sábado, 29 de novembro de 2008

NINJA, A MÁQUINA ASSASSINA (1981)


Um ninja bonzinho foge pela selva perseguido por incontáveis ninjas malvados. O herói está vestido com uma roupa totalmente branca, o que certamente não traz nenhum benefício ao fator camuflagem... Mas isso não faz muita diferença, considerando que os trajes usados pelos malvados são vermelhos! Após matar uns 20 ou 30 inimigos (milagrosamente sem sujar seu traje impecavelmente branco com o sangue que esguicha dos ferimentos), nosso heróico ninja chega a uma casa, e então descobrimos que a matança não passou de uma espécie de "prova final" do "curso avançado de ninjas", e era tudo de brincadeirinha - todos os ninjas vermelhos que ele "matou" estão vivos e bem, apesar de ele inexplicavelmente ter cortado gargantas, atravessado corpos e até decepado cabeças durante o teste! E é quando o ninja branco finalmente tira a sua máscara, revelando um bigodudo Franco Nero (sim, o ator italiano de "Django" e "Keoma"!), que você percebe estar diante de um filme no mínimo diferente.

É assim que começa NINJA, A MÁQUINA ASSASSINA, produção norte-americana de 1981 que serviu como iniciação nos "filmes de ninja" para boa parte do mundo ocidental, lançando a "moda ninja" que perduraria pelos anos 80. Este filme B também iniciou os brasileiros no mundo do nin-jitsu, já que foi incontáveis vezes reprisado pela Globo naqueles áureos tempos em que a programação da TV pelo menos era divertida.


Fica clara a intenção dos produtores de faturar em cima do sucesso das produções de ação orientais desde o título original, "Enter the Ninja" - um óbvio plágio de "Enter the Dragon" ("Operação Dragão", sucesso de Bruce Lee lançado em 1973).

Mas não se engane, caro leitor: NINJA, A MÁQUINA ASSASSINA é um autêntico FILME PARA DOIDOS, uma bobagem tão ruim e ao mesmo tempo tão engraçada e divertida que pode muito bem ser taxada de trash. E isso por uma série de fatores, mas principalmente pelo fato de trazer um cowboy dos spaghetti western fazendo papel de ninja (!!!).


Claro, os produtores só esqueceram um pequeno detalhe: os olhos azuis de Franco Nero podem até ficar "cool" na roupinha de ninja branco, mas o negócio dele é atirar e cavalgar, e não lutar nin-jitsu!

A solução encontrada foi substituir o italiano pelo dublê Mike Stone (também coreógrafo das cenas de ação) na maior parte do filme. Por isso, toda vez que o herói aparece lutando de costas para a câmera, não é desleixo do diretor, mas sim o dublê Stone assumindo o comando!


Bem, esta produção dirigida por Menahem Golan (o israelense que era o cabeça da famigerada Cannon Films, ao lado do parceiro de longa data Yoram Globus) pode até não ter sido a primeira obra ocidental a trazer ninjas, considerando que "Elite de Assassinos" (1975), de Sam Peckinpah, e "Octagon" (1980), estrelada por Chuck Norris, vieram antes, e já traziam os hoje populares guerreiros mascarados.

Porém foi NINJA, A MÁQUINA ASSASSINA quem popularizou o "estilo ninja" no Ocidente: não só suas roupinhas características, mas também clichês como as bombas de fumaça para aparecer/desaparecer, as armas típicas (shurikens, nunchakus...) e a fama de assassinos invencíveis.


Voltando ao filme: estávamos na formatura do personagem de Franco Nero, chamado Cole, na tal "academia avançada de ninjas" do Japão. E embora sua habilidade seja elogiada pelos colegas e pelo seu mestre, um dos alunos não está satisfeito com o fato de um "ocidental" ser considerado ninja.

Ele é Hasegawa (Sho Kosugi), o tradicional ninja preto desse tipo de filme, o que significa que ele é o vilão. Mas, infelizmente, o personagem é esquecido até o final, e a história segue outro rumo.


Cole vai para as Filipinas visitar Frank Landers (Alex Courtney), um velho amigo dos tempos da guerra, que está com uma bela propriedade em Manila (capital do país) e uma bela esposa, Mary Ann (a inglesa Susan George, de "Sob o Domínio do Medo").

Só que o reencontro com o velho amigo não será dos mais tranqüilos: uma quadrilha de gângsters anda pressionando Frank para vender suas terras, já que, veja você, descobriram que há um grande poço de petróleo naquela área.

Como o cabeça-dura não quer vender a propriedade, os bandidões partem para a violência - e a sorte de Frank é que o ninja branco Cole chegou para ajudá-lo. Então o herói passa o filme inteiro exterminando facilmente todos os vilões, até que o grande chefão, Charles Venarius (o canastrão Christopher George, de "O Terror da Serra Elétrica), contrata o ninja preto Hasegawa para um reencontro nada amigável com seu ex-colega de academia, na tradicional luta final entre ninjas.


Contando assim, NINJA, A MÁQUINA ASSASSINA pode até parecer um filme sério. Mas não é. Há um senso de humor que permeia a película toda, às vezes de propósito, mas às vezes involuntário.

Por exemplo: os vilões, descontando o ninja de respeito interpretado por Sho Kosugi, estão entre os maiores palermas já mostrados pelo cinema de ação em todos os tempos. O chefão de tudo, Venarius, é apresentado com trejeitos homossexuais, e a interpretação de George não ajuda em nada - tanto que sua exagerada e caricatural cena de morte em câmera lenta corre pelo YouTube como "a pior cena de morte de todos os tempos".

Indiscutível: a pior cena de morte da história!



Venarius é assessorado por um tal de "mister Parker" (Constantin de Goguel), que faz tudo para o chefe (tente contar quantas vezes Venarius chama "Mister Parker" durante o filme todo), e por um alemão com um gancho no lugar de uma das mãos (!!!), Siegfried, interpretado por Zachi Noy (que era sempre o gordinho atrapalhado nas comédias da série israelense "Lemon Popsicle", uma delas lançada no Brasil nos tempos do VHS com o enganoso título "O Último Americano Virgem 2").

Continuando a seqüência de bobagens, a substituição de Franco Nero pelo dublê nas cenas de ação é tão evidente ao longo do filme que chega a provocar gargalhadas. Numa das mais toscas, o ninja branco está sob uma árvore (interpretado pelo dublê Stone), e desce do galho com uma pirueta. É então substituído por Franco Nero, que sai de trás de uma moita como se tivesse pulado ele mesmo da árvore. Só que é possível ver, ao fundo, o dublê vestido com a mesma roupa branca deitado no chão!!!


E por mais que você se esforce, não tem como engolir Django no papel de guerreiro ninja. Na primeira vez que o velho Franco tira a máscara, e você vê aqueles olhos azuis e o bigodão característicos do ator, parece até coisa do Village People - não sei como a famosa banda gay não incorporou um personagem ninja à sua formação após o sucesso deste filme!

Para piorar, as seqüências de luta, embora bem realizadas e filmadas (principalmente na formatura do herói, no início), são muito pobres mesmo para os padrões da época: somente o (rápido) duelo final entre ninja branco e ninja preto provoca alguma emoção no espectador, enquanto o restante dos adversários o herói tira de letra facilmente.


O destaque dado pelo diretor Golan não é para as lutas e para a habilidade dos lutadores, mas sim para a violência, com uma contagem de cadáveres altíssima: há incontáveis cenas de shurikens, punhais e flechas atingindo coadjuvantes, inclusive no rosto, e as sangrentas espadadas de praxe (dê uma olhada no trailer).

A conclusão é particularmente exagerada: encarnando uma espécie de Rambo ninja, o herói usa todo o arsenal de armas que tem à disposição para despachar os homens de Venarius, ao invés de optar por uma única arma! E sempre sem sujar a sua roupinha branca (o cara deve gastar muito Omo no uniforme).


Se NINJA, A MÁQUINA ASSASSINA serviu para alguma coisa, além de tornar os ninjas populares também no Ocidente, foi para colocar em evidência o ótimo Sho Kosugi. O ator japonês havia feito apenas três filmes baratos em Hong-Kong (um deles foi o clássico trash "Bruce Lee Fights Back From the Grave", em 1976!!!), e foi "importado" para os EUA após o sucesso de "Enter the Ninja" - mais ou menos como os estúdios norte-americanos fazem até hoje, com Jet Li, Jackie Chan, Chow-Yun Fat e muitos outros.

Nos EUA, Sho ganhou destaque em uma série de filmes muito melhores do que este, inclusive duas continuações sem relação com o original, "A Vingança do Ninja" (1983) e o clássico "Ninja 3 - A Dominação" (1984), sempre interpretando personagens diferentes.

(Curioso: se os três filmes não têm relação entre si, por que não lançá-los como produções independentes ao invés de forçar uma relação? Sho está na ativa até hoje, embora não mais tão famoso quanto nos anos 80, e em 2009 integrou o elenco da produção norte-americana "Ninja Assassin", dirigida pelo mesmo James McTeigue de "V de Vingança".)


Se formos analisar "Enter the Ninja", "A Vingança do Ninja" e "Ninja 3" como uma franquia sólida, este primeiro é, de longe, o mais fraco dos três. Mas ainda assim é bastante divertido, desde que o espectador consiga desligar o cérebro e assisti-lo sem levar a sério.

No final, quando Franco Nero dá uma piscadinha diretamente para a câmera, é como se ele estivesse confirmando que tudo não passa de uma grande brincadeira, ou uma grande bobagem, e o essencial é dar umas boas gargalhadas com a ruindade do filme.

E como os americanos não aprendem a lição, quatro anos depois a mesma Cannon Films saiu-se com outro clássico do Domingo-Maior, "American Ninja", de Sam Firstenberg, igualmente estrelado por um outro ator ocidental (aqui o projeto de astro Michael Dudikoff) que não convence como ninja e nem sabe lutar. Mesmo assim, e isso é irônico, "American Ninja" também foi um sucesso, e até deu origem a uma série de filmes!

Uma prova de que o público daqui gostava mesmo era das estilosas roupinhas ninja, sem ligar muito para as lutas desajeitadas dos atores ocidentais...

Trailer de NINJA, A MÁQUINA ASSASSINA



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Enter the Ninja (1981, EUA)
Direção: Menahen Golan
Elenco: Franco Nero, Susan George, Sho Kosugi,
Christopher George, Alex Courtney, Will Hare,
Zachi Noy e Constantin de Goguel.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

ELITE DE ASSASSINOS (1975)


(ATENÇÃO: Esta resenha tem SPOILERS!)

O norte-americano Sam Peckinpah não foi somente um dos melhores cineastas da história do cinema norte-americano, mas também um dos mais problemáticos. Brigava com atores, com produtores, com roteiristas, com colaboradores de longa data, e tudo isso enquanto filmava cenas fantásticas de ação e violência com olho clínico, entre doses cavalares de uísque ou vodka (além de tudo, era um alcoólatra irrecuperável, que morreu por complicações decorrentes do excesso de bebida).

Provavelmente, Peckinpah não foi o primeiro diretor a usar o recurso da câmera lenta para alongar as cenas de ação e dramatizar as cenas de mortes durante tiroteios. Mas, com certeza, foi um dos que melhor utilizou esta técnica, inspirando cineastas tão diferentes quanto Enzo G. Castellari e John Woo.

ELITE DE ASSASSINOS é um dos filmes menos conhecidos do mestre. Diz a lenda, inclusive, que o próprio diretor não gostava muito da obra, que continua inédita no Brasil, tanto em vídeo quanto em DVD. É aquele tipo de produção que você até sabia que existia, mas, nos tempos pré-internet, não tinha como assistir. Felizmente, para corrigir esta injustiça, o canal de TV por assinatura Telecine Cult andou reprisando o filme há alguns meses, e finalmente pude conferir este obscuro trabalho de um dos meus cineastas preferidos. O resultado: diferente do que eu esperava, mas ainda assim muito acima da média atual.

Bem, para começo de conversa, este é o "filme de ninjas" do Peckinpah. Na época, produções de artes marciais estavam em alta. ELITE DE ASSASSINOS foi feito em 1975, dois anos depois do estrondoso sucesso de bilheteria de "Operação Dragão" (estrelado por Bruce Lee), e um ano depois de um dos grandes clássicos de Peckinpah, o autoral e cruel "Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia (outra maravilha que injustamente continua inédita nas locadoras brasileiras).

Com um roteiro de artes marciais nas mãos, escrito por Marc Norman e Stirling Silliphant - a partir do livro de Robert Rostand -, Peckinpah buscou inspiração, veja só, nos próprios filmes de Bruce Lee para entrar no clima da coisa, conforme confessou em uma entrevista da época.

Porém, mais que um "filme de ninjas", ELITE DE ASSASSINOS é a tradicional história de vingança resolvida à moda antiga, história essa que o diretor adorava contar. E está centrada no relacionamento entre dois amigos de longa data e "colegas de trabalho", Mike Locken (James Caan, excelente) e George Hansen (Robert Duvall, roubando a cena sempre que aparece). Eles são espiões-mercenários que atuam para a "elite de assassinos" do título: um grupo de agentes contratados para fazer trabalhos sujos por dinheiro, principalmente para a CIA. O início do filme mostra a dupla explodindo um prédio - literalmente, já que Peckinpah filmou a detonação real de um antigo quartel do Corpo de Bombeiros de San Francisco!

Chumbo grosso e carros a mil



A próxima missão da dupla é proteger uma importante testemunha para o governo, mas é aí que Hansen se revela um traidor (provavelmente contratado por alguém que pagou mais que o atual empregador). Após explodir os miolos da testemunha, o vira-casaca atira num joelho e num cotovelo de Locken, deixando-o aleijado. Enquanto passa por cirurgias no hospital, o herói descobre que perdeu o "emprego", já que sua recuperação jamais será 100% e ninguém irá contratar um inválido para missões perigosas como as que ele realizava.

Assim, enquanto se envolve com sua enfermeira, Locken inicia uma lenta e sofrida recuperação, mostrada sem economizar tempo pela câmera do diretor - o que dá uma bela idéia do esforço hercúleo que o ex-agente precisa fazer para recuperar um mínimo da agilidade, ao contrário daqueles filmes absurdos em que os heróis se recuperam de qualquer lesão em tempo recorde.

Quando já está afiado para voltar à ativa, inclusive improvisando o uso da bengala como arma em lutas corpo a corpo, Locken é chamado para chefiar um grupo de mercenários e proteger a vida de Yuen Cheung (Mako), um rico empresário oriental que está nos EUA porque foi jurado de morte pelo vilanesco Negato Toku (Tak Kubota), líder de uma quadrilha de ninjas. Claro que a missão tem um toque pessoal: o traíra Hansen foi o assassino contratado por Toku para dar um fim em Cheung em território norte-americano, e assim Locken pode unir a satisfação da volta ao trabalho com a busca pela sua vingança pessoal.

Nestes tempos de "geração ecstasy", em que filmes de ação precisam ter um milhão de cortes por segundo e obrigatoriamente deixar o espectador com dor de cabeça no final, é sempre um alívio ver uma velha história de vingança à moda antiga, sem movimentos acrobáticos de câmera ou exageros digitais. ELITE DE ASSASSINOS é um filme lento, que não tem pressa nem queima cartuchos simplesmente pulando de uma cena de ação para outra (artifício usado pelos roteiristas que não têm história para contar). A maior parte da trama é centrada em Locken e na sua recuperação, e não na pancadaria ou nos tiroteios.

Para quem espera o velho duelo ao pôr-do-sol entre herói e vilão, o roteiro ainda revela uma surpresa incrível, que para alguns poderá soar como toque de gênio: no começo do ato final, o vilanesco Hansen é morto sem alarde nem emoção por um dos homens de Locken, e não pelo próprio herói, que fica, assim, privado de sua tão sonhada vingança pessoal - e é evidente a decepção do pobre coitado ao ver o arquiinimigo morto por outras mãos que não as suas.

Por isso, quando chega o duelo final e os ninjas finalmente entram em cena, o filme já perdeu boa parte de sua força, já que não veremos o prometido embate entre Locken e Hansen. Um contra-clichê corajoso, mas que de certa maneira também é uma armadilha, pois faz com que o espectador perca um pouco do interesse pelo filme. Até porque o cinema de ação nos acostumou, desde os primórdios, a esperar pelo velho duelo final entre bonzinho e malvado...

Metralhadoras contra ninjas!



E se o jogo de gato-e-rato entre Caan e Duvall, dois excelentes atores da velha guarda, já não fosse motivo mais do que suficiente para eu recomendar o filme, ELITE DE ASSASSINOS ainda tem Burt Young interpretando Burt Young (e ele sabe fazer outro papel?) e um jovem Bo Hopkins como atirador psicopata. E é no final que a coisa realmente fica maluca, com ninjas atacando os "heróis à moda antiga" com espadas em punho, apenas para serem implacavelmente abatidos com impiedosos tiros de Uzi dos mercenários - que não têm um pingo da "honra" dos guerreiros orientais!

Percebe-se que Peckinpah está mais contido - mais convencional, até - do que de costume. Isso tem explicação: ele foi contratado por Mike Medavoy, um dos manda-chuvas da United Artists na época. Medavoy leu o roteiro e achou que o velho Sam era a melhor escolha para levá-lo às telas, mas sabia que nenhum estúdio aceitaria trabalhar com o encrenqueiro diretor, àquela altura já totalmente queimado em Hollywood. Mas Medavoy foi teimoso: convenceu os produtores de que Peckinpah ficaria sob sua rigorosa supervisão e não aprontaria durante as filmagens. E assim aconteceu.

Com exceção de "Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia", praticamente todas as obras do diretor sofreram nas mãos dos produtores e dos estúdios, que cortavam e reeditavam seus trabalhos à revelia, ou lhe negavam mais dinheiro quando ele estourava o cronograma de filmagens. ELITE DE ASSASSINOS não fugiu à regra: o estúdio resolveu abrandar a violência para ganhar uma censura menor nos cinemas, e as cenas cortadas foram perdidas. O DVD lançado nos EUA traz esta mesma versão censurada que foi exibida pelo Telecine Cult. Uma pena.

ELITE DE ASSASSINOS é especialmente divertido e interessante porque vai na contramão de tudo que o espectador espera quando o filme começa. Não temos o duelo climático entre herói e vilão, não temos um herói que recebe uma lição de vida após vencer a situação de quase invalidez, e nem ao menos tempos grandes lances de kung-fu. O que parece é que Peckinpah está tirando onda com o sucesso que os filmes de ação de Hong-Kong faziam na época, principalmente quando os ninjas tentam lutar ao se estilo e são mortos sem piedade com tiros de metralhadora. E os heróis ainda fazem graça dos pobres ninjas: "O que são essas roupas? Mas que coisas mais ridículas!".

Longe de ser um grande filme, ELITE DE ASSASSINOS pode ser considerado uma síntese de temas que Sam Peckinpah adorava abordar em seus trabalhos, como os heróis ultrapassados que preferem resolver as coisas à moda antiga (para quê aprender artes marciais se é só dar tiros nos ninjas?), e a amizade e relação de respeito entre herói e vilão, mesmo que estejam em lados diferentes do conflito.

Quando Locken, no hospital, pergunta a si mesmo porque Hansen não lhe deu um terceiro tiro na cabeça, ao invés de apenas deixá-lo aleijado, no seu íntimo ele sabe a resposta, e o espectador também: porque no fundo eles são e continuam amigos. E é esse tipo de riqueza na construção de personagens e conflitos que infelizmente não se vê mais no cinema moderno...

Trailer de ELITE DE ASSASSINOS



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The Killer Elite (1975, EUA)
Direção: Sam Peckinpah
Elenco: James Caan, Robert Duvall, Arthur Hill,
Bo Hopkins, Mako, Burt Young, Gig Young, Tom
Clancy, Tak Kubota e Sondra Blake.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

3 DEV ADAM (1973)


J. Jonah Jameson, o editor-chefe do Clarim Diário, sempre esteve certo: o Homem-Aranha não é um herói, mas sim uma ameaça. Ele pode até enganar bem e fazer pose de "amigão da vizinhança" lá em Nova York, mas na Turquia, quem diria, o Cabeça de Teia é o sádico chefe de uma quadrilha de falsificadores de dólares, e diverte-se decepando a cabeça de uma garota com a hélice de uma lancha ou fazendo ratos famintos devorarem o rosto de um capanga que falhou em sua missão!!!

Mas, para a sorte das pessoas de bem, a ameaça aracnídea está com os dias contados, pois a polícia de Istambul contrata os serviços do Capitão América (!) e de sua namorada, a agente secreta Júlia (!!), para combaterem o Homem-Aranha, auxiliados pelo lutador mexicano de luta-livre El Santo (!!!).

Antes que você pense que estou bem no meio de uma viagem lisérgica, permita-me explicar que este é, em poucas palavras, o resumo do inacreditável filme turco 3 DEV ADAM, que, em bom inglês, significa "Three Mighty Men", e em bom português "Três Homens Fantásticos". Mas esta produção de 1973, dirigida por T. Fikret Uçak, correu o mundo em cópias piratas com um quilométrico e chamativo título popular: "Capitão América e Santo Contra o Homem-Aranha".

Uma explicação que é necessária, para os marinheiros de primeira viagem: entre os anos 50-70, a Turquia teve uma rica produção cinematográfica que usava e abusava das fórmulas de sucesso daquele período - no caso, os seriados norte-americanos. Os turcos filmavam versões baratas de filmes de bangue-bangue, de super-heróis, e por aí vai. A partir dos anos 70, começaram a usar sem vergonha na cara personagens populares, como Super-Homem, Batman, Homem-Aranha e Capitão América, obviamente que sem pagar um tostão de direitos autorais (os filmes só passavam nos cinemas turcos mesmo...).

Mas o auge da cara-de-pau veio com as famosas "versões turcas" de sucessos do cinema: eram quase cópias xerox, aproveitando o mesmo roteiro das superproduções norte-americanas. Foi neste período que surgiram barbaridades como "Seytan" ("O Exorcista" turco), "Dünyayi Kurtaran Adam" ("Star Wars" turco), "Turist Ömer Uzay Yolunda" ("Jornada nas Estrelas" turco), "Korkusuz" ("Rambo" turco) e "Badi" ("ET - O Extraterrestre" turco), entre outras tosqueiras engraçadíssimas.

Melhores momentos (???) do filme



3 DEV ADAM é desta época e simplesmente brilhante na sua ingenuidade: Capitão América, El Santo e Homem-Aranha mostrados na película não têm absolutamente nada a ver com os personagens originais, e só estão na trama porque eram nomes populares e chamavam público para os cinemas!

Dessa forma, Capitão América e El Santo são mostrados como dois agentes secretos que aparecem o tempo todo em "roupas civis", e só vestem seus uniformes coloridos e máscaras na hora da ação; já o Homem-Aranha aqui é um vilão cruel que mata milionários de Istambul para roubar obras de arte e revender a preço de ouro nos Estados Unidos, ao mesmo tempo em que distribui dólares falsos no México e... no Brasil!!! Maldito aracnídeo!

A prova de que as versões turcas não têm nada a ver com os personagens originais - além, é claro, dos nomes e das versões toscas dos uniformes - é que o Capitão América aqui não tem escudo e nem as tradicionais "asinhas" nas laterais da sua máscara, o El Santo não sabe lutar luta-livre, e o Homem-Aranha é um pançudo com uniforme desbotado e uma máscara ridícula que deixa à mostra seus olhos e as grossas sobrancelhas (que mais parecem taturanas), e que não dispara teias nem escala paredes - pelo contrário, o sujeito mais de uma vez aparece fugindo de carro!

Mesmo assim, 3 DEV ADAM bateria todos os recordes de processos judiciais da história do cinema, se houvesse alguma lei de direitos autorais na Turquia...

O filme começa com o Homem-Aranha ("interpretado" por Deniz Erkanat), acompanhado por sua amante masoquista Nadja (versão turca da Mary Jane?) e por um grupo de capangas da sua quadrilha, executando uma garota por algum motivo que o roteiro não se preocupa em explicar. Seria muito fácil dar um tiro na cabeça da coitada, mas o vilão aqui é uma espécie de Jigsaw, da série "Jogos Mortais": ele prefere enterrar a moça na areia, deixando apenas sua cabeça para fora, e então usar o motor de um barco para arrebentar a fuça da vítima, enquanto gargalha sadicamente.

Corta para o Capitão América (Aytekin Akkaya, clone turco do Dedé Santana, que também apareceu no clássico "Star Wars" turco), Júlia (Mine Sun) e El Santo (Yavuz Selekman) chegando no aeroporto de Istambul e encontrando o comissário Orhan (interpretado por Dogan Tamer, roteirista do filme). Ele pede a ajuda do trio de heróis para encerrar o reinado criminoso do vilão aracnídeo.

Porrada: Capitão América versus Homem-Aranha!



Depois de um comentário óbvio para justificar a mudança de idioma ("Puxa, Capitão América, não sabia que você falava turco tão bem!"), nossos heróis começam a procurar a localização do esconderijo da quadrilha do Homem-Aranha. Isso envolve, como nos filmes policiais norte-americanos, visitas a uma boate de strip-tease!

A partir da chegada do trio de heróis a Istambul, não tem mais muita história: eles fingem que investigam o caso e, no processo, enfrentam os capangas do Homem-Aranha e o próprio vilão infinitas vezes, a cada cinco ou dez minutos, numa seqüência interminável de barulhentos chutes e socos. Ah, e por "investigar" leia-se "olhar cenas de crimes usando lupas" (!!!), como naquelas caricaturas de detetives dos quadrinhos.

Seguindo a linha de várias produções turcas do período, 3 DEV ADAM é pura ação, violência e sensualidade. O documentário "Turkish Pop Cinema", de Andrew Starke e Pete Tombs, explica que o povo da Turquia era muito fechado e cheio de pudores, e por isso era comum que seus filmes extrapolassem nos limites de sexo e violência (mais ou menos como acontece também no Japão). Aqui não há tanto sangue, mas a violência está sempre presente, com uma sessão de pancadaria a cada cinco minutos e inclusive sopapos em garotas indefesas; também não há nudez, mas volta-e-meia aparece algum show sexy de strip-tease, alguma cena de banho ou um casal transando sem aparecer muita coisa...

As cenas de luta lembram o que faziam, comicamente, a dupla Terence Hill e Bud Spencer, ou mesmo Os Trapalhões, mas aqui são levadas a sério: os heróis nunca usam armas e fazem malabarismos circenses, sem dublês, pendurando-se no teto para realizar acrobacias e dar cambalhotas. Tem até uma cena em que El Santo vai parar no meio de uma escola de karatê, mera desculpa para mais 5 minutos de pancadaria gratuita.

Um detalhe completamente sem pé nem cabeça do filme (como se o resto fizesse sentido...) é o fato de o malvado Homem-Aranha conseguir gerar clones toda vez que morre! No primeiro confronto do Capitão América e de El Santo com o vilão, toda vez que o sujeito morre, imediatamente aparece no recinto um clone rindo sadicamente e atacando os heróis! Eu até pensei que os capangas da quadrilha usassem uniformes iguais aos do seu chefe para enganar os heróis, mas logo fica evidente que não são imitadores, mas sim CLONES mesmo! Pois é, os caras anteciparam a clássica "Saga dos Clones" do gibi do Aranha em uma duas décadas!!!

Esta maluquice dos roteiristas torna-se ainda mais bizarra no combate final do Capitão América com o vilão: o herói vai despachando os clones de maneira violenta (inclusive esmagando a cabeça de um deles numa prensa), e logo no instante seguinte pipoca um clone nas suas costas dando uma risada maléfica, do tipo "Hahaha, você matou o errado novamente!". Pena que o vilão seja muito burro, e, ao invés de "clonar-se" para escapar de fininho, logo denuncia o surgimento de uma nova cópia com sua espalhafatosa risada sádica, fazendo com que o herói parta imediatamente para trocar porradas com o "novo Homem-Aranha" que surgiu. Juro que queria saber o que tem na água que estes turcos tomam...

Para quê teias quando se tem ratos assassinos?



É realmente muito engraçado ver El Santo (que nos filmes "oficiais" do personagem está sempre mascarado) e o Capitão América (dificilmente sem uniforme nos gibis) desfilando o tempo inteiro com suas "identidades civis", e usando máscaras e uniformes apenas nas cenas de ação (não me pergunte qual o motivo, considerando que mocinhos e vilões conhecem a identidade secreta de ambos desde o início!). Pelo menos o comissário tenta explicar a roupa do Homem-Aranha ao dizer que ele é "um lunático com mente infantil e fixação por máscaras". Mas e no caso dos heróis?

Completando a lista de bobagens, o Homem-Aranha aparece até transando (sem máscara, pelo menos) com sua fogosa amante, uma cena que você dificilmente vai ver na trilogia dirigida por Sam Raimi - uma pena, porque assim quem sabe os filmes seriam mais divertidos. A transa é entrecortada por inexplicáveis cenas em que bonecos que estão numa prateleira do quarto aparecem se movendo e rindo como se estivessem vivos (terão saído da série "Puppet Master"?)! E é só o Cabeça de Teia "esvaziar o saco" para imediatamente colocar de volta a sua máscara!

Claro que o cinema turco em geral não é para qualquer um, e somente "iniciados" nesse tipo de barbaridade vão curtir, embora o filme seja um pouquinho mais convencional e fácil de acompanhar que outras produções turcas do período. Quem conseguir olhar além da ruindade evidente da película, vai encontrar em 3 DEV ADAM um filme divertido, curto (dura apenas 1h18min) e que rende algumas boas risadas pelo clima geral de insanidade e principalmente pela pilantragem da produção.

Infelizmente, os negativos originais foram destruídos, e hoje só circula pela net uma cópia muito ruim gravada da TV, com qualidade quase zero de imagem. Há alguns anos saiu também um DVD pirata, já fora de catálogo, mas quem viu garante que a imagem tratada está só um pouquinho melhor que a da cópia mais conhecida, porém ainda bem longe do ideal.

Como o filme foi originalmente produzido com uma merreca e é bastante mal-finalizado (aparecem até as emendas dos rolos de filmes em alguns trechos!), a baixa qualidade da coisa toda acaba até fazendo parte da brincadeira. E o melhor: se há pouco tempo era preciso encará-lo "a seco", em turco e sem legendas (acredite, eu fiz isso, sem entender absolutamente nada do que se passava), hoje já tem legendas em inglês dando sopa nos sites do gênero. Mais um motivo para conferir esta preciosidade.

Vale destacar, também, que por enquanto 3 DEV ADAM é a melhor adaptação do Capitão América para o cinema (muito mais divertida que aquela bomba dirigida pelo Albert Pyun, pelo menos). E agora é esperar que a Marvel produza a sua versão oficial. De preferência sem clones do Homem-Aranha...

Trailer (satírico) de 3 DEV ADAM



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3 Dev Adam/Three Mighty Men/Captain
America and Santo Vs. Spider-Man (1973, Turquia)

Direção: T. Fikret Uçak
Elenco: Aytekin Akkaya, Deniz Erkanat, Yavuz
Selekman, Teyfik Sen, Dogan Tamer, Mine Sun,
Altan Günbay, Ersun Kazançel e Osman Han.

domingo, 16 de novembro de 2008

MR. MAJESTYK (1974)


(Depois de vários posts em seqüência sobre tralhas italianas, achei que era hora de publicar algo sobre um filme mais "normalzinho", só para variar um pouco. E também estava na hora de escrever sobre Charles Bronson neste blog. Então, divirtam-se!)

"Você fala como se fosse um grande machão, mas não me convenceu! Continue falando assim comigo e eu arranco sua cabeça fora!", diz Charles Bronson, com sua tradicional voz calma e rosto sem expressão, para um oponente mal-encarado em certo momento de MR. MAJESTYK, um dos melhores filmes do astro, lançado no Brasil com o ridículo título "Desafiando o Assassino" (tão ridículo que eu não vou mais utilizá-lo a partir de agora, por isso pode esquecer que ele existe). MR. MAJESTYK foi rodado em 1974, mesmo ano em que Bronson estrelaria um de seus maiores sucessos de público e crítica: o primeiro "Desejo de Matar", que acabou ofuscando a existência deste pequeno clássico.

Charles Bronson, ou Charles Buchinksy (seu nome de batismo), faleceu em 2003, deixando um legado de quase 100 filmes, além de muitos, mas muitos personagens marcantes e inesquecíveis. Entre eles, o mais óbvio talvez seja Paul Kersey, de "Desejo de Matar", que deixou uma franquia de 5 filmes. Mas ele também encarnou o Pistoleiro da Harmônica ("Era uma Vez no Oeste"), um dos "dirty dozen", Wladislaw (em "Os Doze Condenados"), o cowboy Bernardo ("Sete Homens e um Destino"), o assassino Arthur Bishop ("Assassino a Preço Fixo") e uma longa galeria de policiais durões, com destaque para Leo Kessler ("Dez Minutos para Morrer").


Bronson era tão foda que encarnou até o lendário Wild Bill Hickox (em "O Grande Búfalo Branco). Mas se eu tivesse que escolher meu personagem preferido do velho bigodudo, muito provavelmente a decisão seria pelo "super-cool" Vincent Majestyk, que é o "herói" (assim mesmo, entre aspas) de MR. MAJESTYK.

Vince Majestyk é um cara durão que não arrega na hora do aperto, enfrentando a bandidada na cara e na coragem. A diferença para a maioria dos outros personagens de Bronson é que Majestyk não está procurando encrenca, quer apenas ficar quietinho no seu canto. Mas os problemas vão até ele. E aí, meu amigo, Majestyk se obriga a arregaçar as mangas e dar um jeito naqueles que não querem deixá-lo em paz. Tanto que a frase no cartaz de cinema era: "Ele não queria ser um herói... Até o dia em que ele foi pressionado demais!".

Vince Majestyk não é um pistoleiro, nem um vingador urbano, muito menos um assassino profissional: é apenas, acredite se quiser, um fazendeiro do tipo matuto, um plantador de melancias do interior dos Estados Unidos, que usa sempre uma inseparável boina na cabeça. Claro que também é um veterano de guerra, que lutou na Coréia e no Vietnã, além de ter sido preso por causa de uma briga de bar. Mas nos dias atuais (anos 70, no caso do filme), o que ele fez no passado não interessa: tudo que Majestyk quer é colher seus vários hectares de melancias madurinhas para vender e faturar uma boa grana, sem precisar matar nem arrebentar a fuça de ninguém.


Entretanto, embora o pobre homem do campo não esteja procurando encrenca, os problemas logo chegam até ele, no momento em que recruta um grupo de trabalhadores para ajudar na colheita - inclusive uma família de imigrantes mexicanos ilegais encabeçada pela bela Nancy (interpretada pela argentina Linda Cristal).

Quando o ônibus com os trabalhadores chega na fazenda, Majestyk descobre, surpreso, que já há um bando de homens colhendo suas melancias. Eles são contratados por um mau caráter chamado Bobby Kopas (Paul Koslo), que tenta convencer o herói a contratar seus serviços por um preço menor que o do mercado.

O fazendeiro até tenta argumentar que não precisa disso, que já contratou uma equipe, e pede com toda educação que Kopas e seus homens deixem imediatamente a propriedade. Claro que o vilão não quer nem saber e tenta pressionar nosso herói na violência, obrigando-o a contratar sua equipe de qualquer jeito. Resultado: quando Kopas puxa uma espingarda para ameaçar Majestyk, este se apossa da arma e expulsa o bandido da sua propriedade sem dificuldade.


Só que o vagabundo não deixa o incidente passar em branco: Kopas vai dar queixa na polícia (!!!) dizendo que Majestyk o agrediu covardemente. E como a justiça nos filmes normalmente é um reflexo da vida real, horas depois a polícia está batendo na fazenda e algemando o fazendeiro como se fosse ele o bandido!

Majestyk é fichado e nem tem chance de se defender. Isso apesar de seus apelos desesperados: "Por favor, tenente. Preciso colher aquelas melancias em quatro dias, ou perco toda a colheita. Quatro dias e depois eu venho até aqui por conta própria". A resposta do homem da lei é cínica: "Você devia ter pensado nisso antes!". E assim nosso "herói" vai parar atrás das grades com um bando de marginais, mas não perde a pose.

Na hora do almoço, Majestyk percebe que um dos prisioneiros come isolado dos outros e tenta contato. Mas o homem é Frank Renda (Al Lettieri, de "O Poderoso Chefão", que morreu no ano seguinte). Renda é um dos mais implacáveis e perigosos pistoleiros da Máfia, preso após dezenas de crimes, e não precisa muito para que ele marque alguém de morte. No dia seguinte, os prisioneiros são transferidos de ônibus para a penitenciária. Mas homens da quadrilha de Renda atacam, num massacre onde quase todos os policiais são baleados.


Esperto, Majestyk vê aí uma oportunidade de limpar sua ficha com a polícia: ele foge levando junto o ainda algemado Renda, e depois liga para a delegacia de polícia para trocar o perigoso prisioneiro pela sua liberdade. Só que o bandidão não fica nem um pouco contente em se tornar peça de troca e consegue fugir, com a ajuda de uma parceira, Wiley (a gatinha Lee Purcell).

Tudo parece voltar ao normal e a quadrilha de Renda agiliza sua fuga para o México. Mas o assassino não quer saber de ir embora sem antes se vingar de Majestyk. "Muitos eu matei por dinheiro, mas este eu quero matar de graça, para mim", justifica.

Renda se junta ao trapaceiro Kopas e, no momento em que o agricultor é libertado da prisão, os dois bandidos tratam de transformar sua vida num verdadeiro inferno: ameaçam seus trabalhadores para que abandonem a colheita, quebram as pernas do seu melhor amigo, Larry (Alejandro Rey), e, no auge da maldade, destróem a tiros de metralhadora e revólver as tão amadas melancias colhidas por Majestyk.


Ao ver suas hortaliças em pedaços, o amigo no hospital e sua vida de cabeça para o ar, o herói finalmente resolve deixar de ser um cara legal para revidar. E esta mudança é demonstrada de maneira sutil, quando a câmera desce do olhar entristecido e ao mesmo tempo revoltado de Bronson para seu punho cerrado em sinal de fúria.

Agora os bandidos vão experimentar uma dose do seu próprio remédio! Neste momento, numa incrível reviravolta do roteiro (muito antes de isso se tornar um clichê do cinema de ação), Majestyk se transforma de presa em caçador, encurralando seus inimigos de uma maneira que eles jamais poderiam esperar.

Filme de ação à moda antiga, MR. MAJESTYK desenvolve-se lentamente, porém sempre mantendo presa a atenção do espectador. Demora mais de 1h10min para começarem as cenas de perseguição automobilística e tiroteios, mas a espera compensa: no clímax, os bandidos perseguem Majestyk e Nancy, que dirigem feito loucos uma caminhonete Ford pra lá de velha, pelas estradinhas empoeiradas da fazenda. Os malabarismos que aquele veículo faz, meu amigo, são de tirar o chapéu, e isso tudo sem computação gráfica ou grandes truques de câmera: é tudo real! Acredite, aquela caminhonete praticamente voa!


Comparando com outros filmes de Bronson, principalmente aqueles feitos nos anos 80, MR. MAJESTYK tem uma contagem de cadáveres relativamente baixa, pois são poucos os seus antagonistas. Mas estes poucos pobres diabos sofrem o pão que o diabo amassou, e o filme não poupa na violência, com sangrentos tirambaços de espingarda - a arma adotada pelo fazendeiro contra os homens que estão abusando da sua paciência - e momentos de crueldade explícita, como aquele em que Renda quebra o pescoço de um policial indefeso com duas pauladas, comprovando que é um filha da puta implacável.

Mas o que faz de Vince Majestyk meu personagem preferido de Bronson é que ele sabe ser valentão e se impor, saindo por cima de todas as adversidades, sempre com uma frase de efeito ou um sorrisinho no seu rosto de pedra. São tantos momentos antológicos no filme que eu ficaria a noite inteira comentando, mas um dos clássicos é aquele em que, numa cena sem qualquer clima romântico, a bela Nancy intima o fazendeiro: "Se você quer transar comigo, por que não fala?". E Majestyk, sem perder tempo, puxa a moça pelo braço e dispara: "Não vou falar nada, eu vou é fazer!".

Outra cena de gargalhar e aplaudir ao mesmo tempo é aquela em que Majestyk é publicamente ameaçado por Renda num bar lotado. Ao perceber que há policiais no recinto, e que o pistoleiro não poderá matá-lo ali mesmo, nosso herói diz: "Acho que não adianta tentar ser seu amigo", seguido de um violento soco na cara do vilão, que, pego de surpresa, cai estatelado no chão. Enquanto levanta da mesa e sai do bar sorrindo, Majestyk ainda faz uma piadinha: "Ei, por que não chama a polícia?". O cara é o máximo! (Veja o vídeo abaixo, é impagável!)

Como responder a uma ameaça de morte



O "culpado" por estes e outros momentos antológicos é o escritor "cult" Elmore Leonard, que aqui é o autor do roteiro. Mas o filme ainda se beneficia da belíssima fotografia, que aproveita muito bem o colorido das roupas e cenários (além das belíssimas paisagens rurais do interior dos Estados Unidos), da música estridente de Charles Bernstein, que sublinha as cenas de ação, e da competente direção do falecido Richard Fleischer, um dos mais subestimados cineastas da sua geração.

Quem conhece seu trabalho sabe que quando o homem acerta, o resultado é um fimaço; e quando erra, o resultado é abaixo de zero (são dele os ótimos "Viagem Fantástica" e "A Morte do Chefão", e os medíocres "Amityville 3-D" e "Aventureiros do Fogo", por exemplo). Mas em MR. MAJESTYK Fleischer estava em seus melhores dias, e o resultado é um filme fantástico, daquele tipo que parece que o pessoal de hoje desaprendeu a fazer.


Não por acaso, este é um dos filmes preferidos de cineasta superstar Quentin Tarantino, que, quando pode, presta honrosas homenagens a ele em suas próprias produções.

Repare, por exemplo, que Budd (Michael Madsen) tem um pôster de MR. MAJESTYK numa das paredes de seu trailer em "Kill Bill - Volume 2"; já em "Amor à Queima-Roupa", que é um roteiro de Tarantino filmado por Tony Scott, o personagem de Gary Oldman diz a Christian Slater: "Você pensa que é Charles Bronson em MR. MAJESTYK?".

Quem diria que um dos personagens mais legais de Charles Bronson não seria um cowboy, um pistoleiro ou um justiceiro urbano, mas sim um simples plantador de melancias do interior dos Estados Unidos...

Trailer de MR. MAJESTYK



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Mr. Majestyk (1974, EUA)
Direção: Richard Fleischer
Elenco: Charles Bronson, Al Lettieri, Linda Cristal,
Lee Purcell, Paul Koslo, Taylor Lacher, Frank
Maxwell, Alejandro Rey e Jordan Rhodes.

sábado, 8 de novembro de 2008

1990 - OS GUERREIROS DO BRONX (1982)


Nem Sam Peckinpah, nem John Woo: o filme que me apresentou ao terrível estrago provocado no corpo humano por um tirambaço em câmera lenta foi o trash italiano 1990 - OS GUERREIROS DO BRONX, de Enzo G. Castellari!

Eu tinha lá meus 10 ou 11 anos de idade e adorei "Fuga de Nova York", que o SBT havia exibido alguns dias antes "pela primeira vez na televisão". Então, fui na videolocadora da minha cidade e pedi para a balconista algum filme que fosse parecido com "Fuga de Nova York". E ela me sugeriu 1990 - OS GUERREIROS DO BRONX.

Até os primeiros 20 minutos de filme, tudo estava tranqüilo. Mas foi então que Hammer, o personagem interpretado pelo saudoso Vic Morrow, disparou dois tiros de espingarda em slow-motion num cara e numa mulher desarmados.


O resultado é uma explosão de roupa e sangue no peito das vítimas, mostrada em câmera lentíssima, que impressionou este pobre pivete a ponto de esquecer completamente de qualquer outra cena do filme, mas lembrar até hoje, com riqueza de detalhes, daqueles estilhaços ensangüentados voando lentamente pelo ar...

Descontando o detalhe de ter tirado meu cabaço no quesito violência estilizada, o filme de Castellari nunca esteve entre meus preferidos: gosto muito mais da sua seqüência, "Fuga do Bronx", que é ainda mais violenta e absurda que o original.

Há algum tempo eu revi 1990 - OS GUERREIROS DO BRONX numa versão melhor, ripada de DVD e em widescreen, e me surpreendi com coisas que eu nem lembrava (será que foram cortadas da nossa antiga versão em VHS?). Continuo preferindo a Parte 2, mas já vejo este original com outros olhos: como um divertido filme de ação repleto de cenas, personagens e detalhes cômicos, no estilo "divertido de tão ruim".


Escrito por Dardano Sacchetti, Elisa Briganti e pelo próprio diretor Castellari, o roteiro desta divertidíssima tralha é "Fuga de Nova York" e "Warriors - Os Selvagens da Noite", de Walter Hill, batidos no liquidificador com uma pitada de "Laranja Mecânica".

Do primeiro, a aventura italiana roubou a ambientação: ao contrário de Nova York inteira se tornar um presídio de segurança máxima, como no filme de John Carpenter, aqui é o bairro nova-iorquino do Bronx que se transforma numa "terra de ninguém", comandada pelas gangues e abandonada pela polícia, no então distante ano de 1990, que era futuro na época (lembre-se que a produção é de 1982).

Já "Warriors" inspirou os personagens principais: coloridas e violentas gangues com figurinos berrantes e nomes tipo Riders, Tigers e Zombies. Só que os italianos exageraram na caracterização. Seus delinqüentes são tão exóticos e excêntricos quanto os de "Laranja Mecânica", e parecem mais figurantes de algum musical da Broadway do que bandidos sanguinários!


Há patinadores com capacetes brancos e tacos de hóquei como arma, uma gangue que usa carros dos anos 20 e roupas inspiradas na Máfia Italiana e até um bizarro grupo de dançarinos que luta sapateando e parece ter saído direto do clássico de Stanley Kubrick!!! Ah, não faltam nem os mutantes que vivem no subterrâneo, também "inspirados" em "Fuga de Nova York".

Como em "Warriors", os heróis são a "gangue boazinha" do pedaço: os Riders, motoqueiros durões (pelo menos se vestem como tal) que ficam zanzando pelo bairro em motos com enormes crânios de plástico sobre os faróis.

Eles têm nomes "machos" como Hawk e Blade, alguns deles combinam óculos escuros espelhados e roupas de couro com bigodões (como se estivessem num videoclipe do Village People), e são liderados por um garotão cabeludo que anda sempre de peito de fora e tem pinta de roqueiro popstar.


Seu nome: Trash - interpretado pelo inesquecível, de tão ruim, Mark Gregory, ou Marco di Gregorio, que sumiu da face da terra após interpretar Trash e o índio Thunder na trilogia "Thunder - Um Homem Chamado Trovão".

O filme começa com Ann (Stefania Girolami, filha de Castellari), uma jovem burguesa, fugindo da parte "rica" de Nova York para o desolado Bronx, onde cai nas garras dos terríveis Zombies. Por sorte, aparecem bem na hora os heróicos Riders, que despacham a quadrilha rival com violência (incluindo rosto cortado pelas lâminas na roda da frente de uma das motocicletas!!!).

O líder Trash apaixona-se por Ann e, ao perceber que ela foge de algum problema terrível, convida-a para ficar com ele no quartel-general da gangue. "Romeu e Julieta" versão pós-apocalíptica italiana? É mais ou menos por aí...


O tal problema de que Ann foge é um pouquinho mais complicado do que Trash pensa: ela é filha do presidente da Manhattan Corporation, megacorporação que, além de fabricar e vender armas para conflitos ao redor do globo, também é responsável por controlar Nova York - uma espécie de OCP, a multinacional que controla Detroit na série "Robocop".

Como é herdeira da maquiavélica empresa, está para completar 18 anos e vai ter que assumir a cadeira de presidente, Ann resolveu fugir do seu destino e se esconder no Bronx. Afinal, nada melhor para resolver um problema do que correr para uma "terra de ninguém" sem polícia e repleta de bandidos sujos e sanguinários, ainda mais quando você é uma burguesinha bonitinha, não é verdade?

Só que os figurões que controlam a Manhattan Corporation querem Ann de volta - eles pretendem usar a moça como fantoche assim que ela assumir o controle da empresa.


Seu poderoso tio, Samuel Fisher (Ennio Girolami, irmão do diretor, assinando com o pseudônimo Thomas Moore), descobre que ela está escondida no Bronx, e contrata um violento agente chamado Hammer (Morrow, em seu último filme antes de ser decapitado em acidente de helicóptero no set de "No Limite da Realidade") para resgatá-la.

O caldo engrossa porque Hammer é um psicopata. Seu plano é exterminar todas as gangues do Bronx, fazendo-as lutas umas com as outras, e Ann que se exploda no meio deste inferno.

Facilmente manipuladas pelo vilão através de pistas falsas que jogam um grupo contra o outro, as quadrilhas se preparam para uma guerra iminente, e somente Trash percebe que a história está mal contada. Ele então tenta se aliar aos rivais ao invés de destruí-los. Porém, até que a situação se resolva, muito sangue vai rolar.


O espectador antenado vai perceber que, de original, 1990 - OS GUERREIROS DO BRONX não tem absolutamente nada: além de chupar "Fuga de Nova York" e "Warriors" em iguais proporções, a trama básica deste bem-sucedido filme de ação italiano bebe muito da fonte de "Por um Punhado de Dólares", de Sergio Leone (e conseqüentemente do anterior "Yojimbo", de Akira Kurosawa, que inspirou Leone).

Como nestes dois clássicos, um personagem (neste caso, Hammer) se infiltra entre gangues rivais para semear a discórdia e levá-las a uma guerra mortal. O toque inovador (e politicamente incorreto) é que nas obras de Leone e Kurosawa o membro infiltrado era o herói da história, e na versão de Castellari é o vilão, enquanto as quadrilhas de delinqüentes ficam com o papel principal.


As cenas foram gravadas no Bronx, quando parte do elenco italiano viajou para os Estados Unidos, e em Roma, quando alguns dos atores norte-americanos fizeram o caminho inverso. O engraçado é que, nas cenas filmadas no Bronx, Castellari utilizou vários membros de um grupo de Hell's Angels como figurantes da gangue de Trash. Já nas cenas rodadas na Itália, a gangue diminui para meia-dúzia de pessoas, porque os Hell's Angels ficaram todos nos Estados Unidos! hahahaha

Uma atração à parte é o elenco fantástico, repleto de caras conhecidas do cinema classe B norte-americano e das picaretagens italianas da época. Além de todos os já citados, também aparecem o saudoso Christopher Connelly ("Os Caçadores de Atlântida", "Manhattan Baby"), como o caminhoneiro Hot Dog, que ajuda Hammer a se infiltrar no Bronx; Fred Williamson (astro blackspoitation dos anos 70, que havia trabalhado com Castellari em "Assalto ao Trem Blindado") como Ogre, o chefe da gangue dos Tigers; Joshua Sinclar (vilão em diversos filmes de Enzo) como Ice, membro da gangue de Trash que se revela um traidor; Massimo Vanni (outra figurinha carimbada dos filmes de Castellari) como Blade, o melhor amigo do herói; George Eastman ("Antropophagus") como Golan, o líder dos Zombies; e o próprio diretor Castellari como o vice-presidente da Manhattan Corporation.


O filme está repleto de momentos impagáveis, como o "climão" que rola entre Trash e seu amigo Blade quando este é encontrado à beira da morte, após ser atacado e torturado pelos tais mutantes subterrâneos. Além de verter lágrimas de tristeza, nosso herói faz afagos no cabelo do companheiro (cafuné, em outras palavras!) e ainda põe a cabeça dele encostada no seu ombro, no estilo "encosta a tua cabecinha no meu ombro e chora...". De se mijar de rir!

Já os nomes dos personagens são outro toque hilário da película: parece que os roteiristas abriram um dicionário de inglês e foram copiando palavras curtas que soassem sonoras. Só isso explica o fato de heróis e vilões usarem nomes como Trash (lixo), Hammer (martelo), Ogre (ogro), Ice (gelo), Hot Dog (cachorro-quente), Blade (lâmina), Hawk (águia) e Leech (sanguessuga).


Comparando com a seqüência "Fuga do Bronx" (que foi feita já no ano seguinte, 1983, e tem pouca ou nenhuma conexão com o original), 1990 - OS GUERREIROS DO BRONX tem menos ação, já que a continuação é nitroglicerina pura, com uma das maiores contagens de cadáveres da história do cinema de ação.

Não que este primeiro filme negue fogo: a contagem de cadáveres é reduzida, mas há uma grande quantidade de lutas e tiros para agradar aos fãs de Castellari, embora ele desta vez economize na sua marca registrada, as cenas em câmera lenta.

Um problema sério do filme é que, por algum misterioso e inexplicável motivo, as gangues do Bronx NÃO USAM ARMAS DE FOGO, apenas porretes e bastões, o que limita bastante as cenas de violência - e facilita o trabalho de Hammer e seus homens, usando espingardas, revólveres e até lança-chamas!


Mas a conclusão é o esperado banho de sangue, que parece uma espécie de preparação do diretor para "Fuga do Bronx": Hammer invade o Bronx com incontáveis policiais a cavalo, usando metralhadoras de grosso calibre e lança-chamas para eliminar a "escória" do bairro. Aí é um Deus nos acuda, e 99% dos personagens perdem a vida.

Exagerado e implacável, Vic Morrow praticamente rouba o filme como Hammer graças ao seu olhar frio e à falta de consideração com suas "vítimas", ao ponto de atirar em pessoas desarmadas e comandar uma chacina de gangues usando lança-chamas!

O vilão parece ter encarnado Hitler na conclusão, gritando ordens entre risadas insanas de "vilão de 007", e tem um diálogo belíssimo com Christopher Connelly. Quando este comenta que Hammer está "brincando com fogo", o vilão responde: "I know. And I love it. I love it!".


Tirando o impacto daqueles dois tiros de espingarda que Hammer dispara em câmera lenta em vítimas desarmadas e indefesas, que me marcaram desde minha tenra idade, 1990 - OS GUERREIROS DO BRONX continua um filme tão divertido quanto esquecível, embora pareça hoje um pouco melhor do que na primeira vez que o vi.

Se não chega aos pés de outras pérolas que o artesão Castellari fez na mesma época - e que continuam injustamente desconhecidas neste nosso Brasil pós-VHS -, pelo menos é uma verdadeira aula de como fazer muito com pouco, uma especialidade dos realizadores italianos dos anos 70-80.

E qualquer filme onde Fred Williamson saia na porrada com o gigantesco George Eastman (aqui vestido como samurai estilizado, com rabo-de-cavalo e tudo mais) já é um programa obrigatório para fãs de "cinema alternativo".

Trailer de 1990 - OS GUERREIROS DO BRONX



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1990 - I Guerrieri del Bronx/1990 - Bronx Warriors
(1982, Itália)

Direção: Enzo G. Castellari
Elenco: Mark Gregory (Marco di Gregorio), Vic
Morrow, Christopher Connelly, Fred Williamson,
Stefania Girolami, Joshua Sinclair, Massimo
Vanni e George Eastman.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

A CRUZ DOS EXECUTORES (1976)


O inglês Roger Moore ficou eternamente marcado como o terceiro intérprete do espião James Bond no cinema (quinto, se contarmos as interpretações "não-oficiais" de David Niven e Barry Nelson nas versões anteriores de "Cassino Royale"). Seu Bond foi o mais cínico e engraçadinho, e acabou se transformando no preferido de toda uma geração que cresceu acostumada com o clima mais humorado e menos realista dos anos 80. Mas interpretar o famoso agente 007 ofuscou a carreira de Moore, e a maior parte do público hoje só lembra dele como "aquele cara que interpretava o James Bond engraçadinho". É uma pena, pois, numa carreira repleta de (poucos) altos e (muitos) baixos, o ator inglês envolveu-se neste divertido policial italiano chamado A CRUZ DOS EXECUTORES.

Rodado na Itália e em San Francisco em 1976, enquanto Moore descansava de interpretar Bond em "007 Contra o Homem da Pistola de Ouro" (1974) e se preparava para entrar no set de "O Espião que me Amava" (1977), A CRUZ DOS EXECUTORES não é exatamente um clássico entre os "poliziotteschi" da era de ouro, por uma série de problemas que acabam estragando aquele filmaço que o trailer desenhava.


O principal destes problemas é o fato de SEIS roteiristas terem colocado a mão no roteiro, e o que parece é que cada um tentou fazer a coisa à sua maneira: uns tentaram escrever um "poliziotteschi" típico, outros preferiram fazer um filme de Máfia, outros pensavam que era para ser um filme de ação com a tradicional dupla de parceiros engraçadinhos, e outros ainda provavelmente acreditaram estar fazendo uma versão macarrônica do clássico "Operação França", de William Friedkin.

A comparação não é exagero: além da trama aqui também envolver um carregamento de heroína enviado da Europa para os Estados Unidos, como no filme de Friedkin, um dos seis roteiristas (o responsável pelos diálogos) é Ernest Tidyman, que escreveu o roteiro de "Operação França"!


É até espantoso que, entre os muitos títulos alternativos que A CRUZ DOS EXECUTORES recebeu ao redor do mundo, um deles não tenha sido "The Sicilian Connection", para deixar ainda mais evidente que se trata de um rip-off do policial assinado por Friedkin. Já o título brasileiro não tem nexo: a Poletel, que lançou o filme em VHS no Brasil, simplesmente juntou, sem qualquer critério, dois dos títulos alternativos da película, "Gli Esecutori" (Os Executores) e "La Croce Siciliana" (A Cruz Siciliana). Parece que outras opções dos manés eram "A Execução da Cruz Siciliana" e "A Cruz dos Executores Sicilianos"...

Os outros cinco roteiristas são gente tão diferente quanto o norte-americano Randal Kleiser (diretor de "Grease" e "A Lagoa Azul"!!!), e os italianos Roberto Leoni (que ajudou a escrever "Santa Sangre", do Jodorowsky), Franco Bucceri, Nicola Badalucco e Maurizio Lucidi. Não é de se espantar que cabeças pensantes tão diversas tenham se atrapalhado na hora de decidir o encaminhamento que dariam à trama.


De todo jeito, o filme gira em torno de Ulysses (Moore), um advogado siciliano que passou a juventude estudando na Inglaterra (a forma encontrada pelos roteiristas para explicar seu carregado sotaque inglês). Ele trabalha para um chefão da Máfia em San Francisco, Salvatore Francesco (Ivo Garrani), que também é seu tio. A confusão começa quando uma antiga cruz siciliana é transportada para San Francisco como presente de um "doador anônimo" para a igreja local. No seu interior, traficantes espertinhos aproveitaram para camuflar uma fortuna em heroína.

A história chega ao conhecimento das famílias mafiosas da cidade, provocando grande comoção, já que todos são católicos fervorosos e condenam o uso de um artefato religioso para o transporte da droga. Para piorar, o padre responsável pela paróquia que recebeu a cruz como doação (interpretado por Franco Fantasia) descobre que o doador anônimo foi Salvatore, que era seu amigo de infância na Sicília.


O chefão confessa que foi mesmo o responsável por trazer a cruz aos Estados Unidos, mas garante não ter nada a ver com a heroína contrabandeada. Por isso, pede a ajuda dos chefes das outras famílias para que busquem e liquidem o responsável por aquele desrespeito, de forma a "limpar seu nome" com a igreja - ele foi até excomungado pela suspeita de ser o responsável pelo tráfico de drogas no interior da cruz!

É aí que Ulysses entra na história. Sabendo que a "caça às bruxas" tem tudo para virar um banho de sangue entre as famílias mafiosas, e negociando uma recompensa com um dos bandidões "por baixo dos panos", ele resolve investigar o caso por conta própria, auxiliado por um amigo americano, o piloto de grand prix Charlie Hanson (interpretado por Stacy Keach!!!). A investigação leva a dupla para a Sicília, para o submundo de San Francisco e para bem perto da morte, já que os responsáveis pelo pérfido esquema estão eliminando todo mundo que sabe demais sobre o caso. E o resultado da investigação irá resgatar do passado um velho trauma de infância de Ulysses.


A CRUZ DOS EXECUTORES foi dirigido por Maurizio Lucidi (não me perguntem porque, mas eu sempre pensei que o diretor fosse o Umberto Lenzi!), em parceria com William Garroni (nome de batismo: Guglielmo Garroni), sendo que este foi o coreógrafo das cenas de ação e filmou algumas delas, por isso recebeu também crédito de diretor.

Se há uma qualidade no filme, é a tentativa de buscar um clima mais realista do que outras produções do gênero, principalmente no que diz respeito às delicadas relações entre os mafiosos. Infelizmente, como escrevi lá no começo, os seis roteiristas não se entenderam direito sobre o tipo de história que queriam contar. E logo o clima mais sério e realista da história é quebrado por intervenções engraçadinhas e mirabolantes de Ulysses e Charlie, sempre agindo como aquelas duplas de policiais do cinema norte-americano (sempre se cutucando, estilo "Máquina Mortífera").


O fato de tanto Roger Moore quanto Stacy Keach estarem mais canastrões do que de costume só torna as cenas de ambos mais engraçadas. Mas é Keach quem rouba o filme, como o piloto maluco que adora se meter numa confusão e que sonha botar as mãos na fortuna em heroína (a cena final é particularmente engraçada).

Infelizmente, também, o trailer dá a impressão de que se trata de um filme de ação em alta velocidade, quando na verdade todas as cenas de ação são aquelas mostradas no trailer. E, num filme de 100 minutos, elas aparecem entrecortadas por loooooooongos momentos de investigação. Em muitos deles, nada de muito interessante acontece. Por isso, nos primeiros 40 minutos, A CRUZ DOS EXECUTORES é um convite ao sono


É só na metade final a coisa melhora, atingindo um clima eletrizante que inclui uma fantástica perseguição de automóveis, onde o carro de Ulysses e Charlie é esmagado contra dois caminhões numa rodovia. Só esta cena, que dura uns 6 minutos, já vale uma espiada na película, e foi filmada e editada de maneira magistral, à moda antiga (perceba como os dublês da era pré-CGI mais de uma vez arriscam a própria vida, ficando a centímetros de bater de frente, e em alta velocidade, nos carros que vêm em sentido contrário!).

Seguindo a tendência dos filmes do período, a violência é bastante acentuada, com balaços certeiros que provocam o maior estrago nas vítimas. Numa das melhores cenas, o carro de Ulysses é alvejado por um atirador com uma espingarda, e a explosão do pára-brisa com o tiro é mostrada em câmera lenta, num efeito destruidor. Em seguida, o implacável herói se defende enchendo o agressor de tiros na barriga (putz!), fazendo jus à "licença para matar" que Moore tinha nos filmes de James Bond.


Mas outra coisa que não me agradou no roteiro é a repetição de um artifício surrado das produções policiais, aqui usado à exaustão: sempre que os heróis estão perto de descobrir alguma coisa sobre os cabeças do crime, um pistoleiro misterioso aparece a vários metros de distância (para conseguir escapar) e "apaga" a testemunha que estava pronta para abrir o bico.

Sem brincadeira: isso acontece umas quatro ou cinco vezes no filme, e em uma delas o assassino anônimo chega a atirar um contêiner sobre a testemunha para impedi-la de contar a verdade! O artifício é tão repetitivo que é só algum personagem coadjuvante começar a abrir a boca que você já espera pela chegada do implacável pistoleiro misterioso. Convenhamos: não seria mais rápido e prático para o cara matar logo Ulysses e Charlie, ao invés de ficar sistematicamente apagando testemunhas pelas costas de ambos?


Mesmo com estes vários defeitos, A CRUZ DOS EXECUTORES é um filme divertido em seus excessos, que vale principalmente pela química brincalhona entre Moore e Keach (este último um ótimo ator em papéis como este), pelas perseguições e batidas de carro e pelos sangrentos tiroteios, sem esquecer da boa (não ótima) trilha do expert Luis Bacalov (nas cenas de flashback, inexplicavelmente foi usado um tema composto por Ennio Morricone para QUANDO EXPLODE A VINGANÇA, de Sergio Leone!).

Longe de ser um clássico, é um filme com muitos defeitos, especialmente na forma como a história é desenvolvida (passar uma borracha em algumas coisas não faria mal algum ao filme).

É uma pena que a velha fita da Poletel (que não tem os créditos iniciais, uma daquelas mutilações feitas pelos distribuidores norte-americanos!) tenha se transformado em peça de colecionador por aqui, e o filme ainda não tenha recebido um lançamento decente em DVD lá fora.

Perseguição de carros em A CRUZ DOS EXECUTORES



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Gli Esecutori/La Croce Siciliana/Street People/
The Sicilian Cross (1976, Itália)

Direção: Maurizio Lucidi e William Garroini
(Gugliemo Garroni)
Elenco: Roger Moore, Stacy Keach, Ivo Garrani,
Fausto Tozzi, Ennio Balbo, Pietro Martellanza,
Luigi Casellato e Romano Pupo.