domingo, 30 de agosto de 2009

FORÇA INVASORA (1990)


Depois de passar minha adolescência inteira vendo as produções horrendas perpetradas por David A. Prior e sua trupe (e sempre exibidas nas tardes do SBT, no velho Cinema em Casa), eu nunca imaginei que algum dia poderia encontrar um filme com o nome deste cidadão e, ainda assim, ao final, dizer: "Puxa, mas este REALMENTE é um bom filme". Digo "bom" mesmo, não as tralhas habituais dirigidas por Prior, que de tão ruim se tornam ao menos engraçadas.

Pois o dia chegou, amiguinhos: FORÇA INVASORA foi escrito e dirigido por David A. Prior, traz todas as caras conhecidas dos seus filmes (com exceção do irmão-galã Ted Prior, que provavelmente estava resfriado na época das filmagens), e mesmo assim consegue ser bem divertido - como filme "normal", e não como diversão trash. Sim, acredite!!!


Nesse filme quase desconhecido do "mestre", o roteiro (do próprio Prior, claro) é uma interessante brincadeira metalingüística (pode???), que mistura dois ótimos filmes dos anos 80: "F/X - Assassinato Sem Morte", de Robert Mandel, e "Amanhecer Violento", do John Millius.

A história começa como se fosse um típico filme do diretor: um clone de quinta categoria do Rambo, sem camisa, com faixa amarrada na testa e segurando duas metrancas, invade um acampamento inimigo e fuzila todo mundo. Resta um último vilão, que ameaça sua namorada com uma faca na garganta, pedindo um valioso diamante em troca da vida da moça. Feita a troca, o vilão descobre, da pior forma possível, que no lugar do diamante recebeu uma bomba, e voa pelos ares em pedacinhos. Enquanto isso, o grande herói e sua namorada preparam-se para um último e romântico beijo, quando...



...a moça pisa no pé do herói, e um diretor fora do enquadramento grita "Corta!". Isso mesmo: tudo que vimos até então era um filme de ação classe Z produzido pela American International Pictures (AIP, por sinal a mesma produtora do próprio FORÇA INVASORA!).

As filmagens estão sendo realizadas numa montanha isolada do Alabama, por uma equipe de quinta categoria que parece um reflexo da própria equipe de David Prior. O "herói" à la Rambo é apenas um ator famoso chamado Troy (interpretado por David "Shark" Fralick), e a mocinha desajeitada é a atriz iniciante Joni (Renée Cline, de "A Batalha Final", figurinha carimbada dos filmes de Prior). A moça é tão má atriz que só conseguiu o papel por ser namorada do produtor Jack (David Marriott, de "Operation Warzone", outro da patota de Prior).


A partir de então, o espectador descobre que aquela produção furreca está com orçamento e cronograma estourados, e o produtor exige que o diretor da película, Ben Adams (interpretado por Walter Cox), termine as filmagens de qualquer jeito no dia seguinte, nem que para isso tenha que pular cenas e páginas inteiras do roteiro. São apresentadas ainda outras figurinhas carimbadas dos bastidores, como o técnico em efeitos especiais, o responsável pelas explosões e o diretor de fotografia. Ironicamente, outros dois parceiros habiturais de Prior, Douglas Harter e Charles Stedman, aparecem interpretando eles mesmos!!!

E como se o pobre Ben já não tivesse problemas demais nas mãos, eis que uma tropa de mercenários de um país da América Central, comandados pelo general Juarez (Angie Synodis) e liderados pelo coronel das Forças Especiais norte-americanas Michael Cooper (Richard Lynch!!!), inventa de armar seu acampamento bem ali naquela região. No dia seguinte, o dia em que Ben e sua equipe precisam terminar as filmagens de qualquer jeito, os soldados inimigos irão invadir uma grande cidade próxima e explodir pontes e aeroportos para poder fazer reféns e chantagear o governo. Só que os vilões não esperavam encontrar uma equipe de cinema bem ali...

A primeira reação dos invasores inimigos é matar os coitados, para eliminar toda e qualquer testemunha; depois, eles bloqueiam todas as estradas para impedir que o pessoal escape e alerte as autoridades. Até que a equipe se reúne e, liderada pela estrelinha Joni (que de repente se revela uma valentona de primeira linha e até uma atiradora das boas!), decide lutar contra os soldados, usando para isso apenas sua esperteza e a magia do cinema - incluindo maquiagem, balas de festim e explosões falsas!


FORÇA INVASORA é pobre até a medula - seu principal defeito. Esse é o tipo de roteiro que eu adoraria ver produzido por alguém como mais grana, para poder bancar muitos tiros, explosões e figurantes para morrer de todas as formas possíveis e imagináveis. Infelizmente, temos aqui a tradicional produção furreca comandada por Prior e sua trupe, o que significa pobreza e improviso.

Uma das cenas mais miseráveis é a chegada dos soldados inimigos à região das filmagens: sem dinheiro para filmar os vilões pulando de um avião e depois abrindo seus pára-quedas, Prior corta direto para meia dúzia de figurantes rolando no chão e recolhendo os pára-quedas já abertos, como se tivessem acabado de saltar de um avião!!! (E o resultado é de rolar de rir, de tão mal-feito!)

Pior: os "batalhões" de soldados inimigos geralmente são compostos por seis ou sete figurantes, e percebe-se que há no máximo uns 12 figurantes, no total, para interpretar um suposto exército com centenas de soldados. Assim, todo mundo tem que se revezar para aparecer e morrer várias vezes ao longo do filme. Uma cena que mostra direitinho a pobreza da coisa é aquela em que o coronel interpretado por Richard Lynch explica seu plano, supostamente a um batalhão inteiro de soldados, mas aparecem apenas três cabecinhas em primeiro plano!!!


Também há todas aquelas bobagens à la David A. Prior (parece que o homem não consegue se segurar!), como a atriz que se revela uma agente disfarçada da CIA (sem que esta revelação faça a menor importância no roteiro além de explicar a intimidade da garota com armas de fogo). Ou a "técnica Danton de camuflagem", que parece saída do clássico "Deadly Prey", quando Joni fica "escondida" sobre um galho de árvore a 10 centímetros da fuça dos vilões, e mesmo assim ninguém a enxerga. Ou, ainda, a cena em que Ben se engalfinha com um soldado para que Joni possa fugir correndo, sendo que a moça tinha uma metralhadora nas mãos e podia simplesmente atirar no inimigo enquanto Ben o segurava!

Mas nem estes "pequenos detalhes" conseguem estragar FORÇA INVASORA, que se revela um filme de ação classe Z acima da média - e principalmente acima da média das obras de Prior. Com apenas 83 minutos, o filme é curto demais para chatear. Já o roteiro até é interessante e tem algumas boas sacadas, como a conclusão que remete ao "falso filme" que estava sendo rodado no início. Ou o fato de o último take mostrar o próprio David Prior, em pessoa, aparecendo para gritar "Corta!" e cumprimentar os atores e toda a equipe dos bastidores de FORÇA INVASORA pelo seu trabalho - um final bastante inspirado.

Méritos, ainda, para Richard Lynch como vilão. Normalmente, os filmes de Prior trazem atores conhecidos em participações de dois ou três minutos. Mas aqui Lynch realmente participa ativamente do projeto, e inclusive tenta atuar (o que apenas comprova como todos os outros atores e atrizes são péssimos).


A cena em que ele tortura um dos heróis, esmurrando o braço onde o sujeito acabara de tomar um tiro, é muito boa, e às vezes ele parece estar reprisando seu papel de vilão em "Invasão USA", onde também liderava um ataque secreto, só que de soldados russos, e não da América Central. Já a protagonista Renée é péssima atriz e feinha de rosto, mas em compensação tem um corpão e aparece o filme todo de shortinho (nham...).

Infelizmente, o SBT parou de reprisar os filmes do diretor há muitos anos, e encontrar FORÇA INVASORA nas locadoras (a fita era de uma distribuidora pobrezinha chamada New Action) é uma tarefa que provavelmente nem o lendário Mike Danton, de "Deadly Prey", conseguiria cumprir.

Infelizmente, também, o resultado final é exatamente como eu escrevi alguns parágrafos acima: embora até engane os fãs de tralhas, como os distintos visitantes aqui do FILMES PARA DOIDOS, a pobreza da produção está estampada em cada frame da película, especialmente no número reduzido de figurantes e nos efeitos pouco convincentes dos tiroteios.

Com algumas óbvias modificações no roteiro (PRINCIPALMENTE na reviravolta da "agente da CIA disfarçada") e gente boa envolvida na produção, creio que um blockbuster bastante divertido poderia ser produzido a partir deste filme. Alguém aí tem o telefone do Joel Silver?


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Invasion Force (1990, EUA)
Direção: David A. Prior
Elenco: Renée Cline, Walter Cox, Richard
Lynch, Douglas Harter, Charles Stedman
e David "Shark" Fralick.

domingo, 23 de agosto de 2009

FOXY BROWN (1974)


Brown, Foxy Brown. Talvez a mais famosa de uma galeria de negras sedutoras e valentonas imortalizadas pelo saudoso cinema dos anos 70, Foxy foi interpretada pela voluptuosa Pam Grier no filme homônimo FOXY BROWN, produzido no auge da blaxploitation (ou blacksploitation).

Assim era chamado o ciclo surgido por volta de 1971 com filmes destinados ao público negro. Apesar de normalmente serem dirigidas por brancos, estas produções traziam atores e atrizes negras interpretando heróis e heroínas de cor, normalmente sentando porrada (e tiros, claro) nos "branquelos", numa época em que o preconceito racial ainda era muito forte.

O interessante é que, nas produções blaxploitation, os heróis negros normalmente eram representados como máquinas de sexo insaciáveis e viris, que pegavam todas as mulheres do filme (brancas ou negras), enquanto as heroínas de cor não só eram mulheres fortes e independentes, como ainda eram boas de briga e usavam seu irresistível poder de sedução para conseguir tudo o que queriam.


É uma representação tão exagerada que renderia um belo estudo de sociologia ou psicologia; de qualquer forma, negros e negras nos filmes blaxploitation eram fodões e fodonas, e os "branquelos" que não tinham a menor chance contra eles.

FOXY BROWN é de 1974 e segue uma bem-sucedida experiência iniciada no ano anterior: os blaxploitation femininos "Cleopatra Jones" e "Coffy" (este último também com Pam Grier), com negras valentonas como heroínas. Jack Hill, diretor de "Coffy", resolveu fazer em um novo filme estrelado por Pam, que ironicamente seria uma seqüência do anterior (iria se chamar "Burn, Coffy, Burn!"), mas na última hora os distribuidores resolveram lançá-lo como história independente, mudando o nome da personagem e eliminando qualquer citação a "Coffy".

Resultado: FOXY BROWN acabou fazendo mais sucesso e a personagem ficou imortalizada na cultura pop, principalmente por causa de fãs apaixonados, como um tal de Quentin Tarantino. Mas é tão bom quanto o filme anterior da dupla Jack e Pam (que eu, pessoalmente, prefiro).


Na trama escrita pelo próprio diretor, Foxy namora um agente infiltrado da Narcóticos, Dalton Ford (Terry Carter), e ironicamente tem um irmão traficante de cocaína, o pé-rapado Link (Antonio Fargas).

Dalton iria testemunhar contra uma poderosa organização envolvida com prostituição e tráfico de heroína, liderada por Katherine Wall (Kathryn Loder) e por seu amante Steve (Peter Brown). Só que os malvados compram a maior parte do júri e escapam facilmente das acusações. Para o agente, resta fazer uma cirurgia plástica facial e assumir uma nova identidade, Michael Anderson, sabendo que sua vida agora vale muito pouco.

O problema é que Link descobre a identidade do "novo namorado" de sua irmã, e, como está devendo uma bolada justamente para Katherine e sua trupe, entrega Dalton/Michael de bandeja para os traficantes. Ele é executado a tiros bem na frente da casa de Foxy, que jura vingança aos assassinos do seu homem (obviamente, todos são "branquelos").


Corajosa e esperta, ela se infiltra na agência de modelos de Katherine (que é a fachada da organização criminosa), e logo começa a trabalhar como prostituta para saber mais sobre a organização e suas ramificações. E quando descobre quem são os cabeças da quadrilha, resolve pagar na mesma moeda.

Produzido no auge da beleza de Pam Grier - que aparece três vezes nua, mas sempre de relance, além de vestir roupas decotadonas -, FOXY BROWN é um dos mais divertidos e antológicos blaxploitation do período.


O mérito é todo de Hill (ironicamente, ele próprio um "branquelo"), que coloca na boca de Pam/Foxy alguns diálogos fora de série em cenas idem. Como aquela que se passa em um bar de sapatonas (!!!), e que já vale pelo filme todo. Quando uma das machorras ameaça a heroína, dizendo que é faixa-preta em karatê, Foxy simplesmente arrebenta uma cadeira na fuça da valentona e responde "Pois eu sou faixa-preta em briga de bar!".

A jornada da heroína inclui a humilhação de um poderoso juiz de Direito, que obviamente também é branco e acaba ridicularizado pelo tamanho do pênis ("Benzinho, é ISSO que você quer usar em mim?", caçoa Foxy); sua inevitável captura pelos vilões, quando acaba sendo estuprada e viciada em heroína, e finalmente o troco no final, que vem em alto estilo, com direito a tiros na cabeça, um sujeito sendo despedaçado pela hélice de um avião (!!!) e até castração!!!



Sid Haig, hoje alçado à categoria de astro cult do cinema B, aparece em ponta marcante como um piloto tarado que dá carona para Foxy em seu avião, e obviamente acaba se arrependendo disso mais tarde (ambos já haviam divivido a tela no anterior "Coffy").

FOXY BROWN não perde a chance de fazer crítica social, numa época em que os negros ainda eram bastante marginalizados. Lá pelas tantas, Foxy faz um discurso sobre como as pessoas (brancas) com dinheiro pisam nos outros para conseguir o que querem. Além disso, quase todos os policiais (brancos, claro) são corruptos a serviço dos vilões.

Mas o melhor "momento reflexão" do roteiro sai da boca de Link, o irmão marginal da heroína. Quando Foxy o repreende por estar vendendo drogas, Link responde, irônico: "Eu sou negro e não sei cantar, não sei dançar e não sei pregar em nenhuma congregação. Sou muito baixinho para ser astro de futebol e muito feio para ser eleito prefeito. O que eu devo fazer com as minhas ambições?".


Produzido numa época em que não havia a chatice do "politicamente correto", o filme está coalhado de diálogos racistas, como o do sujeito (branco) que vê seu amigo abraçado com Foxy e dispara: "Então quer dizer que você gosta de carne escura?". Ou os policiais (brancos) que, mesmo sendo educadamente interpelados por um rapaz de cor, respondem sem meias-palavras: "Aqui não tem problema nenhum, ô negão!".

Fã de carteirinha de FOXY BROWN, Tarantino homenageou-o abertamente em um de seus melhores filmes, "Jackie Brown", onde inclusive resgatou a musa Pam Grier do esquecimento, dando-lhe um novo papel de negra forte e independente, embora agora quarentona (e por isso sem cenas de nudez). Jackie, vale ressaltar, poderia muito bem ser uma versão envelhecida da própria Foxy.

Outras obras recentes também renderam tributo ao ciclo blaxploitation e aos filmes de Jack Hill com Pam, da trilogia slasher "Lenda Urbana" (onde uma vigia negra tinha Foxy Brown como heroína) à comédia besta "Austin Powers Contra Goldmember", que traz uma personagem de black power (interpretada por Beyoncé Knowles) chamada "Foxxy Cleopatra", juntando os nomes das imortais heroínas Foxy Brown e Cleopatra Jones.


Visto hoje, o filme é tão "anos 70" em suas roupas, carros, penteados e comportamentos que soa quase como uma paródia. Os créditos iniciais, com silhuetas de Pam Grier dançando ao som da trilha funk de Willie Hutch, tornaram-se um ícone do ciclo (e até foram citados na abertura da comédia "Superbad - É Hoje"). Já os diálogos, especialmente aqueles dos personagens negros, são de rolar de rir: é "pink-ass corrupt honky judge" pra lá, "white bitch" pra cá, "mothafucka" isso, "nigger" aquilo, e por aí vai.

FOXY BROWN provavelmente foi o maior sucesso da carreira de Pam, que vinha de uma série de participações como figurante em filmes WIP (o famoso ciclo sobre mulheres na cadeia) para tornar-se musa da blaxploitation. Ela interpretaria ainda outras negras valentonas em "Sheba Baby" (1975), onde faz uma detetive em busca de vingança (claro!), e em "Friday Foster" (também de 75), onde caça uma organização especializada em assassinar políticos negros (!!!). Nem Sheba e nem Friday Foster tornaram-se tão memoráveis quanto Coffy ou Foxy Brown, e é inexplicável que estas personagens não tenham dado origem a franquias, como "Cleopatra Jones" ou "Shaft", apesar do sucesso de bilheteria que fizeram na época.


"Quanto mais escura a baga, mais doce o suco, amoreco!"
Com o fim do blaxploitation, Pam caiu no esquecimento e no limbo dos filmes feitos para a TV nos anos 80 e 90, voltando esporadicamente em alguma produção voltada ao público negro. Antes de ser ressuscitada por Tarantino em "Jackie Brown", seus papéis mais memoráveis foram o de uma professora-andróide assassina (!!!) no impagável "A Guerra dos Donos de Amanhã", de 1990, e de um travesti com coragem para encarar Snake Plissken em "Fuga de Los Angeles", de 1996.

É uma pena que a ressurreição da ex-estrela por Tarantino não tenha sido tão eficaz quanto a de John Travolta em "Pulp Fiction", e logo Pam estaria novamente perdida no limbo dos filmes e seriados para a TV, ou então fazendo pontas de luxo em produções tipo "Fantasmas de Marte".

Felizmente, sempre existirão FOXY BROWN e outras pérolas do auge da blaxploitation para lembrar-nos da grande estrela que Pam Grier foi, por mais que estas produções baratas (e extremamente divertidas) sejam "esquecidas" pelos críticos sérios e pelos livros sobre cinema.

Trailer de FOXY BROWN


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Foxy Brown (1974, EUA)
Direção: Jack Hill
Elenco: Pam Grier, Peter Brown, Antonio
Fargas, Terry Carter, Juanita Brown, Sid
Haig e Kathryn Loder.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

A QUINTA DIMENSÃO DO SEXO (1984)


Que José Mojica Marins foi o precursor da zoofilia no cinema pornográfico brasileiro (ao dirigir a famosa cena com o pastor-alemão Jack!), todo mundo já está careca de saber. Mas terá sido o célebre Zé do Caixão também o pioneiro nos pornôs gays tupiniquins?

Pode ser que sim, ao menos se julgarmos A QUINTA DIMENSÃO DO SEXO como um filme pornô de temática homossexual, considerando que o filme começou a ser produzido como drama erótico "sério" e acabou se transformando em pornô "hardcore" para acompanhar as tendências do mercado cinematográfico da época (primeira metade dos anos 80).

Trata-se do primeiro dos quatro filmes pornôs que Mojica foi praticamente obrigado a produzir, numa fase de vacas magérrimas e nenhum dinheiro em caixa. Os outros são os antológicos "24 Horas de Sexo Explícito" (1985, o tal precursor da zoofilia no pornô nacional), "Dr. Frank na Clínica das Taras" e "48 Horas de Sexo Alucinante" (ambos de 1986). A diferença para os outros três é que A QUINTA DIMENSÃO DO SEXO até tenta contar uma história decente (enquanto os posteriores já partem para o vale-tudo do fiapo de roteiro conduzindo as cenas de sexo explícito), e, principalmente, tem mulheres bonitas em cena, especialmente nas cenas softcore - ou seja, sem penetração, apenas simulação de sexo -, destoando dos jaburus que apareceram nos pornôs posteriores do nosso amigo Zé.


O projeto começou como filme erótico "soft", a partir de um roteiro escrito pelo amigo de Mojica, Mário Lima. Naquela época, vários pequenos produtores estavam fazendo fortunas com o cinema erótico e com as pornochanchadas, lançando obras bastante econômicas em recursos, mas que acabavam dando bastante retorno nas bilheterias.

Além disso, a rígida censura imposta pelo Regime Militar na década de 70 aos poucos começava a ser vencida, e assim surgiam as primeiras exibições das produções de sexo explícito, que já vinham sendo filmadas na Europa e nos EUA.

No Brasil, o primeiro filme hardcore foi feito apenas em 1981: o fenômeno "Coisas Eróticas", de Rafaelle Rossi, que levou mais de 4,5 milhões de pessoas aos cinemas (isso, claro, antes da "era do videocassete", quando era comum ver filme pornô no escurinho do cinema). E assim uma produção X-Rated transformou-se numa das maiores bilheterias de filmes nacionais de todos os tempos.

Mas voltemos a Mojica e Mário Lima: foi este último quem escreveu a inacreditável história de Paulo (Márcio Prado, de "Tara das Cocotas na Ilha do Pecado") e Norberto (João Francisco, único filme), dois amigos que são estudantes de química e galãs de rodoviária, mas andam negando fogo diante do sexo oposto.


Apavorados com a possibilidade de terem ficado broxas, eles procuram primeiro ajuda médica, e depois "especializada" (duas prostitutas), mas a situação torna-se cada vez mais dura - ou mole, no caso da dupla.

Impotentes (literalmente!) diante da situação, e já ouvindo gracinhas e comentários maldosos dos colegas de curso, Paulo e Norberto resolvem abandonar a faculdade e se refugir na casa de campo da família de um deles, onde começam a fazer experiências químicas com plantas reconhecidamente afrodisíacas.

O objetivo é criar uma espécie de elixir sexual para contornar o "probleminha" da impotência. Só que a descoberta de tal fórmula traz um novo problema: mais ou menos como uma versão tupiniquim de Jeckyl e Hyde, os dois acabam se transformando em psicopatas malvados.

Para testar seu elixir, por exemplo, eles seqüestram uma garota inocente na rua e a obrigam a beber a fórmula. O resultado é um grande ménage a trois. No dia seguinte, quando o efeito da fórmula passa, a garota volta a si e foge da casa de campo, apenas para morrer alguns metros distante, vitimada pela picada de uma cobra venenosa. Já a segunda "cobaia" da dupla acaba morrendo de prazer (!!!), após uma noite de orgias na praia. Quando o cadáver é descoberto, a polícia começa a investigar os misteriosos crimes sexuais naquela região.


Finalmente, Paulo e Norberto fazem uma última festinha com uma ex-colega de faculdade, para testar uma versão diluída (e não-letal) de seu elixir. Tudo corre às mil maravilhas, mas, quando passa o efeito da fórmula, a moça descobre o que aconteceu e alerta a polícia sobre os "terríveis" maníacos sexuais.

Neste ínterim, enquanto a lei se prepara para agir, os dois amigos acabam descobrindo a razão de seu problema com as mulheres: eles na verdade estão apaixonados um pelo outro! E, após consumarem este amor com uma transa (não-explícita), os dois fogem da polícia somente para morrer quando o Dodge que dirigem cai de um precipício - uma versão homossexual do clássico feminista "Thelma e Louise", de Ridley Scott, que foi filmado nove anos DEPOIS!

Segundo o livro "Maldito", de André Barcinski e Ivan Finotti, quando A QUINTA DIMENSÃO DO SEXO ficou pronto, e era apenas um filme erótico comum, um amigo de Mário Lima, que era proprietário de uma distribuidora de filmes eróticos, sugeriu enxertar cenas de sexo explícito na edição, para faturar em cima deste novo e lucrativo filão de mercado que se abria.


Não era exatamente uma novidade: vários produtores estavam fazendo o mesmo, às vezes transformando produções que nada tinham de eróticas em filmes pornôs, simplesmente gravando novas cenas de sacanagem e incluindo na edição.

Foi o que também fizeram Mário e Mojica: gravaram duas cenas explícitas num motel, com atores que não faziam parte da edição "normal" do filme (entre eles Sílvio Júnior e Oswaldo Cirillo, que se tornariam galãs do pornô da Boca do Lixo), e enxertaram estas trepadas na trama sem qualquer cerimônia.

As "costuras" ficaram hilariantes: a primeira foi editada numa cena em que Paulo está no motel, como se fosse um filme pornográfico passando na TV naquele momento (!!!); a segunda simplesmente invade a trama, e no final do rala-e-rola a moça comenta com o rapaz: "Você sim que é homem, não aqueles broxas do Paulo e do Norberto!", apenas para tentar criar um elo daquela trepada isolada com o restante da história!


Apesar destas duas cenas hardcore, e de vários momentos softcore (incluindo transas a três no esquema "sanduíche", com a mulher no meio e um cara em cada "orífício" dela), os censores que ainda estavam em atividade encasquetaram justamente com a única cena gay do filme, um beijo entre Márcio Prado e João Francisco, que era filmado em close - e beijo entre homens ainda era novidade naqueles tempos. O irônico é que o filme nem chega a mostrar os dois personagens transando, e qualquer referência à homossexualidade da dupla encerra com este único e até inocente beijinho. No restante da trama, eles simplesmente falam do seu amor e andam de mãos dadas, tudo muito inocente.

Embora seja mais bem feito que os outros pornôs de Mojica, A QUINTA DIMENSÃO DO SEXO não é um bom filme - e, como as outras obras explícitas do nosso Zé do Caixão, também acaba funcionando mais como comédia involuntária do que como drama erótico, pornô gay ou seja lá o que for.

Além da trama sem pé nem cabeça, que não se decide entre o clima de pornochanchada e o suspense (representado pelo lado psicopata dos dois protagonistas e pelas mortes provocadas pelo elixir sexual), há os costumeiros diálogos bisonhos e cenas impagáveis, elementos que aparecem com freqüência nas obras conjuntas entre Lima e Mojica.


As longas cenas de Paulo e Norberto fuçando em equipamentos de laboratório, por exemplo, são acompanhadas por diálogos antológicos como "Desse jeito os nossos sensos motores não sofrerão hipertensão!". Mais adiante, quando nasce o amor entre os protagonistas, o espectador é brindado com o seguinte diálogo entre os pombinhos:

- Se formos presos, nunca mais vamos nos ver!
- As coisas terrenas não mais nos separam, compreende?
- É claro! O nosso encontro é espiritual!
- Estamos em outra dimensão.
- A do amor?
- Do amor!


Além disso, a edição de Nilcemar Leyart, ex-namorada de Mojica, cria momentos involuntariamente cômicos, como ao intercalar uma cena de suspense (a mocinha prestes a ser atacada pela cobra venenosa) com takes sem noção dos amigos fazendo uma omelete! E há seqüências surreais, como o beijo entre os dois rapazes ao som da tétrica trilha sonora chupada do filme de horror "Phantasm", de Don Coscarelli, ou a "participação especial relâmpago" do próprio Mojica, com suas longas unhas e a pança de fora, "interpretando" um fanático religioso que simplesmente cai de pára-quedas na história!

O elenco conta ainda com algumas musas dos bons tempos da Boca do Lixo: Zilda Mayo (vista em filmes tão díspares quanto o suspense "Excitação", de Jean Garret, e "O Instrumento da Máfia", de Francisco Cavalcanti), Maristela Moreno (de "A Noite das Taras 2" e "Tortura Cruel") e Débora Muniz (foto abaixo; protegida de Mojica desde "Perversão", vista recentemente em "Encarnação do Demônio"), mas nenhuma das três protagoniza as cenas explícitas; para compensar, aparecem peladinhas.


O produtor-roteirista Mário Lima também dá as caras, como a testemunha de um dos crimes cometidos pela dupla Paulo e Norberto (destaque para sua fala, "Eles pareciam pessoas de bens", ao invés de "pessoas de bem"!!!).

A QUINTA DIMENSÃO DO SEXO não fez o sucesso esperado na época de seu lançamento porque deu o azar de bater de frente com outro fenômeno do cinema erótico-pornográfico nacional, "Oh Rebuceteio!", de Cláudio Cunha, lançado na mesma semana. Hoje, é o tipo de filme que só funciona para quem curte as bizarrices produzidas na era de ouro da Boca do Lixo: filmes esquisitos, diferentes de tudo que se fazia antes e de tudo que se faz agora.

Não sei você, caro leitor do FILMES PARA DOIDOS, mas eu sempre achei estes pornôs da Boca muito mais divertidos do que os filmes de gênero contemporâneos (como as produções do selo Brasileirinhas, por exemplo). Por menos excitantes que fossem (e alguns eram e são realmente broxantes!), os A QUINTA DIMENSÃO DO SEXO da vida tinham algo de criativo e experimental, já que ainda era tudo novidade para os produtores de pornôs brasileiros. E é isso que os distingue desta mesmice que virou o cinema pornô atual.

Hoje, ironicamente, estes títulos antigos são mais procurados por fãs de cinema de horror ou exploitation do que pelos aficcionados por X-Rated. Fico me perguntando se algum dia essas obras todas receberão o devido resgate e valorização...


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A Quinta Dimensão do Sexo (1984, Brasil)
Direção: José Mojica Marins
Elenco: Márcio Prado, João Francisco,
Zilda Maio, Débora Muniz, Sílvio Júnior,
Oswaldo Cirillo e Maristela Moreno.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Ainda mais críticas rápidas para pessoas nervosas


THE LAST HOUSE ON THE LEFT (idem, 2009, EUA. Dir: Dennis Iliadis)
Até que ficou melhor do que eu imaginava essa modernização do já clássico primeiro filme de Wes Craven - a famosa história de assassinato e vingança sobre sádicos bandidos que acabam ironicamente se hospedando na casa dos pais da garota que acabaram de matar. Entretanto, continuo achando que não havia porque refilmar "Aniversário Macabro" nos dias de hoje, sendo uma história tão "anos 70" para a atualidade, e principalmente considerando que o cinema de horror contemporâneo já mostra crimes e assassinatos bem piores (vide as séries "Hostel" e "Jogos Mortais"). O mais interessante dessa nova versão é que há um diretor de verdade no comando da coisa, e não um "Marcus Nispel" qualquer (Nispel, para mim, virou sinônimo de "videoclipeiro incompetente"). Assim, o novo "Last House..." melhora muitas coisas do original de Craven, que já não era nenhuma Brastemp. Um dos acertos do remake foi ter limado a participação cômica de uma dupla de policiais patetas. Por outro lado, há mudanças desnecessárias que apenas minimizam o choque e o impacto da obra dos anos 70, como o fato de (SPOILERS) a filha da família vingativa agora sobreviver, e o filho do bandidão Krug se arrepender e ajudar os pais a dar o troco. (FIM DOS SPOILERS) Também se perdeu aquele clima rústico, amadorístico e sujo do filme de Craven: tudo é limpinho, os atores são lindos, as garotas ajeitadinhas, e a impressão às vezes é de estar vendo um comercial de margarina. Garret Dillahunt como Krug, por exemplo, está mais para "Malhação" do que para "Last House...", perdendo feio para o David Hess do original. Mas justiça seja feita: se os realizadores parecem ter se segurado na violência contra as duas garotas indefesas (que no filme de Craven sofrem muito mais), felizmente tiveram coragem de manter boa parte da brutalidade do original na hora da vingança, com direito a cenas bastante explícitas. Por isso, e pela convincente participação de Tony Goldwin como pai vingativo, o remake até fica bem acima da média, embora a ausência da cena da castração com os dentes, ou pelo menos coisa parecida, seja imperdoável! Mas dá uma banho em bobagens recentes, tipo o novo "Halloween".




OFFSPRING (idem, 2009, EUA. Dir: Andrew Van Den Houten)
É uma bela surpresa esse obscuro horror classe B, que podia ser um filmaço com um diretor decente no comando, mas, do jeito que está, não passa da diversão de rotina - e com muitos defeitos que devem ser relevados. Baseado num livro de Jack Ketchum, que é um dos novos ídolos da literatura de horror e também assina o roteiro, "Offspring" é a história de uma pequena cidade litorânea atacada por uma horda de crianças e adolescentes canibais, numa curiosa e bizarra mistura de "A Colheita Maldita" com "Quadrilha de Sádicos". A garotada vive no esquema Idade da Pedra (com peles e trapos), numa escura caverna à beira-mar, de onde os infantes saem à noite para atacar famílias, matar e devorar os adultos e roubar crianças e bebês, dando seqüência à linhagem bizarra que já ataca naquela região há décadas. Um envelhecido Art Hindle aparece como único ator conhecido, interpretando um xerife veterano e alcoólatra que enfrenta a ameaça. Há violência a rodo (até pedaços de vagina arrancados a dentadas!!!) e todo tipo de efeito gore e escatológico, além, é claro, da coragem de realmente mostrar crianças assassinas matando e morrendo (algo que o próprio "A Colheita Maldita" não fez, por exemplo). Outra surpresa é que o roteiro dá uma guinada logo no começo, matando de cara o personagem que até então parecia ser o protagonista. Mas, no geral, não há nada de novo, e o filme mais parece uma colcha-de-retalhos de tudo que já foi feito antes e melhor. Poderia até ser lançado como "Hills Have Eyes 3" sem qualquer prejuízo. Visto no Fantaspoa com o título "A Descendência".




BUDAPESTE (idem, 2009, Brasil/Portugal/Hungria. Dir: Walter Carvalho)
Você percebe que o cinema nacional tem salvação quando para cada "Se Eu Fosse Você" ou "Jean Charles" sai um filmaço tipo esse "Budapeste". Baseado num livro de Chico Buarque (que eu não li, mas já comprei para ver se me elucida algumas dúvidas em relação à trama do filme), "Budapeste" conta a inspiradíssima história de José Costa (Leonardo Medeiros, ótimo), um "ghost-writer" brasileiro - escritor que vive no anonimato, escrevendo livros para outras pessoas assinarem. Costa vive um casamento em crise com Giovanna Antonelli e parece fascinado por Budapeste, que conhece de passagem graças a uma conexão aérea. Quando assina um livro como "ghost-writer" que acaba se tornando best-seller, o autor resolve largar tudo e ir a Budapeste, onde vive um romance com uma garota local (Gabriella Hamori). Com imagens belíssimas (o diretor Walter Carvalho é diretor de fotografia), e a inspirada interpretação de Medeiros, o filme seduz e surpreende o espectador, incluindo uma generosa quantidade de mulher pelada (coisa que eu infelizmente julgava extinta no "moderno" cinema brasileiro) e uma série de reviravoltas que levam a um final inesperado. É o tipo de filme que é melhor ver sabendo o mínimo possível sobre a história. Destaque para alguns ótimos momentos, como o poeta que escreve as frases do seu livro nos corpos de mulheres nuas, ou a cena em que Costa transa com a esposa e "assiste" a relação de fora do seu corpo, comprovando como está com o pensamento longe dali. Para a lista dos melhores do ano.




REBOBINE POR FAVOR (Be Kind Rewind, 2008, EUA/Inglaterra. Dir: Michel Gondry)
Fizeram tanto barulho sobre esse novo filme do festejado (e "puxa-sacado") diretor francês Michel Gondry que acabei me surpreendendo ao ver apenas uma comédia boba e beeeem sem graça. A proposta é interessante: depois que as fitas de uma pequena videolocadora são acidentalmente apagadas pelo amigo "magnetizado" do funcionário, os dois resolvem filmar suas próprias versões de blockbusters norte-americanos, como "Os Caça-Fantasmas", "Robocop" e "O Senhor dos Anéis". Logo, as versões amadoras feitas pelos amigos e sua trupe (chamadas de "versões suecadas") acabam se tornando mais populares no bairro e na cidade do que os próprios filmes em que se inspiram, numa brilhante ironia que remete à paixão pelo cinema "local". Infelizmente, Gondry não se decide entre fazer comédia debilóide (representada por Jack Black, que está muito, mas muito sem graça) ou homenagem apaixonada ao cinema (através dos filmes "suecados" e principalmente do processo improvisado de filmagem deles, além do final emocionante que envolve a exibição da primeira produção "original" do grupo). As cenas da comédia debilóide são muito estúpidas (tipo o "xixi magnético" de Jack Black), e o filme ficaria bem melhor sem elas. Além disso, algumas "versões suecadas" só funcionam caso o espectador lembre muito bem do filme original (caso da brincadeira com "A Hora do Rush 2"). No geral, achei uma boa idéia desperdiçada, e continuo sem entender o bafafá gerado pelo filme, que não passa de uma comédia fraquinha, raramente engraçada e nada memorável. Mais um caso clássico de conceito melhor que o resultado final, e também de "muito barulho por nada".




YESTERDAY (idem, 2009, Canadá. Dir: Rob Grant)
Mais um filme independente de zumbis, feito com pouco orçamento e muita boa vontade. E se, como eu, você também pensa que sobraram poucas boas histórias de mortos-vivos para contar, aqui está mais uma prova disso: praticamente só se repete tudo o que já foi visto inúmeras vezes antes. Tanto que o primeiro ato, que mostra o "contágio" se espalhando e os primeiros zumbis atacando, é péssimo, além de muito mal-realizado. O diferencial dessa produção escrita e dirigida por Rob Grant é não se levar tão a sério a partir da metade, preferindo enfocar a tentativa de sobrevivência de um grupo de desconhecidos por um ângulo de humor negro. Há vários bons momentos, como a dupla de irmãos criminosos que passa o filme inteiro atirando na cabeça de quem quer que cruze seu caminho, seja zumbi ou não (o que invariavelmente rende a morte de alguns protagonistas); ou o personagem que é campeão de tiro ao alvo e se veste como cowboy. Porém, de modo geral, fica aquela sensação de comida requentada ou piada contada pela quinta vez, e é óbvio que tudo evolui para uma conclusão em que os sobreviventes preferem lutar entre si ao invés de enfrentar os zumbis. Por sinal, a cena final é ótima e bastante irônica. Acaba sendo um bom passatempo para os menos exigentes, ou para os fãs ferrenhos de filmes de zumbis, mas perde feio para produções independentes nacionais, como "Mangue Negro" e "A Capital dos Mortos". Visto no SP Terror.




CRANK 2 - HIGH VOLTAGE (idem, 2009, EUA. Dir: Mark Neveldine e Brian Taylor)
Nesses tempos de politicamente correto e censura, em que parece que ninguém quer ofender ninguém, é uma coisa linda ver um filme débil mental, grosseirão, corajoso, apelativo e absurdo tipo essa continuação do divertidíssimo "Adrenalina", de 2006. O primeiro já era um primor: o casca-grossa Jason Statham interpretava Chev Chelios, um assassino profissional que, envenenado pelos rivais, precisava encontrar formas de manter seu nível de adrenalina alto para o coração não parar. A continuação começa com o corpo de Chelios sendo recolhido após cair do helicóptero no final do original; seu coração é retirado, transplantado para um centenário chefão da máfia chinesa (David Carradine!!!), e o "herói" ganha um coração artificial elétrico, com tempo limitado de funcionamento. Assim, ele passará o resto do filme "carregando a bateria" (sempre das formas mais absurdas e exageradas) e caçando o próprio coração. Se o primeiro já era cheio de cenas abusadas, esse é grosseirão até a medula: mulheres são simples objetos sexuais e aparecem ou peladas, ou com closes generosos de seus bundões; Chelios mais uma vez transa em público com a namorada (a gostosa Amy Smart), já que "atrito provoca eletricidade estática"; e há todo tipo de cena de violência/sangue, de cotovelo decepado (isso pra mim é novidade!) até mamilos arrancados com faca. A edição é doidona como o filme, rápida, "elétrica", deixando o espectador tão ligadão quanto o protagonista. E quase todos os personagens do original voltam, inclusive alguns que morreram, com uma telinha tipo hiperlynk mostrando o que eles faziam no primeiro filme. Resumindo: imperdível, e um filme para quem não tem vergonha de assumir que gosta de apelação, com participação especial dos astros pornôs Jenna Haze, Peter North e Ron Jeremy!




LAID TO REST (idem, 2009, EUA. Dir: Robert Hall)
Sabe quando você vê um slasher moderno, tipo o novo "Sexta-feira 13", e se pega reclamando que falta gore e violência? Pois "Laid to Rest" não sofre desse problema. Na verdade, o filme tem todos os problemas possíveis e imagináveis, mas falta de sangue não é um deles - até porque a produção foi escrita e dirigida por Robert Hall, um especialista em maquiagem e efeitos especiais, e ele não deixou de representar bem o seu ofício na tela. Basicamente, é a história de uma garota sem nome (Bobbi Sue Luther) que acorda dentro de um caixão numa funerária, e descobre estar com dois problemas: amnésia e um psicopata mascarado na sua cola. O tal assassino, chamado "Chrome Skull" por causa da máscara de caveira que cobre seu rosto, não mete medo nem na vovó, mas ataca com uma fúria surpreendente que rende os momentos gore do filme. O melhor deles é aquele em que o assassino arranca o rosto de um infeliz a facadas, tudo mostrado on-screen! "Laid to Rest" é o tipo de slasher que diverte apenas pelos assassinatos exagerados, já que o roteiro é de uma imbecilidade tremenda, e tem alguns dos personagens mais burros que o cinema já mostrou - tipo o rapaz que fica apontando uma arma carregada para o assassino mas não tenta atirar até que ele esteja perto o suficiente para matá-lo, ou os protagonistas que toda hora saem do local seguro onde estão para fazer coisas idiotas. No fim, o resultado é tão besta que até diverte. Para públicos beeeeem específicos (quem costuma se enfurecer com a atitude dos personagens em filmes de horror vai querer chutar a TV). Mas, novamente, vale, e muito, pelas cenas de gore, que são bem feitas e exageradas. Participação decorativa de Richard Lynch.




O FIM DA PICADA (idem, 2009, Brasil. Dir: Christian Saghaard)
Não me convenceu esse novo filme de terror nacional, que é fortemente inspirado pelo Cinema Marginal dos anos 60-70 e pretende explorar lendas tupiniquins, como o Saci Pererê e o conto "Macário", de Álvares de Azevedo, além de elementos do sincretismo religioso. O filme até começa muito bem, no Brasil do século 19, quando Macário participa de um ritual satânico à beira da praia. Depois, ele faz um pacto com o diabo para conhecer São Paulo (apresentada através de fotos históricas da época), mas o cramulhão (representado como uma negra gorda e seminua, o Exú-Lebara) passa a perna no sujeito e o transporta para a São Paulo do século 21. É aí que o filme degringola: o diretor Saghaard prefere apelar para cenas desconexas e diálogos redundantes ao invés de contar uma história, e não foge dos lugares-comuns, como a miséria e a violência urbana, e o fato de Macário acabar vivendo entre os "excluídos". Há algumas cenas inspiradas, como a dondoca que tem a cabeça decepada num acidente de automóvel, mas simplesmente levanta, põe a cabeça no lugar e vai malhar na academia. Mas outra alegorias não funcionam (tipo o bandeirante atirando no garoto de rua, que depois vira Saci), e, no geral, o filme é arrastado e "viajão" demais, com uma proposta que não se sustenta. Quando finalmente aparece o final, é praticamente um alívio para quem, como eu, não conseguiu mergulhar na proposta da coisa. Continuo sonhando com um filme de horror menos desconexo envolvendo elementos do folclore brasileiro. Há participações (sem grande destaque) de gente "cult" como José Mojica Marins, Ivan Cardoso e Carlos Reichenbach. Visto no SP Terror.




PROGRAMA ANIMAL (Strange Wilderness, 2008, EUA. Dir: Fred Wolf)
Tem coisa pior do que comédia que se acha engraçadíssima quando na verdade não tem a menor graça? Bem-vindo a "Programa Animal", uma das coisas mais infames da "comédia" moderna, capaz de perder no nível de graça para os programas "Zorra Total" e "A Praça é Nossa" (o que já dá uma boa idéia do que esperar). Steve Zahn, que ironicamente um dia já foi engraçado, interpreta Peter, filho de um veterano apresentador de programas sobre a vida animal, que tenta seguir os passos do pai. Só que ele é um incompetente que não entende nada sobre animais, cercado de uma equipe ainda pior. Quando a produção do programa ameaça tirá-lo do ar, Peter e sua turma resolvem sair em busca do lendário Pé Grande para fazer um programa histórico e continuar na emissora. Se parece que não tem graça só pelo resumo, é porque não tem mesmo. Ironicamente, o filme desperdiça diversas caras conhecidas das comédias recentes, como Zahn, Justin Long, Jonah Hill, Allen Covert e Kevin Heffernan (do grupo Broken Lizard), sem dar a essa turma nenhuma piada inspirada. Para dar uma idéia do "nível" da coisa, os momentos supostamente engraçados da película envolvem um peru abocanhando o pinto de Steve Zahn (com direito a radiografia do pênis enfiado dentro do crânio da ave) e pessoas vomitando dentro da boca de um tubarão para vingar o ataque a um amigo delas. Ah, o diretor também acha o máximo mostrar os personagens fumando maconha ou levando golpes nas partes baixas, como se isso fosse engraçadísimo. Agora imagine o restante das "piadas". É até constrangedor ver um veterano como Ernest Borgnine pagando mico numa bomba como essa. Ai, que saudade das comédias bestas dos anos 80...




ZIBAHKHANA - ESTRADA PARA O INFERNO (Zibahkhana/Hell's Ground, 2007, Paquistão/Inglaterra. Dir: Omar Khan)
Curto e grosso: é a versão paquistanesa de "O Massacre da Serra Elétrica". Isso mesmo, PAQUISTANESA! Só por isso, já vale a pena ver essa pérola: os rostos, o idioma, os figurinos e os elementos culturais são muito diferentes do que estamos acostumados a ver no cinema de horror, e só o fato de o assassino vestir uma burka (aquele traje que cobre as mulheres islâmicas dos pés à cabeça) já dá uma idéia do choque cultural. O roteiro segue à risca o filme de Tobe Hooper: cinco jovens paquistaneses mentem para suas famílias dizendo que vão passar a noite estudando, mas caem na estrada numa van para ir a um show de rock numa cidade vizinha. No caminho, encontram um caroneiro mal-intencionado (hmmm, isso me lembra alguma coisa...), e acabam num velho casarão onde o assassino da burka mata e esquarteja visitantes, usando, entre outras ferramentas, uma bizarra arma semelhante a uma bolhadeira, mas com lâminas (vai ver não existe motosserra naquela região!). O bizarro é que essa trama já clichê acaba se misturando com outra sobre a contaminação das fontes de água das redondezas, e o líquido contaminado transforma as pessoas em zumbis!!! Isso mesmo, é um assassino serial e zumbis NO MESMO FILME! O resultado é no mínimo divertido, além, é claro, de muito estranho. Vale a pena conhecer, nem que seja para ver pela primeira vez um filme de horror paquistanês - cujo roteiro teve uma mãozinha de um "ocidental", o pesquisador Pete Tombs, dono da empresa Mondo Macabro, especializada em DVDs de filmes obscuros. Visto no Fantaspoa.




OS DESCENDENTES (Solos/Descendents, 2008, Chile. Dir: Jorge Olguín)Simplesmente um dos piores filmes que já vi na vida - e considerando a quantidade de porcaria que assisto, isso não quer dizer pouca coisa. O chileno Jorge Olguín, que já havia dirigido o péssimo "Sangue Eterno" (sobre mimados vampiros góticos), consegue se superar nessa mistura de "Filhos da Esperança" com "Extermínio" (copiando inclusive fotografia e câmera desses filmes), com alguns toques de "O Labirinto do Fauno". A idéia originalmente é boa: num futuro não-determinado, uma praga transformou os seres humanos em zumbis raivosos estilo "Extermínio". A história é narrada do ponto de vista de uma criança que é imune à doença, e passa o tempo inteiro perambulando pelo mundo devastado, encontrando outros sobreviventes, enfrentando soldados e zumbis. Uma história de zumbis pelos olhos de uma criança? Uau, isso nem o George Romero fez ainda! Pena que Olguín entregue um filme burocrático e muito chato, onde parece ter filmado apenas 30 minutos de cenas, tanto que as repete o tempo inteiro para fechar o tempo (interminável) de 74 minutos - um flashback da mãe dando orientações à filha, antes de ela fugir do laboratório em que esteve presa, é repetido no mínimo quatro vezes! Olguín também parece não ter qualquer noção de ritmo e edição, espichando cenas até o limite do tolerável, filmando coisas desnecessárias tipo cinco crianças bebendo água (sim, ele filma CADA UMA DELAS pegando a garrafa de água e bebendo). E ainda sai com um dos finais mais inesperados e idiotas da história, com direito a polvo gigante (juro!) e "revelação-surpresa". Enfim, uma daquelas perdas de tempo que nos dão a certeza de que há coisa beeeeem pior - e mais pretensiosa - que Ed Wood e Uwe Boll por aí. Visto no SP Terror.




FANBOYS (idem, 2008, EUA. Dir: Kyle Newman)Ótima e divertidíssima comédia sobre o universo de "Star Wars", engraçada tanto para quem ama quanto para quem odeia a série criada por George Lucas. Na verdade, é inexplicável que esse filme ainda não tenha chegado aos cinemas (a novela envolve a tradicional influência nefasta do produtor recalcado Harvey Weinstein, que queria fazer várias mudanças na edição). Na trama, que se passa em 1999, quatro nerds viciados em "Star Wars" esperam ansiosamente pelo lançamento oficial de "Star Wars Episódio 1 - A Ameaça Fantasma". Quando descobrem que um deles está com câncer terminal, e provavelmente vai morrer antes da estréia, resolvem cruzar o país até o Rancho Skywalker, a base de operações de George Lucas, para roubar uma cópia do filme e ver antes da tragédia. A viagem envolve todo tipo de confusão, de confrontos com os "trekkies" (fanáticos por outra série espacial, "Star Trek") ao encontro com personagens bizarros, interpretados por Danny Trejo, Seth Rogen, Kevin Smith, William Shatner e, claro, as figurinhas carimbadas da série "Star Wars" (Carrie Fisher, Billy Dee Williams, Ray Park...). Embora o início dê a entender que será um filme de e para nerds, o filme logo dá uma virada sensacional, com piadas inspiradíssimas sobre cinema e cultura pop, e principalmente brincando com a ruindade do "Episódio 1" (o personagem de Rogen fez uma enorme tatuagem de Jar Jar Binks nas costas, alegando que o personagem "provavelmente será o máximo"). Outros momentos de rolar de rir envolvem a figura de um juiz chamado Reinhold (sim, "Judge Reinhold", nome de um ator popular dos anos 80) e a discussão sobre Harrison Ford ser o melhor ator de todos os tempos, já que foi Han Solo, Indiana Jones e Deckard, o "Caçador de Andróides" (a conversa acontece diante de um cartaz do péssimo "Seis Dias, Sete Noites", estrelado por... Harrison Ford!). Faltou apenas uma participação do próprio George Lucas para a coisa ficar ainda mais divertida, mas, do jeito que está, "Fanboys" é uma das maiores surpresas que tive esse ano em matéria de comédias. Não deixe de ver!




ISCA PERIGOSA (Gator Bait, 1974, EUA. Dir: Ferd e Beverly Sebastian)Um daqueles péssimos "sexploitation" dos anos 70 que hoje só são lembrados pelo nome, pela fama e pelo pôster legal. A grande atração é a bela Claudia Jennings, que foi coelhinha da Playboy, musa de filmes de quinta categoria como esse e "Deathsport", e morreu prematuramente num acidente de automóvel em 1979. Ela "interpreta" Desiree Thibodeau, uma "rude" caçadora de crocodilos que vive isolada num casebre nos pântanos da Louisiana, onde cuida dos irmãos mais novos. Interessante é que a "rude" caçadora que vive no pântano está sempre maquiada e penteada, e veste trajes como um minúsculo shortinho jeans, mas tudo bem. A moça enlouquece os rapazes da região, inclusive o filho do xerife, que tenta agarrá-la à força. Mas a tentativa mal-sucedida acaba com a morte de outro rapaz, filho de um poderoso fazendeiro das redondezas. Desiree é considerada culpada pelo assassinato, e começa uma caçada à moça pelos pântanos. Só que os perseguidores exageram, e acabam estuprando e matando a irmã dela (com um tiro de espingarda na vagina!). Lá vem vingança: Desiree passa o resto do filme perseguindo e matando os homens, em cenas nada inspiradas e pouco violentas. O grande problema do filme, além do fato de ele ser arrastado, é que depois surgiu coisa bem melhor na mesma linha, como "A Vingança de Jennifer". Por isso, parece que falta nudez e violência aqui - a própria Claudia quase não tira a roupa. Sobram, entretanto, cenas xaropes, incluindo um momento "Luke, I'm your father". Surpreendentemente, essa coisa teve uma seqüência tardia, dos mesmos diretores-roteiristas, 14 anos depois: "Isca Perigosa 2 - A Justiça de Cajun", de 1988!

sábado, 1 de agosto de 2009

PERDIDOS NO VALE DOS DINOSSAUROS (1985)


Imagine uma mistura entre a série Indiana Jones, as aventuras de "Tudo por uma Esmeralda" (dirigido por Robert Zemeckis, em 1984) e o horror dos filmes italianos de canibais, como "Cannibal Holocaust", acrescentando ainda uma pitada das aventuras ingênuas dos Trapalhões (brigas pastelão e gracinhas diversas) e um toque dos velhos western spaghetti. E não é que existe uma coisa assim? A doideira chama-se PERDIDOS NO VALE DOS DINOSSAUROS e foi feita aqui mesmo, no Brasil, em 1985, numa produção ítalo-brasileira dirigida por um tal de Michael E. Lemick.

Apesar da história se passar na Amazônia, as cenas foram todas filmadas na Floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro. E não se espante com o tal "Lemick", pois não se trata de nenhum famoso cineasta norte-americano, e sim do italiano Michele Massimo Tarantini, escondido atrás de pseudônimo em inglês.

PERDIDOS NO VALE DOS DINOSSAUROS na verdade é um daqueles filmes para públicos bem específicos: trata-se de uma aventura tosca em ritmo de pornochanchada, misturando no mesmo balaio canibais, aventuras na selva (com ataques de cobras, piranhas e sanguessugas) e até um grupo de violentos garimpeiros, sempre sem se levar a sério, apostando no humor e em tiradas absurdas, estilo história em quadrinhos. Inclusive uma das melhores descrições que já li sobre essa pérola classifica assim: "Uma mistura de 'Indiana Jones e o Templo da Perdição' com 'A Montanha dos Canibais'". Perfeito!


A primeira vez que vi esse clássico foi ainda fedelho, quando ele foi exibido em horário nobre pela TV Bandeirantes e eu gravei. Mas minha mãe, furiosa com a quantidade de violência e (principalmente) mulher pelada, ordenou que eu imediatamente gravasse um filme mais "inofensivo" na mesma fita, por cima daquela baixaria. Se bem me lembro, a honra foi de "O Exterminador do Futuro", que acabou exterminando também o meu único registro da exibição do filme de Tarantini na TV aberta...

Depois demorou um bom tempo para que eu descolasse uma fita VHS "oficial" do filme (lançada pela extinta Video Cassete do Brasil), e finalmente o DVD lançado lá nos States com o título "Massacre in Dinosaur Valley" (olha que chique!), e que traz uma versão mais completa do filme, com cenas que não existem na nossa cópia nacional (inclusive uma cena de sexo!!!).

Naquele longínquo ano de 1985, o diretor Tarantini assinou duas produções em conjunto Brasil/Itália, PERDIDOS NO VALE DOS DINOSSAUROS e "Fêmeas em Fuga" (um impagável WIP que em breve também estará aqui no blog), ambos estrelados pela belíssima brasileira Suzane Carvalho. A morena linda vinha de ensaios em revistas masculinas, como Ele & Ela, trabalhos na TV e desfiles de escolas de samba, e subitamente resolveu mostrar o corpão no cinema "exploitation". Também só fez estes dois filmes e sumiu de cena, tornando-se piloto de automobilismo!

Sim, amiguinhos, pode parecer incrível, mas a estrela de algo chamado PERDIDOS NO VALE DOS DINOSSAUROS saiu do cinema não para o esquecimento, mas sim para se tornar a primeira mulher a conquistar um título em Fórmula 3, inclusive tendo seu nome registrado no Guiness, o Livro dos Recordes!!! (Há alguns anos tentei entrevistá-la, via e-mail, para o site Boca do Inferno, mas Suzane preferiu não responder as perguntas sobre sua participação no filme de Tarantini, talvez por vergonha...)


Num clima total de pornochanchada, a sacanagem impera em PERDIDOS NO VALE DOS DINOSSAUROS, o que talvez tenha assustado minha inocente mãe lá atrás, na minha infância. As atrizes principais do filme (quase todas brasileiras) passam a maior parte do tempo sem roupa; há ainda um pouco de sexo implícito e rápidas cenas de estupro, banho (de chuveiro e de rio) e até lesbianismo! Tudo no filme é desculpa para tirar a roupa da mulherada, desde bêbados chatos levantando a saia de modelos até índios tarados que despem suas prisioneiras para o sacrifício. Ou seja, definitivamente um daqueles filmes feitos para quem gosta de cinema com muito sangue e sacanagem. E quem não gosta?

O filme começa com um ônibus imundo transitando por uma poeirenta estrada de chão batido, levando no seu interior o Professor Ibanez e sua filha Eva (Suzane). Logo descobrimos que ele é um paleontologista famoso, que está no Brasil para visitar o Vale dos Dinossauros, bem no meio da floresta amazônica. O lugar é famoso tanto por seu interesse histórico quanto por uma suposta maldição indígena que o rodeia.

Ibanez e Eva param na minúscula Vila de São Sebastião e vão para o hotel, onde o carregador de malas, negro, se chama "Maizena". No mesmo hotel também estão um fotógrafo de São Paulo, Robi, com duas belíssimas modelos, Monica e Belina; um casal exótico de americanos formado pelo violento, e impotente, capitão John Reines, um veterano do Vietnã, e sua mulher bebum e clone envelhecida de Marilyn Monroe, Beth.

Quando o herói do filme entra em cena, percebemos que não é para levar o negócio a sério. O "arqueólogo" vagabundo Kevin Hall (o norte-americano Michael Sopkiw, em seu último trabalho no cinema), aparentemente um funcionário do Museu de Paleontologia de Boston, chega à vila deitado na carroceria de um caminhão cheio de bananas, sem um único dólar no bolso e arrastando uma caixa cheia de velhos ossos de dinossauro.


Kevin é uma espécie de Indiana Jones de terceiro mundo: malandro, cheio de piadinhas e disposto a comer quantas mulheres cruzarem seu caminho (neste quesito ele é o contrário do casto personagem de Harrison Ford nos filmes da série de Steven Spielberg). Mas Kevin também tem sangue-frio para matar as dezenas de índios e vilões que cruzam seu caminho, e muita cara-de-pau para chegar junto na mulherada. Isso que é herói!

Ao descobrir que o Professor Ibanez planeja voar até o Vale dos Dinossauros, Kevin fica louco para juntar-se à expedição. Antes, entretanto, tenta dar uma de cavalheiro heróico e salvar uma das belas modelos de um bêbado que estava tirando a roupa da moça, no bar do hotel. Péssima idéia: o bêbado, baixinho, apanha fácil, mas tinha dois irmãos gigantescos, que dão uma surra violenta no arqueólogo americano (o momento "Os Trapalhões" do filme, inclusive com aquela clássica cena em que a mão de uma pessoa é apertada e ouvimos o estalar dos ossos se partindo!!!

No dia seguinte, Kevin vai procurar o Professor Ibanez, mas encontra algo melhor: sua filha Eva tomando banho, completamente pelada. Uma bela forma de conhecer aquele que será seu interesse romântico na trama. Quando ele e Ibanez entram em acordo, logo todos estão num pequeno avião sobrevoando a Amazônia. Claro, a tal maldição do Vale dos Dinossauros revela-se verdadeira.

O avião começa a perder altitude até cair, numa cena trash até a medula, onde Tarantini não tem a menor vergonha na cara e simplesmente atira um avião de brinquedo em uma ridícula miniatura da selva, enquanto filma seus atores sacundindo dentro de um cenário precário, como se estivessem dentro do avião!!!


Na queda morrem o piloto, o Professor Ibanez e uma das modelos. Os sobreviventes então resolvem seguir pela selva em busca da civilização, liderados, claro, pelo tal capitão Reines, pois ele acredita que os três anos passados no Vietnã o credenciam a ser guia no meio da selva.

A partir de então, todas as provações da floresta são mostradas: sanguessugas, serpentes, jacarés e piranhas. Além, é claro, de um rápido plágio de "Tudo por uma Esmeralda", quando Reines corta os saltos do sapato da modelo sobrevivente com um facão.

E logo os sobreviventes se vêem às voltas com uma belicosa tribo de canibais, que quer sacrificar as moças do grupo para seu "Deus Dinossauro" (hahahahaha), e ainda com um grupo de garimpeiros de esmeraldas, selvagens e violentos, liderados por China, que é interpretado por ninguém menos que CARLOS IMPERIAL (famoso cantor brasileiro e autor de sucessos como "O Bom", da Jovem Guarda)!!!!!

A partir de então, o que era uma história sobre canibais e sobrevivência na selva se transforma em WIP. É ou não é um autêntico clássico do FILMES PARA DOIDOS?


PERDIDOS NO VALE DOS DINOSSAUROS é um filme maluco, roteirizado pelo próprio Tarantini e por Dardano Sacchetti (o inspirado roteirista de nove entre 10 bons filmes italianos da época), que nem ganhou crédito. Bastante divertido e com doses cavalares de mulher pelada e de violência (incluindo coração arrancado, mutilação de seio e perna devorada por piranhas), é a pérola perfeita para "iniciar" jovens virgens no cinema bagaceiro italiano dos anos 80 - ironicamente, foi o que aconteceu no meu caso. É incrível como não fazem mais filmes bobos e divertidos assim nos dias de hoje.

Na entrevista que acompanha o DVD importado, há uma entrevista com o diretor Michele Tarantini, onde ele explica como surgiu essa bizarra aventura: "O produtor Luciano Martino, com quem trabalhei em vários filmes, leu em algum lugar sobre a descoberta de pegadas de dinossauro em um vale brasileiro. E na mesma época, nos cinemas italianos, estava passando um filme de Michael Douglas, chamado 'Tudo por uma Esmeralda'. Pensamos em fazer uma história parecida, mas mais violenta, para o mercado asiático. Principalmente para o Japão, onde Ruggero Deodato e o cinema italiano dominavam. Então adicionamos alguns elementos de canibalismo e fizemos uma mistura de aventura, comédia, erotismo e canibais".

Para quem duvida da precariedade da produção: a tribo canibal é formada por meia dúzia de figurantes que, mesmo quando são mortos pelo herói, voltam à cena usando outra roupa para disfarçar; a espingarda do herói nunca fica sem munição (e miraculosamente nunca é recarregada); as cenas da selva são realizadas quase que totalmente em um mesmo trecho de rio (que, graças à magia do cinema, leva o espectador a acreditar que os personagens estão andando quilômetros e quilômetros); a "areia movediça" é um buraco cheio de água, e por aí vai.


Isso sem contar a picaretagem de utilizar uma trilha sonora composta para outro filme: enquanto os heróis caminham pela selva, tocam dois temas da trilha de "Blastfighter", filme realizado no mesmo ano (1985) por Lamberto Bava, e coincidentemente também com o ator Michael Sopkiw no papel principal!

Além de tudo isso, há cenas de briga de galo (!!!), muitos palavrões tipo pornochanchada ("Seu fudido!", "Seu filho da puta!") e uma tonelada de abobrinhas diversas para fazer o espectador chorar de rir, incluindo os antológicos diálogos, como aquele em que o vilão China justifica sua maldade ("Talvez porque eu tenha tido uma infância muito infeliz... Ou talvez porque eu sou um filha da puta!"), ou o comentário de Kevin ao topar com dois irmãos cuja cor da pele é, digamos, bastante diferente ("A julgar pela cor da pele, eu diria que a mãe de vocês é uma tremenda piranha!"). Ou ainda o clássico momento em que o herói interrompe a transa com a gostosa da Suzane Carvalho para examinar fósseis!!! Enfim, é difícil escolher uma cena ou diálogo preferido, pois o filme inteiro é simplesmente antológico.

A propósito: apesar do título, e do nome "Vale dos Dinossauros", não aparece qualquer dinossauro em cena, o que foi motivo de fúria para muitos desavisados na época de lançamento do filme!


Eu só não consigo entender como é que um clássico trash como PERDIDOS NO VALE DOS DINOSSAUROS não é mais conhecido e valorizado por aqui. Tem gente que se emociona quando filmes como "Cidade de Deus" ou "Olga" (argh!) chegam ao Oscar. Ora bolas, com toda a máquina do marketing e dinheiro investido nesses filmes fica fácil, mas o que realmente me deixa com lágrimas nos olhos é ver o cartaz japonês de uma produção ítalo-nacional pobre, como PERDIDOS NO VALE DOS DINOSSAUROS, comprovando que mesmo um filme que é feito com um mínimo de dinheiro e recursos pode se destacar no resto do planeta por suas qualidade e defeitos, mesmo quando é solenemente esquecido na sua pátria de origem, o Brasil.

PS: Morram de inveja, colecionadores de tralhas, mas uma das minhas relíquias, guardada a sete chaves aqui em minha fortaleza rio-grandense, é um pôster brasileiro de cinema de PERDIDOS NO VALE DOS DINOSSAUROS, tosco e mal-feito como o próprio filme, mas que um dia eu ainda vou emoldurar e pendurar com orgulho no meu quarto. Sim, desculpem se pareço piegas, mas eu amo essa porcaria de filme do fundo do meu coração!

Trailer de PERDIDOS NO VALE DOS DINOSSAUROS



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Massacre in Dinosaur Valley/ Nudo e
Selvaggio/ Cannibal Ferox 2/
Amazonas (1985, Brasil/Itália)

Direção: Michael E. Lemick (Michele
Massimo Tarantini)
Elenco: Michael Sopkiw, Suzane Carvalho,
Milton Morris, Marta Anderson, Jofre Soares,
Gloria Cristal e Carlos Imperial.