quinta-feira, 26 de março de 2009

LUCA, O CONTRABANDISTA (1980)


O diretor italiano Lucio Fulci é conhecido pela extrema violência de seus filmes de horror, entre eles os clássicos populares "Zombie" e "The Beyond". Ironicamente, uma das obras mais sangrentas e brutais do cineasta não tem nada a ver com zumbis ou entidades sobrenaturais, mas sim com ameaças bem reais, como tiros de revólver e contrabandistas de drogas. Estou falando de LUCA, O CONTRABANDISTA, o único filme policial da carreira de Fulci, e uma de suas obras mais violentas - mas que infelizmente acabou ofuscada por ter sido lançada justamente quando ele começava a fazer sucesso como diretor especializado em terror.

Erroneamente considerado um exemplar do gênero "polizieschi", quando na verdade é um filme de Máfia (a polícia praticamente não toma parte na ação, que enfoca apenas o sangrento confronto entre quadrilhas de bandidos, e os personagens principais são todos contraventores), LUCA, O CONTRABANDISTA foi filmado e lançado em 1980, entre o sucesso estrondoso de "Zombie" (1979) e outro horror violento do velho Lucio, "Pavor na Cidade dos Zumbis" (também de 1980). Marca a transição do Fulci que atirava para todos os lados (já havia feito anteriormente western, giallo e comédias) para o mestre do terror e do gore que se tornaria na década de 80. Justamente por isso, esta história sobre mafiosos acabou se transformando numa pérola praticamente desconhecida da filmografia do diretor.


O personagem-título é Luca D'Angelo (interpretado pelo sempre carismático Fabio Testi, que já havia feito "Os Quatro do Apocalipse" com Fulci), um contrabandista de cigarros de Nápoles que, mesmo sendo um criminoso, acredita não estar fazendo nada de errado; afinal, trabalha com uma mercadoria "legalizada", e não com drogas ou assassinatos como outros mafiosos que agem na região, e além disso gera emprego e renda - um verdadeiro empreendedor! Mas não aos olhos de sua esposa, Adele (Ivana Monti), que quer que ele "se aposente", temendo pela segurança dela e do filho pequeno do casal.

A Nápoles onde Luca vive e trabalha é dominada por várias quadrilhas de contrabandistas, mas a palavra de honra empenhada por eles há décadas garante uma relação de respeito: ninguém invade o território nem os negócios dos outros. Só que o acordo vai para o brejo quando Micky (Enrico Maisto), irmão mais velho de Luca, é pego numa emboscada e impiedosamente metralhado por gângsters vestidos como policiais.

Apesar dos apelos de Adele, pedindo para que eles saiam da cidade, Luca quer vingança. E o atentado dá início a uma guerra entre as famílias. Luca acredita que o culpado é Scherino (Ferdinando Murolo), que não se dava bem com Micky, e tenta matá-lo, mas leva uma surra que o deixa à beira da morte - e Scherino jura que não teve nada a ver com o crime.


Não demora para aparecer a verdade: o culpado é François Jacois, o "Marsigliese" (interpretado pelo francês Marcel Bozzuffi, do clássico "Operação França"), um poderoso traficante de drogas que está tentando convencer as quadrilhas de contrabandistas a trabalharem com ele, ajudando a distribuir cocaína e heroína em Nápoles.

Diante da recusa dos chefões, que não querem "se sujar" negociando entorpecentes, "Marsigliese" parte para o ataque, eliminando todos os gângsters até restarem apenas Luca, Scherino e Luigi Perlante (Saverio Marconi). Será que os três conseguirão deixar de lado as diferenças e se juntar para combater o perigoso traficante? E se um deles estiver de armação com o "Marsigliese" para acabar com a raça dos outros?

O maior problema de LUCA, O CONTRABANDISTA é o roteiro estúpido escrito a oito mãos por Fulci, Gianni De Chiara, Giorgio Mariuzzo e Ettore Sanzò. O argumento, na verdade, é bastante simples, e poderia ser resumido a uma linha: o "Marsigliese" começa e eliminar todos os chefes das quadrilhas de contrabandistas de Nápoles quando eles se recusam a distribuir drogas, e Luca é obrigado a enfrentar o assassino frente a frente.


Explicando assim, até parece simples; mas no filme não é: os roteiristas acharam que, por ser este um "filme de Máfia", precisavam enrolar com inúmeras reviravoltas, traições, mal-entendidos, acordos e desacordos entre os personagens, que só deixam o filme lento e excessivamente truncado. E, para piorar, as legendas do VHS nacional, lançado pela extinta DIF, são um horror, traduzindo frases pela metade (algumas acabam totalmente sem sentido) e errando a grafia dos nomes dos personagens.

Até por isso, a primeira meia hora do filme é chatíssima, e a única coisa de interessante que acontece é a brutal execução do irmão de Luca. A julgar pelo desenvolvimento lento do início, muita gente vai ter vontade de desistir, achando que o filme todo é arrastado assim. Mas não é. O excesso de personagens, que compromete o desenrolar da história no início, é resolvido no segundo ato, quando quase todos acabam mortos violentamente pela quadrilha do "Marsigliese".

E é quando restam apenas Luca, Scherino e Perlante contra o vilão que a coisa realmente começa a pegar fogo. Coitado de quem desistiu de continuar em frente baseado apenas no comecinho meia-boca...


Mesmo longe do terreno do horror, Fulci não poupa o espectador de doses cavalares de gore, ficando exageradamente acima de quase tudo que se mostrava em termos de violência naquele período - mesmo dos "polizieschi" italianos, conhecidos justamente pela sua brutalidade.

A violência aqui surge de maneira inesperada, mas sempre exagerada e em câmera lenta. Quando alguém leva um tiro no pescoço, por exemplo, a câmera faz questão de mostrar a garganta do sujeito explodindo em câmera lenta; quando alguém toma um tiro na boca que explode sua cabeça, a câmera novamente se aproxima e dá um close no rombo aberto pela bala na parte de trás da cabeça da vítima, e por aí vai... Ao estilo Sam Peckinpah, cada tiro disparado abre um rombo na vítima, principalmente uma rajada de metralhadora que desfigura o rosto de um mafioso e um tiro de espingarda que faz voarem as tripas de um pobre coitado! (Vale uma olhada no trailer do filme, abaixo, que contém algumas das mortes mais gráficas.)

LUCA, O CONTRABANDISTA traz também duas cenas brutais que foram censuradas em diversas cópias lançadas ao redor do mundo (mas felizmente não no VHS lançado no Brasil). A primeira mostra o cruel "Marsigliese" usando um maçarico para desfigurar o rosto de uma bela jovem que tentou lhe vender bicarbonato como se fosse heroína. E é claro que a câmera sádica e detalhista de Fulci (que adorava filmar mulheres sendo torturadas ou mortas violentamente) não desvia do alvo, mostrando em detalhes a chama do maçarico queimando o rosto da pobre moça até deixar a pele enegrecida, numa cena que parece interminável (e foi homenageada por Eli Roth em "Hostel - O Albergue").



A outra cena mais incômoda do filme também envolve violência contra mulheres, desta vez o lento estupro da esposa de Luca, e o protagonista ainda é obrigado a escutar os sons da agressão através do telefone!

A conclusão envolve aquele típico duelo de western entre herói e vilão, mas com uma criativa reviravolta: furiosos pelo banho de sangue que tingiu as ruas de Nápoles, os velhos e aposentados chefes da Máfia local resolvem sair do conforto de seus lares, pegar suas pistolas e metralhadoras e ensinar uma pequena lição aos "jovens" que não conseguem tocar os negócios sem ficar se matando uns aos outros. É um toque irônico, que mostra a Velha Guarda resolvendo a situação à moda antiga, por sinal lembrando vários filmes do mestre Peckinpah. E o próprio Fulci faz uma ponta neste duelo final, quando aproveita para também dar uns tiros de metralhadora!!!

Pena que o roteiro, em geral, seja medíocre, incluindo algumas cenas inconvincentes e até absurdas. Sabe no final de "O Poderoso Chefão", quando os mafiosos começam uma execução em seqüência de vários inimigos na mesma hora? Pois é, aqui copiaram isso, só que os assassinatos acontecem em locais como uma missa e um hipódromo, sempre com muita gente ao redor, e ninguém (nem o assassino, nem as pessoas e eventuais testemunhas por perto) parece se importar com o fato. A morte no hipódromo é de longe a mais engraçada: um sujeito que é a cara do Seu Madruga está gritando, comemorando o fato do cavalo em que apostou ter ganhado, e o atirador aproveita o fato para enfiar-lhe um revólver na boca e explodir seus miolos assim, sem qualquer cerimônia! hahahahaha.


Como curiosidade, vale destacar a presença de várias caras conhecidas dos "polizieschi" em LUCA, O CONTRABANDISTA, como Romano Puppo (ator de estimação de Enzo G. Castellari, visto em filmes como "The Big Racket" e "A Cruz dos Executores"), Luciano Rossi (de "Napoli Violenta" e "Django, O Bastardo") e Daniele Dublino (de "Poliziotti Violenti" e "Uomini Si Nasce, Poliziotti Si Muore"), ao lado de outros nomes populares, tipo Venantino Venantini, Guido Alberti e até Ajita Wilson, travesti que fez operação de mudança de sexo e apareceu em vários filmes "exploitation" da época, como "Sadomania", de Jess Franco.

Se você é fã de carteirinha de Fulci, LUCA, O CONTRABANDISTA não foge à regra da filmografia do diretor: o enredo não faz muita diferença, sendo rápida e facilmente suplantado pela quantidade de violência e sangue na tela. Se você não gosta, aqui está um belo argumento para continuar não gostando: 1h30min de bandidos se matando, sem muita emoção, surpresas ou reviravoltas.

Mesmo assim, um filme bem filmado e muito bem feito, que merece ser conhecido justamente pela sua injusta obscuridade.

Trailer de LUCA, O CONTRABANDISTA


****************************************************************
Luca il Contrabbandiere/ Contraband (1980, Itália)
Direção: Lucio Fulci
Elenco: Fabio Testi, Ivana Monti, Guido
Alberti, Enrico Maisto, Daniele Dublino,
Marcel Bozzuffi e Ajita Wilson.



#################################


PRÊMIO DARDOS: Essa me pegou realmente de surpresa! O blog FILMES PARA DOIDOS ainda não tem nem um ano de atividade, mas mesmo assim foi indicado para o Prêmio Dardos, que "reconhece os valores que cada blogueiro mostra a cada dia, seu empenho por transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc. Em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, suas palavras". É mole ou quer mais? E eu sempre pensando que ninguém lê minhas bobagens... O responsável pela indicação (sim, a culpa é toda dele) foi o Ronald Perrone, que publica o ótimo blog Dementia 13. Desde já, deixo um sincero abraço ao Perrone pela lembrança e, seguindo as regras do Prêmio Dardos, tenho que fazer o segunte:

1) Exibir a imagem do selinho em seu blog;
2) Linkar o blog pelo qual recebeu a indicação;
3) Escolher outros 5 blogs a quem entregar o Prêmio Dardos,
4) Avisar os escolhidos.

Alguns dos meus escolhidos até já receberam a distinção, mas acho que eles merecem e vou "reindicá-los" pelo belo trabalho que fazem e que eu acompanho fielmente a cada semana (ou cada atualização):

Asian Fury - Filmes de Porrada, do Takeo Maruyama
Tablóide do Inferno, da equipe do site Boca do Inferno
RD - B Side, do Renato Doho
B Movies Box Car Blues, do Cesar Almeida
Viver e Morrer no Cinema, do Leandro Caraça

6 comentários:

Allan Verissimo disse...

Parabéns,senhor Guerra.

TITARA BARROS disse...

Putz..baixei esse filme essa semana...
Abs!!!!

Artur disse...

a equipe de maquiagem trabalhou beleza nesse filme, o engraçado que omtem tambem postei um fiilme do Fulci no faroeste em geral, o Sela de Prata, parabens pelo premio, você mereçe.

Takeo Maruyama disse...

Opa, valeu pela indicação aí, Felipe. É legal perceber que o ASIAN FURY ainda é lembrado, mesmo estando há meses sem atualização. Preciso voltar às atividades logo!

Cesar "Sartana" Almeida disse...

Fala, Felipe! Parabéns pelo prêmio Dardos e obrigado pela indicação!

Deixa de humildade, ninguém lê o teu blog com 50 comentários em cada post?? O pobre do B Movie Blues mal chega a 5!

Abração!

Cristian Verardi disse...

"Explode a guerra na mafia do contrabando e a palavra de ordem é..."vendetta"! Fábio Testi é Luca, o contrabandista: Um Mergulho no submundo do tráfico e do contrabando, num relato de chocante realismo e violência." (DIF- Seu melhor programa em vídeo).

Tenho o VHS da DIF. Realmente as legendas são uma pérola, rs. Sinto saudade das chamadas sensacionalistas da época.