quinta-feira, 28 de maio de 2009

O Código dos Anjos e Demônios


Muita gente vai pensar que levei o título deste blog muito a sério e fiquei doido, mas mesmo assim vou na contramão dos críticos "sérios" e de toda a blogosfera: eu gostei de "Anjos e Demônios". Inclusive acredito que seja, até agora, o segundo melhor blockbuster hollywoodiano de 2009. O primeiro, obviamente, é o "visionário" filme de super-heróis do Zack Snyder, que fica ainda melhor diante de bombas do calibre do "Wolverine" ou do "The Spirit".

Isso quer dizer que "Anjos e Demônios" é um graaaaande filme? Não, não é. Mas garante umas boas duas horas de diversão sem muita enrolação. Porque, sabem, "só trabalho sem diversão faz de Jack um bobalhão"...

"Anjos e Demônios" é baseado em outra obra de Dan Brown, o mais famoso "escritor de livros de rodoviária" dos Estados Unidos, e praticamente traz de volta toda a equipe técnica responsável pelo péssimo "O Código Da Vinci" em 2006: o diretor Ron Howard, o astro Tom Hanks e o "roteirista" (sim, as aspas significam ironia) Akiva Goldsman, aquele mesmo senhor que escreveu coisas como "Eu Sou a Lenda" e "Batman & Robin".

Bem, para começo de conversa, "Anjos e Demônios", o filme, é bem melhor que "O Código Da Vinci", o filme - o que não quer dizer muita coisa, dada a extrema ruindade da associação anterior entre Ron Howard, Tom Hanks, Akiva Goldsman e um livro de Dan Brown.


Pelo visto, a trupe toda aprendeu com os erros da primeira adaptação, quando, na ânsia de serem fielmente reverentes à mirabolante trama escrita por Brown, acabaram com um monstruoso e prolixo filme ruim repleto de diálogos expositivos e personagens que precisavam explicar as coisas tintim por tintim enquanto andavam ou corriam, para dar tempo de adaptar toda a história do livro.

O novo filme tem dois grandes acertos. O primeiro é não ser tão reverente à literatura de rodoviária de Dan Brown, mudando-a e modelando-a para o universo cinematográfico. Algumas coisas ficaram piores que o livro, risco que sempre se corre nesse tipo de adaptação; mas a maioria das mudanças aqui foi para melhor. O segundo grande acerto é transformar em seqüência uma trama que, no livro, era anterior a "O Código Da Vinci". Assim, o Robert Langdon do filme "Anjos e Demônios" é o Robert Langdon que comeu o pão que o diabo amassou em "O Código Da Vinci" e sabe que a Igreja Católica é um ninho de cobras e de mentiras.

Filme e livro se passam após a morte do Papa (um pontífice fictício, obviamente) e durante a realização do conclave dos cardeais para elegerem seu sucessor. O mais irônico é que o livro de Brown foi publicado em 2000, alguns anos antes da morte do Papa João Paulo II na vida real, quando pouca gente sabia como era o ritual de eleição de um novo pontífice - coisa que a mídia tratou de explicar detalhadamente na época da eleição do atual Bento XVI.


A trama começa com o assassinato de um cientista do projeto LHC, e segue com o seqüestro dos quatro cardeais mais cotados para assumir o cargo mais importante da Igreja Católica. A responsabilidade recai sobre uma misteriosa sociedade secreta chamada Illuminati, que pregava a ciência e a razão ao invés da religião, e por isso seus membros foram caçados e mortos pela Igreja séculos antes. Agora, eles aparentemente voltaram à ativa e pretendem se vingar não só matando os quatro cardeais, mas também fazendo explodir uma bomba de anti-matéria (não pergunte...) bem no centro da Praça de São Pedro, no coração do Vaticano.

E como o simbologista norte-americano Langdon havia escrito um livro sobre os Illuminati, ele é convocado para ir até o Vaticano ajudar nas investigações, ao lado da bela cientista Vittoria Vetra (interpretada por Ayelet Zurer). Langdon cita uma lenda sobre os quatro "Altares da Ciência" escondidos pelos Illuminati em igrejas de Roma, e que representariam os quatro elementos (água, ar, fogo e terra); seguindo-os, seria possível chegar ao "Caminho da Iluminação", onde o herói acredita estar a solução para impedir as mortes e encontrar a tal bomba.

Durante a aventura pela Itália, a dupla é ajudada pelo camerlengo (nome dado ao assessor pessoal do falecido Papa), interpretado por Ewan McGregor, e atrapalhada pelo comandante da Guarda Suíça, interpretado por Stellan Skarsgård.

A estrutura básica de "Anjos e Demônios" é muito parecida com a de "O Código Da Vinci": Langdon e sua parceira feminina passam o filme caçando pistas escondidas em velhas igrejas reais e em obras de artes reais, principalmente as esculturas do artista italiano Gian Lorenzo Bernini. Outras famosas figuras históricas, como Rafael e Galileu Galilei, são citadas o tempo inteiro.


Isso quer dizer que "Anjos e Demônios" é uma cópia xerox de "O Código Da Vinci"? Bom, na verdade é justamente o contrário, pois nas livrarias ele foi lançado ANTES de "O Código Da Vinci". O que ocorre é que o autor Dan Brown, apesar de hábil em manipular o suspense e a atenção do leitor, é um escritor medíocre e repetitivo, pois os livros têm estrutura praticamente idêntica. Aliás, analisando friamente, é a MESMA HISTÓRIA, com pequenas alterações. Se duvida, confira:

- Nos dois livros, o simbologista Robert Langdon investiga um mistério cujas pistas estão espalhadas em prédios históricos (igrejas italianas em "AED", igrejas francesas em "CDV") e obras de arte (as esculturas de Bernini em "AED" e os quadros de Da Vinci em "CDV")

- Ambos começam com o assassinato de uma figura proeminente (um famoso cientista do projeto Grande Colisor de Hádrons em "AED", o curador do Museu do Louvre em "CDV")

- Langdon é ajudado por uma garota diferente em cada livro, mas a dita cuja sempre é ligada por algum laço de família ao tal primeiro assassinado de cada livro (filha adotiva do cientista assassinado em "AED", num detalhe eliminado do filme, e "sobrinha adotiva" do curador do Louvre assassinado em "CDV"). Para piorar, Langdon não pega nenhuma das duas!!!

- O casal sempre precisa correr contra o relógio para decifrar os enigmas (em "AED" para tentar evitar a morte dos quatro cardeais, em "CDV" porque são perseguidos pela polícia)

- Uma misteriosa sociedade (Illuminati em "AED", Opus Dei em "CDV") sempre parece estar por trás dos crimes

- O grande vilão que articula tudo é apresentado apenas como "Mestre", e sua identidade só é revelada nas páginas finais. Mas, nos dois livros, Brown usa a mesmíssima tática: jogar a culpa num personagem nada simpático (o chefe da Guarda Suíça em "AED" e o inspetor de polícia em "CDV") para depois revelar que o culpado era o menos suspeito de todos, em ambos os casos um aliado dos heróis (bom, essa eu não vou entregar para não estragar a surpresa).



Com tanto em comum entre os dois livros, ainda bem que o roteiro de "Anjos e Demônios" faz o favor de mudar algumas coisas e deixar outras de lado. O novo filme também corrige o principal defeito da adaptação de "O Código Da Vinci": o excesso de informação. Este novo roteiro de Goldsman (argh!) e David Koepp enxugou ao máximo o texto original, mas mantendo a essência.

Assim, apesar de várias bobagens aqui e ali, "Anjos e Demônios" até consegue criar suspense e tensão em alguns momentos, já que agora Langdon está correndo contra o relógio para tentar impedir quatro mortes e evitar uma tragédia na Praça de São Pedro - ao contrário da outra aventura, em que ele buscava apenas liv'rar o próprio pescoço. Ao contrário do livro, o destino do quarteto de cardeais é diferente no filme, o que garante algumas surpresas para quem já leu a obra (ao contrário do que acontecia em "O Código Da Vinci").

Embora volta-e-meia o filme sofra do mal "muito enfeite para pouca informação" (como o injustificável excesso de efeitos computadorizados durante a experiência com anti-matéria, no início), os produtores ganham pontos por "diminuir" vários absurdos gritantes do texto de Dan Brown (digamos apenas que Langdon também estava no helicóptero na cena final, para quem já viu o filme mas não leu o livro, e escapava da morte de um jeito à la McGyver!), e também por eliminar clichês como o seqüestro da mocinha pelo vilão (sim, isso também acontecia no livro!).


Porém o mais interessante de "Anjos e Demônios", o filme, é o contraste gritante entre os rituais seculares da Igreja Católica, cheios de frescuras seguidas à risca (da destruição do anel do Papa morto até o excesso de detalhes da preparação do conclave), com o mundo moderno da tecnologia e da ciência. Chega a ser irônico ver o conclave seguindo regras medievais numa cena e os cardeais utilizando telefones celulares e filmadoras digitais no momento seguinte (bem como usar fumaça preta/fumaça branca em plena era da informática!). Também chama a atenção a alta tecnologia de preservação dos documentos nos arquivos secretos do Vaticano.

Infelizmente, o roteiro de Goldsman e Koepp não escapa de furos gritantes, que parecem insultos à inteligência do espectador. O principal deles é o assassino anônimo (interpretado pelo ótimo Nikolaj Lie Kaas), que é implacável e sangue-frio na hora de matar cardeais, policiais e até agentes especiais do Vaticano, mas nunca atira em Langdon ou Vittoria, mesmo tendo ao menos umas cinco chances de fazê-lo ao longo do filme. A cena mais ridícula, inclusive, é aquela em que o assassino rende a dupla de heróis, mas solta algo do tipo "Não tenho motivos para matá-los, a não ser que vocês me sigam", e realmente vai embora sem atirar neles, apesar de ter matado muita gente antes por menos que isso!


E "Anjos e Demônios" provavelmente entrará para a história do cinema como um dos maiores desperdícios de talentos já filmados, pois astros como Tom Hanks e Ewan McGregor e grandes atores como Stellan Skarsgård e Armin Mueller-Stahl passam pelo filme sem nem tentar interpretar, em atuações nada memoráveis, dignas de novela das seis. Do jeito que está, podia até ser C. Thomas Howell no papel principal que ninguém iria perceber.

O mesmo vale para o diretor Ron Howard: parece que ele ficou dormindo no set e deixou o eletricista filmar. Dá para contar nos dedos as cenas realmente marcantes - uma delas é a exumação do falecido Papa.

Mas, somando prós e contras, o resultado é um passatempo bastante aceitável, um blockbuster disfarçado de "filme culto" que realmente diverte e prende a atenção, ainda que seja facilmente esquecível. E é uma aventura que cumpre melhor o papel de levar alguma cultura às massas, de Bernini a Galileu, do que a maioria dos programas supostamente "educativos" da Rede Globo, por exemplo.

Como o Indiana Jones do século 21 está muito ocupado caçando alienígenas, ainda bem que sobrou o Robert Langdon para resolver interessantes mistérios históricos baseados em relíquias reais. Entre a "Caveira de Cristal" e esse aqui, fico com o Langdon!


PS: É bom não encarar tudo o que Dan Brown escreve como verdade absoluta (como fizeram também com "O Código Da Vinci"), pois basta pesquisar um pouco para perceber a quantidade de informações equivocadas presentes tanto no livro quanto no filme "Anjos e Demônios". Por exemplo: o Papa João Paulo II extinguiu a eleição de um novo Papa por aclamação em 1996; o camerlengo deve sempre ser um cardeal, e não um padre, como no filme; com a morte de um Papa, o poder da Igreja passa para um grupo de cardeais, e não para o camerlengo, e por aí vai...

terça-feira, 26 de maio de 2009

O SAMURAI NEGRO (1978)


Quando se fala dos filmes que inspiraram Quentin Tarantino a fazer "Kill Bill", é muito fácil cair no lugar-comum e citar as obras mais confirmadas, como "Thriller - A Cruel Picture", os western spaghetti e os filmes de Hong-Kong tipo "Lady Snowblood". Mas pouca gente lembra daquela tonelada de produções baratas e bagaceiras que o Tarantino viu durante sua vida de viciado em tralhas, e das quais chupou não só personagens e situações, mas também diálogos inteiros. Uma delas, praticamente desconhecida (mesmo dos grandes fãs de "Kill Bill"), é O SAMURAI NEGRO, blaxploitation dirigido pelo filipino Cirio H. Santiago.

O velho Cirio, falecido recentemente (em setembro de 2008), tem uma respeitável carreira com mais de 70 filmes nos mais variados gêneros. Tarantino era um fã declarado do cinema barato e barulhento deste cineasta pouco reconhecido, inclusive teve um antológico encontro com o ídolo antes de sua morte. No Brasil, naqueles tempos áureos do VHS (é, eu não canso de usar esta expressão...), vários filmes de Santiago chegaram às nossas locadoras, principalmente as suas amalucadas aventuras no Vietnã, mas também alguns sexploitation ("Vingança Nua") e ficções científicas pós-apocalípticas ("Equalizer 2000"). Hoje você encontra estas fitas em sebos a R$ 1,00, mas acredito que, até agora, pouquíssimos filmes do diretor tenham sido relançados em DVD por aqui.


Este O SAMURAI NEGRO é uma das raras exceções. Pena que o tal DVD nacional seja mais um daqueles desserviços ao cinema independente prestados pelos picaretas da distribuidora Works, agora rebatizada "Líder Filmes". Mas, apesar do novo nome-fantasia, não se vê nada de liderança na empresa e muito menos no produto em si: além de usar um título em português que lembra um outro filme ("The Black Samurai", de Al Adamson), só para confundir o espectador, a distribuidora ainda conseguiu a façanha de colocar no mercado um DVD com legendas atrasadas em relação aos diálogos originais (tornando impossível o ato de assistir o filme com as legendas), e com dublagem em português na mesma situação (o personagem abre a boca e a voz dublada sai só um tempo depois). Logo, você gasta R$ 9,90 para ser obrigado a ver um filme em inglês sem legendas, já que apenas o som original está milagrosamente sincronizado. Alguém tem o telefone do Procon?

Tem muito de "Kill Bill" em O SAMURAI NEGRO, mas obviamente essa é uma versão masculina da velha trama da busca de vingança na ponta de uma espada. O roteiro é de Howard R. Cohen, um especialista em aventuras baratas e sangrentas (ele escreveu a "clássica" quadrilogia "Deathstalker", por exemplo).

Ele narra o drama de Doug Russell (o rechonchudo James Inglehart, de "De Volta ao Vale das Bonecas"), um soldado norte-americano no Vietnã. Com o fim da guerra chegando, ele se alia a outros dois soldados, McGee (Leon Isaac Kennedy, da série "Penitentiary") e Morelli (Carmen Argenziano, visto recentemente em "Anjos e Demônios"), para roubar uma fortuna em barras de ouro de uma base militar. Depois, o ouro é vendido a um bandido da região (Vic Diaz), em troca de uma pequena bolada.


Tudo poderia terminar bem para os três, mas o olho começa a crescer e McGee e Morelli decidem que será melhor dividir a grana em dois, e não em três. Para isso, resolvem cortar o pescoço do ex-amigo Russell quando ele está desprevenido, depois jogando-o ao mar. Só que o herói milagrosamente sobrevive ao atentado, milagrosamente não morre afogado (apesar de cair desacordado no meio do oceano), e milagrosamente é levado pelas ondas até a única ilha deserta das redondezas, que também milagrosamente não está tão deserta assim.

Pois ali vivem dois soldados japoneses (Joe Mari Avellana e Joonie Gamboa) que receberam ordens de vigiar aquela ilha ainda na Segunda Guerra Mundial, e, 30 anos depois, nem imaginam que o conflito já terminou, e continuam matando todos os que pisam no local!!! Mesmo assim, eles se compadecem do negro à beira da morte que as ondas trouxeram até a ilha, e resolvem curar seus ferimentos e mantê-lo vivo.


Quando nosso herói finalmente se recupera, resolve aprender com os dois japoneses todas as técnicas de manejo da espada para tornar-se um samurai - o "samurai negro" do título em português. Corta para a tradicional montagem de passagem de tempo, com o treinamento do rapaz até ficar perito no uso da espada, e finalmente surge um navio norte-americano na ilha para transportar Russell de volta à civilização.

Enquanto ele curtia uma vida de náufrago, muita coisa mudou nos Estados Unidos. Os velhos "amigos" McGee e Morelli, por exemplo, usaram seu dinheiro e influência para montar uma enorme e poderosa quadrilha de criminosos, praticamente dominando o submundo de Los Angeles. E McGee, para piorar as coisas, anda dando em cima de Maria, a esposa de Russell, que acredita que seu homem morreu na guerra, como contaram seus ex-companheiros na volta do Vietnã. Curiosidades: Maria é interpretada por Jayne Kennedy, que na época era esposa do próprio Leon Isaac Kennedy, e seu filho com Russell é vivido pelo filho verdadeiro do ator James Inglehart.


Como a vingança é doce, o samurai negro retorna do mundo dos mortos, mas não revela sua identidade para os vilões. Ele prefere curtir um tempo com a família (corta para uma montagem hilariante de cenas bregas, como o casal Russell e Maria correndo na praia em câmera lenta), e depois passa o restante do filme moendo criminosos a espadadas, arrancando orelhas, decepando braços e cabeças, enfim, fazendo tudo aquilo que a "Noiva" Uma Thurman mostraria outros 30 anos depois em "Kill Bill".

O SAMURAI NEGRO é simples e direto: um filminho de ação e vingança sem grandes reviravoltas, que, como toda produção blaxploitation que se preze, tem como alvo o público negro. Eles devem ter vibrado ao ver um negro samurai, unindo a malandragem e a fibra típica dos heróis blaxploitation daquele período com a honra e a habilidade dos guerreiros samurais dos filmes de Hong-Kong (que também estavam fazendo sucesso na mesma época).



Enfim, o público-alvo deve ter curtido muito as cenas em que o samurai negro sai mutilando os "branquelos" com sua afiada espada, bem como os diálogos tipo "The only brother is the man on the back of a dollar bill, and he ain’t black!", ou "He don't need a mother(fucker) like you to be his father!".

Inicialmente, o título do filme era "The Last Samurai"; na época do lançamento, entretanto, mudou para o genérico "Death Force". Finalmente, no começo dos anos 80, surgiu um terceiro título genérico, "Fighting Mad", quando o filme foi relançado nos cinemas para aproveitar a repentina fama de dois dos atores, Leon Isaac Kennedy e Jayne Kennedy, que na época era a primeira atriz negra a posar nua para a Playboy (o impagável cartaz desse filme, reproduzido acima, dá mais destaque para Jayne e Leon do que para o herói Inglehart!!!!).


Para quem duvida que Tarantino viu e se baseou no filme de Santiago na hora de fazer "Kill Bill", digamos apenas que um dos diálogos mais engraçados do seu filme, entre Sonny Chiba e Kenji Ohba no "Volume 1", saiu diretamente de O SAMURAI NEGRO. Em "Kill Bill", para quem não lembra, Ohba se queixava com Hattori Hanzo (interpretado por Chiba) de estar servindo saquê há muitos anos em seu restaurante, alegando que já seria general caso estivessem no exército; Hattori então respondia aos berros: "Se você fosse general eu seria imperador, e mesmo assim você continuaria servindo o saquê!". Em O SAMURAI NEGRO, o diálogo acontece entre os dois soldados japoneses isolados na ilha, quando um deles reclama que está assando peixe há décadas, e é igualzinho.

Além disso, há uma cena em que o herói atravessa um adversário com sua espada e depois ergue o sujeito no ar, como a Noiva (Uma Thurman) faria com um dos Crazy 88 no sangrento desfecho do primeiro episódio de "Kill Bill". E o próprio treinamento de Russell pelos japoneses lembra o "estilo Pai Mei" de treinar mostrado em "Kill Bill - Volume 2". Enfim, este é mais um típico caso de "se o Tarantino faz é homenagem, mas se um mané qualquer faz é plágio".



Inglehart convence como herói, mas o resto do elenco é risível de tão ruim: Kennedy e Argenziano gritam o tempo inteiro como os dois vilões principais, e interpretam como se fossem loucos, e não criminosos; já Jayne, como a esposa do herói, às vezes parece estar num melodrama barato, e ainda tenta mostrar seus dotes como cantora em cenas que estragam o ritmo do filme, e podiam muito bem ter ficado na sala de edição. Embora esteja repleto de tiros, espadadas, sangue e até cenas de luta, O SAMURAI NEGRO tem um ritmo meio arrastado. A vingança de Russel, por exemplo, só começa aos 50 minutos de projeção!

O resultado final é satisfatório, mas o outro filme de samurai negro - o "Black Samurai" de Al Adamson, que é da mesma época e foi lançado em DVD no Brasil como "O Dragão Negro"!!! - é muito mais divertido em seu fator trash. Por outro lado, O SAMURAI NEGRO tem seus achados, principalmente as cenas com Russell e os dois soldados japoneses veteranos na ilha (de longe a melhor parte do filme).

Fica, portanto, a sugestão: nada melhor do que uma impagável sessão dupla blaxploitation/trash com os dois filmes!

Veja O SAMURAI NEGRO na íntegra!


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Fighting Mad/ Death Force/ The Last
Samurai (1978, EUA/Filipinas)

Direção: Cirio H. Santiago
Elenco: James Inglehart, Leon Isaac
Kennedy, Jayne Kennedy, Carmen
Argenziano e Joonie Gamboa.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

ADIOS GRINGO (1965)


Na era de ouro das videolocadoras brasileiras (fim dos anos 80 e início da década de 90), dois filmes não podiam faltar de maneira alguma na prateleira de westerns: "O Dólar Furado" e este ADIOS GRINGO, duas pérolas made in Italy que fizeram a alegria dos aficionados pelos "filmes de bangue-bangue", e criaram toda uma nova geração de admiradores (eu, inclusive). O engraçado é que nenhum dos dois é, exatamente, um western spaghetti; ambos são de uma fase "pré-spaghetti", quando os produtores italianos ainda faziam faroestes copiando o modelo norte-americano - inclusive "americanizando" os nomes de todos os envolvidos para parecer um produto realizado nos Estados Unidos. As fontes divergem, mas o western spaghetti começaria oficialmente com Sergio Leone e seu "Por um Punhado de Dólares", de 1964.

Nesta primeira fase de filmes pré-spaghetti, ainda não eram comuns os enredos politicamente incorretos, os heróis sujos, com barba por fazer e vestidos de negro, e muito menos mostrar violência explícita, mocinhos maltrando mulheres ou atirando pelas costas nos seus inimigos. Como o modelo eram os (certinhos e caretas) westerns produzidos nos EUA, os mocinhos tinham que andar ajeitadinhos e bem barbeados.


Assim, não é de se estranhar que o rosto mais representativo das obras do período tenha sido o rostinho de bebê de Giuliano Gemma, que estrela ADIOS GRINGO. Gemma também foi o grande astro desta primeira leva de bangue-bangues italianos, cujos mocinhos eram castos e gentis com as mulheres e jamais atirariam pelas costas ou armariam ciladas para os inimigos, como seus colegas do posterior ciclo spaghetti. Enfim, eram heróis naturalmente bonzinhos ou cowboys acusados injustamente que tentavam provar sua inocência.

ADIOS GRINGO foi filmado num momento áureo dos primórdios do western italiano, o ano de 1965 - mesmo ano do clássico "O Dólar Furado", dirigido por Giorgio Ferroni. Foi o estrondoso sucesso de bilheteria deste que transformou Gemma em astro do bangue-bangue: ele fez mais dois filmes ("Uma Pistola para Ringo" e "O Retorno de Ringo") antes de entrar no set de ADIOS GRINGO, a primeira produção que ele assinou com seu nome real, Giuliano Gemma, e não com o pseudônimo americanizado ("Montgomery Wood") que usou nos outros filmes até então.


E como em time que está ganhando não se mexe, os produtores praticamente reaproveitaram tudo que tinha dado certo em "O Dólar Furado": o casal principal é o mesmo, Gemma e Ida Galli, e o roteirista de "O Dólar...", Giorgio Stegani, escreve e também dirige este novo filme. As filmagens duraram apenas três semanas, com locações em Roma e em Madri, na Espanha.

A estrutura narrativa também é bem parecida com "O Dólar Furado": Gemma interpreta Brent Landers, um fazendeiro honesto que comemora a compra de uma pequena propriedade numa cidadezinha. Porém acaba se dando mal ao confiar num velho amigo mau caráter, Gil Clawson (Nello Pazzafini, usando o pseudônimo "Ted Carter"), que lhe vende uma manada roubada de um rico fazendeiro da região.

Sem saber de nada, Brent toca o gado para sua propriedade e, no caminho, cruza com o furioso verdadeiro proprietário dos animais. Este, acreditando que o mocinho é o ladrão de gado, tenta matá-lo com quatro tiros, sem sucesso; Brent então saca sua arma e atira em legítima defesa, matando o rival.


Mas é claro que quando um vaqueiro mata um rico fazendeiro, a coisa acaba em porcaria. Brent é acusado de roubo de gado e assassinato, e quase linchado pelo povo furioso, mas consegue fugir e promete voltar com o verdadeiro ladrão, o "amigo" Clawson, para provar sua inocência.

Seguindo os rastros do facínora, o herói acaba encontrando uma garota nua e amarrada no meio do deserto. Descobre que ela é Lucy Tillson (Ida Galli, com o pseudônimo "Evelyn Stewart"), que foi levada como refém após o assalto de uma diligência, e ainda estuprada e torturada por três homens.

Um deles é o próprio Clawson, a quem Brent vem seguindo; já o terceiro dos agressores é Avery Ranchester (Massimo Righi, ou "Max Dean"), filho do poderoso manda-chuva da região, Clayton Ranchester (Pierre Cressoy, ou "Peter Cross").


E se para o herói já é complicado convencer o xerife (Jesús Puente) e o médico (Roberto Camardiel, ou "Robert Camardiel") da cidade de que é um inocente injustamente acusado, mais difícil ainda será conseguir entregar à justiça os agressores de Lucy, já que o poderoso Ranchester encobre todos os atos criminosos do seu filho e tenta convencer o povo de que Brent é o verdadeiro culpado de tudo, inclusive do estupro da moça. Conseguirá nosso herói provar sua inocência e mandar para a prisão (ou para o cemitério) os verdadeiros bandidos?

Stegani, que assina direção e roteiro com o pseudônimo "George Finley", inspirou-se num livro chamado "Goodbye", de Harry Whittington, para escrever ADIOS GRINGO. Mas o filme não consegue escapar dos lugares-comuns do gênero: inocente injustamente acusado, o verdadeiro culpado sendo encoberto pelo pai poderoso, o xerife que começa odiando o herói mas depois começa a ajudá-lo, etc etc etc.

Felizmente, é bem dirigido e traz vários lances de suspense, reviravoltas e cenas de ação para fazer o espectador esquecer o quanto a história é fraquinha e, por que não?, absurda.


Além disso, o filme se beneficia de uma fotografia belíssima, assinada pelo espanhol Francisco Sempere (o mesmo do clássico do horror "Let Sleeping Corpses Lie", de Aldo Grau), que usa e abusa de lindas paisagens como montanhas rochosas (bem diferentes do que normalmente se via nos westerns norte-americanos).

Infelizmente, o poderoso "Eastmancolor" em tela larga não sobreviveu à maioria das cópias nacionais do filme, seja em VHS ou em DVD. A mais razoável das versões brasileiras, mesmo tentando manter o formato widescreen com as tradicionais faixas pretas, ainda assim corta boa parte das laterais da imagem, o que é uma pena (nos tempos do VHS vá lá fazerem esse tipo de barbeiragem, mas com a opção do "zoom" no DVD não tem mais desculpa).

ADIOS GRINGO também foi um sucesso de bilheteria na época do seu lançamento, tornando-se o terceiro filme mais visto nos cinemas italianos em 1965 (o primeiro foi "Por uns Dólares a Mais", de Leone).



Ironicamente, como o astro Gemma tinha acabado de fazer dois westerns onde interpretava um pistoleiro chamado Ringo, muita gente pensou que esta era uma cópia picareta da série, interpretando que "Gringo" seria o nome do personagem principal - quando na verdade é apenas a palavra espanhola para "estrangeiro"!

Longe da sofisticação narrativa e criativa que o western spaghetti atingiria a partir do ano seguinte, ADIOS GRINGO mantém-se como um bom passatempo, talvez inofensivo e certinho demais para aqueles que curtem o auge do ciclo, mas ideal para quem busca um bangue-bangue mais hollywoodiano, estilo John Ford ou George Stevens.

Quem lembra do tratamento dispensado às mulheres por Django, Sartana e outros anti-heróis do posterior western spaghetti certamente vai dar risada do relacionamento cheio de pudores e frescuras mantido, aqui, pelo galã Gemma com a mocinha Ida.



Mas, entre mortos e feridos, o filme funciona como um belo passatempo, até porque fica fácil simpatizar com o herói e torcer por ele. E Brent, claro, faz o tipo rápido no gatilho, despachando dezenas de malvados para o cemitério.

Numa cena que deve ter sido violenta para a época (lembre-se que ainda estamos praticamente no pré-spaghetti), o herói arremessa um enorme prego de metal contra um rival, literalmente pregando uma das mãos do inimigo na parede - seria necessária uma força monstruosa para realizar tal façanha, mas vá lá...

Bem feito, divertido e envolvente, e com o simpático Gemma no seu papel preferido de herói certinho, ADIOS GRINGO é o filme perfeito para você assistir com seu pai ou avô que prefere os westerns mais tradicionais daquele período áureo. Já os fanáticos pelo western spaghetti mais violento e amoral deverão achar tudo muito datado e inocente.

Trailer de ADIOS GRINGO


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Adios Gringo (1965, Itália/Espanha/França)
Direção: George Finley (Giorgio Stegani)
Elenco: Giuliano Gemma, Evelyn Stewart (Ida
Galli), Ted Carter (Nello Pazzafini), Jesús
Puente e Max Dean (Massimo Righi).

segunda-feira, 18 de maio de 2009

OPERATION WARZONE (1988)


De todos os diretores ruins que já existiram (Ed Wood, Bruno Mattei, Al Adamson, Uwe Boll, Albert Pyun, David DeCouteau, Andrea Bianchi, Godfrey Ho, Phil Tucker e por aí vai; a lista é imensa!), o norte-americano David A. Prior sempre foi um dos meus preferidos. Quando eu era adolescente, os filmes desse cara passavam direto nas tardes do SBT, no saudoso Cinema em Casa. De tão ruins, eles eram hipnotizantes: não dava para desgrudar os olhos da quantidade de abobrinhas que Prior despejava por minuto. Ao mesmo tempo, eu ficava frustrado pensando que talvez fosse o único a conhecer o "trabalho" deste mentecapto e por isso nem tinha com quem comentá-lo - às vezes até forçava meus amigos ou irmãos a assistir alguns, como o já clássico "Deadly Prey - Extermínio de Mercenários", mesmo correndo o risco de levar um tapão na orelha.

E é nestes momentos que a internet mostra o seu valor: além de ser uma ferramenta útil para você pesquisar mais detalhes sobre a carreira e os filmes de uma nulidade praticamente obscura como o Prior, também torna-se uma maneira eficaz de comentar as bombas que ele dirigiu com outros loucos que têm o mesmo mau gosto que eu. Quem diria, descobri que existem muitos outros "fãs" de David A. Prior ao redor do globo!

Bem, queria apenas avisar que quem nunca ouviu falar em David A. Prior a partir de agora irá ouvir bastante este nome, pois graças aos torrents (outro milagre da era internética) pude fazer download e saborear novamente algumas das muitas tralhas dirigidas por este hilário cineasta, entre elas esta que se chama OPERATION WARZONE.


Eu originalmente vi este filme lá por 1992 no Cinema em Casa, mas não consigo lembrar do título nacional utilizado pela emissora do Silvio Santos (se alguém lembrar, por favor escreva nos comentários). Em VHS, o título foi uma tradução pouco original: "Operação War Zone". Feito um ano após o já citado "Deadly Prey", quando Prior filmou e lançou outros dois filmes (!!!), OPERATION WARZONE dá uma bela idéia da "obra" do diretor: é ruim e tosco até o talo, só funciona como comédia involuntária, está repleto de diálogos bisonhos que Ed Wood teria vergonha de escrever, cenas ridículas, reviravoltas desnecessárias, uma trama sem pé nem cabeça e, claro, o Vietnã como pano de fundo. Prior a-do-ra-va contar histórias sobre a Guerra do Vietnã, sempre mostrando como os soldados norte-americanos eram valorosos e como o conflito só foi perdido por razões políticas. Aham...

O filme já começa de maneira absolutamente brilhante (no mau sentido, claro), e quem não rolar de rir nos cinco minutos iniciais deve imediatamente parar de assistir, sob risco de acabar com lesões graves no cérebro. Prior nos mostra um pequeno batalhão de soldados norte-americanos no que deveria ser uma selva vietnamita, mas fica na cara que é um bosque qualquer em plena Califórnia. Apesar de a história supostamente se passar nos anos 60, todos os atores têm pinta e penteado da década de 80, inclusive o famoso mullet. E a coisa só piora: de repente surgem soldados vietcongues interpretados por meia dúzia de figurantes de olho puxado (Prior deve ter convidado os chineses da pastelaria) e até por mexicanos (!!!).


Os dois lados começam a lutar, e o ideal de "guerra" do diretor Prior é mostrar cada lado atirando sem parar, mesmo quando não estão acertando alvo algum, sem cobertura ou proteção, até que invariavelmente as muitas balas disparadas atingem alguém, puramente por sorte! É tão tosco que dá vontade de socar a TV: os caras simplesmente NÃO PARAM DE ATIRAR, mas não acertam nada!!!

Finalmente, os "vietcongues" revelam-se melhores atiradores e dizimam os americanos. Sobrevivem apenas o sargento Holt e os soldados Butler e Adams (respectivamente Fritz Matthews, William Zipp e Sean Holton, todos habitués dos filmes de Prior). O trio pica a mula rastejando por um dos túneis construídos pelo inimigo (anos antes de "Tunnel Rats", do Boll), e acabam caindo numa sala de interrogatório, onde salvam dois prisioneiros de serem mortos pelos vietcongues.

Um deles é o sargento Hawkins (John Cianetti), que explica estar numa missão especial e pede a escolta dos três soldados para chegar até seu contato. Segundo descobre-se mais tarde, Hawkins é a única pessoa que sabe onde está um grande carregamento de armas, com as quais o exército ianque poderia, veja você, GANHAR a guerra. Entretanto, alguns generais conspiradores se aliaram a fabricantes de armas pra que o conflito continue por tempo indeterminado, gerando enormes lucros para a indústria bélica (!!!).


O tal conspirador é o general George Delevane, interpretado pelo falecido Joe Spinell (esse rapaz bonito da foto aí de cima). Seu nome é o primeiro a aparecer nos créditos iniciais, mas suas cenas, somadas, não chegam a três minutos, e foram todas filmadas (provavelmente numa única tarde) numa salinha que deveria ser o Pentágono. Ah, e ele é visto quase sempre falando ao telefone, sem nunca participar da trama principal!

Se você ainda não entendeu a bomba que é OPERATION WARZONE, permita-me separar alguns "pontos altos" em tópicos, para facilitar a leitura:

* As granadas usadas por heróis e vilões têm potencial de destruição completamente diferente. Visualmente, a explosão de ambas mais parece um show de fogos de artifício do que qualquer outra coisa. Mas as granadas disparadas pelos heróis têm a capacidade de explodir casamatas e grupos de até seis soldados inimigos, enquanto as do outro lado, mesmo quando explodem ao lado dos heróis, não fazem nada além de atirá-los temporariamente no chão, sem proporcionar qualquer ferimento ou arranhão.



* A cada cinco minutos, Prior sai com alguma reviravolta completamente impossível em relação à identidade dos personagens. Isso envolve traições múltiplas, trocas simultâneas de lado (um cara que é aliado vira inimigo por um tempo e depois mostra-se aliado novamente!!!), e até identidades secretas, como o soldado raso que de repente revela ser agente secreto da CIA para o sargento que o conhece há meses.

* Os heróis normalmente acertam seus alvos, mas nunca são atingidos pelos inimigos, nem mesmo quando estão evidentemente na linha de tiro. A cena mais absurda é aquela em que um inimigo atira pelas costas em um dos personagens principais; este, além de não ser atingido, ainda vira com a maior tranqüilidade e responde ao fogo, matando seu agressor!

* Os vietcongues aparecem em menos de 10 minutos do filme, e são uns caras comuns vestidos com roupinha bege. Assim, na maior parte da história, o que vemos são soldados norte-americanos lutando entre si, já que a maior parte deles parece fazer parte do tal complô que quer manter a guerra em curso para faturar. Como os caras ficam se matando entre eles o tempo inteiro, dá até para entender como é que os EUA perderam a guerra!

* Todos os personagens precisam mostrar sua macheza trocando socos mais cedo ou mais tarde. Isso leva a uma cena hilariante em que Holt e Hawkins ficam 5 MINUTOS trocando porrada, acompanhados por uma música quase romântica e completamente fora de tom. Detalhe: apesar da violência dos sopapos, não aparece um sanguinho sequer saindo do nariz ou da boca de ambos!

* "Don't touch those spikes, if you touch them the poison will kill you immediatly!", alerta Holt, enquanto ele e os dois soldados se arrastam no túnel, e na cena seguinte os sujeitos estão encostando direto nas tais lanças pontiagudas, que dobram como se fossem de borracha (sem contar que eles poderiam facilmente ter arrebentado as estacas com suas metralhadoras ANTES de passar no meio delas!).


* No final, talvez na mais absurda das reviravoltas do roteiro, personagens que tinham morrido ao longo do filme reaparecem vivos e bem para lutar ao lado de Holt e Hawkins. Antes que você possa dizer "Puta que o pariu, mas como é que pode uma merda dessas?", saiba que não é dada qualquer explicação para tal fato humanamente impossível. A única hipótese plausível é que um feitiço vodu tenha ressuscitado os sujeitos. Talvez eles tenham simulado a própria morte antes, claro, mas não há qualquer justificativa para isso no roteiro. E outra: um deles ficou "morto" bem no meio do campo de batalha, com tiros passando sobre ele e granadas explodindo ao seu redor - ninguém poderia simular sua morte nestas condições com o risco de morrer de verdade!!!

Some-se a tudo isso os incontáveis erros de continuidade ou de filmagem (como a já clássica cena em que um soldado joga uma granada dentro de uma cabana e a explosão acontece metros ANTES do lugar onde a granada supostamente caiu!!!), e você terá uma idéia do trashão que é este OPERATION WARZONE, um filme impossível de levar a sério, mesmo que esta fosse a finalidade inicial de seus realizadores.


O roteiro foi escrito pelo próprio diretor com a ajuda do irmão Ted Prior, que normalmente é o galã dos filmes do maninho, mas aqui preferiu ficar apenas como co-roteirista e "diretor de arte". É isso mesmo, amiguinhos: se um Prior como roteirista já é ruim, imagine dois! O resultado é um verdadeiro insulto à inteligência, que provavelmente foi sendo improvisado à medida que as cenas eram gravadas (só isso justifica o excesso de "reviravoltas inexplicáveis" na trama).

Este não é, nem de longe, um dos filmes mais divertidos de Prior (o título pertence, com louvor, a "Deadly Prey"), mas mesmo assim será engraçadíssimo para quem curte assistir bombas e consegue entrar no clima e enxergar o "bright side of life", como cantava o Monty Python.

Agora, para pessoas mal-humoradas que não enxergam diversão em pérolas como essa (ou seja, uns 99% da humanidade), OPERATION WARZONE será apenas o que indiscutivelmente é: um filme pavoroso de tão ruim!

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APROVEITANDO A OPORTUNIDADE:

Não deixem de conferir a edição deste mês da excepcional revista virtual ZINGU, que traz um dossiê sobre Cinema de Bordas, incluindo uma looooonga entrevista com este que vos escreve e análise de suas obras PATRICIA GENNICE, ENTREI EM PÂNICO..., MISTÉRIO NA COLÔNIA e CANIBAIS & SOLIDÃO (provavelmente o trabalho mais amplo que já fizeram sobre um mequetrefe como eu). Ah, e tem também entrevistas e resenhas do trabalho de diretores de verdade, o Petter Baiestorf e o Rodrigo Aragão. IMPERDÍVEL!

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Trailer de OPERATION WARZONE


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Operation Warzone (1988, EUA)
Direção: David A. Prior
Elenco: Fritz Matthews, William Zipp,
John Cianetti, Sean Holton, David
Marriott e Joe Spinell.

sábado, 9 de maio de 2009

O TORTURADOR (1981)


Jece Valadão interpretando um mercenário que é a cara do Charles Bronson e tem Otávio Augusto como parceiro? Vera Gimenez, mãe da insuportável Lucianta Gimenez, emulando as mulheres fatais dos filmes noir, especialmente Rita Hayworth? Ary Fontoura como ditador de uma republiqueta sul-americana? Anselmo Vasconcellos como um mafioso disfarçado de padre que aproveita a deixa para cheirar cocaína em pleno altar? Paulo Villaça (o eterno "Bandido da Luz Vermelha" de Sganzerla) no papel de um general valentão que na verdade é homossexual? E Rodolfo Arena como um oficial nazista assessorado por um jovem Jorge Fernando???

Sim, amiguinhos, tudo isso está em O TORTURADOR, filme brasileiro dirigido por Antônio Calmon em 1981. A cada minuto que passava desta pérola, mais eu ficava surpreso e satisfeito com doideiras como estas que listei acima, e muitas outras que transformam esta em uma daquelas pérolas perdidas da cinematografia nacional. A cada minuto que passava, também, eu me pegava questionando por que não fazem mais filmes tão diferentes e divertidos hoje, quando o cinema brasileiro teoricamente tem mais recursos e mais qualidade técnica para isso.

Num comentário feito em outro blog, que encontrei quase acidentalmente no Google, um leitor opina que este talvez seja "o mais bizarro filme comercial" já feito no Brasil. Talez não seja "o" mais bizarro (considerando que o cinema brasileiro de antigamente também gerou pérolas como o clássico "Rio Babilônia", de Neville D'Almeida), mas certamente entra com louvor em qualquer Top Ten dos mais loucos filmes produzidos por aqui.


Escrito a seis mãos por Calmon, Jece e por Alberto Magno, O TORTURADOR tem como protagonista o capitão Jonas, interpretado por um Jece Valadão em estado de graça. Ele é um mercenário que acabou de ser libertado de uma prisão militar, por motivos ignorados, e está prestes a cometer suicídio, quando surge seu velho companheiro Chuchu (Otávio Augusto) com uma proposta irrecusável: um grupo de milionários judeus está pagando um milhão de dólares pela cabeça do ex-carrasco nazista Herman Stahl, que fugiu da Alemanha após a derrota na Segunda Guerra (mas não sem antes matar dois milhões de judeus nos campos de concentração).

Para pôr as mãos na valiosa cabeça, a dupla terá que infiltrar-se entre a segurança pessoal de Borges (Ary Fontoura), o ditador de uma república das bananas fictícia, já que o envelhecido oficial nazista agora é um dos homens de confiança do chefe de estado. O trabalho atual do coronel Herman, claro, é extrair "confissões" de presos políticos, motivo pelo qual ganhou a alcunha de "El Torturador" - e daí o nome do filme.

Depois que Jonas mata a saudade de mulher dando uma rapidinha ainda no hangar (uma cena hilariante), a dupla de mercenários embarca para o tal país sul-americano, onde a língua oficial é o espanhol, mas todo mundo fala português! São recepcionados pelo violento general interpretado por Paulo Villaça - que, apesar da pinta de machão, é gay e fica seduzindo os jovens do vilarejo -, e assumem o cargo de guarda-costas de uma cantora brasileira por quem Borges é apaixonado, Gilda (Vera Gimenez).


Como era esperado, Gilda também é um antigo amor de Jonas. E enquanto Jonas e Chuchu tentam conseguir a valiosa cabeça de "El Torturador", a revolução está para explodir no país, já que o povo cansou da sangrenta ditadura de Borges e começa a revidar com violentos atos de terrorismo.

O roteiro é aquela baboseira típica do cinema de ação norte-americano, e o filme, mesmo mantendo um forte tom de humor e sátira, tenta seguir fielmente esta cartilha, incluindo sangrentos tiroteios.

É divertido ver Jece andando para lá e para cá sempre com uma escopeta nas mãos, óculos escuros e cigarrinho no canto da boca, sem esboçar um único sorriso em uma hora e meia, repetindo seu tradicional papel de canalha insensível e comedor (ele pega três mulheres ao longa da película). Só por isso, O TORTURADOR já seria um filme, digamos, obrigatório.



Mas felizmente não fica só nisso: se a trama parece clichê, o roteiro compensa colocando na boca dos personagens principais alguns diálogos simplesmente impagáveis.

Jece é o campeão, claro. Afinal, o roteiro não perde a oportunidade de representá-lo como "o" fodão, e por isso o homem dispara pérolas como "Se você não voltar para mim, te dou um tiro no meio da cara!", ou "Toda mulher é puta. Menos, obviamente, as nossas mães", ou "Vou matar aquela vadia, pois ela é a única mulher do mundo que não me quer", ou ainda "Nasci pelado, tou vestido, tou no lucro!".

Em alguns momentos, eu me pegava rolando de rir sozinho no sofá da sala depois de ouvir estas e outras preciosidades. Sem contar que o saudoso Jece Valadão encarnando um pistoleiro durão - e, claro, cafajeste - é uma coisa mágica.


O diretor Calmon já havia feito um filme anterior estrelado pelo astro: o clássico esquecido "Eu Matei Lúcio Flávio", de 1979 (provavelmente um dos grandes exemplares do cinema exploitation brasileiro); no caso de O TORTURADOR, Jece também é produtor, além de co-roteirista.

Hoje mais conhecido como roteirista de novelas da Globo, já que não dirige nada para o cinema desde 1984, Calmon destila no filme uma grande cultura cinematográfica hollywoodiana (como também faz em suas telenovelas, entre elas "Vamp" e "O Beijo do Vampiro").

Isso vem desde os créditos iniciais, ao som da melancólica "Moonlight Sonata", de Beethoven - passando uma falsa idéia de que veremos um filme sério, e não uma aventura em tom de paródia.



Além de citações óbvias, como o nome Gilda em alusão à personagem de Rita Hayworth no clássico filme homônimo, há uma cena entre Jonas e Gilda num bar em que a moça pede ao pianista: "Toque outra vez, Sam", e este põe-se a dedilhar a música-tema do romance "Casablanca" (a própria frase da personagem remete a este filme).

Mais adiante, Otávio Augusto aparece cercado de putas nuas num bordel ao som da música-tema de uma das aventuras de James Bond, "007 Contra Goldfinger". A brincadeira remete a um diálogo anterior com Gilda, quando a moça diz: "Você se acha o James Bond, não é, Chuchu? Pois você é o James Bunda!".

E a situação principal da cabeça do nazista que vale ouro lembra outro clássico, "Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia", de Sam Peckinpah. Finalmente, num momento brilhante, Jonas é torturado com uma enorme lâmina em forma de pêndulo suspensa sobre seu peito nu, pronta para parti-lo em dois - exatamente como acontecia em "Mansão do Terror", de Roger Corman, por sua vez adaptação do conto "O Poço e o Pêndulo", de Edgar Allan Poe!


Também é muito engraçado ver Otávio Augusto, imortalizado na televisão em papéis humorísticos, aqui fazendo papel de assassino e inclusive distribuindo balaços em seus desafetos!

Sabe aquele clichê das duplas cinematográficas, que têm o cara durão e o engraçadinho? Pois é exatamente o que se vê aqui: Chuchu passa o filme inteiro fazendo piadinhas ou cantarolando músicas de Roberto Carlos para sublinhar as diferentes situações em que ele e Jonas se envolvem, seja "Você é meu amigo de fé, meu irmão camarada", para convencer Jonas a aceitar um último serviço, seja "Estou amando loucamente a namoradinha de um amigo meu", quando percebe as trocas de olhares entre Jonas e Gilda diante do vilanesco Borges, que é obcecado pela cantora.


Otávio Augusto também protagoniza duas cenas absolutamente antológicas. Numa delas, talvez o momento mais engraçado do filme, Chuchu, escondido no mezanino de um bar, grita para um pequeno grupo de soldados que invade o local: "Ô, sua bichona!". Quando todos os surpresos adversários olham para cima, atendendo ao bizarro chamado do pistoleiro, este responde com disparos de revólver e completa a piada: "Eu chamei só uma!".

No seu segundo momento impagável, Otávio Augusto está sendo torturado por Herman, amarrado a uma daquelas mesas que esticam os ossos, e, ao invés de responder as perguntas do seu inimigo, fica provocando-o com xingamentos. Depois, em meio à tortura, o pistoleiro bonachão fica gritando: "Abaixo o nazismo e viva o Mengo!". hahahahaha!


Por momentos como esses, mais os sangrentos tiroteios, cenas de tortura, decapitações e mulheres nuas, O TORTURADOR é um filme mais do que recomendado para fãs de ação que procuram uma hora e meia de diversão sem tratado de sociologia ou grandes pretensões com a seriedade.

E, óbvio, é um programa obrigatório para todos os leitores do FILMES PARA DOIDOS, pois talvez seja uma daquelas raras obras que se encaixa perfeitamente nessa descrição. E é brasileiro, gente! Brasil-il-illllll!!!!!!!!!

Embora seja muito difícil encontrar a velha fita VHS lançada nos primórdios das videolocadoras brasileiras, volta-e-meia O TORTURADOR é reprisado nas madrugadas do Canal Brasil. Apenas para deixar saudade, nos verdadeiros cinéfilos, de um cinema brasileiro extremamente criativo e popular, que há muito tempo não existe mais...


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O Torturador (1981, Brasil)
Direção: Antônio Calmon
Elenco: Jece Valadão, Vera Gimenez, Otávio
Augusto, Marta Anderson, Rodolfo Arena, Ary
Fontoura, Paulo Villaça e Anselmo Vasconcellos.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

MASSACRE EM SAN FRANCISCO (1974)


O Internet Movie DataBase, maior fonte de informações para fãs de cinema na internet, afirmava categoricamente que "O Vôo do Dragão", filme escrito e dirigido pelo astro Bruce Lee em 1972, era o único em que o ator Chuck Norris interpretava um vilão. E foi aí que eu percebi como MASSACRE EM SAN FRANCISCO era realmente uma produção das mais obscuras, pois neste esquecido filme de ação made in Hong-Kong o lendário Norris, ainda bem longe da fama, também interpreta um malvadão. (A informação incorreta foi recentemente corrigida pelo IMDB, que agora informa que Norris interpretou dois vilões em sua carreira.)

"Oficialmente", MASSACRE EM SÃO FRANCISCO é de 1974, tornando-se assim o terceiro papel creditado de Chuck Norris no cinema. Mas esta produção barata da Golden Harvest foi muito mal-lançada, e depois ficou mofando nas prateleiras da produtora. Como alguns anos depois Norris estouraria como astro, ganhando seu primeiro papel de protagonista em "Comboio de Carga Pesada" (1977), a Golden Harvest sacou o filme do depósito onde estava mofando, mudou o título original de "Karate Cop" para "Slaughter in San Francisco" (apesar de não haver nenhum massacre no filme, seja em San Francisco ou em qualquer outro lugar), e rodou novos créditos iniciais com o nome de Chuck Norris em destaque para relançá-lo nos cinemas ocidentais!


Picaretagem total, não é? E isso que nem falei do novo trailer, que tentava vender Chuck como protagonista, ou do cômico novo pôster de cinema, que anunciava "Chuck Norris explode na tela", e trazia um desenho do ator em posição de combate cercado por policiais (cena que não existe no filme!), mas sem nenhuma menção ao verdadeiro protagonista do filme - o coreano Don Wong!!!

A picaretagem estendeu-se ao Brasil: quando a FJ Lucas lançou essa porqueira em vídeo, teve bastante criatividade para criar uma capinha completamente enganosa que levava o espectador a acreditar que Chuck Norris era o verdadeiro protagonista do filme, como você pode ver abaixo (fonte: Museu do VHS, de Bruno Martino):


Não é por nada que, em diversas entrevistas depois de famoso, Norris declarou que o único filme que se arrependeu de fazer foi MASSACRE EM SÃO FRANCISCO. Mais um motivo para conhecê-lo, não é mesmo? Até porque, ao contrário da hipócrita da Xuxa, ele nunca tentou tirar o filme de circulação.

Don Wong, cujo verdadeiro nome é Wang Tao, interpreta um policial oriental que patrulha San Francisco (o filme realmente foi rodado nos States) ao lado do parceiro John Summer (Robert Jones), um policial negro com uma vasta cabeleira black power, só para lembrar que estamos vendo uma produção dos anos 70 - aposto que uma instituição conservadora, como a polícia de San Francisco, iria adorar ter policiais com cabelo black power na corporação...


O filme foi escrito e dirigido por Lo Wei, o responsável pelos dois primeiros (e CLÁSSICOS, em maiúsculas mesmo) filmes de Bruce Lee, "O Dragão Chinês" e "A Fúria do Dragão". Aqui, infelizmente, ele não estava tão inspirado, inclusive assina com o pseudônimo "William Lowe".

Seu roteiro é uma autêntica confusão. Primeiro, a dupla de policiais heróicos está dirigindo sua viatura pela rodovia quando, miraculosamente, escuta os gritos de socorro vindos de um bosque a mais de um quilômetro dali. É uma garota oriental (Sylvia Chang) que supostamente está sendo estuprada por dois valentões. Mas, depois que os policiais acabam com ambos a golpes de karatê, a moça aparece na delegacia dizendo que foi tudo um mal-entendido e pedindo para libertar os "amigos".

Depois, o policial John cai numa emboscada e é empurrado para dentro de um caminhão repleto de bandidos (nunca identificados). Levado até a praia, toma vários catiripapos até ser miraculosamente localizado pelo amigo faixa-preta Wong, que salta como um tigre sobre os agressores e, furioso, acaba matando um deles. O chefe de polícia não pensa duas vezes e expulsa o "Bruce Lee cover" da corporação, fazendo com que ele vá buscar emprego como garçom num restaurante chinês - e onde mais um oriental poderia trabalhar em San Francisco?


E eis que finalmente a história começa a entrar nos eixos: surge o malvadão Norris, chamado simplesmente "The Boss", e que vem a ser o rei do crime da cidade. Sua primeira cena no filme é queimando a mão do herói com um charuto aceso, só para dar uma amostra da sua maldade. "The Boss" acaba gostando do ex-policial, aparentemente apenas pela sua capacidade de resistir à dor da queimadura do charuto, e teima em trazê-lo para sua organização. Mas Wong é honesto e não quer saber de virar a casaca.

Então, dias depois, John tenta frustrar um assalto e é morto pelos bandidos, obviamente chefiados por "The Boss". Mesmo afastado da polícia, o herói decide investigar o caso por conta própria e vingar-se dos responsáveis. E o faz da maneira mais cômica e absurda possível: simplesmente passa os próximos 20 minutos do filme invadindo a casa de elementos suspeitos da cidade (!!!) e batendo pra caramba neles (!!!) até encontrar, por mero acaso (!!!), um dos envolvidos no crime, que entrega todos os responsáveis, inclusive um homem misterioso que vem a ser o próprio chefe de polícia de San Francisco (argh!!!).

Isso tudo apenas para levar à luta final entre Wong e Norris, que em nada lembra aquele duelo com Bruce Lee no Coliseu em "O Vôo do Dragão", mas ainda assim é muito divertido - e, claro, tem aquele velho clichê da camisa do herói rasgando para ele lutar de peito nu!!!



O filme tem também uma absurda trama paralela em que um velho comerciante chinês é preso (sem qualquer prova) pelo assassinato do policial John, e a polícia ainda tenta arrancar uma confissão do velhinho na base da porrada.

Apesar do cartaz de cinema, de alguns títulos alternativos enganosos (como "Chuck Norris Versus Karate Cop") e do fato do nome do ator norte-americano aparecer por primeiro nos créditos iniciais do filme, MASSACRE EM SAN FRANCISCO não é, de maneira nenhuma, um filme de Chuck Norris.

As cenas com o futuro astro não chegam a somar dez minutos, e ele praticamente entra mudo e sai calado, interpretando aquele tipo de vilão que passa a trama inteira dando ordens para seus subalternos, sujando as mãos apenas no final. Tirando a luta da conclusão, só existe uma ceninha mixuruca com "The Boss" treinando karatê, para quem realmente quiser ver Norris em ação.

E se como filme de pancadaria MASSACRE EM SAN FRANCISCO não é lá grandes coisas (embora algumas lutas, especialmente a final, sejam muito boas), a produção torna-se mais do que recomendada pelo inevitável fator trash. Afinal:

* Este é o segundo dos dois únicos filmes em que você poderá ver "o mito" Chuck Norris realmente apanhando. E perdendo uma luta!

* A dublagem dos personagens segue o padrão "filme de Hong-Kong" de qualidade: até Norris é dublado exageradamente e ganha sotaque inglês! Mas o cúmulo é quando um cão policial também aparece dublado: o bicho está lá quietinho, com a língua de fora, e mesmo assim algum energúmeno adicionou uma trilha de ferozes "au-aus"!!!

* O som das pancadas e do deslocamento de ar durante os golpes é tão exagerado que mesmo quando o herói e seu amigo John trocam uns tapinhas por puro fingimento (sem se acertar com força), a gente escuta algo do tipo POW! SOC! TUM!, como se ambos estivessem realmente se moendo na pancada!


* Todo mundo na polícia de San Francisco sabe lutar karatê - do policial oriental ao negro black power, passando até pelo chefe de polícia!!! -, e todos eles preferem dar bolachas nos bandidos a usar revólveres.

* Em que outro filme você vai encontrar um herói que, sem pistas para seguir, simplesmente sai dando porrada em todo mundo até que alguém confesse o que ele queria saber?

* Mesmo quando o protagonista está cercado por 15 sujeitos armados, os bandidos continuam atacando um por vez, para que cada um possa apanhar na ordem.

* O chefe de polícia parece ser um oficial da Gestapo: não só acusa um pobre velho oriental pela morte de um policial (APENAS porque o cadáver foi deixado no quintal da casa do coitado), como ainda espanca o SUSPEITO o tempo inteiro e manda prendê-lo, sem direito a fiança, mesmo que não existam provas contra ele!


* "The Boss" passa o filme inteiro tentando convencer o herói a fazer parte da sua organização, ao invés de matá-lo de uma vez. No final, Wong consegue infiltrar-se facilmente no QG do vilão e descobrir todos os seus negócios sujos APENAS dizendo algo do tipo: "Tudo bem, eu finalmente resolvi me juntar à organização". E o vilão acredita! Belo rei do crime...

* Num momento da luta final, Wong e "The Boss" caem dentro de uma fonte e ficam completamente molhados. Mas no take seguinte, ambos já estão sequinhos. Vai ver a alta temperatura da luta fez toda a água evaporar instantaneamente!

Filho do também ator George Wang (que era habitué em produções baratas de western e espionagem feitas na Itália nos anos 60 e 70), Don Wong até luta bem e convence. E não dá para relevar o fato de que ele ganha uma luta contra o Chuck Norris, caramba!


Mas a verdade é que Wong nunca fez mais do que isso, e ironicamente quem transformou-se em astro aqui foi o inexpressivo vilão do filme! Seu azar foi ter estrelado uma produção tão sem sal, em que a pobreza de recursos e de orçamento está mais do que evidente, inclusive pelo fato de o herói passar o filme inteiro com a mesma roupa (comprovando que higiene pessoal não é o seu forte).

O marketing da época tentou vendê-lo como "o tigre" (um dos muitos títulos alternativos é "Yellow Faced Tiger"), já que Bruce Lee era o dragão, mas não funcionou. Pelo menos em Hong-Kong ele continuou uma prolífica carreira que somou 40 filmes (nenhum deles fez grande sucesso), e encerrou em 1989.

Quem gosta dessas curiosidades do cinema de ação de Hong-Kong, ou simplesmente procura um filme bem ruim para dar risada, terá em MASSACRE EM SAN FRANCISCO um prato cheio. Pena que a fita VHS da FJ Lucas seja uma daquelas raridades disputadas a tapa por colecionadores, e a obra nunca tenha sido relançada numa versão decente em DVD.

Será que Norris toparia fazer uma faixa de comentário discutindo a "profundidade psicológica" do seu personagem na cena em que o vilão come uma maçã enquanto seus capangas apanham do herói?

Trailer de MASSACRE EM SAN FRANCISCO


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Slaughter in San Francisco/ Karate Cop/
Huang Mian Lao Hu (1974, Hong-Kong, EUA)

Direção: William Lowe (Lo Wei)
Elenco: Don Wong, Chuck Norris, Robert
Jones, Chuck Boyd, Sylvia Chang, Dan
Ivan e Ching-Ying Lam.