segunda-feira, 23 de março de 2009

Spirit de porco


O ano mal começou e talvez ainda seja muito cedo para dizer que THE SPIRIT é a grande bomba de 2009. Mas como eu sinceramente duvido que veremos algo tão decepcionante e tão surpreendentemente ruim até dezembro, vou dizer mesmo assim: caros leitores, THE SPIRIT é, por enquanto, a grande bomba de 2009.

(Ou pelo menos até que algum outro diretor consiga realizar a mesma façanha de Frank Miller, aqui diretor e roteirista, de desperdiçar um elenco fantástico e milhões de dólares numa narrativa sem pé nem cabeça calcada apenas no visual. E, para a sorte de Miller, sempre tem gente como Uwe Boll e Michael Bay correndo por fora na competição de pior do ano. Se bem que eu duvido que o próprio Uwe Boll conseguisse fazer um filme do Spirit tão ruim quanto esse...)

Comecemos do começo: Frank Miller é um dos grandes nomes dos quadrinhos contemporâneos. OK. E de visual o homem entende, não dá para negar. Mas daí para dizer que ele é "diretor de cinema", tendo como único crédito uma "co-direção" concedida de favor por Robert Rodriguez em "Sin City", é exagero.

Para piorar, em THE SPIRIT Miller parece não estar adaptando os exagerados, revolucionários, criativos e cartunescos quadrinhos do personagem homônimo criado por Will Eisner. Parece, isso sim, estar fazendo uma espécie de "Sin City 2" por conta própria, mas com o personagem de Eisner perdido no meio da coisa.

O humor negro, os personagens afetados, o visual escuro com algumas poucas cores (tipo o vermelho) se sobressaindo nos tons monocromáticos... tudo remete a "Sin City", e pouco ou nada ao material original de Will Eisner. Logo, este não é o "Will Eisner's The Spirit", como diz o cartaz internacional do filme, mas sim o "Frank Miller's The Spirit Attacks in Sin City"!!! Simples assim.


Não vou ficar aqui torrando a paciência do leitor e repetindo tudo que os críticos de verdade já escreveram sobre a importância dos quadrinhos de Eisner para a construção das modernas HQs para adultos. Particularmente, não sou um especialista na obra de Eisner, mas o pouco de material do Spirit que eu tenho e conheço é apaixonante. Em algumas histórias, por exemplo, o herói aparece apenas como coadjuvante, à margem de uma trama que não tem sua participação direta; em outras, importa mais o layout das páginas (com letreiros e desenhos invadindo o espaço da ação) do que a história em si.

Quem sabe Miller achou que seria uma grande coisa fazer seu filme do mesmo jeito que Eisner fazia os quadrinhos: ao invés de contar uma história, o diretor de primeira viagem prefere trabalhar o visual, filmando quadros absurdos e abusando de uma narrativa em estilo desenho animado - com aquela violência exagerada mas sem sangue, o extremo oposto de "Sin City".

O problema é que, por trás do visual fascinante do filme, não sobra nada - o contrário das narrativas escritas e desenhadas por Eisner nos quadrinhos, que eram ótimas! E quero ver alguém dizer que realmente acompanhou com interesse, no filme, a luta do Spirit (o novato Gabriel Macht, mais perdido que surdo em bingo) contra o vilão Octopus (Samuel L. Jackson, péssimo), em busca de uma relíquia arqueológica à la Indiana Jones.

A verdade é que este THE SPIRIT raramente faz sentido e nunca mostra ao que veio. Miller parece preocupado apenas com a parte artística da coisa, e esquece que os personagens precisam ter ações e motivações. Claro que não ajuda colocar um monte de atores na frente de um fundo verde e não saber dirigi-los. Acaba virando um samba do crioulo doido, sendo que este é o próprio Samuel L. Jackson, numa interpretação que deixaria com orgulho muito palhaço de festinha infantil.

Miller nem ao menos se preocupa em explicar a origem de Spirit para quem não conhece os quadrinhos (o que acabou ajudando a assinar a sentença de morte da película para o grande público), sumiu sem explicações com o parceiro que o herói tinha nos quadrinhos (Ebonny White, um taxista negro e trapalhão) e ainda desperdiçou um elenco feminino estelar em participações confusas e nada inspiradas - entre as beldades, Scarlett Johansson, Eva Mendes, Jaime King e Sarah Paulson. Acho que o sujeito ficou perdido com tanta mulher gostosa no set e esqueceu que precisava fazer um filme inteiro, e não apenas cenas esparsas com as moças e os outros atores.


O pior é que THE SPIRIT até tenta investir num humor caricatural no estilo do ótimo "Dick Tracy" do Warren Beatty (uma releitura criativa de quadrinhos para o cinema), mas sem qualquer sucesso. O que ficou lembra muito pouco os quadrinhos de Eisner: está muito mais para um cruzamento do horrendo "Batman & Robin" com o visual do igualmente decepcionante "300", e o resultado passa anos-luz à margem do que poderia ser um filme do Spirit.

É uma pena, pois o personagem tinha potencial para uma aventura bem colorida e divertida, e não escura e afetada como esta que só agora chegou aos cinemas brasileiros, depois de tomar pau de críticos no mundo inteiro (o que também deve abreviar a carreira de Frank Miller como "diretor de cinema").

E enquanto eu me contorcia na poltrona de um cinema espanhol tentando enxergar algum objetivo em cenas como aquela em que Octopus e sua parceira se vestem com uniformes nazistas, ou alguma graça nos capangas clonados do vilão (uma idéia que parece saída de filmes melhores, como o francês "Ladrão de Sonhos"), fiquei pensando que talvez aquilo não fosse realmente um filme do Spirit, mas uma sátira do filme do Spirit feita pelo programa humorístico norte-americano Saturday Night Live (ou uma paródia da revista Mad, como definiu o Leandro Caraça no blog Viver e Morrer no Cinema).

A dferença é que, aqui, a piada é de mau gosto e absolutamente sem graça, a despeito de todo o potencial e talentos envolvidos. Muita gente está mostrando boa vontade para com esse lixo, mas meu parecer é bem radical: nota zero com louvor!

Engraçado, mesmo, é que este tal de Frank Miller sempre reclamou da pouca consideração da "indústria do cinema de Hollywood" em relação aos seus roteiros para os filmes "Robocop 2" e "Robocop 3". Ele alega que ambos foram mutilados pelos produtores ao ponto de ficarem irreconhecíveis, e que quase todas as suas idéias foram descartadas. A julgar pelo resultado deste THE SPIRIT, começo a entender o porquê destes alegados cortes...


E não esqueçam, amiguinhos, que o mesmo Frank Miller que fez o clássico "O Cavaleiro das Trevas" e algumas das melhores HQs do "Demolidor" também escreveu e desenhou o pavoroso "O Cavaleiro das Trevas 2". Logo, todos erramos. O que nos difere é justamente o tamanho das nossas cagadas! E essa chamada THE SPIRIT é beeeeeeeem grande...

PS: Retornando ao blog depois de um período afastado cuidando de detalhes xaropes de mudança de cidade, saída de emprego e início de uma nova vida. Agradeço pela paciência dos leitores fiéis, voltarei a ser mais atuante a partir de agora.

21 comentários:

Kamen Rider disse...

Olha, acho que Dragon Ball vai conseguir ser pior que esse!

Allan Verissimo disse...

Ei,Kamem,tinha que nos lembrar dessa merda aí?Eu nem sei se vou ver esse filme...

"está muito mais para um cruzamento do horrendo "Batman & Robin" com o visual do igualmente decepcionante "300""

O horror,o horror...

Agora sim eu fiquei com menos vontade ainda de ver esse filme!
Se bem que ROBOCOP 2 é um lixo mesmo.O 3 eu ainda não vi,mas posso dizer que o original é um filmaço e não merecia aquela fraca parte 2.Alguém tem ideia de quanto da parte 2 foi ideia do Miller?E alguém pode me explicar qual é a origem do heroi,para eu não ficar boaindo quando eu for ver o filme?
Esqueceu de citar BATMAN-ANO UM,senhor guerra.Ah,senhor Guerra,desejo felicidades em São Paulo e espero que a sua nova vida seja boa.Boa sorte!

Allan Verissimo disse...

Samuel Jackson é um excelente ator, vide PULP FICTION. Seu unico problema é que ele tem uma queda pelo exagero.

Artur disse...

hum... parece que mais uma vez Hollywood deu uma cagada ao adaptar quadrinhos pra os cinemas, dessa vez ta uma cagada da grande mesmo, puxa Allan tambem dizer que Robocop 2 é um lixo foi exagero, eu assisti todos os tres Robocops na record (quando era a boa e amada uma TV de terceira) toda vez que reprisava, ai Felipe tenha uma boa vida nova em São paulo, mas bem que você poderia ter vindo pra Salvador,hahahaha, aqui a cidade é ótima, boa sorte ai.

Allan Verissimo disse...

A ultima vez que vi Robocop 2 foi quando eu tinha 9 anos.Quando eu tiver tempo,eu revejo o filme para ver se a minha opinião coninua a mesma ou muda.

Ivan disse...

Felipe, você gostou de Elektra Assassina?

Todo mundo fala bem, alguns consideram até um clássico, mas eu particularmente detestei. hehe
E olha que sou fã do Frank Miller!

Ronald Perrone disse...

Ainda assim, mesmo com todo mundo metendo o pau, pretendo assistir a Spirit... vai que eu gosto...

Felipe M. Guerra disse...

O Caraça meteu pau, mas gostou. Tem louco pra tudo! ;-)

Bruno C. Martino disse...

Depois desses elogios vou ter que assistir o filme! :P

Allan Verissimo disse...

Vai ver o filme é um "guilty pleasure" para o Caraça.

Leandro Caraça disse...

Gostei da mesma forma que o Felipe gosta da obra de Bruno Mattei. Mas olhem só essa. Fui rever o filme numa dessas sessões promocionais de segunda-feira e saí da sessão em menos de meia-hora. E eu já tinha baixado e visto essa merda. O que era engraçado na telinha, ficou insuportável no cinema. Miller se superou mesmo. Só quero mencionar três coisas. Um : Miller FOI uma figura importante dentro da indústria de quadrinhos. Não é mais. Dois : quem tem um curso rápido com o Robert Rodriguez NÃO PODE SER CONSIDERADO UM CINEASTA. Três : ROBOCOP 2 é ótimo.

Ronald Perrone disse...

Heheh, concordo com as três menções do Caraça...

Felipe M. Guerra disse...

Ô Caraça, não compara esse filme do Spirit com o Bruno Mattei que vai ofender a honra de um senhor falecido a pouco tempo! hahahahaha.

Leandro Caraça disse...

Mattei era do tempo em que personagens que tomam tiro no peito e não morrem ou que usam uniformes nazistas sem uma explicação racional tinham mais graça.

Felipe M. Guerra disse...

Claro! Até porque o Mattei não torrava milhões de dólares em suas tralhas, nem desperdiçava um magnífico elenco de gostosas (ele tirava a roupa delas sem cerimônia), e muito menos aparecia na capa de quase todas as revistas de cinema mundiais ANTES do seu filme estrear para todo mundo ver a bomba que era. ;-)

Allan Verissimo disse...

Bom,senhor Caraça,em respeito a sua opinião,quando eu tiver tempo eu revejo os dois primeiros filmes do Robocop,que eu não vejo desde os tempos de infância e de quebra vejo também o 3 que eu ainda não vi.

Bruno C. Martino disse...

Tinham que lançar uma versão do diretor unrated do Robocop 2.

El Thomazzo disse...

Algumas coisinhas: Não vi 'The Spirit', mas vai ter que se esforçar demais prá ser pior que 'O Dia que a Terra parou', pior filme do ano até agora prá mim. Vou tentar ir ver até o final de semana, preparando o espírito (sem trocadilho) prá ver algo próximo de uma batida de carro. 'Robocop 2' é ótimo, mas o HQ de 'Frank Miller's Robocop' (pretenso roteiro original de 'Robocop 2') é melhor, mais violento e sarcástico ainda. Só que é infilmável, ainda mais levando em conta a tecnologia disponível em sua época.

Leandro Caraça disse...

Se existe um defeito (e grave) em ROBOCOP 2, é a velha mania dos roteiristas não saberem o que fazer com os personagens. Lá pelo meio do filme o nosso herói simplesmente some, é esquecido pela trama, que fica um bom tempo só dando atenção para os vilões. Esse papo de que os vilões são sempre mais interessantes que os mocinhos é coisa de quem não sabe escrever porra nenhuma.

AnaVodka disse...

Estive conversando com Frank Miller semana passada.. ele me disse onde buscou inspiração para o filme... no DETETIVE MÁSCARA do programa RÁ-TIM-BUM que passava na cultura nos anos 90... vocês duvidam???
Hahahaaha lógico que eu não falei com ninguém, muito menos o filme foi inspirado no detetive (mesmo porque o detetive é muito melhor) mas saca aí como soa muito parecido (desde a abertura)
http://www.youtube.com/watch?v=7HppIFe_YVQ

Leonardo Peixoto disse...

É triste quando um projeto desses falha .