domingo, 27 de setembro de 2009

O GRANDE GOLPE (1956)


Sempre que um diretor ganha status de gênio ou se transforma em lenda, é comum que seus primeiros filmes sejam esquecidos, ou considerados "produções menores" em comparação aos clássicos que dirigirá posteriormente.

Foi assim, por exemplo, com Francis Ford Coppola, que antes de "O Poderoso Chefão" e "Apocalypse Now" dirigiu um pequeno filme de horror produzido por Roger Corman, "Dementia 13", que a maioria dos cinéfilos costuma descartar (embora seja ótimo). Foi assim também com Spielberg: muitos de seus fãs nunca viram o clássico "Encurralado", um de seus primeiros e melhores filmes.

E tem também o Stanley Kubrick. Cinéfilos de todas as idades se divertem tentando eleger os melhores filmes desse grande diretor, e é claro que figurinhas carimbadas, como "2001", "Laranja Mecânica" e "Dr. Fantástico", normalmente dominam os "Top Ten" do diretor. No caso de uma filmografia praticamente impecável, como a de Kubrick, é até comum dar menos importância para seus primeiros filmes, aqueles que ele fez ainda jovem e com pouca influência no mundo do cinema.


Mas não se engane: O GRANDE GOLPE, que é apenas o terceiro filme do diretor, é uma daquelas obras-primas esquecidas que teve maciça influência na cultura pop. Também é, provavelmente, um dos melhores filmes de roubo da história. Mesmo assim, raramente aparece em qualquer "Top Ten" de Kubrick. Eu, pelo menos, o colocaria entre os cinco melhores do diretor, sem pensar muito.

Lembro que só descobri que O GRANDE GOLPE existia depois de ter visto "Cães de Aluguel", no começo dos anos 90. Um ex-colega de trabalho falou maravilhas e praticamente me obrigou a ver, contando o filme inteiro como uma forma de me preparar para a cena final: "O cara tem um trabalhão para inventar um plano perfeito, todo mundo morre, aí ele vai para o aeroporto tentar fugir com todo aquele dinheiro e... Bom, aí tu tem que ver o que acontece", relatou o saudoso ex-colega, completando: "Dá dez a zero no 'Cães de Aluguel', e deve ser um dos melhores finais de filme de todos os tempos!".

Resultado: abobalhado pela propaganda feita, tive que ficar acordado até umas quatro da manhã para poder gravar o filme do Corujão, quando a Globo ainda passava esses clássicos na madrugada (afinal, ele não havia sido lançado em VHS no Brasil, e o DVD só chegaria quase uma década depois). Foi só aí que percebi como o incensado filme do Tarantino era bastante inspirado no de Kubrick, além, é claro, de pegar diversas idéias de "Perigo Extremo", do Ringo Lam.


Quando Kubrick fez O GRANDE GOLPE, ele já tinha certa moral no mundo do cinema por causa do sucesso do seu segundo trabalho, o estiloso "A Morte Passou por Perto" (1955).

Dessa vez, o diretor resolveu adaptar o livro "Clean Break", de Lionel White. Escreveu um roteiro não-linear e chamou Jim Thompson, um famoso autor de "pulp fictions" da época ("Os Implacáveis", do Peckinpah, foi baseado em livro dele), para criar diálogos memoráveis. E que diálogos: "Você tem um maço de dólares onde as outras mulheres têm um coração", "Moça, você tem uma bela cabeça sobre os ombros. Quer mantê-la aí ou sair carregando nas mãos?", e nessa linha vai.

O GRANDE GOLPE trata do minucioso planejamento de um crime perfeito. Johnny Clay (Sterling Hayden, nome imposto pelo estúdio, mas ótimo no papel) é um criminoso que acabou de sair da cadeia e está disposto a dar o "grande golpe" para poder curtir o resto da vida como milionário.


O objetivo é roubar dois milhões de dólares (um dinheirão na época; se bem que hoje também é, pelo menos para mim!) de um hipódromo, bem no dia de uma grande corrida de cavalos que vai levar uma multidão ao local, inflacionando as apostas.

Para poder praticar o crime, Clay se alia a um grupo de homens que não são exatamente bandidos, mas apenas pobres-coitados com dificuldades financeiras, cuja posição e área de atuação pode ajudar na realização do assalto: George Peatty (Elisha Cook, de "House on Haunted Hill") é um dos caixas do hipódromo e quer usar a sua parte do dinheiro para comprar o amor da esposa adúltera, Sherry (Marie Windsor); Randy Keenan (Ted de Corsia) é um policial que precisa da grana para ajudar a esposa doente... Enfim, todos têm seus motivos, e não são exatamente caras malvados - apenas Clay é um bandidão no concreto sentido do termo.

Na primeira metade do filme, todo o plano é meticulosamente planejado para funcionar como um relógio. Clay também contrata alguns "peões" para provocar distrações e tirar a atenção sobre o assalto, como um pistoleiro (Timothy Carey) designado para matar um dos cavalos no auge da corrida, e um ex-lutador de luta livre (Kola Kwariani, que é a cara e o físico do Tor Johnson!) para iniciar uma briga de bar do hipódromo.


Quando todas as peças estão no tabuleiro, o plano acaba funcionando perfeitamente, como Clay previra, e como se fosse uma jogada de xadrez. Os problemas começam na divisão do dinheiro. Principalmente porque Sherry, a tal esposa traidora, andou contando do assalto para o seu amante, e mais gente aparece disposta a colocar a mão na bolada...

Tudo termina naquele tal final maravilhoso no aeroporto, que, como meu ex-colega de trabalho descreveu sem nenhum exagero, é uma daquelas cenas que fica marcada eternamente na memória de qualquer cinéfilo, do tipo "seria cômico se não fosse trágico".

A comparação que fiz, do plano de Clay com um jogo de xadrez, não foi gratuita e nem delírio de blogueiro que gosta de metáforas: o próprio Kubrick era um fã de xadrez, e disse ter criado O GRANDE GOLPE nos moldes de uma partida desse nobre jogo, onde a estratégia ocupa papel central e há os peões para serem sacrificados - não por acaso, um dos personagens do filme é especialista em xadrez, e seu encontro com Clay acontece num salão de jogos onde todos estão disputando partidas de... xadrez!


O filme é tão bem escrito e dirigido que funciona maravilhosamente bem, tal qual o "plano perfeito" do protagonista, criando uma tensão crescente à medida que se aproxima o momento do roubo (algo que filmes posteriores sobre "crimes perfeitos" não conseguiram nem de longe imitar).

Além disso, há a estrutura não-linear da narrativa, que, no momento do assalto, acompanha o papel de cada uma das "peças" no grande plano arquitetado por Clay.

Isso invariavelmente resulta na repetição de alguns acontecimentos (já que estamos revendo os fatos pelo ponto de vista de cada personagem), e o público da época não entendeu direito, embora o clássico "Cidadão Kane", que também traz uma narrativa não-linear, tenha sido feito anos antes.


Assim, O GRANDE GOLPE foi massacrado em algumas exibições-teste, e os produtores forçaram Kubrick a fazer uma nova montagem na ordem correta dos acontecimentos, para tentar tornar o filme mais convencional.

É claro que o diretor odiou a idéia, mas fez a remontagem mesmo assim, só para provar aos "gênios" do estúdio como a história perderia totalmente a lógica caso fosse exibida de maneira convencional. Dito e feito: os tais "gênios" se convenceram e optaram, a contragosto, pela edição "fora de ordem", mas adicionaram uma estúpida "narração para cegos" que explica detalhadamente cada cena, mesmo aquilo que o espectador está VENDO, supostamente para que os espectadores não ficassem perdidos com as idas e vindas da trama.

Ignorando essa estúpida voz do narrador, fica ainda mais fácil perceber como o filme funciona bem, com direito a uma cena belíssima, em plano-seqüência, que mostra Clay entrando no hipódromo e encontrando, ao longo do caminho, todas as peças do seu complicado plano.


E nem precisa lembrar como essa narrativa não-linear foi depois aproveitada por Tarantino em "Cães de Aluguel"... O nobre Quentin, por sinal, sempre foi um fã confesso de O GRANDE GOLPE, e quase contratou um dos seus atores (o lunático Timothy Carey) para o papel que ficou com Lawrence Tierney em "Cães de Aluguel".

Em seu terceiro filme, Kubrick já demonstrava ser mesmo um gênio, e por isso os momentos criativos não se resumem à estrutura narrativa, mas também à estética. Por exemplo, os personagens estão quase sempre na escuridão, iluminados por pequenos pontos de luz (um abajur, uma lâmpada, a brasa do cigarro), em cenas soberbas.


No final, as sombras inclusive refletem um X sobre o rosto de Sterling Hayden, lembrando sempre que a letra tinha um papel simbólico (anunciando morte, violência ou punição) em muitos filmes de gângsters da época, começando pelo "Scarface" de Howard Hawks - recentemente, Martin Scorsese homenageou essa tendência ao encher seu filme "Os Infiltrados" de letras X...

Para completar, num toque de gênio que deve ter deixado muita gente furiosa na época do seu lançamento, Kubrick desvia a câmera do alvo na principal cena do filme (a "matança" do título em inglês). Ao espectador, só resta escutar os sons dos tiros e depois ver os cadáveres espalhados pelo chão, mas sem saber quem atirou em quem e quem matou quem. Kubrick não mostra a violência, mas as conseqüências dela, numa opção estilística muito imitada desde então (como esquecer do antológico tiroteio final do incrível western "Matalo!", que adota essa mesma estratégia?).


Sem esquecer, ainda, que o truque de esconder uma espingarda no meio de flores virou clichê no cinema, aparecendo em filmes tão diferentes quanto "Um Dia de Cão", "O Exterminador do Futuro 2", "Fulltime Killer" e, mais recentemente, "Hitman". E a máscara de palhaço usada por Clay durante o assalto também pôde ser vista recentemente na cena inicial de "Batman - O Cavaleiro das Trevas", quando os capangas do Coringa, e o próprio, vestem máscaras bem parecidas.

É claro que, hoje, muito pretenso cinéfilo e pesquisador de cinema não dá a O GRANDE GOLPE a mesma importância dada a outras obras posteriores de Kubrick. Até por puro preconceito, já que esse é um legítimo filme B, ou seja, uma produção barata (custou 320 mil dólares) produzida para ser a "segunda atração" em cinemas que exibiam programas duplos - havia o "filme B" e o "filme A", que era a atração principal, um filme mais caro e melhor produzido. Na época, O GRANDE GOLPE foi exibido junto com o filme A "Bandido!", de Richard Fleischer.

Mas convém esquecer que Kubrick dirigiu genialidades posteriores para apreciar melhor essa obra-prima como o que ela realmente é: um excelente filme policial, que fica muitos degraus acima da média das produções B da época, com uma narrativa envolvente e original, ótimos personagens e situações, e aquele final que é realmente de arregalar os olhos.


Não por acaso, o sucesso do filme acabou abrindo o caminho para as grandes obras de Kubrick, quando Kirk Douglas, maravilhado com O GRANDE GOLPE, contratou o diretor para dirigir o filme de guerra "Glória Feita de Sangue".

Enfim, um CLÁSSICO que deve ser escrito em maiúsculas, mais um para a série "FILMES PARA DOIDOS POR CINEMA", e que todo mundo deveria ser obrigado a conferir uma vez na vida, nem que seja para ver aquela inesquecível cena final e saber o que acontece para motivar esse último diálogo entre o protagonista e sua namorada:

- Você precisa fugir, Johnny!
- E fugir pra quê?


Trailer de O GRANDE GOLPE


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The Killing (1956, EUA)
Direção: Stanley Kubrick
Elenco: Sterling Hayden, Coleen Gray,
Elisha Cook, Marie Windsor, Ted de
Corsia e Timothy Carey.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

THE SNIPER (2009)


Em 2008 foi "Flashback", do Wilson Yip. Em 2007, "Fulltime Killer", do Johnnie To e do Ka-Fai Wai. E nos anos anteriores eu não lembro, mas tem uma porrada de obras. Enfim, a cada ano que passa, eu sempre vejo algum filme de ação oriental acima da média que me dá a certeza de que as boas produções modernas do gênero estão sendo feitas lá pelos carinhas de olhinho puxado. Agora em 2009 não foi diferente: quem precisa dessas abobrinhas mal-filmadas, mal-editadas e repletas de efeitos digitais produzidas nos Estados Unidos quando se tem filmaços vindo do Oriente, como esse THE SNIPER?

Antes de mais nada, permitam-me fazer uma observação importante: THE SNIPER não tem absolutamente nada de excepcional, é apenas um filme de ação muito bem feito, com uma história acima da média, envolvente, trazendo belos efeitos, belos movimentos de câmera, personagens interessantes e um climático confronto final, tudo embalado por uma trilha sonora de primeira. Enfim, tudo aquilo que o cinema de ação norte-americano não consegue fazer há sei lá quanto tempo, mesmo com orçamentos de centenas de milhões de dólares (sim, estou me referindo a bobagens tipo o "Duro de Matar 4.0").


Dirigido por Dante Lam ("Heat Team", 2004) e escrito por Wai Lun Ng, o filme narra um duelo mortal entre franco-atiradores, os populares "snipers", numa aventura que remete a outras obras do gênero, como "O Atirador" (1993), de Luis Llosa, e "Círculo de Fogo" (2001), de Jean-Jacques Annaud. No caso, muito mais para o filme de Annaud, que se concentrava na rivalidade entre dois franco-atiradores, do que para a ação descerebrada do filme de Llosa, que era estrelado por Tom Berenger e Billy Zane.

THE SNIPER também é uma história sobre rivalidade e as suas conseqüências, já que seus personagens, longe de nutrirem sentimentos de heroísmo ou de "ajudar o próximo", passam o filme todo brigando para ver quem é o melhor atirador. O herói chega a resumir seu egoísmo numa frase emblemática ("Dois especialistas não podem co-existir"), enquanto faz todo o possível para mostrar que tem a melhor pontaria, mas pouco ligando para o lema de "servir e proteger" dos policiais. E sim, ele é o HERÓI do filme!!!!


A trama começa com os dois melhores snipers da polícia de Hong-Kong, Fang (Ritchie Ren, de "Exilados" e "Breaking News", ambos do Johnnie To) e Shan (Bowie Lam), salvando uma dupla de policiais de uma operação fracassada. Quando um desses policiais também se revela um atirador acima da média, ao acertar um disparo no meio dos cornos de um malfeitor, Fang resolve "adotá-lo" para o treinamento na unidade de snipers. Trata-se de Chen (Edison Chen, que interpretou a versão jovem do protagonista da trilogia "Conflitos Internos"). Ele é um jovem rebelde que não gosta de seguir ordens, mas demonstra grande habilidade no gatilho.

As primeiras cenas, que mostram o treinamento de Chen com alguns outros jovens candidatos a franco-atirador ("aspiras", segundo o Capitão Nascimento), são o grande "momento macho" do filme, ou homo-erótico, dependendo do público, já que os recrutas aparecem correndo sem camisa, com closes nos músculos e peitos suados, enquanto eles carregam seus enormes rifles de mira telescópica. Para a coisa ficar mais gay, só faltava uma discussão do tipo: "Meu rifle é maior do que o seu!".


E não demora para as coisas começarem a se complicar: Jing (Xiaoming Huang, nesse momento filmando "Ip Man 2", do Wilson Yip) é libertado da cadeia e alimenta um ódio mortal por Fang. Ele era o melhor sniper da polícia de Hong-Kong, capaz de acertar um alvo a 500 metros de distância (o maior recorde entre os atiradores), mas acabou matando um refém acidentalmente durante uma operação policial (será que ele trabalhava no Brasil?). Foi condenado a quatro anos de prisão devido ao testemunho do ex-colega Fang, pois, segundo ele, Jing teria se descontrolado no momento do tiro.

Pois Jing se alia a um grupo de criminosos e ajuda a libertar da prisão um chefão do crime, Tao (Jack Kao), o bandido que ele falhou em matar na operação de quatro anos antes. Juntos, eles pretendem roubar um carregamento de explosivos da polícia, e o sniper malvado passa o resto do filme cutucando Fang para se vingar da sua prisão, que considerou injusta. E é claro que o jovem Chen logo acaba se metendo no confronto, pois, como novo melhor sniper da polícia, ele tem ao mesmo tempo orgulho e inveja do recordista Jing.


O final eletrizante reserva um tenso duelo entre os snipers num armazém abandonado, quando Jing vai dizimando toda a unidade de Fang, até o duelo mortal com seu arquiinimigo.

Mesmo que não consiga escapar de alguns clichês comuns ao gênero, tipo o sábio mestre que ensina tudo o que sabe a um jovem rebelde, e depois luta para mantê-lo afastado do "lado negro da Força", THE SNIPER ganha muitos pontos pela narrativa dinâmica e por algumas resoluções fora do padrão, diferentes do que o espectador está acostumado a esperar desse tipo de filme de ação.

A conclusão, por exemplo, foge da burocracia típica do cinema norte-americano e desfila uma interessante sucessão de reviravoltas, trazendo à tona a verdade sobre alguns dos principais personagens. Uma delas chega a mudar totalmente o juízo que você faz de determinado personagem - tipo de revelação corajosa que só se vê nos filmes orientais.


O diretor Lam (que aparentemente não tem parentesco com o também competente Ringo Lam) também foge das soluções fáceis, e, mesmo optando por uma narrativa dinâmica e "moderninha", não cai naquela armadilha da "edição estreboscópica", com mil frames por segundo (agradecemos!!!). Aliás, bem que diretores norte-americanos metidos a cineastas orientais podiam ver filmes tipo THE SNIPER para aprender como se filma cenas de ação. Em uma única lição: usem planos mais abertos, como Dante Lam, para mostrar ao espectador o que está acontecendo, ao invés de optar pelos tradicionais supercloses com câmera tremida, que são uma praga do cinema contemporâneo.

Destaque ainda para as cenas em que os snipers demonstram sua habilidade nos corpos alheios, e para o belo momento em que a câmera segue a bala disparada por um rifle até o seu alvo, atravessando uma moeda a vários metros de distância (muitos dirão que é apenas frescura em CGI, mas ficou bem legal, como você pode conferir na seqüência de imagens abaixo).


O diretor não esconde duas influências bem visíveis: ele parece conhecer muito bem jogos de tiro com snipers, tipo "Counter Strike", e também adorou a cena em câmera lenta de "Nascido para Matar" (1987), de Stanley Kubrick, que mostra um franco-atirador fuzilando implacavelmente um soldado, já que filma uma cena bastante parecida, só que ainda mais sangrenta. Destaque também para as cenas que retratam aspectos interessantes da vida de sniper, como a importância da respiração na hora de puxar o gatilho e o exercício que os atiradores fazem para manter os dedos sempre prontos, sem tremer.

Como normalmente acontece com filmes orientais lançados no Ocidente, esse também teve os nomes dos personagens "americanizados" para soarem mais simples: Chen virou OJ (!!!), Fang tornou-se Hartman e Jing virou Lincoln. Coadjuvantes não tiveram melhor sorte, ganhando alcunhas do tipo Shane, Big Head, Crystal e até... Iceman!!!! (Alguém viu "Top Gun" muitas vezes...)


Um detalhe interessante: embora o personagem de Edison Chen seja o protagonista, ele praticamente não aparece em cena, e a montagem dá mais destaque para o duelo de nervos entre os rivais Fang e Jing. A própria duração do filme (cerca de 85 minutos) e o ritmo acelerado da narrativa fazem com que o espectador suspeite de que há coisa faltando aí. E é isso mesmo: quase todas as cenas com Chen acabaram cortadas, pois os produtores tinham medo que o filme fosse um fracasso após um escândalo sexual envolvendo o ator.

Por aqui a história é pouco conhecida (eu mesmo nem sabia disso), mas vou deixar vocês, nobres leitores, a par de tudo, já que é uma fofoca tão ou mais interessante que o próprio filme. Eis que o ator Edison Chen, que também é modelo, astro de comerciais e cantor famoso lá do lado de lá do mundo, mandou seu computador para o conserto em novembro de 2006, e assim cerca de 1.300 fotos "íntimas" do rapaz vazaram para a internet. Até aí, tudo bem, certo?

O problema é que essas fotos, feitas entre 2003 e 2006, envolviam uma porrada de mulheres, sendo que 14 delas eram super-celebridades lá em Hong-Kong, como as atrizes Gillian Chung, Bobo Chan e Cecilia Cheung. E como algumas faziam pose de boas moças na mídia, tipo umas Sandra Bullocks orientais, imagine o bafafá que foi.

Sobrou para Chen, claro, que foi considerado parcialmente culpado pelo episódio e crucificado pela mídia (olha aí embaixo a capa de uma das revistas falando sobre o escândalo; clique na imagem para ampliar). E a comoção pública foi tão grande que o ator chegou a ser ameaçado de morte.


O episódio enterrou a carreira do jovem Chen, que teve o contrato rescindido em todas as campanhas publicitárias de que participava, foi cortado na edição de "Jump", novo filme de Stephen Fung, que estréia esse ano, e também de "Batman - O Cavaleiro das Trevas", de Christopher Nolan, onde interpretava um dos capangas que apanhavam do herói na cena filmada em Hong-Kong (mesmo assim, ele aparece brevemente na recepção do edifício antes da chegada de Batman).

No caso de THE SNIPER, o filme era para ter sido lançado no ano passado, mas os produtores cancelaram a estréia e limaram o maior número possível de cenas com o "queimado" ator. Seu relacionamento atribulado com o pai criminoso e a namorada, por exemplo, se resume a uma mísera cena; se havia outras aparições destes dois familiares, elas acabaram no chão da sala de edição, o que torna a trama bastante dispersiva.

E é por isso que o personagem Chen não aparece tanto quanto seus "coadjuvantes alavancados a protagonistas". O ator nem mesmo participou da premiére do filme em Hong-Kong, que foi realizada somente agora em 2009. E, há alguns meses, chegou a dar uma entrevista dizendo que considerava o suicídio, tal o rumo que sua carreira tomou. Que coisa, hein?


Apesar dessa polêmica e da remontagem mutiladora, THE SNIPER permanece como um interessantíssimo e bem realizado filme de ação, com personagens um pouquinho mais profundos do que poderia se esperar e ótimas cenas de tiroteios envolvendo os snipers, além de uma boa dose de suspense e tensão (ótima a cena do policial no elevador com três bandidos).

A própria idéia de um inimigo sempre escondido gera bastante aflição, já que os tiros disparados pelos snipers podem vir de centenas de metros de distância!

Enfim, um tiro certeiro - melhor do que qualquer filme de ação que Hollywood possa regurgitar este ano.

Trailer de THE SNIPER


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The Sniper/ Sun Cheung Sau
(2009, Hong-Kong)

Direção: Dante Lam
Elenco: Edison Chen, Richie Ren,
Xiaoming Huang, Jack Kao, Bowie
Lam e Wilfred Lau.

domingo, 20 de setembro de 2009

TORTURA CRUEL - FÊMEAS VIOLENTADAS (1980)


Em 1974, no clássico "Desejo de Matar", Charles Bronson interpretou um homem levado ao limite após o estupro e assassinato da sua esposa, e que, para dar o troco - e ao mesmo tempo combater a violência urbana -, saía pelas madrugadas enchendo marginais de tiros. Na época, muita gente criticou a violência do personagem de Bronson e a apologia de justiça pelas próprias mãos feita pelo filme de Michael Winner, que foi um grande sucesso e gerou uma série com quatro continuações inferiores.

Mas acredite: os bandidos correriam felizes da vida ao encontro de Paul Kersey se soubessem como Tony Vieira lidou com uma situação parecida em TORTURA CRUEL - FÊMEAS VIOLENTADAS, policial exploitation de 1980 que é um colírio para os olhos de quem acha que "bandido bom é o bandido morto".

Salu, o personagem de Vieira neste filme barato que ele mesmo produziu, escreveu e dirigiu (!!!), faria o próprio Paul Kersey correr de medo e se esconder junto com Chico, o justiceiro interpretado por Francisco Cavalcanti em "Horas Fatais - Cabeças Trocadas", e com o dr. Rogério, o justiceiro interpretado por Carlo Mossy em "Ódio", outros dois bons filmes brasileiros sobre justiça com as próprias mãos.


E se você duvida, saiba que o bandido que menos sofre nas mãos de Salu é enterrado vivo. Imagine o triste destino dos outros!

Salu é um bandido que acabou de sair do presídio e pensa em se regenerar, já que sozinho precisa sustentar a família - composta pela mãe, velha e doente, e por duas irmãs que não trabalham (a mais velha, interpretada por Aryadne de Lima, sonha em ser cantora).

O problema é que vida de ex-presidiário em cidade pequena é fogo, e o coitado não consegue arrumar nenhum trabalho. Mesmo quando salva uma garota de ser estuprada por três marginais, e ela intercede junto ao seu marido para que Salu seja contratado como peão de obra, o emprego dura só até o patrão saber que ele é ex-presidiário.


Obrigado a lavar carros para faturar uns trocos e poder comprar o remédio que sua mãe precisa, ele se recusa a aceitar a ajuda financeira da amante, que é prostituta (interpretada pela bela Maristela Moreno, de "A Quinta Dimensão do Sexo"), e prefere jogar na loteria esportiva, sonhando em ficar milionário. Para piorar a situação do sujeito, a polícia fica na sua cola, considerando-o suspeito de qualquer crime que seja cometido na região - e isso inclui, claro, tentativas de confissão na base da porrada, já que ninguém acredita que Salu realmente está tentando se regenerar.

Paralelamente, uma quadrilha formada por quatro bandidos da pesada chega na cidadezinha, após uma série de assaltos e estupros pelas redondezas. Ela é chefiada por Raja (o futuro diretor Rajá de Aragão, que realizou o inacreditável "Hospital da Corrupção e dos Prazeres", em breve aqui no blog), que não gosta de estupros e prefere ficar dando discursos sociológicos para suas vítimas, do tipo "Vida de rei, né doutor? Pobre se danando, comendo casca de banana, e vocês comendo franguinho de leite... Filho da puta!". Seus três asseclas são um tuberculoso que é alvo de gozações dos colegas por não conseguir estuprar ninguém de dia (diz ele a uma vítima: "A sua sorte é que eu sou que nem vampiro: só como à noite"), e dois violentadores profissionais, Nivaldo e Toninho, que não podem ver um rabo-de-saia passar que já pensam em cair em cima. Furioso, Raja pede aos seus comparsas que fiquem na moita, sem estuprar ninguém para não chamar a atenção.


Os primeiros 40 minutos do filme mais parecem um dramalhão mexicano, com Salu procurando e perdendo empregos por ser ex-presidiário, e apanhando direto da polícia (é preciso lembrar que esse tipo de produção era voltada a um público de classe média para baixo). Mas então sua sorte muda: Salu finalmente ganha na loteria e fica multimilionário da noite para o dia!

E adivinha qual é a primeira providência do cara? Comprar o remédio para a mãe? Ajudar as irmãs com o aluguel atrasado? Comprar uma casa nova para a família? Tirar a amante da prostituição? Que nada: Saul faz o que todo homem sensato faria, e se manda para um puteiro para fazer uma comemoração em alto estilo, fechando a zona para ficar com todas as putas só pra ele! (Num momento impagável, rodeado de mulheres nuas, ele pega o garçom do recinto pelo colarinho e grita: "Já falei que não quero homem nenhum aqui dentro além de mim!").

Enquanto nosso herói comemora sua vida de milionário, o trio parada dura do estupro aproveita um momento em que Raja não está por perto para controlar e invade a casa de Salu, matando sua mãe e estuprando as duas irmãs. Algo me diz que eles escolheram a pessoa errada para sacanear...


O restante de TORTURA CRUEL é Salu caçando os quatro bandidos, infiltrando-se em sua quadrilha como se fosse um puxador de carros roubados, e finalmente arquitetando mortes sofridas e tenebrosas para cada um deles.

Como eu escrevi lá em cima, ser enterrado vivo é o castigo mais brando, considerando que um dos pobres coitados é amarrado de quatro para ter o fiofó arrombado por ninguém menos que Satã (aquele moreno careca e gigantesco que aparece em vários filmes do Zé do Caixão), e outro acaba envolvido numa trama diabólica que lembra "Oldboy", de Chan-wook Park, só que 23 anos antes!!! Finalmente, o quarto criminoso, amarrado à linha do trem, ainda tenta protestar: "Mas você não pode me matar assim!". Irônico, o herói apenas retruca: "Quem vai te matar é o trem, e não eu".


O filme em si é bem fraquinho, com uma narrativa simples e sem grandes surpresas, muita mulher pelada e diversas cenas de sexo ou estupro - bem exploitation mesmo.

Duro é suportar os primeiros 15 minutos, já que a trilha sonora utiliza algumas lastimáveis músicas de corno interpretadas pelas piores bandas de baile que a produção pôde pagar (a letra de uma delas, repetida duas vezes ao longo da película, diz: "Deixou a sua casa/Cegamente iludida/Pra tentar a sua sorte/Mas caiu despercebida/Com a sua pouca idade/Se tornou mulher da vida").

Mas após o ataque à família de Salu, a coisa vai ficando cada vez mais interessante, até porque o espectador espera ansioso pelo castigo que os "pusilânimes" receberão. E a generosa quantidade de mulher pelada (inclusive a belíssima Maristela, que aparece quase o tempo todo nua, frente e verso) já vale o programa, pelo menos para os taradões.


Como diretor, Tony ainda consegue a façanha de intercalar a cena alegre da festa do seu personagem no puteiro com o violento ataque dos bandidos à sua família, numa triste (e até sádica) ironia. Mas também sai com várias abobrinhas, como um desfile de escola de samba que cai do céu e não tem qualquer objetivo no enredo, ou a aparição-relâmpago de um "louco assassino de prostitutas" que foge do manicômio e só dá as caras por uns cinco minutinhos (pelo jeito, foi a única saída encontrada para sumir com a amante de Tony da história!!!).

Felizmente, o filme inteiro está repleto daqueles diálogos engraçadíssimos que a gente não costuma ver fora das obras da Boca do Lixo, como "Sexo a gente faz em qualquer lugar. No mato é até mais gostoso porque o capim faz uma cósquinha" e "Dinheiro não é problema, bem. Enquanto eu tiver essas pernas pra abrir uma pra cada lado, nós não vamos ficar duros".

Para quem não conhece o homem, Tony Vieira (pseudônimo de Maury de Oliveira Queiróz) foi um dos mais bem-sucedidos produtores de cinema barato da Boca do Lixo. Ele fazia filmes extremamente populares, econômicos e rápidos, que tinham a cor e o cheiro do povão, além do linguajar e dos cenários que o povão queria ver (e muita mulher pelada e violência, claro, pois também é disso que o povão gosta). Os diálogos de TORTURA CRUEL, por exemplo, não têm firulas, usando e abusando de expressões populares e de gírias da malandragem - algumas chegam a soar estranhas para o espectador contemporâneo.


Entre o início da década de 70 e a metade dos anos 80, Tony produziu cerca de 15 filmes baratíssimos, com histórias policiais ou de western, sempre assumindo ele mesmo o papel principal, e volta-e-meia dirigindo. Investia pouco e lucrava bastante, numa época em que cinema para o povão ainda era rentável no país (lembre-se: era a época dourada das salas de cinema de rua, não dentro de shopping centers).

Em várias entrevistas do período, Tony reclamou que não gostava de dirigir, mas não encontrava ninguém para filmar o tipo de história que filmava. "Faço o que o povo gosta. Vejam as rendas. E eu, inicialmente, atendo o público. Quando tiver dinheiro até para perder, farei o filme que eu gosto", declarou certa vez.

No começo da década de 80, quando a produção cinematográfica da Boca do Lixo descambou para o sexo explícito, Tony também se rendeu aos filmes pornôs, dirigindo, entre diversos, "Banho de Língua" (1985) e "Eu Adoro Essa Cobra" (1987). Em 1988, tentou voltar ao gênero policial com "Calibre 12", mas o fracasso de bilheteria da obra decretou a aposentadoria precoce do ex-galã da Boca do Lixo.


Desanimado e doente, ele voltou para o Estado onde nasceu, Minas Gerais, e lá morreu no começo dos anos 90. Apesar de uma vasta filmografia, composta inclusive de diversos sucessos de bilheteria, suas obras continuam praticamente desconhecidas e inéditas no Brasil. É o caso de TORTURA CRUEL, que até chegou às nossas locadoras nos primórdios da fase áurea do VHS, e hoje só circula em cópias piratas com legendas em castelhano (!!!).

Quando vejo esses DVDs de luxo lançados na gringolândia para filmes de diretores tão mequetrefes quanto o italiano Andrea Bianchi, fico sonhando com o dia em que teremos, aqui no Brasil, um box bem-feitinho com as obras de Tony Vieira, trazendo pérolas remasterizadas como "Gringo, O Último Matador", "O Exorcista de Mulheres", o impagável "O Último Cão de Guerra" ou o policial "Os Pilantras da Noite" (que tem, no elenco, Tony Tornado, Helena Ramos e Aldine Müller!!!!).

Mas o sonho logo se transforma em pesadelo quando eu me lembro da falta de memória (e de valorização) dos brasileiros para com seu cinema, de como a maioria nem liga para o que foi produzido no país pré-Globo Filmes e do triste fim do herdeiro direto de Tony Vieira, o brasiliense Afonso Brazza (que inclusive trabalhou na equipe técnica de vários filmes assinados por Tony). Brazza não só ficou com a esposa de Tony (Claudette Joubert) após sua morte, como seguiu a triste sina do seu mentor: morreu pobre e fazendo apenas filmes baratíssimos que quase ninguém viu.

Lobby card de "Tortura Cruel" com Tony e Rajá


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Tortura Cruel - Fêmeas Violentadas
(1980, Brasil)

Direção: Tony Vieira
Elenco: Tony Vieira, Maristela Moreno,
Aryadne de Lima, Rajá de Aragão, Clery
Cunha, Satã e Lúcia Alves.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Muito mais críticas rápidas para pessoas nervosas


JUSTICEIRO - EM ZONA DE GUERRA (Punisher - War Zone, 2008, EUA. Dir: Lexi Alexander)
Depois de duas versões anteriores e decepcionantes do famoso personagem da Marvel (uma de 1988, estrelada por Dolph Lundgren, e outra muito ruim de 2004, com Thomas Jane), finalmente surge um terceiro filme que pode ser considerado uma adaptação realmente decente do anti-herói, passando a borracha em todas as bobagens perpetradas no passado e "reiniciando" do zero. Se o filme de 88 era prejudicado pela produção furreca, e o de 2004 tinha um Justiceiro politicamente correto que praticamente não matava ninguém, aqui a coisa é casca-grossa e sangrenta como devia ser desde o começo. Ray Stevenson interpreta o personagem nos moldes dos quadrinhos: como um sujeito violento, de poucas palavras e que tem prazer de matar. Na verdade, o Justiceiro desse novo filme é tão ou mais psicopata que os vilões que enfrenta. E, nesse caso, são vários, e todos selvagemente violentos. Esqueça aquele vilão boiola interpretado por John Travolta no asqueroso filme de 2004: aqui temos o cruel Jigsaw/Retalho (Dominic West) e seu irmão desequilibrado interpretado por Doug Hutchinson (o Tooms do seriado "Arquivo X"). Eles darão muita dor de cabeça ao nosso amigo Frank Castle, além de deixar uma pilha de cadáveres que compete com a do próprio "herói". Analisando friamente, o filme não tem nada de especial. O roteiro chega a ser idiota às vezes, como ao insistir naquele insuportável clichê de "pendurar o uniforme". Mas o resultado é uma aventura amalucada e exagerada estilo anos 80, que fica ainda melhor em comparação com os dois filmes anteriores do personagem. Embora a maior inspiração seja a fase atual do Justiceiro nos quadrinhos, especialmente as aventuras escritas pelo desequilibrado Garth Ennis (de onde saíram o atrapalhado policial Soap e a "Força Tarefa Anti-Justiceiro"), o filme também tem elementos das antigas, como o esconderijo subterrâneo do herói e a presença do seu velho parceiro Microchip. Repleto de truculência e brutalidade (com direito a canibalismo e velhinhas tendo a cabeça explodida pelos vilões), este é um autêntico "filme pra menino". Por isso, chama a atenção o fato de ter sido dirigido por uma "menina", Lexi Alexander. Enfim, é disparado o melhor filme do Justiceiro, mas ainda está longe de ser um graaaaande filme. Se por algum milagre sair um quarto filme do personagem, bem que podiam adaptar aquela clássica aventura em que Frank é preso e enviado à Ilha Ryker, onde pode aproveitar para exterminar alguns bandidões atrás das grades mesmo.




QUASE IRMÃOS (Step Brothers, 2008, EUA. Dir: Adam McKay)
Sabe aquelas comédias que tentam ancorar os risos unicamente na cara conhecida dos protagonistas? Bem-vindo a "Quase Irmãos"! Teoricamente, devemos rir do Will Ferrell simplesmente porque ele é o Will Ferrell e é engraçado, e não porque seu personagem tenha boas cenas ou boas piadas. A trama até é interessante: quando um casal cinqüentão resolve juntar os trapos e morar junto, seus filhos marmanjões (Ferrell e John C. Reilly) são obrigados a dividir o mesmo teto, como se fossem irmãos. A idéia era boa, mas os tais marmanjões são representados como crianças crescidas, adultos de 40 anos quase débeis mentais, já que gostam de brincar como garotos, apanham de outras crianças e provavelmente até são virgens. O filme podia ser bem mais engraçado se os personagens fossem mais normais e "adultescentes", e menos babacas estilo "Debi & Lóide", que constróem casinhas na árvore e se emocionam ganhando brinquedos de super-heróis como presente de Natal - e Ferrell e Reilly visivelmente interpretam seus personagens como se eles fossem retardados, e não adultos imaturos. No fim, sobram algumas tiradas mais divertidas pelo exagero do que propriamente pela graça, como Ferrell enterrando o rival vivo (e gritando "Zumbi!!" quando ele consegue sair da cova rasa), ou o mesmo Ferrell esfregando o saco (explicitamente!) na bateria do "quase irmão". Mas, no geral, "Quase Irmãos" não passa de uma comédia muito idiota, que só provoca sorrisos e risos amarelos - o que me lembrou outro trabalho anterior de McKay, "O Âncora", também com Ferrell. Mas, como toda porcaria, tem o seu público. (Será que só eu estou cansado de ver Will Ferrell interpretando sempre o mesmo papel?)




BRÜNO (idem, 2009, EUA. Dir: Larry Charles)
Tem um quê de piada repetida esse novo filme do inglês Sasha Baron Cohen, que lembra demais o excelente "Borat", de 2006. Aliás, "lembrar demais" é generosidade minha: é praticamente o mesmo filme, apenas trocando o repórter cazaque de "Borat" por um egocêntrico repórter de moda, austríaco e gay. Cohen é um autêntico camaleão, e seu Brüno em nada lembra o simpático Borat. O grande problema do novo personagem, e desse novo filme, é que Brüno também não é tão divertido e interessante quanto o pobre jornalista do Cazaquistão. Enquanto em "Borat" o cara-de-pau Cohen conseguia momentos impagáveis ao fazer aflorar o preconceito e a ignorância dos norte-americanos, em "Brüno" seu personagem tenta roubar o show com o choque puro e simples, incluindo closes do seu pinto de fora, "piadas" tipo garrafa de champanhe e controle remoto enfiados no ânus, e outras bagaceirices. O resultado, quase sempre, é apenas exagerado e escatológico, e as próprias entrevistas "reais" não ficaram tão divertidas quanto as barbaridades que ele arrancou de seus entrevistados em "Borat". Mesmo assim, há alguns momentos de rachar o bico, como a "entrevista" com Harrison Ford ou a participação de Brüno fazendo figuração num episódio do seriado "Medium" (e é preciso aplaudir a cara-de-pau do ator nestes dois momentos). Outras cenas mostram que o humorista também é muito corajoso, como quando encena um agarramento gay (ao som da trilha de "Titanic"!) no meio de um ringue de vale-tudo, cercado por centenas de homofóbicos machões loucos por um linchamento. Mas o clima de "piada ouvida duas vezes" incomoda. Na maior parte do tempo, parece apenas um remake disfarçado - e bem menos divertido - de "Borat". Mais um para a lista "Vi, mas nunca mais vou ver de novo".




ARRASTE-ME PARA O INFERNO (Drag Me To Hell, 2009, EUA. Dir: Sam Raimi)
Para mim, pelo menos, foi uma decepção esse retorno de Sam Raimi ao terror, depois do frustrante "O Dom da Premonição" - e lá se vão quase 30 anos que ele revolucionou o gênero com o primeiro "Evil Dead". Vejam bem, não quero dizer que o filme é ruim, só não vi nada de tão espetacular, nem ao menos memorável. E pela quantidade de elogios e rótulos de "novo clássico" que o filme vinha recebendo, minha expectativa estava nas alturas. Concordo com o Renato Doho, do blog RD - B Side, quando ele chama o filme de "um episódio de Tales from the Crypt alongado". Não por acaso, o roteiro chupa vários elementos de uma interessante HQ publicada na extinta revista Cripta do Terror (de onde saíram o demônio chamado lâmia, a figura do médium, o namorado incrédulo e até a cena final na estação de trem). Evocada pela maldição de uma velha cigana vingativa, a lâmia transforma num inferno a vida da protagonista, uma jovem e ambiciosa bancária. Certos momentos até lembram o Raimi do passado, como os jatos de vermes na boca da mocinha, o humor negro e os endiabrados movimentos de câmera. Por outro lado, há um excesso de computação gráfica e de sustos movidos pelo aumento da trilha sonora (o conhecido "susto TCHAAAM!"). Talvez tudo funcionasse melhor, mesmo, como um episódio de "Contos da Cripta", já que às vezes a narrativa acaba caindo na enrolação, e até mesmo o suposto "final-surpresa" perde a surpresa justamente pela demora em se revelar. Além disso, caramba!, eu realmente esperava mais do cara que fez "Evil Dead", e não apenas um terrorzinho censura livre. A cena do jantar com os sogros, por exemplo, tinha tudo para ser um festival de sangue e escatologia, mas nega fogo, como vários outros momentos do longa (a cena do exorcismo é outra que podia ser infernal, mas não é). Se esse é para ser o retorno de Raimi ao horror, prefiro que ele continue na série "Homem-Aranha". Certas crianças, como Sam, Wes Craven e também Tobe Hooper, parecem ter ficado deslumbradas demais com brinquedos eletrônicos, esquecendo de como era divertido quando tinham que construir seus próprios brinquedos...




SE BEBER, NÃO CASE (The Hangover, 2009, EUA. Dir: Todd Phillips)
Uma certa revista brasileira "especializada" em cinema disse que essa nova obra de Todd Phillips não pode ser chamada de "uma das melhores comédias do ano". Ora, às favas a tal revista: até segunda ordem, e até aparecer coisa melhor (o que eu duvido...), "Se Beber, Não Case" é, sim, uma das melhores comédias de 2009, se não a melhor. O filme começa com quatro amigos indo a Las Vegas para a despedida de solteiro de um deles. Mas após uma noite de bebedeira, onde acabam tomando "boa noite, Cinderela" acidentalmente, três deles acordam num destruído quarto de hotel, sem lembrar de nada do que aconteceu na madrugada. E, pior, sem saber que fim levou o quarto integrante da trupe, que é justamente o noivo! A partir de então, o filme segue a bizarra investigação do desmemoriado trio para saber o que aconteceu naquela noite (e também o que faz um tigre no banheiro do quarto e de quem é o bebê esquecido dentro do armário, entre outros enigmas). A situação não é exatamente nova, e já foi desperdiçada em outras comédias bem ruinzinhas ("Cara, Cadê Meu Carro?", alguém?). A diferença é que aqui a coisa funciona, e também é muito fácil se identificar com os "heróis" - quem nunca tomou um porre e descobriu só no dia seguinte, pelos amigos, o que foi que aprontou durante a bebedeira? Talvez o melhor do filme seja o trio de protagonistas interpretado por atores praticamente desconhecidos (fora Will Ferrell, Ben Stiller, Vince Vaughn e outros malas!). Um deles, o gorducho Zack Galifianakis, é simplesmente hilário: toda vez que ele abre a boca, é para soltar uma boa piada, tipo "Eu não sabia que distribuíram anéis no Holocausto". E o diretor Phillips dessa vez não se rendeu a piadas chulas, lições de moral ou ao politicamente correto, como fez nas suas outras comédias ("Caindo na Estrada" e "Dias Incríveis", por exemplo, tinham proposta interessante, mas resultado meia-boca). Assim, ao final, ninguém aprende nada nem se transforma num ser humano melhor, pelo contrário. E o filme ainda fecha com chave-de-ouro, exibindo uma colagem de absurdas fotografias tiradas pelos bebuns durante sua noite desmemoriada. Resumindo: um filme imperdível e talvez a única comédia realmente engraçada que eu vi em 2009.




INIMIGOS PÚBLICOS (Public Enemies, 2009, EUA. Dir: Michael Mann)
Michael Mann é um dos poucos cineastas contemporâneos que vale a pena acompanhar, e cujos trabalhos ficam entre o ótimo e o espetacular. Mas esse seu "Inimigos Públicos", mais uma versão romanceada das "aventuras" do famoso gângster John Dillinger, nega fogo e fica anos-luz distante dos clássicos de Mann, como "Fogo Contra Fogo". Isso porque o diretor parece distante do filme, e até falha em criar cenas emocionantes. Tirando aquela em que o Dillinger de Johnny Depp assiste a um filme de gângster no cinema com um sorriso nos lábios (já que sua vida é bem mais emocionante do que aquela que vê na tela), sobrou um filme bastante frio, nada didático (quem não souber um mínimo da vida de Dillinger vai ficar boiando) e historicamente incorreto, com várias liberdades poéticas. Na verdade, o filme é todo de Depp, e a câmera fica nele a maioria dos 140 minutos dessa história sobre bandidos não tão malvados e policiais não tão bonzinhos. Por causa disso, o "herói" - o agente do FBI interpretado por Christian Bale - acaba completamente apagado, num personagem superficial que parece não ter sentimentos ou vida pessoal. O que, vale ressaltar, é uma constante na carreira recente de Bale, igualmente apagado/sem-identidade como Batman e como John Connor no quarto "Terminator". O mesmo acontece com os capangas de Dillinger, como Baby Face Nelson: apresentados o tempo todo como meros coadjuvantes do "dono do show", estes personagens são tão pouco desenvolvidos, sem ganhar características próprias, que fica até difícil diferenciá-los e reconhecê-los ao longo da trama (eu mesmo só fui descobrir que Stephen Dorff interpretou Homer Van Meter pelo IMDB!). Felizmente, quem comanda o espetáculo é Michael Mann. As primorosas cenas de tiroteio, em que o diretor não poupa o espectador de ver o estrago que faziam aquelas metralhadores dos anos 30, coloca "Inimigos Públicos" um pouco acima da média, embora não compense os seus pontos fracos. Vale por algumas ótimas cenas, como os assaltos a banco, a fuga de Dillinger da prisão e sua visita ao escritório da "Força-Tarefa Dillinger", que comprovam porque Mann é um dos melhores cineastas da atualidade. Mas é pouco, em comparação à obra pregressa do cineasta e principalmente se colocado lado a lado com filmes de gângster "das antigas", como "Os Intocáveis" ou "Uma Rajada de Balas".




EU TE AMO, CARA (I Love You, Man, 2009, EUA. Dir: John Hamburg)
É melhor do que parece essa sensível comédia para adultos, que miraculosamente fica longe do terreno da escatologia e das piadas sexuais. Paul Rudd interpreta Peter, um apaixonado corretor de imóveis que pede a namorada Zooey em casamento. Surge um problema: Peter é aquele tipo sensível e meio metrossexual, que só tem amigas mulheres e não costuma fazer "programas de meninos", tipo bebedeiras ou jogos de pôquer. Assim, quem é que ele vai convidar para ser padrinho no seu casamento? A busca desesperada do protagonista por amizades masculinas rende algumas das melhores piadas do longa (já que a amizade "forçada" de Peter acaba soando como uma aproximação homossexual). Finalmente, sem querer, ele topa com Sidney (Jason Segel, do divertido "Ressaca de Amor", resenhado aqui), um bonachão "adultescente" que acaba ensinando ao noivo os benefícios da amizade masculina. Esse é o tipo de roteiro que certamente viraria bobagem nas mãos de alguém como Adam Sandler. Mas com Rudd e Segel o resultado não apenas é divertido, mas também agradável de ver: os personagens e a relação entre eles nunca parece forçada ou caricatural, nem o filme apela para piadas forçadas ou gratuitas (mesmo as várias situações envolvendo gays fogem do terreno do ofensivo). Talvez o único defeito de "Eu Te Amo, Cara" seja o fato de a história ser esticada mais do que o necessário, uma praga das comédias modernas. Afinal, essa é a típica "comédia de uma piada só", e a dita cuja não precisava ser tão longa. Pequeno defeito que é facilmente perdoado graças à ótima caracterização de Paul Rudd (hilário nas suas tentativas frustradas de parecer descolado e "cool", inventando expressões esdrúxulas que as legendas em português não conseguem acompanhar). Vale também pela divertida participação de Lou Ferrigno interpretando ele mesmo. Entre "Quase Irmãos", "Brüno" e esse, nem pense duas vezes entre qual escolher.




HALLOWEEN 2 (idem, 2009, EUA. Dir: Rob Zombie)
Eu pensei que nada poderia ser pior do que aquela aberração que foi o remake do "Halloween", dirigido pelo metaleiro e projeto de cineasta Rob Zombie em 2007. Mas eis que o próprio Zombie se supera e lança "Halloween 2", um filme tão ruim que quase torna o anterior assistível (ênfase no "quase"). Para não me alongar demais, vou deixar aqui a receita para fazer uma bomba: primeiro, escreva um roteiro que não tenha absolutamente NADA para dizer ou acrescentar ao remake original (que já era ruim), e que não se preocupe em explicar como é que o seu vilão assassino sobreviveu a um tiro à queima-roupa na cabeça no final do anterior (ou como o dr. Loomis ainda tem os olhos se eles foram esmagados no mesmo final do filme anterior). Aí adicione uma boa dose de desrespeito aos personagens originais, transformando Laurie Strode em uma metaleira chata e enfeiada, e o dr. Loomis num mercenário arrogante que só pensa em fama e dinheiro, e se recusa a acreditar num possível retorno de Michael Myers (o completo oposto do dr. Loomis imortalizado por Donald Pleasence na série original). Depois, crie uma ótima cena inicial de 20 minutos que resume o "Halloween 2" de 1981 (o ataque de Michael ao hospital onde Laurie está internada), mas logo revele que aquilo é apenas um pesadelo da protagonista (isso mesmo, uma cena inteira de 20 minutos NÃO aconteceu, e aquilo, por incrível que pareça, é a melhor coisa do filme!). Ah, não esqueça da câmera epilética nas cenas de morte (que devem ter a crueldade quintuplicada, com múltiplas facadas na cabeça e coisas do gênero), e nem do metal pesado na trilha. Pronto, você já tem uma bomba daquelas, prontinha para explodir nos cinemas. Mas, já que é pra avacalhar mesmo, não esqueça de colocar a sua esposa, cuja personagem morreu na Parte 1, para aparecer o tempo inteiro como fantasminha, acompanhada de um inacreditável cavalo branco!!!! O resultado dessa mistura indigesta é esse tal de "Halloween 2", mais uma prova de que Rob Zombie é um dos maiores blefes da "nova geração do horror" (ah, como eu queria ver a cara daqueles que o saudaram como gênio após "Rejeitados pelo Diabo"...). Pelo jeito, Zombie anda precisando demais de dinheiro, já que garganteou que odiava remakes, mas "defecou" o "Halloween" de 2007 (e agora quer refilmar também "A Bolha Assassina"); depois disse que nunca faria uma seqüência das aventuras de Michael Myers, mas voltou correndo para filmar essa nova bomba. Felizes devem estar os diretores das continuações fraquinhas da série original, tipo "Halloween 5", pois elas parecem Shakespeare depois dessa esculhambação que o Zombie fez com o personagem!




UMA MÃE PARA MEU BEBÊ (Baby Mama, 2008, EUA. Dir: Michael McCullers)
Outra suposta comédia para adultos que, como "Quase Irmãos", tem idéia boa, mas execução meio-pau. Uma mulher independente (Tina Fey), que exerce cargo de chefia e não tem tempo para relacionamentos, sonha com um bebê, mas é infértil. Ela resolve, então, contratar uma "barriga de aluguel" para carregar seu óvulo fecundado. O problema é que a barriga pertence a uma garota desmiolada e desbocada (Amy Poehler), que acaba se mudando para a sua casa após brigar com o namorado. O filme até começa bem, e achei que a coisa seria interessante justamente por retratar com bom humor o universo feminino e da maternidade. Mas logo tudo descamba para a tradicional "dupla que se odeia, mas aprende a se gostar", e no terceiro ato ainda vira comédia romântica, quando a personagem de Tina conhece Greg Kinnear (completamente sem graça e sobrando no filme). A verdade é que são bem poucos os momentos divertidos, e quem espera alguma piada mais forte e bagaceira, estilo Judd Apatow, vai fica decepcionado, porque o filme é praticamente inofensivo - perdendo de feio, por exemplo, para "Ligeiramente Grávidos", de Apatow e cia. Além disso, a personagem de Amy é insuportável, mas sem a menor graça. Quem rouba o show é Steve Martin (não-creditado), como o patrão "zen" de Tina. O resto, por mais que divirta durante 1h30min, desaparece da mente em poucas horas, e fica muito aquém do que poderia ser feito com o mesmo argumento.