diretor se queixando ao produtor que o dinheiro sempre vem antes da arte (isso enquanto filma cenas com um bando de gostosas de shortinho metralhando soldados nas Filipinas!), ou a figurante reclamando que suas cenas são apenas uma desculpa para mostrar os peitos e a bunda (a reclamação é feita, ironicamente, enquanto ela mostra os peitos e a bunda).


Além disso, os dois filmes foram realizados a partir de cenas de outras produções de Roger Corman, adicionadas habilmente na montagem de forma que não se percebe a "malandragem". Se o original usava cenas de "Ano 2000 - Corrida da Morte" e "Big Bad Mama", como se fossem os filmes que a Miracle Pictures estava realizando, esta nova versão traz incontáveis trechos de filmes de ação filipinos, aventuras com amazonas (provavelmente tirados de "Amazons" ou "Barbarian Queen"), lutas medievais (cenas saídas de "Deathstalker 2") e ficções científicas bagaceiras.

Chega um ponto em que uma das personagens declara: "Filmes são ilusão!". Considerando o próprio HOLLYWOOD BOULEVARD 2, a declaração torna-se ainda mais verdadeira: é só as atrizes aparecerem disparando metralhadoras ou entrando num helicóptero que a edição corta diretamente para cenas tiradas de outros filmes, numa costura hábil que até engana - acredito que os realizadores tenham filmado apenas uns 40% de novas cenas, e o resto é tudo trechos reaproveitados!


Mas a repetição desta técnica de colagem cansa, e logo perde a graça tentar adivinhar de que filme foram "emprestadas" as cenas utilizadas. Se em "Hollywood Boulevard" a brincadeira era usada com economia, na Parte 2 ela ocupa o maior tempo do filme, deixando de lado as saborosas brincadeiras com a precariedade e a guerra de egos nos bastidores da produção classe B norte-americana.

Há ainda algumas brincadeiras razoavelmente engraçadas com "Apocalypse Now" e "O Massacre da Serra Elétrica", e piadinhas nonsense advindas das comédias do trio Zucker e Abrahams, como as "legendas para cego" das fotos abaixo. Sim, este é o nível das piadas ENGRAÇADAS do filme. Agora imagine as que não são...


Mesmo com todos os seus defeitos, HOLLYWOOD BOULEVARD 2 vale como curiosidade por trazer um time de "celebridades B" em pequenas participações: Eddie Deezen ("1941") como o contador da Miracle Pictures, Robert Patrick (pré T-1000 do "Terminator 2") como cameraman, o crítico cult Joe Bob Briggs como ele mesmo e o diretor Barnett como o rapaz da claquete; numa festa da turma do cinema, também aparecem o produtor Corman e os diretores Joe Dante, Deborah Brock ("Slumber Party Massacre 2"), Howard Cohen ("Deathstalker 4"), Jim Wynorski ("Chopping Mall"), Rod Lurie ("A Última Fortaleza") e Allan Arkush (que co-dirigiu o original). O IMDB também anuncia uma ponta de Traci Lords "as himself", mas não consegui visualizar a musa no filme.

Menos divertido que o original, HOLLYWOOD BOULEVARD 2 também vale como um dos poucos filmes a representar de maneira apaixonada, embora satírica, o universo do cinema independente e bagaceiro - algo que Tim Burton levaria à perfeição no maravilhoso "Ed Wood", de 1994.

Todo fã de cinema ou realizador independente tem a obrigação de conhecer essas produções, não só para ver a balbúrdia que acontece por trás das câmeras, mas também para reconhecer o esforço desses malucos que transformam sonhos em imagens (mesmo que estes sonhos envolvam loiras seminuas disparando metralhadoras nas Filipinas).

Trailer de HOLLYWOOD BOULEVARD 2


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Hollywood Boulevard 2 (1989/1992, EUA)
Direção: Steve Barnett
Elenco: Ginger Lynn Allen, Kelly Monteith,
Eddie Deezen, Michelle Moffett, Ken Wright
e um monte de participações especiais.