sexta-feira, 27 de novembro de 2009

O LIMITE DA TRAIÇÃO (1987)



Poucos cineastas levaram tão a sério a proposta "filme pra macho" quanto Walter Hill, o homem por trás de sucessos como "48 Horas" e "Warriors - Os Selvagens da Noite". Num mundo injusto como esse nosso, Hill anda sumido das telas já há um tempinho, talvez se recuperando do fracasso da bomba "Supernova", com James Spader.

E enquanto ele não volta em grande estilo, nada melhor do que fazer uma retrospectiva de sua obra. O LIMITE DA TRAIÇÃO, de 1987, é um dos seus filmes menos comentados, mas um dos melhores de um carreira cheia de filmaços. Uma imagem diz mais que mil palavras, não é verdade? Pois que tal cinco imagens:


Em primeiro lugar, O LIMITE DA TRAIÇÃO é interessante por ser um western contemporâneo, uma tendência de muitas produções dos anos 80 (veja também o clássico do SBT "McQuade, O Lobo Solitário", com Chuck Norris).

A ambientação na árida e empoeirada fronteira do Texas com o México é puro western, o personagem principal (um ranger durão e de poucas palavras) é puro western, há um duelo final entre herói e vilão que é puro western... Enfim, o filme é um western dos anos 80, em que o "xerife" usa uma pistola automática e os bandidos, metralhadoras.

Em segundo lugar, esta obra menos conhecida de Hill tem um dos maiores elencos "cult" já reunidos fora de um filme do Tarantino, com os durões Nick Nolte, Powers Boothe, Michael Ironside, Rip Torn, Clancy Brown, William Forsythe e Tommy "Tiny" Lister Júnior e UMA ÚNICA MULHER, a "vai ser caliente assim lá em casa" Maria Conchito Alonso. Enfim, é tanta cara de mau, barba por fazer e testosterona que transforma filmes tipo "Comando para Matar" e "Stallone Cobra" em comédia romântica!


A partir de uma história de John "Amanhecer Violento" Milius e Fred Rexer, o roteiro de Deric Washburn e Harry Kleiner começa apresentando um grupo de soldados ligados por um misterioso detalhe: todos foram considerados mortos em combate, apesar de estarem vivinhos da silva.

Liderados pelo major Paul Hackett (Ironside, caprichando na cara de malvado), os "soldados-zumbis" são interpretados por malucões tipo Clancy Brown, William Forsythe, Matt Mulhern, Larry B. Scott (o frutinha de "A Vingança dos Nerds", aqui em papel de machão) e Dan Tullis Jr. À medida que eles aparecem em cena, um letreiro informa o nome de cada um e a data e local da suposta "morte".


O destino do esquadrão secreto é a fronteira do Texas, onde quem dita as leis é o texas ranger Jack Benteen (Nolte), auxiliado pelo veterano xerife Hank Pearson (Rip Torn). A dupla já tem seus próprios problemas com o tráfico da cocaína vinda do méxico, responsabilidade de um poderoso traficante chamado Cash Bailey (Powers Boothe, um dos atores mais fodas da sua geração).

O detalhe é que o herói Jack e o vilão Cash são velhos amigos de infância que dividiram praticamente tudo na vida, da primeira vez na adolescência ao atual amor de ambos, a cantora Sarita (Maria Conchita), que antes foi mulher do traficante, mas agora está num relacionamento "chove não molha" com o ranger. Se Jack e Cash não querem bater de frente, mesmo de lados opostos da lei, será a única mulher da trama, Sarita, quem colocará fogo no barril de pólvora.


Finalmente, quando os soldados que deveriam ter morrido em combate chegam à cidadezinha, Jack descobre que eles têm um objetivo em comum: botar as mãos em Cash Bailey. Mas a trama, que parece simples, logo se revela um pouquinho mais complicada, e até o final fica difícil descobrir quem está do lado de quem e quem está traindo quem.

Poucos cineastas conseguiram seguir tão bem os passos do falecido Sam Peckinpah quanto Walter Hill, e O LIMITE DA TRAIÇÃO prova porquê: além da quantidade gigantesca de testosterona por metro quadrado, da violência sempre presente (e sempre brutal) e da trama sobre honra e amizade que remete aos "velhos tempos", este filme de Hill termina com um sangrento massacre em câmera lenta numa vila mexicana comandada por Cash, onde os personagens trocam tiros mesmo quando já estão repletos de buracos de balas, e tentam enfrentar sozinhos uma luta perdida contra um exército com dezenas de inimigos.


O roteiro nada redondinho é bastante confuso quando a gente vê o filme pela primeira vez. Afinal, duas subtramas são apresentadas separadamente (a ação dos soldados "mortos em combate" e o duelo entre os ex-amigos de infância agora em lados diferentes da lei), e lá pela metade ambas acabam se cruzando, mas sempre revelando a conta-gotas as reais motivações dos personagens. É somente no desfecho que as coisas realmente começam a fazer sentido, e por isso as sucessivas revisões do filme acabam tornando-o ainda melhor.

Na verdade, O LIMITE DA TRAIÇÃO poderia muito bem dar origem a dois filmaços. O primeiro deles, claro, seria sobre o confronto entre Jack e Cash, que cresceram juntos e foram separados pelos lados opostos da lei. Já o segundo filme seria sobre a unidade especial secreta e sua operação impecavelmente organizada para chegar até o traficante.

Com duas tramas tão complexas se entrelaçando, infelizmente sobraram algumas pontas soltas. O personagem de Powers Boothe não aparece nem é tão desenvolvido quanto poderia ser. Ainda mais por ser um vilão "de responsa", sempre vestido de terninho branco e cheirando cocaína à la Tony Montana.

A apresentação do vilão é simplesmente brilhante: Cash pega um escorpião (de verdade!) com os dedos e fica brincando com ele antes de esmagá-lo com a própria mão - diz a lenda que um bichinho real foi esmagado pelo próprio Boothe!!!


A verdade é que os personagens e situações são tão interessantes que o filme parece até curto demais. Eu adoraria ver mais aventuras com o ranger Jack Benteen, interpretado por um fantástico Nick Nolte.

O herói é tão casca-grossa que não dá um único sorriso durante o filme inteiro, disparando frases feitas como "Eu não entrego minha arma sem que alguém se machuque", ou "Se você cruzar a fronteira, seu rabo é meu!". Perto dele, o McQuade de Chuck Norris não passa de um "aspira".

E eu também gostaria de ver mais do "esquadrão-zumbi" liderado por Ironside, tão organizado que faz com que dois de seus integrantes sejam presos apenas para descobrir a quantidade de telefones e de armas na delegacia da cidade! Como eu expliquei lá em cima, as motivações dos soldados não ficam bem claras até o final, mas achei muito interessante a idéia de militares simularem a própria morte para compor uma unidade secreta de combatentes. E os seus integrantes também fazem aquele tipo durão casca-grossa.


Como frase antológica pouca é bobagem, O LIMITE DA TRAIÇÃO ainda tem mais uma invejável coleção de pérolas, que deveria fazer os roteiristas de hoje terem um pouco de vergonha na cara. Entre elas, "A única coisa pior que um político é um pedófilo", ou "Música! E que seja boa, senão eu fuzilo a banda inteira!", ou "Estamos na Era Espacial e fomos presos por um cowboy da Idade da Pedra!". Ou o belíssimo "chega-pra-lá" que Nolte dá em Ironside:

- Eu espero alguma cooperação...
- E eu espero que você saia do meu caminho!


A única coisa inexplicável é o título nacional: afinal, qual é O LIMITE DA TRAIÇÃO numa história em que praticamente todo mundo fica se traindo? Mais interessante é o título original, "Extreme Prejudice", tirado da missão da unidade liderada pelo major Hackett: "Terminate [Cash Bailey] with extreme prejudice".

Com todas essas qualidades, e mais os sangrentos tiroteios que praticamente chacinam o elenco inteiro até a conclusão (lembre-se que estamos nos exagerados anos 80, e não no "politicamente xaropento" século 21), O LIMITE DA TRAIÇÃO é um daqueles Filmaços com F maiúsculo, um tesouro perdido nas nossas videolocadoras (só saiu em VHS pela Transvídeo, cuja capinha traz um resumo da trama repleto de erros, comprovando que nem a própria distribuidora entendeu a história).


Alguém deveria relançar o filme urgentemente em DVD, e principalmente em widescreen, que valoriza ainda mais a belíssima fotografia em cores quentes (lembrando, mais uma vez, os westerns). E como talento pouco é bobagem, a trilha sonora é assinada por ninguém menos que Jerry Goldsmith.

Assim, se o que você procura é uma aventura que tenha a frase "filme para meninos" estampada em cada fotograma, O LIMITE DA TRAIÇÃO é a melhor escolha, uma reunião de sujeitos durões que não faz feio em comparação a, por exemplo, "Sete Homens e um Destino" (que tinha Yul Brynner, Eli Wallach, Steve McQueen, Robert Vaughn, James Coburn E Charles Bronson) ou "Os Doze Condenados" (com Lee Marvin, Ernest Borgnine, Jim Brown, John Cassavettes, George Kennedy, Telly Savallas, Donald Shuterland E Charles Bronson de novo!).

E vale conhecer o filme agora até como uma preparação para "o grande filme de macho" dos últimos tempos, que estréia em 2010: "Os Mercenários", dirigido por Sylvester Stallone, que trará a explosiva combinação, num mesmo filme, de Stallone, Jason Statham, Jet Li, Dolph Lundgren, Eric Roberts, Mickey Rourke, Bruce Willis, Gary Daniels E Arnold Schwarzenegger!!! Ainda bem que testosterona não é uma substância ilegal (e só faltou mesmo Chuck Norris e Van Damme para completar a festa!).

Trailer de O LIMITE DA TRAIÇÃO



Teaser trailer de O LIMITE DA TRAIÇÃO


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Extreme Prejudice (1987, EUA)
Direção: Walter Hill
Elenco: Nick Nolte, Powers Boothe,
Maria Conchita Alonso, Michael
Ironside e Clancy Brown.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

...E PER TETTO UN CIELO DI STELLE (1968)


Quando eu li em algum lugar que ...E PER TETTO UN CIELO DI STELLE tinha uma das cenas iniciais mais lindas da história do western spaghetti, achei que era um pouco de exagero. Afinal, como alguém poderia fazer melhor que a maravilhosa introdução de "Era Uma Vez no Oeste", de Sergio Leone, por exemplo? Então resolvi conferir in loco. E o filme dirigido por Giulio Petroni (do clássico "A Morte Anda a Cavalo") começa assim...

...uma diligência cruzando uma planície desértica é atacada por um numeroso grupo de bandidos a cavalo. Os facínoras enchem o veículo de tiros, até que um deles consegue matar o condutor e parar a diligência. De dentro dela, tiram os cadáveres de um homem e de uma linda garota loira, e dão o tiro de misericórdia num segundo homem que ainda estava vivo. Mas os bandidos não tocam em nada, nem roubam nada. Esperavam encontrar alguém que DEVERIA estar na carruagem, mas não está. Furioso, o líder comanda a fuga, deixando para trás o cenário do massacre completamente inútil. A câmera então se aproxima lentamente da diligência cheia de buracos de bala, a música extremamente triste de Ennio Morricone (orquestrada por outro mestre, Bruno Nicolai) começa a tocar, e a cena - brilhante - termina num close do rosto sem vida da loira. Até que uma mão entra no quadro e limpa a areia do rosto da morta. É a mão de Giulianno Gemma, o homem que os bandidos esperavam encontrar na carruagem!


Sim, amigos, a cena inicial é belíssima, e só ela já valeria pelo filme inteiro. Felizmente, este western diferente tem outras qualidades que o colocam um pouco acima da média das produções do período.

O triste massacre inicial logo dá lugar ao encontro do personagem de Gemma, que se chama Tim Hawkins, com o do garimpeiro Harry (interpretado por Mario Adorf), que passava por ali minutos após o ataque à carruagem. Silenciosamente, os dois desconhecidos cavam sepulturas para os quatro mortos que nem conhecem, e então seguem até uma cidade próxima, onde acabarão se tornando parceiros de aventuras.

O que nem Harry e nem o espectador sabem, ainda, é que Tim é um grande trapaceiro, que pasará o restante do filme aplicando golpes no "amigo" garimpeiro e em outros personagens secundários. Após roubar as pepitas de ouro que Harry passou seis meses garimpando, os dois acabam o restante do filme juntos, com o pobre homem lesado forçando o espertalhão a reaver sua grana.


Mas, desde o começo, sabemos que o garimpeiro bonachão não é o único que quer a cabeça do simpático golpista: aquela violenta quadrilha que matou os inocentes ocupantes da diligência, liderada pelo sádico Roger Pratt (em excelente interpretação de Federico Boido, com direito a cicatriz em metade do rosto e tudo mais), está caçando obsessivamente o fora-da-lei. E qualquer pessoa vista em sua companhia, como Harry, é considerada cúmplice e passa a ser perseguida também. Assim, sem querer, o garimpeiro logrado torna-se também um fugitivo e precisa associar-se ao "rival" Tim para sobreviver à caçada humana.

O mais curioso é que, após aquele início brutalmente melancólico, ...E PER TETTO UN CIELO DI STELLE desenvolve-se como um western cômico, no estilo dos filmes da série Trinity. A própria associação Gemma/Adorf lembra muitas vezes a dupla engraçadinha imortalizada por Terence Hill e Bud Spencer.

Boa parte da trama cobre os golpes engraçados que Tim e Harry aplicam durante a fuga para conseguir algum dinheiro, o que envolve desde abrir um serviço de telégrafo com mensagens para todos os Estados Unidos (quando o aparelho nem ao menos tem fio!) até seduzir uma bonita viúva (a lindíssima Magda Konopka, de "Blindman"), na mesma tarde do funeral de seu marido! Mas, como Harry faz o tipo trapalhão estilo Bud Spencer, sempre arruína todos os golpes no final.


Já Tim faz aquele estilo vigarista simpático, com quem o espectador se identifica - mesmo sabendo que ele está lesando pobres pessoas inocentes. Não gosta de usar armas e deixa o trabalho pesado para o "colega" Harry, que protesta: "No Oeste, você vive pouco sem ter uma pistola". Mas Tim retruca: "Eu prefiro usar o cérebro".

Eu normalmente não gosto muito destes westerns cômicos (alguns pesquisadores do western spaghetti alegam que esse tipo de produção foi responsável pela morte prematura ao ciclo), mas ...E PER TETTO UN CIELO DI STELLE fica acima da média, e especialmente das aventuras mais leves e inocentes de Terence Hill e Bud Spencer. Isso porque, apesar de investir numa trama bem humorada, o filme ainda tem cenas bastante tristes e um tom melancólico, reforçado pela belíssima música de Morricone/Nicolai.


Embora Tim seja um protagonista simpático, logo fica claro que ele é encrenca para todas as pessoas que se relacionam com ele. Perto do final, um simpático casal de artistas, que apresenta um espetáculo de freakshow (uma falsa sereia), é impiedosamente morto pelos homens de Pratt, numa cena inesperada e bastante dramática, que arruína totalmente o clima de humor em que o filme investia até então.

É quando entra em cena o pai de Roger, Samuel Pratt (interpretado por Anthony Dawson, um dos vilões de "007 Contra o Satânico Dr. No"). Ele revela a verdade sobre Tim: o estelionatário do Oeste na verdade era um pistoleiro chamado Blly, que integrava a quadrilha dos Pratt. Rápido e mortal no gatilho, ele cansou da vida de crimes e resolveu "se aposentar".

Perseguido pelo patriarca Samuel, que não aceitou a "demissão", Billy/Tim matou dois dos filhos do criminoso na fuga, o que deu início à caçada sem trégua movida pelo único filho restante, Roger. Tudo se encaminha para o tradicional confronto final e uma conclusão que também é bastante triste, e somente valoriza ainda mais este belo filme.


Sempre é bom esclarecer a confusão dos títulos nacionais da obra: "Quem Dispara Primeiro?" é o título genérico e nada inspirado adotado pela distribuidora Ocean no recente relançamento do filme em DVD. Segundo uma troca de mensagens postadas na minha comunidade Bangue-Bangue à Italiana, no Orkut, o primeiro título do filme, quando foi exibido nos cinemas nacionais, também era genérico: "A Pistola é Minha Bíblia". Finalmente, em VHS (e posteriormente num primeiro DVD bagaceiro), a distribuidora CineArt optou por um terceiro título, este enganoso: "A Vingança de Ringo" (um personagem interpretado por Giuliano Gemma em outros filmes).

Vale ressaltar que todos estes três títulos ficam bem longe da poesia do original, "E Por Teto um Céu Cheio de Estrelas", que diz respeito tanto aos vários mortos que tombam ao longo da narrativa quanto às noites que Tim e Harry passam na velha cabana de um rancho herdado pelo garimpeiro, e cujo telhado tem um enorme buraco que permite ver o céu e as estrelas.

Bastante diferente de outros clássicos do western spaghetti, já que o protagonista aqui prefere usar mais a malandragem do que a pistola (e passa a maior parte do filme FUGINDO dos seus perseguidores ao invés de enfrentá-los, mesmo sendo um ás do gatilho), ...E PER TETTO UN CIELO DI STELLE vale ainda pelos ótimos tiroteios da metade para o fim - a primeira vez que o personagem de Gemma é obrigado a mostrar sua destreza no uso da pistola é sensacional e inesperada!


Por isso, mesmo aqueles que, como eu, não são lá muito chegados em westerns mais engraçadinhos podem arriscar, pois deverão encontrar boas qualidades nesse filme do Petroni. Especialmente quando o diretor surpreende ao quebrar o tom de humor para mostrar como era dura e violenta a vida do Velho Oeste. Quem procura por um western dos bons não pode deixar passar essa bela obra.

Dica: Vale a pena comprar o DVD Duplex lançado pela Spectra Nova. Normalmente, os DVDs de western spaghetti lançados no Brasil são um lixo, mas este surpreende por trazer uma imagem cristalina em letterbox e ainda, como programa duplo, o excelente "Blindman", de Ferdinando Baldi, cuja cópia também é em letterbox e sem cortes. Uma bela (e barata, cerca de R$ 9,90) aquisição para colecionadores do gênero.

Trailer de QUEM DISPARA PRIMEIRO?


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...E Per Tetto un Cielo di Stelle
(1968, Itália)

Direção: Giulio Petroni
Elenco: Giuliano Gemma, Mario Adorf,
Magda Konopka, Federico Boido, Anthony
Dawson e Julie Menard.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

CINCO PARA O INFERNO (1969)


Depois de ver e rever o extraordinário "Bastardos Inglórios", novo e provavelmente melhor filme de Quentin Tarantino, dá a maior vontade de igualmente ver ou rever todas aquelas divertidas produções sobre a Segunda Guerra Mundial que influenciaram e inspiraram o diretor. Principalmente, claro, aquelas amalucadas aventuras de guerra produzidas na Itália, e que às vezes lembram mais os inconseqüentes western spaghetti do que propriamente uma visão mais "realista" do conflito. CINCO PARA O INFERNO é uma dessas bizarras aventuras, que de lambuja ainda traz vários elementos reaproveitados agora no filme do Tarantino.

O filme é assinado por um tal de "Frank Kramer", na verdade Gianfranco Parolini, que também dirigiu vários faroestes italianos do período, inclusive o primeiro da série Sartana ("Se Incontri Sartana Prega per la Tua Morte", de 1968). Parolini manteve o espírito dos "spaghetti" também nesta aventura de guerra. Inclusive reaproveitou o ator Gianni Garko (creditado "John Garko"), que ficou imortalizado como os pistoleiros Sartana e Camposanto em uma série de bangue-bangues à italiana. Ainda novinho e sem bigode, Garko aqui está a cara do Thomas Jane!


Os primeiros 15 minutos de CINCO PARA O INFERNO são pura sátira e comédia-pastelão, quase lembrando algum filme da dupla Terence Hill e Bud Spencer na Segunda Guerra Mundial - inclusive a música-tema, em tom de farsa, parece anunciar uma comédia. Basicamente, as cenas iniciais mostram o tenente Aldo Raine, ou melhor, Glenn Hoffmann (Garko), circulando de jipe por uma base de treinamento de soldados norte-americanos, recrutando os melhores de cada batalhão para fazer parte de um grupo secreto, os "Inglorious Basterds" - ops, esqueça esta última parte, que é de um outro filme.

Os selecionados são o sargento Sam McCarthy (Luciano Rossi, de "Django, O Bastardo"), um ginasta que faz acrobacias usando uma cama elástica; os soldados Johnny "Chicken" White (Sam Burke, de "Eu Sou Sartana"), que é especialista em explosivos; Al Siracusa (Sal Borgese, de "The Big Racket"), um experiente arrombador de cofres, e finalmente Nick Amadori (Aldo Canti, astro de filmes de gladiadores do anos 60, creditado como "Nick Jordan"), um gigante cujo papel, claro, é massacrar os inimigos.


O primeiro ataque do grupo de cinco homens é a uma bem-vigiada base nazista, culminando com o arrombamento de um cofre onde estariam planos secretos do Terceiro Reich. É quando aparecem os superiores dos soldados, explicando que aquilo era apenas um teste da habilidade do grupo, e elogiando aos cinco pelo sucesso da simulação.

Passada essa cena inicial mais cômica, nossos heróis finalmente recebem a sua missão verdadeira: vestidos como civis, eles precisam infiltrar-se numa bem-vigiada base nazista para arrombar o cofre onde está o temido Plano K, contendo todos os detalhes de uma ofensiva diabólica de Hitler contra os Aliados.


O problema para os heróis aparece na forma de um maligno coronel da SS chamado Hans Landa, ops, Hans Mueller, interpretado por ninguém menos que Klaus Kinski. Numa interpretação fantástica, Kinski hipnotiza o espectador com aquele seu olhar gélido, fazendo-nos lamentar o pouco tempo em cena do seu personagem.

O coronel nazista é tão mau, mas tão mau, que na sua primeira cena ele já aparece atiçando dois enormes cães contra um indefeso gatinho. Depois, demonstra ter mais apreço pelos cães da base do que pelos seus soldados. Imagine então o que ele vai fazer com os seus inimigos...


Depois daquele duvidoso início engraçadinho, CINCO PARA O INFERNO muda de tom e vira nitroglicerina pura. Os cinco agentes secretos seguem seu rumo até a base, exterminando todos os nazistas que encontram pelo caminho, e, chegando ao alvo, precisam seguir à risca um rigoroso plano para invadir o lugar e roubar os planos, onde cada um dos cinco terá um papel fundamental para ultrapassar obstáculos como a cerca eletrificada, o alarme que impede a abertura do cofre, os nazistas que vigiam a base, e por aí vai.

Só que o coronel Mueller está sabendo do ataque iminente ao seu quartel-general, pois descobriu que uma das suas oficiais, Helga Richter (Margaret Lee, de "Casanova 70"), é uma agente dupla que ajuda os Aliados.


Toda a cena do ataque à base é simplesmente eletrizante, incluindo uma boa dose de suspense - principalmente graças às tentativas de Helga de desativar o alarme do cofre no quarto de Mueller, enquanto finge seduzir o vilão. E logo o quinteto vai ter que mostrar que é bom no gatilho, cercado de soldados nazistas por todos os lados, numa fuga desesperada da base que lembra o clássico "Os Doze Condenados", de 1967.

Aliás, o filme de Parolini parece uma versão "reduzida" desta famosa aventura, apenas trocando os prisioneiros recrutados por soldados rebeldes, e, obviamente, diminuindo o grupo em sete pessoas, talvez pelas óbvias limitações orçamentárias.

Fica a dica: suporte os 15 minutos iniciais de CINCO PARA O INFERNO, que têm um tom totalmente diferente do resto do filme (imposição dos produtores, talvez?), pois a coisa só começa realmente a esquentar depois desta primeira cena - e a cena final é muito bem-feita e IMPERDÍVEL.


A música de Elsio Mancuso ("Eu Sou Sartana") nem sempre acerta o alvo (aquela trilha engraçadinha, utilizada diversas vezes ao longo do filme, é dose). Mas há um tema dramático, que embala as cenas mais "sérias" da película, que é simplesmente extraordinário, lembrando muitas composições do mestre Ennio Morricone - não se espante se uma hora dessas o Tarantino pegar emprestado para algum dos seus filmes.

Claro, que ninguém espere uma trama "tarantinesca", cheia de reviravoltas, traições e surpresas. Afinal, Parolini nada mais faz do que uma aventura de guerra simples e eficiente, a tradicional história de "men in a mission". Por isso, para quem busca ação, o filme está repleto de tiroteios, explosões e um dos maiores massacres de nazistas de todos os tempos, no ataque à base no final, quando até a cerca eletrificada se transforma em arma para extermínio em massa de vilões!


É bom ressaltar ainda que o roteiro de CINCO PARA O INFERNO, escrito por Parolini e Renato Izzo a partir de uma história de Sergio Garrone (diretor de "Django, O Bastardo"), não se preocupa muito com a lógica e só quer divertir, trazendo diversos elementos absurdos e humorísticos.

Afinal, como engolir, numa história "séria", o fato do sargento McCarthy conseguir eliminar ninhos de metralhadora apenas com as acrobacias feitas na sua cama elástica portátil, carregada de um lado para o outro pelos companheiros? Ou o fato de o tenente Hoffmann arremessar uma bola de beisebol especialmente modificada para desacordar vilões e até explodir coisas?

Já uma piada impagável do filme mostra os cinco Aliados, disfarçados como nazistas, fingindo que rezam numa pequena igreja. Duas senhoras que testemunham a cena comentam entre elas: "Até que estes nazistas não são tão ruins quanto a gente pensava". hehehehe.


O elenco é ótimo e entrega interpretações antológicas, principalmente Garko como o divertido tenente Hoffmann (adotando um estilo "fodão com bom humor" que depois veríamos Brad Pitt adaptar em "Bastardos Inglórios") e Kinski como o maléfico coronel da SS (e, mais uma vez, é uma pena que o seu personagem apareça tão pouco; quem sabe se CINCO PARA O INFERNO tivesse 2h30min, como "Bastardos Inglórios"...).

Os atores que compõem os "Cinco Para o Inferno" também conseguem compor personagens simpáticos por quem o espectador torce, lamentando o final trágico de alguns. E, como no filme do Tarantino, aqui também as (poucas) mulheres são ardilosas, fatais e atiram pelas costas...

Isso tudo, somado à direção precisa de Parolini, resulta num passatempo acima da média, um híbrido muito divertido e interessante entre filme de guerra e western spaghetti, que com certeza Tarantino deve ter visto várias vezes antes de escrever "Bastardos Inglórios". Pena que a obra permaneça quase desconhecida no Brasil, onde foi lançada há mil anos em VHS (pela Nacional Vídeo), na tradicional versão "fullscreen".


Quem sabe agora, com o sucesso do filme do Tarantino, algumas destas pérolas não cheguem ao país em DVD? Aliás, chega a ser irônico, mas o único DVD decente do filme lá fora, em edição "uncut, digitally restored and widescreen", é ALEMÃO, com o título "Todeskommando Panthersprung"!!! O disco pode ser importado via Amazon e tem áudio em alemão, italiano e inglês, além de imagem simplesmente impecável, extremo oposto da versão bagaceira disponível nos EUA, e que vem dentro de um daqueles boxes com vários filmes de um mesmo tema, todos VHS-Ripados sem qualquer qualidade.

Claro que, como no caso de "Bastardos Inglórios", é preciso ter em mente que CINCO PARA O INFERNO é um filme de guerra sem qualquer pretensão com fidelidade histórica ou realismo - está mais para "Assalto ao Trem Blindado", do Enzo G. Castellari, do que para o pretensioso "O Resgate do Soldado Ryan", do Spielberg.

O único objetivo de Parolini e de seus atores é divertir, a exemplo de outras pérolas italianas sobre o mesmo tema, e não tentar ser real ou fiel aos livros de história. Até porque as páginas dos livros de história nunca disseram nada sobre nazistas sendo nocauteados por bolas de beisebol. Ou será que eu matei aula justo nesse dia?

Trailer de CINCO PARA O INFERNO


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5 per L'Inferno/ Five for Hell
(1969, Itália)

Direção: Frank Kramer (Gianfranco Parolini)
Elenco: John Garko (Gianni Garko), Klaus
Kinski, Luciano Rossi, Margaret Lee, Sal
Borgese e Sam Burke.




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UM ANO (e um mês) DE FILMES PARA DOIDOS!

Confesso a vocês, queridos leitores, que sou péssimo para recordar datas de aniversários, embora minha memória guarde dados tão inúteis quanto os vários pseudônimos usados por Bruno Mattei ou os nomes dos figurantes de filmes de ação bagaceiros produzidos na Indonésia.

Acreditem ou não, eu não consigo lembrar nem mesmo o dia do aniversário dos meus pais (só lembro o mês!). Talvez eu esquecesse o meu próprio aniversário, caso ele não caísse num feriado nacional, 7 de setembro.

E foi por esse meu crônico problema com aniversários que deixei passar a comemoração de 1 ANO DE FILMES PARA DOIDOS, no dia 10 de outubro (o presente para os leitores acabou sendo o meu comentário sobre "Bastardos Inglórios", postado na véspera, dia 09/10).

Bem, o que dizer quando um blog criado meio na brincadeira completa 1 ano de existência e, por incrível que pareça, ainda mantém um grupo de leitores fiéis? Talvez um "muito obrigado" por prestigiarem minhas mal-traçadas (e intermináveis) linhas, e a garantia de que continuarei por aqui mais um bom par de anos, sempre escrevendo sobre aqueles filmes que ninguém parece muito interessado em comentar.

Não sei se isso é motivo de orgulho ou não, já que não tenho comparativos, mas neste 1 ano de existência, os noventa-e-poucos posts do FILMES PARA DOIDOS foram visitados (e lidos, talvez) por mais de 115 mil pessoas. Vá lá que a maioria deve ter sido atraída por tags como "X-Rated" e buscas tipo "maconha em Amsterdã", mas o que vale é o número!

Portanto, encerro essa comemoração atrasada de aniversário no ritmo de CINCO PARA O INFERNO, deixando aqui um "muito obrigado" também do Gianni Garko para todos aqueles que acompanham religiosamente (e pacientemente) o FILMES PARA DOIDOS.


1 ano combatendo o ANALFABETISMO FUNCIONAL!!!