domingo, 29 de março de 2009

DEATHSPORT (1978)


"No ano 3000 não existirá mais Jogos Olímpicos, Super Bowl ou Copa do Mundo. Só existirá DEATHSPORT!"

A frase do cartaz, o argumento do filme, o título, a presença de David Carradine e a produção de Roger Corman levam o espectador a acreditar que DEATHSPORT, ficção científica classe Z de 1978, seja uma seqüência direta ou ripoff do divertidíssimo "Ano 2000 - Corrida da Morte", dirigido por Paul Bartel, estrelado por Carradine e produzido por Corman três anos antes, em 1975.

Mas as semelhanças entre as duas produções, infelizmente, não incluem o quesito qualidade, e nem DEATHSPORT é uma continuação de "Ano 2000 - Corrida da Morte", como informam alguns desavisados sites de cinema. Na verdade, esta é uma tentativa de Corman de faturar mais uns trocados após o sucesso do filme de Bartel (esquecendo, porém, que um dos ingredientes de sucesso daquele pequeno clássico era o humor negríssimo, que não existe nesta nova aventura), e ainda plagiar um pouquinho "Rollerball", de 1975.


O que sobrou é mais um autêntico FILME PARA DOIDOS, que os leitores deste blog vão achar o máximo, mas a maior parte da humanidade vai odiar. Agora, convenhamos: como não achar no mínimo divertido um filme em que David Carradine e Richard Lynch lutam com espadas de plástico; em que a falecida coelhinha da Playboy Claudia Jennings fica a maior parte do tempo com os seios ou a perereca de fora; em que um ditador tirânico tortura garotas seminuas forçando-as a dançar numa sala eletrificada (!!!), e em que raios laser desintegram não só pessoas, mas também motos e cavalos???

DEATHSPORT se passa no ano 3000, quando uma "guerra neutrônica" (não pergunte...) reduziu a humanidade a um deserto povoado por mutantes canibais. Um dos únicos núcleos "civilizados" é Heliz City, governada com mão de ferro por Lord Zirpola (David McLean), que diverte o povo com lutas de gladiadores estilo Roma Antiga. É o chamado "Deathsport", em que prisioneiros são perseguidos por motociclistas que disparam os tais lasers mortais.


Neste mundo perdido, também existem guerreiros místicos (uma espécie de versão pobre dos Jedi de "Guerra nas Estrelas", lançado no ano anterior), que vagam pelo deserto armados com suas espadas de plástico. O mais famoso deles é Kaz Oshay, interpretado por um David Carradine barbudo e de sunguinha - o que não é exatamente minha idéia de diversão, mas vá lá.

Felizmente, a coisa começa a andar quando Kaz é aprisionado pelo braço direito do ditador, Ankar Moor (interpretado por Richard Lynch!), e levado à força para participar do Deathsport juntamente com outra guerreira nômade, Deneer (Claudia Jennings).

Só que, num daqueles casos clássicos de propaganda enganosa, o tal Deathsport, apesar de ser o título da película, não dura nem cinco minutos: Kaz e Deneer logo escapam da arena de volta para o deserto, pilotando motos roubadas de seus perseguidores, e acompanhados por outros dois prisioneiros. Começa, então, uma perseguição implacável liderada por Ankar, que quer o couro do herói a todo custo.


Se DEATHSPORT serve para alguma coisa (além de mostrar David Carradine de sunguinha e Claudia Jennings de perereca de fora), é como diversão trash. Este é o filme perfeito para você deixar rolando num daqueles encontros de amigos cinéfilos regados a muita cerveja. Dos cenários toscos e falsos aos figurinos ridículos, passando pelos efeitos sonoros de quinta categoria e pela obsessão do diretor em mostrar explosões a cada cinco minutos, tudo é motivo de piada no filme, que assim torna-se engraçadíssimo do começo ao fim.

Entre os destaques no "fator trash", vale destacar os cenários das cidades e da arena onde acontece o Deathsport, e que são obviamente cenários pintados ou miniaturas bem toscas. As cenas de malabarismos com motos, repetidas até enjoar, acabam sendo mais engraçadas do que emocionantes, em parte por causa da exagerada sonoplastia dos veículos. Tem ainda uma cena de sexo que dá um novo sentido à expressão "cena de sexo gratuita", e uma participação pequena e não-creditada da futura scream-queen Linnea Quigley.


E o que dizer do raio laser que desintegra pessoas inteiras num piscar de olhos? O engraçado é que nunca fica clara a intensidade da arma: numa cena o raio desintegra automaticamente dois inimigos que estão lado a lado sobre suas motocicletas (os veículos também são vaporizados); em outro, o raio atinge um ratinho sobre um monte de entulho, mas apenas o roedor desaparece, enquanto o monte de entulho fica intacto!

O grande problema do roteiro de Nicholas Niciphor (com o pseudônimo Henry Suso), Frances Doel e Donald Stewart é levar-se a sério, ao contrário do "Ano 2000 - Corrida da Morte" que tenta desesperadamente copiar. Não há humor negro nem sátira em DEATHSPORT; na verdade, seus realizadores parecem estar levando a coisa a sério DEMAIS! Assim, cenas com elevado potencial trash, como as inúmeras perseguições com motos, sempre ficam no meio-termo; embora bem filmadas e editadas, não são tão divertidas quanto poderiam e deveriam ser, e logo tornam-se repetitivas.

E o tal "Deathsport", que parece ser a grande razão de ser do filme (está no título, caramba!), aparece numa mera ceninha de cinco minutos! Todo o resto da trama mostra heróis fugindo dos vilões. Até mesmo uma cena num covil dos mutantes canibais aparece jogada ao léu, sem qualquer função na trama.


Mais divertido que o próprio filme é o barraco que rolou nos bastidores: DEATHSPORT começou a ser dirigido por Niciphor, mas ele e Carradine não se bicavam. Com metade das cenas gravadas, a frescura entre os dois acabou mal: o astro simplesmente quebrou o nariz do diretor com um soco!!! Niciphor então abandonou o set, com nariz sangrando e tudo mais, e Corman teve que dirigir ele mesmo algumas cenas, depois chamando o pupilo Allan Arkush (de "Hollywood Boulevard" e "Rock’n’Roll High School") para terminar o filme.

E mais: dizem as más línguas que as filmagens eram movidas a álcool e drogas, o que transparece no clima de doideira coletiva do filme. A pobre Claudia era viciada e morreu no ano seguinte num acidente de carro, com apenas 29 anos de idade.

É uma pena que DEATHSPORT seja tão obscuro que nem existam vídeos decentes disponíveis no YouTube para postar aqui, e que certamente divertiriam meus fiéis leitores do FILMES PARA DOIDOS. Espero que se contentem com as fotos e procurem por esta pérola.

Uma coisa é certa: para o bem ou para o mal, não se fazem mais filmes assim, e isso é uma pena - principalmente quando o mais perto de DEATHSPORT que temos hoje é o bobo "Corrida Mortal" de Paul W.S. Anderson!


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Deathsport (1978, EUA)
Direção: Nicholas Niciphor e Allan Arkush
(e Roger Corman)
Elenco: David Carradine, Richard Lynch,
Claudia Jennings, William Smithers, Will
Walker e David McLean.

quinta-feira, 26 de março de 2009

LUCA, O CONTRABANDISTA (1980)


O diretor italiano Lucio Fulci é conhecido pela extrema violência de seus filmes de horror, entre eles os clássicos populares "Zombie" e "The Beyond". Ironicamente, uma das obras mais sangrentas e brutais do cineasta não tem nada a ver com zumbis ou entidades sobrenaturais, mas sim com ameaças bem reais, como tiros de revólver e contrabandistas de drogas. Estou falando de LUCA, O CONTRABANDISTA, o único filme policial da carreira de Fulci, e uma de suas obras mais violentas - mas que infelizmente acabou ofuscada por ter sido lançada justamente quando ele começava a fazer sucesso como diretor especializado em terror.

Erroneamente considerado um exemplar do gênero "polizieschi", quando na verdade é um filme de Máfia (a polícia praticamente não toma parte na ação, que enfoca apenas o sangrento confronto entre quadrilhas de bandidos, e os personagens principais são todos contraventores), LUCA, O CONTRABANDISTA foi filmado e lançado em 1980, entre o sucesso estrondoso de "Zombie" (1979) e outro horror violento do velho Lucio, "Pavor na Cidade dos Zumbis" (também de 1980). Marca a transição do Fulci que atirava para todos os lados (já havia feito anteriormente western, giallo e comédias) para o mestre do terror e do gore que se tornaria na década de 80. Justamente por isso, esta história sobre mafiosos acabou se transformando numa pérola praticamente desconhecida da filmografia do diretor.


O personagem-título é Luca D'Angelo (interpretado pelo sempre carismático Fabio Testi, que já havia feito "Os Quatro do Apocalipse" com Fulci), um contrabandista de cigarros de Nápoles que, mesmo sendo um criminoso, acredita não estar fazendo nada de errado; afinal, trabalha com uma mercadoria "legalizada", e não com drogas ou assassinatos como outros mafiosos que agem na região, e além disso gera emprego e renda - um verdadeiro empreendedor! Mas não aos olhos de sua esposa, Adele (Ivana Monti), que quer que ele "se aposente", temendo pela segurança dela e do filho pequeno do casal.

A Nápoles onde Luca vive e trabalha é dominada por várias quadrilhas de contrabandistas, mas a palavra de honra empenhada por eles há décadas garante uma relação de respeito: ninguém invade o território nem os negócios dos outros. Só que o acordo vai para o brejo quando Micky (Enrico Maisto), irmão mais velho de Luca, é pego numa emboscada e impiedosamente metralhado por gângsters vestidos como policiais.

Apesar dos apelos de Adele, pedindo para que eles saiam da cidade, Luca quer vingança. E o atentado dá início a uma guerra entre as famílias. Luca acredita que o culpado é Scherino (Ferdinando Murolo), que não se dava bem com Micky, e tenta matá-lo, mas leva uma surra que o deixa à beira da morte - e Scherino jura que não teve nada a ver com o crime.


Não demora para aparecer a verdade: o culpado é François Jacois, o "Marsigliese" (interpretado pelo francês Marcel Bozzuffi, do clássico "Operação França"), um poderoso traficante de drogas que está tentando convencer as quadrilhas de contrabandistas a trabalharem com ele, ajudando a distribuir cocaína e heroína em Nápoles.

Diante da recusa dos chefões, que não querem "se sujar" negociando entorpecentes, "Marsigliese" parte para o ataque, eliminando todos os gângsters até restarem apenas Luca, Scherino e Luigi Perlante (Saverio Marconi). Será que os três conseguirão deixar de lado as diferenças e se juntar para combater o perigoso traficante? E se um deles estiver de armação com o "Marsigliese" para acabar com a raça dos outros?

O maior problema de LUCA, O CONTRABANDISTA é o roteiro estúpido escrito a oito mãos por Fulci, Gianni De Chiara, Giorgio Mariuzzo e Ettore Sanzò. O argumento, na verdade, é bastante simples, e poderia ser resumido a uma linha: o "Marsigliese" começa e eliminar todos os chefes das quadrilhas de contrabandistas de Nápoles quando eles se recusam a distribuir drogas, e Luca é obrigado a enfrentar o assassino frente a frente.


Explicando assim, até parece simples; mas no filme não é: os roteiristas acharam que, por ser este um "filme de Máfia", precisavam enrolar com inúmeras reviravoltas, traições, mal-entendidos, acordos e desacordos entre os personagens, que só deixam o filme lento e excessivamente truncado. E, para piorar, as legendas do VHS nacional, lançado pela extinta DIF, são um horror, traduzindo frases pela metade (algumas acabam totalmente sem sentido) e errando a grafia dos nomes dos personagens.

Até por isso, a primeira meia hora do filme é chatíssima, e a única coisa de interessante que acontece é a brutal execução do irmão de Luca. A julgar pelo desenvolvimento lento do início, muita gente vai ter vontade de desistir, achando que o filme todo é arrastado assim. Mas não é. O excesso de personagens, que compromete o desenrolar da história no início, é resolvido no segundo ato, quando quase todos acabam mortos violentamente pela quadrilha do "Marsigliese".

E é quando restam apenas Luca, Scherino e Perlante contra o vilão que a coisa realmente começa a pegar fogo. Coitado de quem desistiu de continuar em frente baseado apenas no comecinho meia-boca...


Mesmo longe do terreno do horror, Fulci não poupa o espectador de doses cavalares de gore, ficando exageradamente acima de quase tudo que se mostrava em termos de violência naquele período - mesmo dos "polizieschi" italianos, conhecidos justamente pela sua brutalidade.

A violência aqui surge de maneira inesperada, mas sempre exagerada e em câmera lenta. Quando alguém leva um tiro no pescoço, por exemplo, a câmera faz questão de mostrar a garganta do sujeito explodindo em câmera lenta; quando alguém toma um tiro na boca que explode sua cabeça, a câmera novamente se aproxima e dá um close no rombo aberto pela bala na parte de trás da cabeça da vítima, e por aí vai... Ao estilo Sam Peckinpah, cada tiro disparado abre um rombo na vítima, principalmente uma rajada de metralhadora que desfigura o rosto de um mafioso e um tiro de espingarda que faz voarem as tripas de um pobre coitado! (Vale uma olhada no trailer do filme, abaixo, que contém algumas das mortes mais gráficas.)

LUCA, O CONTRABANDISTA traz também duas cenas brutais que foram censuradas em diversas cópias lançadas ao redor do mundo (mas felizmente não no VHS lançado no Brasil). A primeira mostra o cruel "Marsigliese" usando um maçarico para desfigurar o rosto de uma bela jovem que tentou lhe vender bicarbonato como se fosse heroína. E é claro que a câmera sádica e detalhista de Fulci (que adorava filmar mulheres sendo torturadas ou mortas violentamente) não desvia do alvo, mostrando em detalhes a chama do maçarico queimando o rosto da pobre moça até deixar a pele enegrecida, numa cena que parece interminável (e foi homenageada por Eli Roth em "Hostel - O Albergue").



A outra cena mais incômoda do filme também envolve violência contra mulheres, desta vez o lento estupro da esposa de Luca, e o protagonista ainda é obrigado a escutar os sons da agressão através do telefone!

A conclusão envolve aquele típico duelo de western entre herói e vilão, mas com uma criativa reviravolta: furiosos pelo banho de sangue que tingiu as ruas de Nápoles, os velhos e aposentados chefes da Máfia local resolvem sair do conforto de seus lares, pegar suas pistolas e metralhadoras e ensinar uma pequena lição aos "jovens" que não conseguem tocar os negócios sem ficar se matando uns aos outros. É um toque irônico, que mostra a Velha Guarda resolvendo a situação à moda antiga, por sinal lembrando vários filmes do mestre Peckinpah. E o próprio Fulci faz uma ponta neste duelo final, quando aproveita para também dar uns tiros de metralhadora!!!

Pena que o roteiro, em geral, seja medíocre, incluindo algumas cenas inconvincentes e até absurdas. Sabe no final de "O Poderoso Chefão", quando os mafiosos começam uma execução em seqüência de vários inimigos na mesma hora? Pois é, aqui copiaram isso, só que os assassinatos acontecem em locais como uma missa e um hipódromo, sempre com muita gente ao redor, e ninguém (nem o assassino, nem as pessoas e eventuais testemunhas por perto) parece se importar com o fato. A morte no hipódromo é de longe a mais engraçada: um sujeito que é a cara do Seu Madruga está gritando, comemorando o fato do cavalo em que apostou ter ganhado, e o atirador aproveita o fato para enfiar-lhe um revólver na boca e explodir seus miolos assim, sem qualquer cerimônia! hahahahaha.


Como curiosidade, vale destacar a presença de várias caras conhecidas dos "polizieschi" em LUCA, O CONTRABANDISTA, como Romano Puppo (ator de estimação de Enzo G. Castellari, visto em filmes como "The Big Racket" e "A Cruz dos Executores"), Luciano Rossi (de "Napoli Violenta" e "Django, O Bastardo") e Daniele Dublino (de "Poliziotti Violenti" e "Uomini Si Nasce, Poliziotti Si Muore"), ao lado de outros nomes populares, tipo Venantino Venantini, Guido Alberti e até Ajita Wilson, travesti que fez operação de mudança de sexo e apareceu em vários filmes "exploitation" da época, como "Sadomania", de Jess Franco.

Se você é fã de carteirinha de Fulci, LUCA, O CONTRABANDISTA não foge à regra da filmografia do diretor: o enredo não faz muita diferença, sendo rápida e facilmente suplantado pela quantidade de violência e sangue na tela. Se você não gosta, aqui está um belo argumento para continuar não gostando: 1h30min de bandidos se matando, sem muita emoção, surpresas ou reviravoltas.

Mesmo assim, um filme bem filmado e muito bem feito, que merece ser conhecido justamente pela sua injusta obscuridade.

Trailer de LUCA, O CONTRABANDISTA


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Luca il Contrabbandiere/ Contraband (1980, Itália)
Direção: Lucio Fulci
Elenco: Fabio Testi, Ivana Monti, Guido
Alberti, Enrico Maisto, Daniele Dublino,
Marcel Bozzuffi e Ajita Wilson.



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PRÊMIO DARDOS: Essa me pegou realmente de surpresa! O blog FILMES PARA DOIDOS ainda não tem nem um ano de atividade, mas mesmo assim foi indicado para o Prêmio Dardos, que "reconhece os valores que cada blogueiro mostra a cada dia, seu empenho por transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc. Em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, suas palavras". É mole ou quer mais? E eu sempre pensando que ninguém lê minhas bobagens... O responsável pela indicação (sim, a culpa é toda dele) foi o Ronald Perrone, que publica o ótimo blog Dementia 13. Desde já, deixo um sincero abraço ao Perrone pela lembrança e, seguindo as regras do Prêmio Dardos, tenho que fazer o segunte:

1) Exibir a imagem do selinho em seu blog;
2) Linkar o blog pelo qual recebeu a indicação;
3) Escolher outros 5 blogs a quem entregar o Prêmio Dardos,
4) Avisar os escolhidos.

Alguns dos meus escolhidos até já receberam a distinção, mas acho que eles merecem e vou "reindicá-los" pelo belo trabalho que fazem e que eu acompanho fielmente a cada semana (ou cada atualização):

Asian Fury - Filmes de Porrada, do Takeo Maruyama
Tablóide do Inferno, da equipe do site Boca do Inferno
RD - B Side, do Renato Doho
B Movies Box Car Blues, do Cesar Almeida
Viver e Morrer no Cinema, do Leandro Caraça

segunda-feira, 23 de março de 2009

Spirit de porco


O ano mal começou e talvez ainda seja muito cedo para dizer que THE SPIRIT é a grande bomba de 2009. Mas como eu sinceramente duvido que veremos algo tão decepcionante e tão surpreendentemente ruim até dezembro, vou dizer mesmo assim: caros leitores, THE SPIRIT é, por enquanto, a grande bomba de 2009.

(Ou pelo menos até que algum outro diretor consiga realizar a mesma façanha de Frank Miller, aqui diretor e roteirista, de desperdiçar um elenco fantástico e milhões de dólares numa narrativa sem pé nem cabeça calcada apenas no visual. E, para a sorte de Miller, sempre tem gente como Uwe Boll e Michael Bay correndo por fora na competição de pior do ano. Se bem que eu duvido que o próprio Uwe Boll conseguisse fazer um filme do Spirit tão ruim quanto esse...)

Comecemos do começo: Frank Miller é um dos grandes nomes dos quadrinhos contemporâneos. OK. E de visual o homem entende, não dá para negar. Mas daí para dizer que ele é "diretor de cinema", tendo como único crédito uma "co-direção" concedida de favor por Robert Rodriguez em "Sin City", é exagero.

Para piorar, em THE SPIRIT Miller parece não estar adaptando os exagerados, revolucionários, criativos e cartunescos quadrinhos do personagem homônimo criado por Will Eisner. Parece, isso sim, estar fazendo uma espécie de "Sin City 2" por conta própria, mas com o personagem de Eisner perdido no meio da coisa.

O humor negro, os personagens afetados, o visual escuro com algumas poucas cores (tipo o vermelho) se sobressaindo nos tons monocromáticos... tudo remete a "Sin City", e pouco ou nada ao material original de Will Eisner. Logo, este não é o "Will Eisner's The Spirit", como diz o cartaz internacional do filme, mas sim o "Frank Miller's The Spirit Attacks in Sin City"!!! Simples assim.


Não vou ficar aqui torrando a paciência do leitor e repetindo tudo que os críticos de verdade já escreveram sobre a importância dos quadrinhos de Eisner para a construção das modernas HQs para adultos. Particularmente, não sou um especialista na obra de Eisner, mas o pouco de material do Spirit que eu tenho e conheço é apaixonante. Em algumas histórias, por exemplo, o herói aparece apenas como coadjuvante, à margem de uma trama que não tem sua participação direta; em outras, importa mais o layout das páginas (com letreiros e desenhos invadindo o espaço da ação) do que a história em si.

Quem sabe Miller achou que seria uma grande coisa fazer seu filme do mesmo jeito que Eisner fazia os quadrinhos: ao invés de contar uma história, o diretor de primeira viagem prefere trabalhar o visual, filmando quadros absurdos e abusando de uma narrativa em estilo desenho animado - com aquela violência exagerada mas sem sangue, o extremo oposto de "Sin City".

O problema é que, por trás do visual fascinante do filme, não sobra nada - o contrário das narrativas escritas e desenhadas por Eisner nos quadrinhos, que eram ótimas! E quero ver alguém dizer que realmente acompanhou com interesse, no filme, a luta do Spirit (o novato Gabriel Macht, mais perdido que surdo em bingo) contra o vilão Octopus (Samuel L. Jackson, péssimo), em busca de uma relíquia arqueológica à la Indiana Jones.

A verdade é que este THE SPIRIT raramente faz sentido e nunca mostra ao que veio. Miller parece preocupado apenas com a parte artística da coisa, e esquece que os personagens precisam ter ações e motivações. Claro que não ajuda colocar um monte de atores na frente de um fundo verde e não saber dirigi-los. Acaba virando um samba do crioulo doido, sendo que este é o próprio Samuel L. Jackson, numa interpretação que deixaria com orgulho muito palhaço de festinha infantil.

Miller nem ao menos se preocupa em explicar a origem de Spirit para quem não conhece os quadrinhos (o que acabou ajudando a assinar a sentença de morte da película para o grande público), sumiu sem explicações com o parceiro que o herói tinha nos quadrinhos (Ebonny White, um taxista negro e trapalhão) e ainda desperdiçou um elenco feminino estelar em participações confusas e nada inspiradas - entre as beldades, Scarlett Johansson, Eva Mendes, Jaime King e Sarah Paulson. Acho que o sujeito ficou perdido com tanta mulher gostosa no set e esqueceu que precisava fazer um filme inteiro, e não apenas cenas esparsas com as moças e os outros atores.


O pior é que THE SPIRIT até tenta investir num humor caricatural no estilo do ótimo "Dick Tracy" do Warren Beatty (uma releitura criativa de quadrinhos para o cinema), mas sem qualquer sucesso. O que ficou lembra muito pouco os quadrinhos de Eisner: está muito mais para um cruzamento do horrendo "Batman & Robin" com o visual do igualmente decepcionante "300", e o resultado passa anos-luz à margem do que poderia ser um filme do Spirit.

É uma pena, pois o personagem tinha potencial para uma aventura bem colorida e divertida, e não escura e afetada como esta que só agora chegou aos cinemas brasileiros, depois de tomar pau de críticos no mundo inteiro (o que também deve abreviar a carreira de Frank Miller como "diretor de cinema").

E enquanto eu me contorcia na poltrona de um cinema espanhol tentando enxergar algum objetivo em cenas como aquela em que Octopus e sua parceira se vestem com uniformes nazistas, ou alguma graça nos capangas clonados do vilão (uma idéia que parece saída de filmes melhores, como o francês "Ladrão de Sonhos"), fiquei pensando que talvez aquilo não fosse realmente um filme do Spirit, mas uma sátira do filme do Spirit feita pelo programa humorístico norte-americano Saturday Night Live (ou uma paródia da revista Mad, como definiu o Leandro Caraça no blog Viver e Morrer no Cinema).

A dferença é que, aqui, a piada é de mau gosto e absolutamente sem graça, a despeito de todo o potencial e talentos envolvidos. Muita gente está mostrando boa vontade para com esse lixo, mas meu parecer é bem radical: nota zero com louvor!

Engraçado, mesmo, é que este tal de Frank Miller sempre reclamou da pouca consideração da "indústria do cinema de Hollywood" em relação aos seus roteiros para os filmes "Robocop 2" e "Robocop 3". Ele alega que ambos foram mutilados pelos produtores ao ponto de ficarem irreconhecíveis, e que quase todas as suas idéias foram descartadas. A julgar pelo resultado deste THE SPIRIT, começo a entender o porquê destes alegados cortes...


E não esqueçam, amiguinhos, que o mesmo Frank Miller que fez o clássico "O Cavaleiro das Trevas" e algumas das melhores HQs do "Demolidor" também escreveu e desenhou o pavoroso "O Cavaleiro das Trevas 2". Logo, todos erramos. O que nos difere é justamente o tamanho das nossas cagadas! E essa chamada THE SPIRIT é beeeeeeeem grande...

PS: Retornando ao blog depois de um período afastado cuidando de detalhes xaropes de mudança de cidade, saída de emprego e início de uma nova vida. Agradeço pela paciência dos leitores fiéis, voltarei a ser mais atuante a partir de agora.

sábado, 7 de março de 2009

"Who watches the Watchmen?" I did!


Sim, eu semprei pensei que a minissérie em quadrinhos "Watchmen", de Alan Moore e Dave Gibbons, era infilmável.

Sim, eu comemorei todas as vezes que o projeto foi engavetado ao longo dos anos, inclusive quando diretores bem mais conceituados tentaram levar os quadrinhos para as telas.

Sim, eu fui ver "Watchmen" no cinema louco para achar defeitos e falar mal.

Sim, eu me surpreendi. Quem diria, "Watchmen" ficou muito legal. Talvez não uma obra-prima como todo mundo esperava, mas bem longe de ser a bomba que muita gente (inclusive eu) também esperava.

Para quem não sabe, ou não viveu na Terra nos últimos 20 anos (especialmente nos dois últimos), os quadrinhos e o filme se passam num universo onde seres humanos comuns resolveram vestir-se como super-heróis para combater o crime. Homens como o Coruja (Patrick Wilson), o Comediante (Jeffrey Dean Morgan), Ozymandias (Matthew Goode), Rorschach (Jackie Earle Haley) e a Espectral (Malin Akerman) são pessoas normais, sem superpoderes, que combatem vilões idem, embora o maior inimigo seja a Guerra Fria.

A trama se passa numa década de 80 "alternativa", onde Richard Nixon é o presidente norte-americano reeleito pelo terceiro mandato, os Estados Unidos ganharam a Guerra do Vietnã e estão à beira de uma Terceira Guerra Mundial contra a União Soviética. E o único herói que realmente tem superpoderes é o Dr. Manhattan (Billy Crudup), transformado numa criatura capaz de modificar a matéria após um acidente de laboratório típico dos quadrinhos "normais" de super-heróis.

Nas páginas de "Watchmen", a história era contada sem pressa em 12 volumes, em que a narrativa principal é inúmeras vezes interrompida por devaneios de seus personagens, por incontáveis flashbacks, por intervenções de pessoas comuns afetadas pelas ações de heróis e vilões e até, acredite ou não, por uma história de piratas que um jovem jornaleiro aparece lendo em alguns momentos (sim, um gibi dentro do gibi!!!). É claro que não haveria como colocar tudo isso num filme com menos de três horas, como este que agora está nos cinemas.


Logo, continuo acreditando que "Watchmen" é infilmável como longa-metragem, pelo menos de uma forma ideal. Eu sempre sonhei com uma minissérie luxuosa para a TV, que pudesse cobrir literalmente todos os fatos apresentados nos 12 capítulos da graphic novel, quem sabe cada episódio da minissérie dirigido por um cineasta diferente.

Do jeito que ficou... Bem, pense no filme "O Nome da Rosa", do francês Jean-Jacques Annaud, que por sua vez é baseado no best-seller homônimo de Umberto Eco. Por mais que o filme (estrelado por Sean Connery) seja bom, ele abrange, sei lá, uns 20% do livro, no máximo. E uma das partes mais interessantes do romance, que é a discussão entre as ordens religiosas sobre a riqueza ou a pobreza de Jesus, ficou de fora para que o destaque recaísse sobre a trama de mistério.

A comparação não é gratuita. Como no caso de "O Nome da Rosa", o roteirista de "Watchmen", Alex Tse (David Hayter ganhou crédito como co-roteirista, mas na verdade foi autor de outro tratamento do roteiro, não-aproveitado por Snyder), espremeu bem a fruta, mas não aproveitou todo o suco. O foco do filme ficou mais na investigação sobre "quem está matando os mascarados?", deixando de fora muitos detalhes fascinantes dos quadrinhos, e abordando outros (como o verdadeiro pai da segunda Espectral) bem superficialmente. Isso sem contar que personagens como Ozymandias aparecem bem menos do que deveriam.

Enfim, isso que está na tela é um resumão de 163 minutos com o melhor da minissérie. E isso é ruim? Não. Ao contrário, por exemplo, de "O Código Da Vinci", de Ron Howard, este aqui é um resumão que funciona.

Como eu estava doido para falar mal, vou começar falando sobre o pior de "Watchmen - O Filme" (subtítulo nacional importantíssimo, para que ninguém pense que vai entrar no cinema e encontrar as revistas em quadrinhos para ler...).

Creio que um dos grandes problemas da adaptação é que o seu diretor, Zack Snyder, adora filmar cenas de ação estilizadas como estivesse dirigindo um videoclipe (e ele dirigiu vários no passado). Pior: quando faz isso, Snyder acha que está abafando. Este foi um dos motivos que me fez odiar "300", adaptação dos quadrinhos de Frank Miller que foi o trabalho anterior do diretor, e embora ele tenha conseguido se conter desta vez (até porque "Watchmen" é muito mais conversa do que ação), volta-e-meia insiste no mesmo erro.


Claro que estou me referindo àquela xaropice de câmera acelerada seguida de freeze-frame (quadro congelado), câmera lenta e então movimento acelerado novamente. Em "300", Snyder fazia isso o tempo todo até cansar - e teve gente que gostou. Em "Watchmen", a primeira cena do filme (o ataque do misterioso assassino ao Comediante) já é assim, mesmo nos momentos em que não haveria a menor necessidade da câmera lenta (como o take de um copo arremessado em câmera lenta). Fiquei com medo de que o filme todo fosse assim. Felizmente, estava enganado.

Para um texto original tão detalhado e intrincado, a narrativa do filme funciona bem demais. E as várias subtramas se encaixam perfeitamente, mesmo que perto do final o diretor dê uma acelerada no ritmo e o aspecto de "resumão" do roteiro fique mais evidente, com as informações se atropelando.

Talvez quem não conheça os quadrinhos vá ficar boiando um pouco na trama, mas nada que uma segunda assistida não corrija. Já a primeira parte do filme é muito bem narrada, seguindo a linha-mestra do mistério em torno do assassino dos mascarados e a partir daí, através de flashbacks, explicando mais sobre o passado de seus fascinantes personagens.

No enterro do Comediante, por exemplo, há uma sucessão de flashbacks onde cada personagem recorda cenas do passado - e estes momentos servem para mostrar que o Comediante, afinal, não era nada inocente. Mais adiante, o dr. Manhattan vai para Marte e parece dar um "pause" no filme quando começa a contar sua própria história (para dar uma idéia do impacto na narrativa, imagine aquele desenho animado que conta a origem de O-Ren Ishii e que interrompe a trama principal em "Kill Bill Volume 1"). Mas tudo indo num ritmo muito bom, sem cansar o espectador, muito pelo contrário.

O que mais surpreende é o respeito do diretor e dos roteiristas pelo material original. Talvez com medo da reação negativa dos fãs ("Watchmen" é uma das obras em quadrinhos mais importantes da história, como você pode ler em qualquer crítica "séria" sobre o filme, e portanto não vou repetir tudo aqui), Snyder chega a recriar seqüências inteiras quadro a quadro, usando até os mesmos ângulos dos desenhos dos quadrinhos. Já o roteiro de Hayter e Tse aproveita a maior parte dos diálogos escritos por Moore, sem tentar criar nada que fuja muito da proposta, apesar da dupla incluir alguns momentos de humor tipicamente cinematográfico.

Uma das principais invenções da adaptação é uma mudança drástica no final da história. Tudo bem, a alternativa utilizada pelos roteiristas ficou boa e perfeitamente aceitável dentro do universo da trama, mas eu ainda prefiro o final dos quadrinhos, (SPOILERS) que criava uma ameaça bem mais chocante à humanidade para exigir que os líderes mundiais esquecessem suas diferenças e se unissem. (FIM DOS SPOILERS) Estou curioso para saber a opinião dos leitores sobre esta mudança.


E embora o diretor Snyder tenha aumentado bastante a violência da trama, com closes em fraturas expostas, golpes de cutelo na cabeça e até braços decepados com serra circular, chegamos à pior coisa do filme: as cenas de luta. Felizmente são poucas, e isso não chega a estragar o filme como aconteceu com "300". Sim, o excesso de câmera lenta e ângulos estilosos do diretor incomoda, principalmente porque "Watchmen", a graphic novel, tratava de pessoas comuns combatendo o crime, e não lutadores invencíveis fazendo acrobacias sobrenaturais contra seus adversários.

Isso sem contar que as lutas do filme não empolgam: descontando um momento de forte humor negro em que o Coruja e a Espectral se sentem mais "vivos" quando voltam à ativa detonando de maneira sangrenta um grupo de marginais, os outros combates são bem fraquinhos, incluindo a luta final, onde o "vilão" atira os heróis contra paredes e pilares como se fosse o Hulk - e, embora sejam todos humanos comuns, sem superpoderes, ninguém quebra qualquer osso do corpo ou sequer se arranha no processo, o que seria impossível dada a violência dos golpes e "vôos".

Outra bola fora é que, na sua visão estilizada do universo dos quadrinhos, Snyder faz com que seus personagens não só lutem como o Jet Li após tomar um litro de Red Bull, mas também protagonizem movimentos impossíveis para os seres humanos normais que são. É o caso da Espectral pulando da nave do Coruja, atravessando o teto de um prédio em chamas e caindo de pé e sem arranhões no andar abaixo. Ou de Rorschach pulando de uma janela no 1º andar de um prédio e caindo de pé, como um gato, no térreo. É o tipo de exagero à la "Sin City" que não se encaixa bem na proposta aqui.

Tirando estes pequenos defeitos que não desmerecem o conjunto, "Watchmen" continua um filmaço. A parte boa dos quadrinhos está toda no filme, e fiquei bastante satisfeito porque tanto o diretor quanto os roteiristas entenderam a mensagem do texto de Moore: os heróis de "Watchmen" não passam de pessoas comuns, que têm rotinas de pessoas comuns e conversam como pessoas comuns - enfim, gente como a gente, imperfeitos, cheios de dúvidas, medos e angústias. Além disso, às vezes suas ações têm pouco de heróico e muito de fascista.

Nos quadrinhos normais de super-heróis, quando vemos Batman e Superman juntos, por exemplo, é sentando porrada nos bandidos e salvando o mundo, nunca jantando ou tomando uma cervejinha como os dois velhos amigos que são. Este é o diferencial de "Watchmen" para os quadrinhos "normais", e isso está também no filme: os mascarados são capazes de encontrar seus envelhecidos arquiinimigos para uma conversa informal, ou então relembrar fatos heróicos do passado entre cervejas. Um deles, Ozymandias, fica milionário ao revelar sua identidade secreta e viver de royalties sobre uma linha de produtos baseada em suas aventuras. E o Coruja confessa que o dinheiro para financiar seus uniformes e veículos personalizados veio da herança do pai, que não gostou quando ele disse que queria ser "super-herói" - diferente, por exemplo, do playboy Bruce Wayne, que sempre teve tudo de mão-beijada, e nos filmes consegue uniformes e equipamentos com a maior facilidade do mundo.


"Watchmen" também escapa da armadilha fácil de transformar o violento Rorschach em herói. Nos quadrinhos, fica claro que ele é um psicopata a ponto de explodir, como o Travis Bickle de "Taxi Driver". E como Rorschach é o narrador do filme, pensei que talvez o roteiro fosse transformá-lo numa figura mais simpática.

Claro, é comum que o espectador goste do personagem justamente pela sua postura mais valente e violenta (ele era o meu favorito também nos quadrinhos). Mas o roteiro não tenta aplacar a fúria e a periculosidade de Rorschach, inclusive trazendo uma cena de flashback onde ele, ainda garoto, arranca nacos do rosto de um coleguinha a dentadas. E só ajuda o fato de termos um ator "feioso" como Jackie Earle Haley no papel do personagem sem máscara, ao contrário de um galã bonitinho qualquer. Rorschach provavelmente também é o melhor personagem do filme!

A direção de arte é bastante inspirada, com uniformes, cenários e objetos idênticos às páginas dos quadrinhos também nas cores. Isso fica evidente nos créditos iniciais, que se desenrolam sobre cenas marcantes da vida dos vigilantes uniformizados, e parecem recriações perfeitas de quadros da graphic novel. Já a presença de personagens reais, como Andy Warhol, David Bowie, John Kennedy, Fidel Castro e Richard Nixon, torna tudo mais divertido. Só que, como a história se passa nos anos 80, senti falta de mais objetos que remetessem a esta época. Fora isso, tudo perfeito. Nenhum nerd xarope vai poder reclamar que os uniformes dos personagens não estão parecidos.

Agora, muitos críticos têm reclamado da trilha sonora do filme, que supostamente não se encaixaria nas cenas. Tirando o "Hallelujah" de Leonard Cohen durante uma cena de sexo (que realmente ficou muito ruim!), acho que Snyder foi bem nas escolhas, encaixando canções bastante conhecidas em momentos-chave da trama. Por exemplo, o Comediante é assassinado ao som de "Unforgetable", que dá uma força natural à cena, e seu funeral tem como trilha "The Sounds of Silence", de Paul Simon, o que cria um momento que chega às raias do humor negro.

E é ótimo você perceber que todos os detalhes mais interessantes (ou pelo menos os principais) foram aproveitados pelo diretor e pelo roteirista, tornando "Watchmen" um filme tão inteligente quanto a obra que adapta (mesmo que não seja uma adaptação completa), e certamente mais inteligente que 99% dos blockbusters que temos que engolir por ano.


Aproveitem, porque talvez vá demorar muito para aparecer outro "filme de super-heróis" onde seus personagens filosofem sobre a existência de Deus, ou sobre a necessidade de se sentirem heróicos para viverem satisfeitos - o que fica evidente na cena em que o Coruja "falha" na sua primeira transa com a Espectral, mas mete com vontade após arrebentar meia dúzia de marginais e salvar crianças de um incêndio!

Por tudo isso, não consigo entender porque a crítica "especializada" está criticando tanto o filme de Snyder. Será que acharam muito barulho por nada, considerando a enxurrada de marketing e informações sobre "Watchmen" de 2007 para cá? Será que não gostaram da conclusão tão otimista quanto pessimista? Será que deixaram-se levar pela tosquice das cenas de luta, que eu também não gostei, e usaram isso como bode expiatório para detonar o filme inteiro? Ou será que simplesmente são uns chatos procurado motivo para reclamar?

A única certeza que tenho é a de que me surpreendi, e positivamente, com esta adaptação. Claro, eu continuo sonhando com uma minissérie mais detalhada, continuo imaginando o que um diretor "de verdade" faria com o mesmo material - como Darren Aronofsky, um dos nomes cogitados para assumir esta adaptação em sua longa gestação. Mas, ora bolas, "Watchmen" ficou muito bom. E termina deixando a vontade de ver de novo. Quem sabe numa versão mais longa em DVD, preenchendo alguns buracos perceptíveis na narrativa.

A minha dúvida agora é a seguinte: como todo mundo usou a expressão "filme de super-herói para adultos" até a exaustão em todo e qualquer texto sobre "Batman - O Cavaleiro das Trevas" no ano passado, como é que iremos chamar agora este "Watchmen", que é muito mais "adulto" do que o supersucesso de Christopher Nolan (e bem melhor também, na minha humilde opinião)?

Ora, até agora nenhum filme de super-heróis da Marvel ou da DC, seja juvenil ou adulto, tinha trazido tanta violência explícita, mutilações sangrentas e cenas de sexo e nudez. Logo, é possível que o verdadeiro "filme de super-herói para adultos" seja esse aqui!

quinta-feira, 5 de março de 2009

E quem quer saber de WATCHMEN?

Algumas adaptações de quadrinhos que eu REALMENTE estou morrendo de curiosidade para ver:


JONAH HEX (2010, dir: Jimmy Hayward)
Imagine um faroeste ultraviolento onde o "herói" é um pistoleiro sanguinário e rápido no gatilho que tem metade da cara desfigurada. Este é Jonah Hex, que está ganhando sua primeira adaptação cinematográfica - e que, dependendo do talento dos envolvidos e de um bom roteiro, tem tudo para ser ótimo. O casca-grossa Josh Brolin já foi confirmado como "a meia cara boa" de Hex, e o elenco também terá, segundo as primeiras informações, Megan Fox como mocinha e John Malkovich como vilão (um rico fazendeiro cujo filho é morto pelo pistoleiro e usa vodu para se vingar, o que promete o tom sobrenatural típico das histórias de Jonah Hex). O "senão" é o diretor confirmado, Jimmy Hayward. Este é seu primeiro filme com atores, sendo que antes ele trabalhou apenas em animações por computador para o público infantil (a última delas foi "Horton e o Mundo dos Quem"). Ou seja, não tem o perfil necessário para um filme destes, ainda mais considerando que os candidatos anteriores eram Lexi Alexander ("Punisher: War Zone") e a dupla Mark Neveldine e Brian Taylor ("Adrenalina").
• O que eu espero: Uma versão sombria e hiperviolenta do universo dos bons spaghetti western, com um anti-herói nada bonzinho lutando contra inimigos ainda piores do que ele.




DEAD OF NIGHT (2009, dir: Kevin Munroe)
A adaptação "oficial" do personagem italiano Dylan Dog (o "Detetive do Pesadelo") para as telas tinha tudo para ser um filmaço, mas as últimas notícias me deixaram meio cabreiro. Primeiro, trocaram o título de "Dylan Dog" para o genérico "Dead of Night". Depois, David R. Ellis foi substituído na cadeira de diretor por Kevin Munroe (que fez a animação por computador "As Tartarugas Ninjas - O Retorno"), e Munroe também assinará o roteiro do projeto. Resultado: apesar de a trama se inspirar numa das boas histórias do personagem ("O Despertar dos Mortos-vivos", lançada no Brasil ainda nos tempos da Editora Record), e trazer zumbis, que estão na moda, como antagonistas, Munroe já alertou sobre algumas mudanças burras em relação aos quadrinhos, como a mudança de local de Londres para os Estados Unidos, e a contratação de Brandon Routh (o Superman de Bryan Singer) como Dylan e Sam Huntington como seu eterno parceiro, Groucho. Hmmmm... Cheiro de "Constantine" no ar! Agora é esperar para ver de que jeito Munroe vai destruir uma história que, adaptada de forma razoável, pode render pelo menos um bom filme de terror. E sempre lembrando que Dylan Dog já foi levado às telas, de maneira "disfarçada", no excelente filme italiano "Pelo Amor e Pela Morte", de Michele Soavi, lançado em 1994. Embora interpreta um personagem chamado Francesco Dellamorte neste filme, o ator Ruper Everett estava idêntico ao Dylan Dog dos quadrinhos (foto abaixo), coisa que a versão norte-americana dificilmente conseguirá fazer.


• O que eu espero: Considerando as mudanças toscas já anunciadas, espero que pelo menos o diretor consiga manter o tom sangrento e de humor negro das aventuras dos quadrinhos. E eu sei que é difícil, mas se sair algo pelo menos perto de "Pelo Amor e Pela Morte" (que também tomava muitas "liberdades poéticas" em relação aos quadrinhos, já que não era uma adaptação oficial) já está bom demais!




THOR (2010, dir: Kenneth Branagh)
Uma adaptação de um herói da Marvel com um diretor realmente decente no comando? Hmmm, a última vez que eu vi isso o resultado foi o péssimo "Hulk" do Ang Lee... Mas eu levo fé no Kenneth Branagh, que não deve ter feito nem três filmes ruins numa carreira repleta de trabalhos interessantes. Branagh, por sinal, assumiu a cadeira vaga deixada por Matthew Vaughn. Ainda não há protagonista confirmado para viver o Deus do Trovão, mas já se sabe que o roteiro foi adaptado para poder se encaixar no universo do longa-metragem dos Vingadores (previsto para 2011). Anteriormente, a trama se passava totalmente na terra mágica de Asgard, o reino dos deuses onde vive o herói. Para criar uma "ponte" com o filme dos Vingadores e trazer Thor ao mundo real, entrou no roteiro a "versão humana" do herói, o médico Donald Blake. Será que vai funcionar? Pelo menos uma coisa é certa: Branagh não é do tipo que se deslumbra com efeitos especiais (é só ver sua versão de "Frankestein"). Assim, pelo menos, não teremos um Thor lutando o tempo inteiro contra monstros de CGI em cenários criados por computação gráfica, como faria um videoclipeiro qualquer.
• O que eu espero: Um filme de super-heróis mais sério e inteligente e menos colorido e barulhento, graças à direção de Kenneth Branagh.




THE FIRST AVENGER - CAPTAIN AMERICA (2011, dir: Joe Johnston)
As primeiras notícias me deixaram apavorado (principalmente aquela que dava como certa a participação de, argh!, Will Smith no papel-título), mas ultimamente o novo filme do Capitão América é o que eu espero com mais ansiedade. Ao que parece, ao contrário daquela bomba dirigida por Albert Pyun no início dos anos 90, o filme se passará mais durante a Segunda Guerra Mundial do que nos tempos atuais, mostrando como o soldado magrela Steve Rogers se transforma no Capitão América para lutar contra o nazismo. Claro, o final deve levar o herói à época atual, também para fazer a ponte com o filme dos Vingadores (o título, "O Primeiro Vingador", já diz tudo!). O que mais me deixa entusiasmado em relação a este projeto é que não será nenhum Zack Snyder na direção, e sim Joe Johnston, apadrinhado do Spielberg que, em 1991, fez uma fantástica adaptação de quadrinhos que quase ninguém viu, "Rocketeer", que também se passava durante a Segunda Guerra Mundial.
• O que eu espero: Que o diretor Joe Johnston consiga fazer um filme mais humano e nostálgico, como já havia feito com "Rocketeer", e mais perto do clima de "Homem de Ferro" do que de "O Cavaleiro das Trevas".




THE ADVENTURES OF TINTIN - SECRET OF THE UNICORN (2011, dir: Steven Spielberg)
Como toda uma geração, eu cresci lendo as coloridas e divertidas aventuras do repórter de topete Tintin, criadas e desenhadas pelo belga Hergé. Ainda não tenho certeza se Steven Spielberg era realmente a melhor escolha para transformar os quadrinhos num blockbuster (que será feito como animação em 3D). Mas um detalhe que me deixa animado é a participação do inglês Edgar Wright (diretor de "Shaun of the Dead" e "Chumbo Grosso") como um dos três roteiristas. E dois atores-fetiche de Wright também estarão no filme, os engraçadíssimos Simon Pegg e Nick Frost, que emprestam suas vozes para os "quase gêmeos" detetives Dupont e Dumont (na versão em inglês, Thomson e Thompson). Já Tintin ficará com as feições de Jamie Bell. Boas notícias são a escolha da trama ("O Segredo do Licorne" era uma das histórias preferidas do falecido Hergé) e a presença de John Williams na trilha sonora.
• O que eu espero: Que o Spielberg não invente demais, não deixe o George Lucas sequer chegar perto do set e retorne aos tempos de "Os Caçadores da Arca Perdida", sem ser infantil demais.




PREACHER (2011?, dir: Sam Mendes)
Será que dessa vez vai? Em janeiro, a revista Variety anunciou oficialmente Sam Mendes (argh!) como diretor de "Preacher", filme baseado nos quadrinhos de Garth Ennis. Para dar uma idéia da enrolação do projeto, fala-se em adaptar o personagem para o cinema desde 2001, quando James Mardsen faria o papel-título e Samuel L. Jackson o demônio conhecido como Santo dos Assassinos. Desde então, o roteiro passou por tantas mãos, diretores e atores que parecia fadado ao limbo dos projetos problemáticos de Hollywood. Como o Constantine de Alan Moore (que foi transformado num filme bem aquém de seu potencial), "Preacher" também não é fácil de adaptar, considerando que mostra Jesse Custer, um pastor com superpoderes, caçando Deus pelos Estados Unidos, acompanhado pela namorada ninfomaníaca e por um vampiro irlandês, enfrentando adversários excêntricos como o Santo dos Assassinos, uma seita de fanáticos religiosos que protege o último descendente da linhagem sagrada de Cristo e até um rapaz deformado chamado... Cara de Cu!!! Os quadrinhos são tão violentos e amorais que eu sempre pensei que o filme era inadaptável (ainda mais em forma de blockbuster), mas a entrada do roteirista John August no projeto dá uma certa esperança, já que ele é acostumado com bizarrias (ele escreveu três longas de Tim Burton, entre eles "A Noiva Cadáver").
• O que eu espero: Na verdade, espero um desastre, ainda mais com Sam Mendes na direção. Mas a esperança é a última que morre, e creio ser mais fácil eles engavetarem o projeto pela milésima vez.



E o filme que eu gostaria de ver antes de comer capim pela raiz:


TEX WILLER
Sim, o pistoleiro implacável criado pelo italiano Giovanni Luigi Bonelli é um dos personagens de quadrinhos que eu mais gosto e religiosamente acompanho. E tem uma longevidade invejável: embora suas aventuras no Velho Oeste volta-e-meia se tornem repetitivas, a revista é publicada ininterruptamente desde 1948! Por isso é uma pena que a única adaptação cinematográfica tenha sido o fraquíssimo "Tex e o Senhor do Abismo", dirigido por Duccio Tessari em 1985. A produção era pobre, o roteiro era ridículo (baseado numa aventura mais "sobrenatural" do ranger) e o astro do spaghetti western Giuliano Gemma não convencia no papel-título. Portanto, estão devendo uma adaptação decente para todos os fãs do personagem. O filme do Tex que eu queria ver seria uma apresentação oficial do personagem, mostrando como um fora-da-lei se transforma em ranger, o início de sua amizade com o também ranger Kit Carson e, principalmente, o arco de histórias em que casa com uma jovem índia navajo, Lylith, transformando-se no "chefe branco dos índios", Águia da Noite. O filme poderia terminar com o nascimento do filho de Willer, Kit, e a morte da amada de Tex, dando o gancho para as futuras continuações. Um diretor sério e um roteirista decente poderiam fazer miséria com as aventuras do personagem, e é uma pena que ninguém mais tenha se interessado em investir no projeto, ainda mais depois do fiasco do filme anterior de Tessari.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Críticas rápidas para pessoas nervosas


SEXTA-FEIRA 13 (Friday the 13th, 2009, EUA. Dir: Marcus Nispel)
Tudo de bom e de ruim sobre este remake (ou "reinvenção") de "Sexta-feira 13" já foi dito e escrito. O novo filme, na verdade, é uma grande bobagem, tão ruim quanto os originais (que muitos insistem em tratar como clássicos que não são), embora bem menos divertido. A culpa não é exatamente do roteiro simplório, melhor que muitas seqüências oficiais da série, mas sim do diretor-anta Marcus Nispel, o mesmo que cometeu a atrocidade de refilmar "O Massacre da Serra Elétrica". Aliás, o que parece é que Nispel não saiu do set do seu remake de 2003: este novo "Sexta-feira 13" tem fotografia tão "suja" e escura quanto aquele, câmera epilética nas cenas mais legais, e o Jason bombado com esconderijo subterrâneo mais parece primo distante do Leatherface do remake do que aquele personagem legal dos anos 80. Também faz falta a seqüência de mortes exageradas dos filmes antigos, já que, com raras exceções (tipo o churrasquinho de potranca pelada no saco de dormir), é o mesmo feijão-com-arroz de sempre. E apesar de mais algumas besteiras (o xerife interpretado por Richard Burgi é desperdiçado, a maneira como Jason arranja sua máscara é ridícula, quase não há citações à colônia de férias de Crystal Lake....), pelo menos esta "reinvenção" não inventa muito (como o pavoroso "Halloween" do Rob Zombie), e entrega ao povo exatamente o que ele espera: jovens imbecis e drogados sendo esquartejados, cenas gratuitas de sexo e nudez (com gostosas de alta calibre, vale ressaltar) e uma morte a cada cinco ou dez minutos. Trocando em miúdos: é legal, mas está longe de virar clássico e perde para qualquer um dos "Sexta-feira 13" entre as partes 1 e 6.



NICK AND NORAH'S INFINITE PLAYLIST (idem, 2008, EUA. Dir: Petter Sollett)
Quem diria, o "Alta Fidelidade" para os adolescentes do século 21 funciona também para os velhos resmungões, como este que vos escreve. O simpaticão Michael Cera (de "Juno" e "Superbad") é Nick, um jovem nerd que toca numa banda formada por gays - mas é hetero, embora nunca pegue ninguém. Há meses ele levou um fora da namorada vagaba, e passa as semanas choramingando e gravando CDs com coletâneas de rock para a moça. E enquanto a ex joga os discos no lixo sem cerimônia, a tímida Norah (Kat Dennings) recolhe e escuta, fascinada pelo bom gosto musical do rapaz. É claro que os caminhos dos dois irão se cruzar numa noite de rock-and-roll, quando ambos procuram pelo "show secreto" de uma banda do momento. O mais curioso desta divertida comédia romântica é que ela vale mais pela química e pelos diálogos do casal de protagonistas do que pela história propriamente dita (que é bem fraquinha e envolve até uma amiga bêbada perdida pela cidade). A geração de jovens roteiristas contemporâneos a Diablo Cody parece estar tentando dar um toque mais emocional e humano aos seus trabalhos, que em nada lembram aquelas comédias adolescentes debilóides dos anos 90. A julgar por "Juno" e por este, vem muita coisa boa pela frente... E Michael Cera aos poucos vem se firmando como o grande pegador da sua geração, apesar da cara de panaca!



SEGURANDO AS PONTAS (Pineapple Express, 2008, EUA. Dir: David Gordon Green)
Desde aqueles velhos clássicos da dupla Cheech & Chong, muita gente tentou, mas não conseguiu, fazer filmes engraçados sobre maconheiros (os mais recentes são aquelas duas comédias fraquinhas com a dupla Harold e Kumar). Demorou, mas finalmente apareceram o Cheech e o Chong do novo milênio: em "Segurando as Pontas", Seth Rogen é um oficial de justiça que adora puxar fumo e, certa noite, testemunha uma execução na casa de um violento traficante (interpretado por Gary Cole). Perseguido pelos bandidos e pela polícia, só resta a ele fazer uma dupla improvável com seu traficante de estimação, interpretado por um impagável James Franco, e enfrentar todos os perigos - sempre completamente chapados. O filme já começa inspirado, com um prólogo em preto-e-branco mostrando testes dos militares para conhecer os efeitos da maconha; já as aventuras vividas pela dupla de doidões inclui cenas de humor negro dignas dos Irmãos Coen (a barulhenta briga na casa de um outro traficante parece saída de "Arizona Nunca Mais"). É legal ver atores como Rosie Perez, Ed Begley Jr. e James Remar numa comédia, e há diversos momentos bastante divertidos, principalmente aqueles envolvendo James Franco. Metendo ainda no balaio tiros, explosões e perseguições de automóvel, o resultado é um "Máquina Mortífera" estrelado por Cheech & Chong - sem contar que aqui existe um roteiro, e nos velhos filmes do Cheech & Chong não havia! O único defeito de "Segurando as Pontas" é esticar demais algumas cenas, provavelmente fruto do improviso dos seus astros. Mas piada enrolada demais cansa, e isso acontece também aqui, principalmente no café-da-manhã do final (uma última cena perfeitamente dispensável).



ANTES QUE O DIABO SAIBA QUE VOCÊ ESTÁ MORTO (Before the Devil Knows You're Dead, 2007, EUA. Dir: Sidney Lumet)
Qualquer filme que comece com o balofo Philip Seymour Hoffman comendo a gostosa da Marisa Tomei, e de quatro, já merece virar clássico instantâneo. E esse aqui tem muitas outras qualidades: é uma daquelas obras-primas obrigatórias que quase ninguém viu nem comentou. Dirigido pelo veteraníssimo Sidney Lumet, o roteiro de Kelly Masterson narra um mesmo episódio por três pontos de vistas, indo e voltando no tempo, o que não é propriamente uma novidade - mas mostra-se um recurso eficiente quando empregado sem frescura. A história começa quando dois irmãos endividados (Hoffman e Ethan Hawke) bolam um "crime perfeito" para faturar grana fácil: assaltar a pequena joalheria do pai (Albert Finney, ótimo). O problema é que o plano simples se revela um pouquinho mais complicado, e uma série de desastres leva a família inteira rumo ao inferno. Quando você pensa que nada de pior pode acontecer, o filme surpreende com uma nova e inesperada tragédia, lembrando filmes como "Gosto de Sangue" e "Fargo", dos Irmãos Coen. A conclusão é pessimista, um soco no estômago, e nem podia ser diferente; mas o filme é fantástico como poucos.



OS ESTRANHOS (The Strangers, 2008, EUA. Dir: Bryan Bertino)
Pode um filme ser igualmente assustador e bobo, interessante e superficial? A julgar por esta estréia cinematográfica de Bryan Bertino (também roteirista), pode. Reciclando e regurgitando clichês de "pessoas normais isoladas no meio do mato e às voltas com violentos psicopatas", o marinheiro de primeira viagem consegue criar um climão de arrepiar nos primeiros 25 minutos, quando gradualmente aparecem os "Estranhos" do título, com suas máscaras inexpressivas e as piores intenções, aterrorizando o casal de namorados interpretado por Liv Tyler e Scott Speedman. Infelizmente, a trama que começava promissora logo resvala para aqueles clichês idiotas de celular sem bateria e garota que machuca o pé quando foge dos vilões - isso sem contar o fato de os dois pombinhos se separarem a toda hora, ao invés de tentar resolver juntos o problema. Mas é interessante ver assassinos mascarados que realmente assustam, principalmente por não terem qualquer motivação além da pura maldade ("Vocês estavam em casa."). Logo, eles são o principal argumento para aquilo que eu tanto reclamei no "Halloween" do Rob Zombie ou nos novos "O Massacre da Serra Elétrica": não é preciso ficar explicando a origem do Mal, e nem mostrar o que está por trás da máscara, para assustar. Pena que aqui uma boa idéia para um curta-metragem de meia hora seja esticada para quase intermináveis 1h20min... Concluindo: é bom, mas se você nunca assistir não vai perder absolutamente nada!



MARATONA DO AMOR (Run, Fatboy, Run, 2007, Inglaterra. Dir: David Schwimmer)
É até melhor do que eu esperava esta estréia na direção do ator de "Friends", Schwimmer. A trama é óbvia e o final não traz grandes surpresas, mas este é o típico filme valorizado pela presença do protagonista - no caso, o inglês Simon Pegg, de "Shaun of the Dead" e "Chumbo Grosso". Pegg tem uma cara engraçada como poucos, e é só a câmera enquadrá-lo que já dá vontade de rir. Na trama, ele é o eterno perdedor que resolve participar de uma maratona em Londres, só para tentar provar à sua ex-namorada que mudou e está mais responsável, depois de abandoná-la grávida no altar. O cínico Hank Azaria aparece como um bundão que também cobiça a moça. Não vai ser fácil, claro, e o "treinamento" do obeso, sedentário e fumante protagonista rende as melhores risadas da trama. Vale mais pelo Pegg mesmo; provavelmente não ia ter a mesma graça se fosse Adam Sandler ou Rob Schneider no papel. E o final pelo menos não tenta ser hipócrita (é claro que o molenga não vai ganhar a maratona!), dando um exemplo de superação e força de vontade. Passatempo perfeito para as tardes de domingo.



TERROR EM MERCY FALLS (Frágiles, 2005, Espanha. Dir: Jaume Balagueró)
Uma história de fantasmas curta, grossa e sem frescura assinada pelo espanhol Jaume Balagueró antes da consagração popular com "REC". Calista Flockhart (da série "Amy McBeal") é uma enfermeira chamada para o turno da noite da ala infantil de um hospital chamado Mercy Falls, que está para ser desativado. Ali, uma força sobrenatural tem espalhado o pânico entre as crianças, fazendo com que seus ossos quebrem. Investigando o mistério, a protagonista descobre que tudo pode estar ligado a uma garotinha chamada Charlotte, que foi internada no mesmo hospital na década de 50, com uma doença que deixava seus ossos extremamente frágeis. Não há grandes novidades na trama nem na forma de contá-la, mas algumas cenas são realmente arrepiantes (como as desagradáveis fraturas provocadas pela fantasma, ou as andanças por um escuro andar desativado do hospital). O mistério também rende uma bela reviravolta final, com direito a uma criatura asquerosa que parece uma espécie de treino para a menina Medeiros de "REC". Entretanto, o ritmo é lento e às vezes convida ao sono. Recomendado para quem cansou dos filmes com fantasminhas orientais.



O PANACA (The Jerk, 1979, EUA. Dir: Carl Reiner)
Nunca tinha visto este que é o primeiro filme de Steve Martin, e que a crítica costuma colocar em toda santa lista de "comédias mais engraçadas da história". Então o meu senso de humor deve ser bem diferente da crítica, pois não consegui achar graça nenhuma nesta grande bobagem, que até parece interminável. Trata-se da história de um idiota e de suas idiotices: Navin Johnson (Martin) é um branco imbecil criado por uma família de negros, que, quando adulto, resolve se aventurar pelo mundo. No percurso, se apaixona, trabalha num posto de gasolina e no circo, é perseguido por um psicopata e acaba tornando-se milionário graças a uma ridícula invenção - um grampo colocado no nariz como suporte para óculos! Parece até um precursor de outros filmes idiotas sobre idiotas, como "Debi & Lóide", mas bem menos engraçado. Até tem alguns momentos divertidos (principalmente na parte em que o personagem fica ricaço), mas é mais comum ficar com sorriso amarelo. Teve uma seqüência em 1984, "The Jerk Too", dirigida por Michael Schultz e com Mark Blankfield no lugar de Steve Martin.



JOGOS MORTAIS 5 (Saw 5, 2008, EUA. Dir: David Hackl)
Sim, eu tenho uma certa simpatia pela série "Saw", mesmo que às vezes precise fechar um dos olhos para a lógica e para a qualidade dos filmes. No caso deste quinto capítulo, entretanto, seria preciso fechar os dois olhos, então percebe-se claramente os (muitos) defeitos de um roteiro absurdo, que tenta ser surpreendente, mas na verdade só tem uma razão de existir: costurar incontáveis pontas soltas deixadas pela Parte 4, inclusive utilizando intermináveis flashbacks para tentar fazer o espectador acreditar que certo personagem (o detetive Hoffman, interpretado por Costas Mandylor) faz parte de tudo desde o início, embora só tenha dado as caras oficialmente no terceiro (e ainda pior) filme da série. Se há uma qualidade neste quinto episódio é trazer armadilhas menos absurdas que as dos capítulos anteriores (a melhor é aquela em que pobres prisioneiros precisam se automutilar para retirar o sangue necessário para a abertura automática da sua prisão). Mas não dá para engolir o fato de o grande vilão Jigsaw, morto na Parte 3, ter deixado tanta coisa preparada com antecedência, e tudo ainda funcionar como um relógio. O filme também desperdiça seu protagonista, o agente do FBI Strahm (Scott Patterson), que após escapar à la McGyver de uma armadilha mortal, tem um desfecho fuleiro e bastante previsível. Anuncia-se que a inevitável Parte 6 será a última da série. A julgar por este quinto filme, já está mais do que na hora. Aliás, seria perfeitamente possível pular direto do quarto para o sexto filme, a julgar a total falta de conteúdo deste quinto capítulo.



O ROQUEIRO (The Rocker, 2008, EUA. Dir: Peter Cattaneo)
A capinha me deixou sem qualquer esperança, mas não é que é bem divertida essa história sobre rock e sobre as tradicionais diferenças culturais entre adultos e adolescentes? O personagem principal é Robert Fishman (Rainn Wilson), um jovem adulto que se recusa a envelhecer e ficar sério. Nos anos 80, ele era baterista de uma banda que o dispensou na véspera de fazer sucesso. Nos dias atuais, ele persegue sua segunda chance de tornar-se rockstar quando o sobrinho nerd o convida para assumir a bateria de uma banda emo que formou com seus amiguinhos. É uma pena que o roteiro se acomode nas brigas entre os jovens músicos e o velho irresponsável, e prefira investir em piadas mais inocentes sobre o mundo da música - nada de sexo ou drogas, por exemplo, o que me faz ter saudade dos tempos de filmes como "Rock'n'Roll High School" e "Get Crazy". Assim, fica parecendo uma versão cômica do "The Wonders", sem tirar nem pôr. Mas Rainn Wilson está muito engraçado tentando aproveitar a vida de roqueiro como se ainda estivesse na adolescência. Outro para ver, rir e esquecer duas horas depois.



OS REIS DA RUA (Street Kings, 2008, EUA. Dir: David Ayer)
Dá pra dizer que este policial escrito por James Ellroy é uma espécie de versão gringa do fenômeno nacional "Tropa de Elite". Canastrão como sempre, Keanu Reeves é o Capitão Nascimento deles, um policial estressado da Divisão de Homicídios de Los Angeles, que prefere executar sem piedade os criminosos que cruzam seu caminho, afogando o remorso no álcool. Mas quando um ex-colega descontente com seus métodos é executado a rajadas de metralhadora, o próprio "herói" torna-se suspeito do crime, e precisa investigar por conta própria suas motivações - chegando à já batida trama de corrupção policial, aqui encabeçada por Forest Withaker. Numa época em que os filmes policiais estão cada vez mais contidos, "Os Reis da Rua" não poupa o espectador de violência explícita e cadáveres bastante detonados; nem tenta amenizar a brutalidade do personagem de Keanu, que adora sentar a mão na bandidada e chega a atirar um suspeito no arame farpado para obter informações. O roteiro só peca por deixar muito na cara o envolvimento dos colegas do "herói" no rolo, o que fica evidente desde o início – ironicamente, só o próprio detetive não vê! Mas vale só para ver o insuportável Chris Evans (o Tocha Humana dos filmes do "Quarteto Fantástico") tomar um tirambaço à queima-roupa!

domingo, 1 de março de 2009

JOHNNY MNEMONIC (1995)


"QUE PORRA ESTÁ ACONTECENDO? Toda minha vida eu tive o cuidado de ficar no meu canto, sem complicações. Agora, de repente, sou o responsável por toda a porra do mundo, e todos estão tentando me matar... Isso se minha cabeça não explodir primeiro! Você vê aquela cidade lá no fundo? Era lá que eu deveria estar! Não aqui embaixo com cães, lixo e essas merdas de jornais do mês passado. Me enchi deles, me enchi de você, me enchi de tudo isso! Eu quero um serviço de quarto! Eu quero um 'club-sandwich'! Eu quero uma cerveja mexicana gelada! Eu quero uma prostituta de 10 mil dólares! Eu quero minhas camisas lavadas... como eles fazem... no Imperial Hotel... em Tóquio!"

Em 1995, quando realidade virtual e internet ainda eram pura ficção científica, um filme chamado JOHNNY MNEMONIC tentou faturar em cima da estética "cyberpunk" dos romances de William Gibson - um universo então conhecido apenas por nerds, e que somente "Matrix", quatro anos depois, conseguiria transformar em "cultura pop".

Talvez JOHNNY MNEMONIC seja um filme à frente do seu tempo. Afinal, esta bizarra e sombria aventura de ficção científica parece bem melhor hoje do que na época do seu lançamento, quando foi detonada pela crítica e boicotada pelo público, quase enterrando a promissora carreira de um jovem astro chamado... Keanu Reeves! Que, por este trabalho, foi indicado ao Framboesa de Ouro de Pior Ator, depois passou um tempão estrelando porqueiras como "O Observador", e, ironicamente, voltou ao estrelato justamente ao revisitar o tema "cyberpunk" na bem-sucedida série "Matrix".


Roteirizado pelo próprio William Gibson, a partir do seu conto homônimo, este filme "quase B" (custou 26 milhões de dólares) parte de uma idéia intrigante: no ano de 2021, piratear informação é tão comum que internet e satélites não são mais confiáveis; a única maneira segura de "transportar" informação é carregar o cérebro dos chamados agentes mnemônicos com os dados em gigabytes e então mandá-los até o seu destino, incógnitos.

Pode parecer idiota, considerando que o tal agente corre o risco de sofrer um acidente no percurso e adeus informações. Mas, sei lá, soa mais seguro que o correio comum numa sociedade à beira do colapso como a que é mostrada no filme - uma sociedade extremamente capitalista e dominada por megacorporações, no estilo daquelas das obras do holandês Paul Verhoeven.

Keanu interpreta Johnny, um destes agentes mnemônicos, cuja capacidade cerebral de informação é de 80 GB. Isso mesmo, igual a muitos IPods de hoje (e insira aqui mesmo a sua própria piadinha em relação ao tamanho do cérebro de Keanu Reeves!).

Claro que o mundo de 2021 não é dos melhores: fazer implantes cibernéticos no corpo é tão comum quanto cortar o cabelo ou trocar de cueca; por outro lado, uma doença chamada NAS é transmitida através das ondas eletromagnéticas e está matando a maior parte da população mundial. Que horror, não?


A ação começa quando o pobre Johnny aceita uma "última missão" (alerta de clichê!!!): carregar dados confidenciais de uma poderosa indústria farmacêutica, de Tóquio para Newark. Ele "compacta" seu HD cerebral para poder carregar 160 GB, mas a quantidade de informação que os caras enfiam na sua cabeça chega a 320 gigas!!! Claro que isso não é nada bom: se Johnny não conseguir fazer o download dos dados em 24 horas, seu crânio vai literalmente explodir!!! Problema número 2: a Yakuza, ligada à tal indústria farmacêutica, está atrás dos dados confidenciais carregados por Johnny. E a vida do mensageiro não importa: tudo que eles precisam é da sua cabeça, e o resto que se exploda!

JOHNNY MNEMONIC tem muitos problemas que explicam a fria recepção na época do seu lançamento. Keanu vinha do sucesso de "Velocidade Máxima", e ninguém esperava vê-lo no papel de um herói desagradável e nada simpático, numa história complicada e sem humor. Embora o roteiro tente "humanizar" o agente mnemônico vivido pelo astro (o rapaz perdeu todas as memórias da sua infância por carregar mais informações no cérebro do que seria recomendável), a verdade é que Johnny Mnemonic é um herói bem diferente do usual, egoísta, insensível e sem a menor vocação para salvar o mundo - tudo que ele quer é salvar a própria cabeça.

Outro grande problema é que tudo soa bizarro demais para o público em geral, embora seja um verdadeiro deleite para quem gosta de FILMES PARA DOIDOS. A ambientação "cyberpunk", por exemplo, atropela o espectador com uma quantidade absurda de informação que não fazia muito sentido lá atrás, em 1995.


Se hoje termos como download, cyberspace e internet já são comuns até para crianças de 6 anos, é bem possível que a maioria do público tenha ficado boiando na época de lançamento do filme. Mesmo hoje, algumas operações "cibernéticas" dos personagens e certos termos técnicos utilizados parecem grego até para quem tem um mínimo de conhecimento na área.

Completando o quesito "bizarria", este é um filme não só estrelado por um herói nada heróico (o discurso do início do texto é feito pelo personagem no clímax da trama, para dar uma idéia de sua preocupação com o futuro da humanidade), mas que também conta com um assassino que usa seu chicote laser para cortar metal, pescoços e pessoas ao meio; um médico viciado em fazer implantes cibernéticos baratos em seus amigos; um golfinho que teve o cérebro modificado pela Marinha para decodificar códigos inimigos e que vive num aquário, viciado em LSD (!!!), além, é claro, de um padre psicopata, vestido como Jesus Cristo, com esqueleto biônico e uma espada em forma de cruz!!!

Para completar, JOHNNY MNEMONIC traz um dos elencos mais "diferentes" já reunidos numa produção hollywoodiana: um astro como Keanu Reeves divide a tela com roqueiros (Ice-T e Henry Rollins), com o astro oriental Takeshi Kitano e mais Dina Meyer, Udo Kier, Barbara Sukowa e, acredite se quiser, Dolph Lundgren (!!!), provavelmente no papel mais esquisito da sua carreira como o tal padre biônico assassino! O pior é que Lundgren quase rouba o filme. Inacreditável!

Obviamente, uma mistura tão estranha só pode ser apreciada por públicos bem específicos. Também não ajuda o fato de o filme ser de uma escuridão digna de Tim Burton (toda a história se passa à noite), e de ser o primeiro (e até agora único) longa-metragem de um obscuro artista plástico chamado Robert Longo, que até então só havia dirigido videoclipes do REM e do New Order e um episódio (ruim) da série "Contos da Cripta".


Contando ainda com as tradicionais e multicoloridas cenas criadas por computação gráfica para representar as viagens dos personagens pelo cyberspace (estilo "O Passageiro do Futuro"), JOHNNY MNEMONIC é o tipo de filme que você nem sabe direito como avaliar, em que idéias muito boas são jogadas lado a lado com outras completamente imbecis, e cenas bem legais (incluindo bastante violência, de mãos e cabeças decepadas a flechadas no pescoço) são seguidas por momentos nada inspirados (cortesia do diretor de primeira viagem).

Entretanto, várias imagens e situações seriam vistas posteriormente em outros filmes, dos sobretudos escuros que viraram mania em "Matrix" às traquitanas tecnológicas que se tornaram presença obrigatória em todo e qualquer filme sobre hackers e computadores (alguns aparelhos ligados no cérebro também lembram "Matrix"). E tem até a imagem do casal se beijando enquanto edifícios queimam no horizonte (vista depois em "Clube da Luta").

Será que estamos diante de uma obra visionária? Bem, dá para apostar que tanto o filme quanto os seus realizadores teriam muito mais sorte caso JOHNNY MNEMONIC tivesse sido lançado hoje, e não 14 anos atrás. Mas este é o preço pago por todas as obras à frente do seu tempo, como "Blade Runner", que também foi um fracasso na época de seu lançamento (1982).


Claro que seria covardia (para não dizer loucura) comparar este debut de Robert Longo ao eterno cult movie de Ridley Scott, embora ambos tenham muito em comum, da "estética" futurista à presença de um astro hollywoodiano completamente perdido no seu papel. Mas quem sabe JOHNNY MNEMONIC não seja redescoberto nos anos vindouros?

PS 1: O tradutor brasileiro que teve a genial idéia de colocar no filme o subtítulo "O Cyborg do Futuro" merecia ele mesmo um implante cibernético... no rabo! Afinal, não há um único cyborg no filme, seja do futuro ou do passado.

PS 2: A versão japonesa do filme tem 107 minutos (11 a mais que a versão original). Estes minutos adicionais dão mais tempo em cena para o personagem de Takeshi Kitano. Como o ator era muito mais conhecido no Oriente do que no Ocidente lá no ano de 1995, foram gravadas mais cenas com ele especialmente para atrair o público oriental. Não deu outra: esta versão estendida é mais respeitada (e realmente bem melhor, incluindo nova trilha sonora) do que a "oficial".

Trailer de JOHNNY MNEMONIC



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Johnny Mnemonic (1995, EUA/Canadá)
Direção: Robert Longo
Elenco: Keanu Reeves, Dina Meyer, Dolph
Lundgren, Takeshi Kitano, Ice-T, Henry
Rollins, Barbara Sukowa e Udo Kier.