quarta-feira, 23 de setembro de 2009

THE SNIPER (2009)


Em 2008 foi "Flashback", do Wilson Yip. Em 2007, "Fulltime Killer", do Johnnie To e do Ka-Fai Wai. E nos anos anteriores eu não lembro, mas tem uma porrada de obras. Enfim, a cada ano que passa, eu sempre vejo algum filme de ação oriental acima da média que me dá a certeza de que as boas produções modernas do gênero estão sendo feitas lá pelos carinhas de olhinho puxado. Agora em 2009 não foi diferente: quem precisa dessas abobrinhas mal-filmadas, mal-editadas e repletas de efeitos digitais produzidas nos Estados Unidos quando se tem filmaços vindo do Oriente, como esse THE SNIPER?

Antes de mais nada, permitam-me fazer uma observação importante: THE SNIPER não tem absolutamente nada de excepcional, é apenas um filme de ação muito bem feito, com uma história acima da média, envolvente, trazendo belos efeitos, belos movimentos de câmera, personagens interessantes e um climático confronto final, tudo embalado por uma trilha sonora de primeira. Enfim, tudo aquilo que o cinema de ação norte-americano não consegue fazer há sei lá quanto tempo, mesmo com orçamentos de centenas de milhões de dólares (sim, estou me referindo a bobagens tipo o "Duro de Matar 4.0").


Dirigido por Dante Lam ("Heat Team", 2004) e escrito por Wai Lun Ng, o filme narra um duelo mortal entre franco-atiradores, os populares "snipers", numa aventura que remete a outras obras do gênero, como "O Atirador" (1993), de Luis Llosa, e "Círculo de Fogo" (2001), de Jean-Jacques Annaud. No caso, muito mais para o filme de Annaud, que se concentrava na rivalidade entre dois franco-atiradores, do que para a ação descerebrada do filme de Llosa, que era estrelado por Tom Berenger e Billy Zane.

THE SNIPER também é uma história sobre rivalidade e as suas conseqüências, já que seus personagens, longe de nutrirem sentimentos de heroísmo ou de "ajudar o próximo", passam o filme todo brigando para ver quem é o melhor atirador. O herói chega a resumir seu egoísmo numa frase emblemática ("Dois especialistas não podem co-existir"), enquanto faz todo o possível para mostrar que tem a melhor pontaria, mas pouco ligando para o lema de "servir e proteger" dos policiais. E sim, ele é o HERÓI do filme!!!!


A trama começa com os dois melhores snipers da polícia de Hong-Kong, Fang (Ritchie Ren, de "Exilados" e "Breaking News", ambos do Johnnie To) e Shan (Bowie Lam), salvando uma dupla de policiais de uma operação fracassada. Quando um desses policiais também se revela um atirador acima da média, ao acertar um disparo no meio dos cornos de um malfeitor, Fang resolve "adotá-lo" para o treinamento na unidade de snipers. Trata-se de Chen (Edison Chen, que interpretou a versão jovem do protagonista da trilogia "Conflitos Internos"). Ele é um jovem rebelde que não gosta de seguir ordens, mas demonstra grande habilidade no gatilho.

As primeiras cenas, que mostram o treinamento de Chen com alguns outros jovens candidatos a franco-atirador ("aspiras", segundo o Capitão Nascimento), são o grande "momento macho" do filme, ou homo-erótico, dependendo do público, já que os recrutas aparecem correndo sem camisa, com closes nos músculos e peitos suados, enquanto eles carregam seus enormes rifles de mira telescópica. Para a coisa ficar mais gay, só faltava uma discussão do tipo: "Meu rifle é maior do que o seu!".


E não demora para as coisas começarem a se complicar: Jing (Xiaoming Huang, nesse momento filmando "Ip Man 2", do Wilson Yip) é libertado da cadeia e alimenta um ódio mortal por Fang. Ele era o melhor sniper da polícia de Hong-Kong, capaz de acertar um alvo a 500 metros de distância (o maior recorde entre os atiradores), mas acabou matando um refém acidentalmente durante uma operação policial (será que ele trabalhava no Brasil?). Foi condenado a quatro anos de prisão devido ao testemunho do ex-colega Fang, pois, segundo ele, Jing teria se descontrolado no momento do tiro.

Pois Jing se alia a um grupo de criminosos e ajuda a libertar da prisão um chefão do crime, Tao (Jack Kao), o bandido que ele falhou em matar na operação de quatro anos antes. Juntos, eles pretendem roubar um carregamento de explosivos da polícia, e o sniper malvado passa o resto do filme cutucando Fang para se vingar da sua prisão, que considerou injusta. E é claro que o jovem Chen logo acaba se metendo no confronto, pois, como novo melhor sniper da polícia, ele tem ao mesmo tempo orgulho e inveja do recordista Jing.


O final eletrizante reserva um tenso duelo entre os snipers num armazém abandonado, quando Jing vai dizimando toda a unidade de Fang, até o duelo mortal com seu arquiinimigo.

Mesmo que não consiga escapar de alguns clichês comuns ao gênero, tipo o sábio mestre que ensina tudo o que sabe a um jovem rebelde, e depois luta para mantê-lo afastado do "lado negro da Força", THE SNIPER ganha muitos pontos pela narrativa dinâmica e por algumas resoluções fora do padrão, diferentes do que o espectador está acostumado a esperar desse tipo de filme de ação.

A conclusão, por exemplo, foge da burocracia típica do cinema norte-americano e desfila uma interessante sucessão de reviravoltas, trazendo à tona a verdade sobre alguns dos principais personagens. Uma delas chega a mudar totalmente o juízo que você faz de determinado personagem - tipo de revelação corajosa que só se vê nos filmes orientais.


O diretor Lam (que aparentemente não tem parentesco com o também competente Ringo Lam) também foge das soluções fáceis, e, mesmo optando por uma narrativa dinâmica e "moderninha", não cai naquela armadilha da "edição estreboscópica", com mil frames por segundo (agradecemos!!!). Aliás, bem que diretores norte-americanos metidos a cineastas orientais podiam ver filmes tipo THE SNIPER para aprender como se filma cenas de ação. Em uma única lição: usem planos mais abertos, como Dante Lam, para mostrar ao espectador o que está acontecendo, ao invés de optar pelos tradicionais supercloses com câmera tremida, que são uma praga do cinema contemporâneo.

Destaque ainda para as cenas em que os snipers demonstram sua habilidade nos corpos alheios, e para o belo momento em que a câmera segue a bala disparada por um rifle até o seu alvo, atravessando uma moeda a vários metros de distância (muitos dirão que é apenas frescura em CGI, mas ficou bem legal, como você pode conferir na seqüência de imagens abaixo).


O diretor não esconde duas influências bem visíveis: ele parece conhecer muito bem jogos de tiro com snipers, tipo "Counter Strike", e também adorou a cena em câmera lenta de "Nascido para Matar" (1987), de Stanley Kubrick, que mostra um franco-atirador fuzilando implacavelmente um soldado, já que filma uma cena bastante parecida, só que ainda mais sangrenta. Destaque também para as cenas que retratam aspectos interessantes da vida de sniper, como a importância da respiração na hora de puxar o gatilho e o exercício que os atiradores fazem para manter os dedos sempre prontos, sem tremer.

Como normalmente acontece com filmes orientais lançados no Ocidente, esse também teve os nomes dos personagens "americanizados" para soarem mais simples: Chen virou OJ (!!!), Fang tornou-se Hartman e Jing virou Lincoln. Coadjuvantes não tiveram melhor sorte, ganhando alcunhas do tipo Shane, Big Head, Crystal e até... Iceman!!!! (Alguém viu "Top Gun" muitas vezes...)


Um detalhe interessante: embora o personagem de Edison Chen seja o protagonista, ele praticamente não aparece em cena, e a montagem dá mais destaque para o duelo de nervos entre os rivais Fang e Jing. A própria duração do filme (cerca de 85 minutos) e o ritmo acelerado da narrativa fazem com que o espectador suspeite de que há coisa faltando aí. E é isso mesmo: quase todas as cenas com Chen acabaram cortadas, pois os produtores tinham medo que o filme fosse um fracasso após um escândalo sexual envolvendo o ator.

Por aqui a história é pouco conhecida (eu mesmo nem sabia disso), mas vou deixar vocês, nobres leitores, a par de tudo, já que é uma fofoca tão ou mais interessante que o próprio filme. Eis que o ator Edison Chen, que também é modelo, astro de comerciais e cantor famoso lá do lado de lá do mundo, mandou seu computador para o conserto em novembro de 2006, e assim cerca de 1.300 fotos "íntimas" do rapaz vazaram para a internet. Até aí, tudo bem, certo?

O problema é que essas fotos, feitas entre 2003 e 2006, envolviam uma porrada de mulheres, sendo que 14 delas eram super-celebridades lá em Hong-Kong, como as atrizes Gillian Chung, Bobo Chan e Cecilia Cheung. E como algumas faziam pose de boas moças na mídia, tipo umas Sandra Bullocks orientais, imagine o bafafá que foi.

Sobrou para Chen, claro, que foi considerado parcialmente culpado pelo episódio e crucificado pela mídia (olha aí embaixo a capa de uma das revistas falando sobre o escândalo; clique na imagem para ampliar). E a comoção pública foi tão grande que o ator chegou a ser ameaçado de morte.


O episódio enterrou a carreira do jovem Chen, que teve o contrato rescindido em todas as campanhas publicitárias de que participava, foi cortado na edição de "Jump", novo filme de Stephen Fung, que estréia esse ano, e também de "Batman - O Cavaleiro das Trevas", de Christopher Nolan, onde interpretava um dos capangas que apanhavam do herói na cena filmada em Hong-Kong (mesmo assim, ele aparece brevemente na recepção do edifício antes da chegada de Batman).

No caso de THE SNIPER, o filme era para ter sido lançado no ano passado, mas os produtores cancelaram a estréia e limaram o maior número possível de cenas com o "queimado" ator. Seu relacionamento atribulado com o pai criminoso e a namorada, por exemplo, se resume a uma mísera cena; se havia outras aparições destes dois familiares, elas acabaram no chão da sala de edição, o que torna a trama bastante dispersiva.

E é por isso que o personagem Chen não aparece tanto quanto seus "coadjuvantes alavancados a protagonistas". O ator nem mesmo participou da premiére do filme em Hong-Kong, que foi realizada somente agora em 2009. E, há alguns meses, chegou a dar uma entrevista dizendo que considerava o suicídio, tal o rumo que sua carreira tomou. Que coisa, hein?


Apesar dessa polêmica e da remontagem mutiladora, THE SNIPER permanece como um interessantíssimo e bem realizado filme de ação, com personagens um pouquinho mais profundos do que poderia se esperar e ótimas cenas de tiroteios envolvendo os snipers, além de uma boa dose de suspense e tensão (ótima a cena do policial no elevador com três bandidos).

A própria idéia de um inimigo sempre escondido gera bastante aflição, já que os tiros disparados pelos snipers podem vir de centenas de metros de distância!

Enfim, um tiro certeiro - melhor do que qualquer filme de ação que Hollywood possa regurgitar este ano.

Trailer de THE SNIPER


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The Sniper/ Sun Cheung Sau
(2009, Hong-Kong)

Direção: Dante Lam
Elenco: Edison Chen, Richie Ren,
Xiaoming Huang, Jack Kao, Bowie
Lam e Wilfred Lau.

11 comentários:

Leandro Caraça disse...

Nem lembrava desse filme. Bom saber que vale a pena.

>(o ator chegou a ser ameaçado de morte ...) / (que teve o contrato rescindido em todas as campanhas publicitárias de que participava ...)

Também não ajuda o fato de que o pai da Cecilia Cheung é o chefe de uma tríade !

Allan Verissimo disse...

>e também adorou a cena em câmera lenta de "Nascido para Matar" (1987), de Stanley Kubrick, que mostra um franco-atirador fuzilando implacavelmente um soldado,

Impossivel não ficar fascinado com essa cena. Que saudades do Kubrick...

O CAVALEIRO DAS TREVAS não chegou a ser proibido num país lá do Oriente justamente por causa dessa polêmica com o Chen? Lembro que chegou a ser mencionado em sites brasileiros sobre cinema.

Vagno Fernandes disse...

Carái, o negócio é hardcore então. Não vou muito com a cara desses filmes japoneses, a não ser que seja os Kung-Fu da vida mesmo, mas vou dar uma procurada. Guerra, e esse Tokio Gore Police que causou "frisson" mundo afora? Você assistiu?

Bruno C. disse...

Esses jovens atores e suas inocentes câmeras fotográficas. Se não me engano o Chen corneou um dos melhores amigos dele (que também é ator e agora esqueci o nome do corno).

Pedro Pereira disse...

Parabéns pelo blogue Felipe! E obrigado pelas fofocas. Agora percebo porque é que o filme me pareceu tão vazio em certas partes. Gostava que um dia destes editassem uma versão directors cut uma vez que no geral até está acima da média oriental.

Alexandre disse...

Rapaz , vc está querendo roubar o lugar de Nelson Rubens como o rei da fofoca rsrsrs ???

Eu vi esse filme, mas não lembrava, por que ele me pareceu tão sem sentido e genérico que não liguei o nome a pessoa rs. Só quando vi o print da maçã percebi que já tinha visto. Sabendo agora da fofoca de bastidores fica mais fácil entender os motivos do filme ser estranho.

Abraços !

Felipe M. Guerra disse...

> Também não ajuda o fato de que o pai da Cecilia Cheung é o chefe de uma tríade !

Taí um belo argumento para filme: TRAGAM-ME A CABEÇA DE EDISON CHEN... hehehehehe

Ah, e parece que a ameaça de morte ao ator realmente partiu de uma Tríade. Agora tudo se explica...

artur disse...

é sempre assim, quando as mocinhas fazem pose de boazinha na mídia e depois tem escândalos como este, o culpado é sempre o homem, estou gostsndo da retomada do cinema chines, mas falta eles reinvestirem no cinema de pancadaria, to sentindo falta de um filme oriental de Kung-Fu.

Luiz Alexandre disse...

Eita, não sabia que o pai da Cecilia Cheung era bandido!
Pobre Edison Chen... Longe de ser um grande ator, mas esteve bem no "Cão Vs Cão". Se ele fosse brasileiro ou americano podia se voltar pro cinema pornô. Se bem que ele não é exatamente um Sniper, se é que me entende...

Zé disse...

Se fosse Brasileiro, ele faria porno depois cairia no esquecimento ( e voltaria em pontas em Zorra Total )

Anônimo disse...

Voltando ao filme....

Vale a pena assistir,eu baixei e esse é o segundo melhor filme de sniper e eu já vi,
o melhor, é claro ,é o "Shooter" com Mark Wahlberg

Pra qem gosta é uma boa pedida